Orgulhosamente Desajustado

“Motorista, pode abrir aqui, por favor?”

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Passageiro descendo fora do ponto

Um pedido tão simples, uma frase tão corriqueira, porém com grande significado. Quem costuma andar de ônibus já deve tê-la ouvido uma centena de vezes – e até tê-la proferido algumas tantas também. Mas o que tem demais nesse pedido?

Um assunto que me causa grande curiosidade e é constantemente objeto das minhas reflexões é a civilidade e o comportamento das pessoas, especialmente no conturbado meio urbano. O transporte público é um dos melhores laboratórios que existe para tais observações. Na ida e volta do trabalho geralmente as pessoas estão cansadas, com pressa e por causa disso, estão mais sujeitas a “furar um pouco” as regras do bom convívio, seja de forma inconsciente ou nem tanto.

Já não é de hoje que é vedado ao motorista parar fora do ponto. Há fiscais em alguns pontos, e tais fiscais podem relatar o desvio de conduta e o motorista ser punido – sem contar na perda de eficiência operacional como um todo, afinal, quanto mais paradas o ônibus faz, mais ele demora para completar a viagem. Mesmo assim, em algumas situações, com o ônibus parado em um sinal ou engarrafamento, se torna a oportunidade ideal para que um pedido de “posso descer aqui” seja atendido sem maiores problemas. Esse tipo de conduta de parar fora dos pontos é naturalmente muito mais comum em locais sem fiscalização.

Acontece que de uns dois ou três anos para cá, vem sido implantado no Rio de Janeiro o sistema BRS (Bus Rapid System), que cria faixas exclusivas para ônibus e separa as linhas em categorias (1, 2 e 3) fazendo com que os ônibus não parem mais em cada ponto existente, mas apenas no pré-definidos. Um sistema evidentemente mais eficiente, que beneficia a todos – mas obviamente recebeu críticas dos usuários de carros que agora tem menos espaço para circular (um outro exemplo da visão limitada de que trato nesse texto). O pedestre terá que andar coisa de dois ou três minutos a mais para chegar ao ponto correto, para que o sistema com um todo, e seus usuários, tenham um ganho de dez a quinze minutos no total do trajeto do ônibus (estou chutando aqui, mas só para base de comparação) – sem contar na viagem mais agradável, com menos paradas.

Mas o tal do “pode abrir aqui, por favor?” prevalece, sem indicativos de que vai diminuir, mesmo já tendo passado um bom tempo para que toda a população se acostume ao novo sistema. Não só o pedido se mantém constante, como a reação à resposta negativa do motorista é a da mais pura revolta, caras feias e as vezes até xingamentos. É possível perceber aqui o quanto o cidadão está realmente preocupado com o bem comum, quando um incremento na qualidade de vida de todos cause um incômodo, ínfimo que seja, em sua vida.

A famigerada frase, que pode soar a tantos como totalmente inofensiva – “não custa nada” – é uma demonstração de egocentrismo agudo (seja oriundo de uma cabeça muito ocupada com problemas e dificuldades ou pura ignorância), um pedido “bobinho” para que o motorista fure as regras do sistema para atender a um pedido pessoal, que ajudaria bastante naquele momento a quem está com pressa. Se não, só no próximo ponto, o correto. Mas o correto é longe e “não custa nada abrir”, não é?. Não é. Custa sim. Se a pessoa for capaz de escapar do loop mental que a prende nas próprias necessidade individuais e pensar um pouco no coletivo e no funcionamento do transporte público como um todo, vai ver que pequenas coisas assim – multiplicadas por cada pessoa que pede, em cada cada ônibus – fazem uma grande diferença no total. Tanto que em países “civilizados”, tal pedido sequer é cogitado, ninguém nem pensa em pedir para parar fora do ponto. É algo impensável, digno de vergonha. Aqui, ao contrário, é a norma, e o motorista se vê obrigado a ser “o chato” quando responde negativamente, as vezes precisando ser duro e ríspido, apenas cumprindo as regras e fazendo seu trabalho.

Civilidade, em última análise, não é nada mais que isso. É ser capaz de escapar do seu mundinho particular, da sua pressa, do seu atraso, do seu incômodo, e pensar no todo. É estar constantemente atento a este todo (não precisa ser neurótico, como alguns devem pensar, para comodamente se afastarem da ideia), pois onde circulam milhares de pessoas, o espaço que seu corpo ocupa pode estar incomodando alguém ou atrapalhando a movimentação de pessoas e veículos. Você não está com pressa sozinho, seus problemas não são mais especiais – todo mundo quer chegar em casa/no trabalho logo, e para isso o sistema tem que ser o mais eficiente possível, dependendo da colaboração de cada um. Parece tão óbvio, mas não é. No momento que alguém fala “posso descer aqui?” e faz cara feia ao tomar um “não” do motorista, tudo isso que parece óbvio se torna obviamente o contrário na cabeça daquela pessoa. Como podemos atingir civilidade e respeito ao próximo dessa forma? Difícil, muito difícil.

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17 de July de 2014 at 10:16 Comment (1)

A coerência exigida não é a mesma oferecida

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Sofremos de uma falha grave como seres sociais. Essa falha tem sua origem, entre outras coisas, na mente descontínua, sobre a qual falei um pouco nesse post. Resumindo bastante, a mente descontínua é uma estratégia evolutiva do nosso cérebro em realizar julgamentos rápidos criando padrões arbitrários, ignorando nuances e alternativas. Tal estratégia é de suma importância, pois tais julgamentos são necessários para que consigamos viver em sociedade com eficiência. Na grande maioria das vezes, não teremos posse de todas as informações possíveis para “decidir” se confiamos ou não em uma pessoa ou fazer a avaliação de risco em uma situação – é tudo bastante automático, e obra da mente descontínua.

Mas se é necessário – e é bastante fácil verificar como esse mecanismo é indispensável – como pode ser ao mesmo tempo uma falha? Por que (e aí eu recomendo que você leia o texto se quiser um pouco mais de aprofundamento) abusamos dessa estratégia e deixamos que esse “modo automático” tome conta de nossas vidas e nossa forma de pensar, mesmo depois que já estarmos devidamente informados para tomar decisões e realizar julgamentos sem a necessidade de arbitrariedades e aproximações.

Um exemplo bastante simples de verificar isso é a polarização política esquerda x direita. Quando você identifica uma pessoa como sendo de qualquer uma dessas ideologias, julga automaticamente saber tudo sobre ela. E a partir daí começa a esperar certas atitudes, comportamentos e ideias. Caso alguma dessas falhe em atender as suas expectativas, isso será imediatamente associado a uma falta de coerência daquela pessoa. Se é de esquerda, como ter um iPod? Se é de direita, como pode ser beneficiário de bolsa de estudos financiada pelo governo? Que hipócrita!

Vemos esse tipo de julgamento todos os dias e eles dificultam muito qualquer tipo de discussão saudável sobre qualquer assunto. Operando baseados apenas na mente descontínua, no modo automático, assumimos que as pessoas são um pacote fechado, um conjunto fixo de idéias e atitudes. Falhamos gravemente em não entender que cada ser humano é um universo de indivualidade. Se qualquer pessoa te disser exatamente como ela passou a acreditar em alguma coisa ou ser adepta de uma ideologia, ela estará mentindo. O conjunto de experiências e informações absorvidas que a levaram até aquilo é tão grande que ninguém, nem mesmo a própria pessoa, é capaz de reconhecer de forma linear e organizada.

Como podem, então, pedir coerência? Somos todos confusos. Somos múltiplos. Somos basicamente incoerentes, com nós mesmos, com os outros, com a vida. Somos falhos e fragmentados. Ninguém é uma unidade perfeita de pensamentos e atitiudes o tempo todo, a vida toda. Não estou aqui, no entanto, dando carta branca para a hipocrisia. São outros quinhentos. Falar uma coisa e fazer outra é uma falha moral e nada tem a ver com a mente descontínua, e não se trata apenas de falta de coerência. É muito pior. Das duas uma: ou você é maluco, ou é um cretino.

Com a Copa chegando, mais uma vez começam a pipocar os efeitos negativos dessa cobrança de coerência onde uma coerência não pode existir. Se você é contra a Copa, não pode ver os jogos e torcer pelo Brasil. O que uma coisa tem que ver com a outra? Quanto raciocínio foi gasto para falar uma besteira desse tamanho? Muito pouco, creio eu.
Até as análises que li sobre esse fenômenos foram bastante bobas, tratando apenas do aspecto político da coisa. Uma tristeza que as pessoas mergulhem tão raso na complexidade do ser humano.

O fato de que as coisas estão interligadas, interconectadas e tenham fortes correlações não obrigam ninguém a gostar de futebol e samba só por que nasceu no Brasil. Ser contra a Copa não é ser anti-Brasil, anti-futebol, e ser a favor da Copa não é um atestado de ignorância política.

Eu sou contra a Copa. Sou anti-FIFA e deploro a pequena elite política responsável por tanto desmando e roubalheira. Mas vai ter Copa, e eu vou ver o jogo amanhã. Vou tomar cerveja com os meus amigos e espero poder gritar GOL!, do Brasil, mais de uma vez, e torço por uma vitória. Isso não faz de mim um hipócrita. Incoerente? Talvez um pouquinho, mas quem não é?

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11 de June de 2014 at 11:55 Comment (1)

Proibir para educar

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mona-lisaAntes de mais nada, confesso que não sou fã das proibições. Na maioria dos casos, são dadas como soluções bastante mal pensadas para problemas simples, e em alguns casos geram resultados piores do que em sua ausência – especialmente quando os problemas são mais complexos e é difícil prever os resultados.

Temos como exemplo clássico a proibição sobre uso de substâncias, com consequências trágicas como no caso da Lei Seca americana e mais recentemente, da falida e desastrosa Guerra às Drogas.

Outro exemplo simples de uma proibição que simplesmente não serve pra nada é a de “escutar som alto em transporte público” que recentemente foi transformada em Lei. É uma resposta nula do legislativo a um problema básico de civilidade – que das duas uma: ou são auto-regulados pela sociedade ou endereçados pela educação (seja ela informal ou formal).

Não que eu tenha uma ideia melhor ou alternativas, mas proibir aquilo que não se tem como coibir na origem e/ou punir no ato, é inútil e muitas vezes nocivo.

Agora, há uma proibição que me faria muito gosto se fosse implementada: a de tirar fotos em museus e exposições de arte. Quem costuma visitar museus ou foi recentemente a uma aguardada (e popular) exposição e teve que enfrentar o enxame de câmeras, smarthpones e tablets, sabe o quanto é irritante. As pessoas estão mais preocupadas em tirar fotos das obras do que de fato observá-las e participar da experiência da contemplação da arte. Fotos que muito provavelmente nem vão ver depois, ou só verão uma vez ao mostrar para amigos e parentes que estiveram lá “naquela exposição legal de um cara que não lembro o nome”.

Fala-se muito em incentivar e facilitar o acesso a cultura, para que essa coisa abstrata, mutante e subjetiva, de alguma forma que ninguém realmente entende, contribuisse para formação de uma sociedade mais justa e feliz. Vamos simplesmente distribuir “cultura” (seja lá o que isso for) geralmente na forma de arte, e a sociedade inteira se beneficiará. Aí eu pergunto: como, exatamente?

Serve de alguma coisa levar dezenas de milhares de pessoas à uma exposição para que fiquem tirando selfies e fotos das obras? Algumas chegam ao cúmulo de sequer observar as obras com os próprios olhos e se direcionar a cada uma diretamente com a câmera, numa corrida insana para fotografar tudo que é possível, de todos os ângulos. Podemos realmente considerar isso uma “experiência cultural” construtiva? Digna de leis de incentivo e de meias entradas?

Portanto fica aqui meu voto para a proibição total de fotos em exposições – e com devida punição, pois não adianta apenas proibir e ficar pedindo baixinho, por favor, para respeitarem. Tirou foto uma vez, aviso, na segunda, rua. Não por que apenas incomoda – e muito – a todos aqueles que estão ali para ver com os próprios olhos e tentando focar mais no momento do que os da geração selfie que está ali já pensando em como vão publicar no instagram em algumas horas. Mas também por que isso poderia ajudar as pessoas a entender melhor como funciona a apreciação de uma obra artística – até para ver se elas realmente querem aquilo.

Uma proibição similar já existe e todos respeitam sem problemas: a de encostar nas obras. Na maioria das exposições e museus sequer há um aviso desta proibição, mas a mesma já se encontra bem firme no inconsciente coletivo e não vejo ninguém reclamando. Ninguém encosta e fica tudo ótimo.

Poderiam comparar o problema do enxame de câmeras com o exemplo que citei acima, do alto volume em público. Sim, a faltava de civilidade pode ser identificada como uma das causas, mas há uma diferença básica. No caso das fotos em exposições, é bastante simples fazer valer a regra. Há sempre monitores e seguranças em qualquer exposição que se preze. Não demoraria até que todos entendessem que não pode e nem mais levariam câmeras à museus ou tiraram seus celulares do bolso com o intuito de clicar.

O que falta para proibirem as fotos? Qual a desvantagem ou consequência negativa? Todos sairiam ganhando, penso eu.Mesmo os viciados em clicar que se sentiriam tolidos em um primeiro momento, depois perceberiam que há mais na experiência artística do que apenas ver o objeto, independente do formato ou tamanho. Afinal, se fosse pra ver o objeto, mesmo que à distância por foto, para que se deram ao trabalho de ir à exposição? Mais fácil ver as fotos (muito melhores do que poderiam tirar) na internet ou num livro. E se estão indo à uma exposição apenas para constar, tirar umas selfies e fotografar tudo que é exposto, há algo de profundamente torto nessa “experiência cultural” que tanto querem incentivar. O estímulo é para a apreciação das formas de arte, para reflexão e contemplação ou para aparecer no facebook e entupir smartphones com milhares de fotos idênticas?

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25 de April de 2014 at 15:47 Comments (3)

Debatendo como Gente Grande

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duty_callsAnedotas e Estatísticas

Na era internet, em especial na era das redes sociais, o número de debates acontecendo se multiplicou de maneira a ser impossível acompanhar tudo, ao mesmo tempo que os confrontos entre diferentes  escolas de pensamentos acabam sendo inevitáveis. Algumas discussões tornam-se mais agressivas, outras menos, porém um elemento é sempre presente: As anedotas. Historinhas de casos individuais utilizadas para explicar a regra geral a qual a pessoa acredita que funciona.

Em geral, anedotas são ótimas para se terminar uma discussão sem chegar a lugar nenhum. Você apresenta seus exemplos, o oponente apresenta os dele, e no final cada um volta para seu canto sem mudar de idéia e sem aprender nada com o debate, ambos com a sensação de “vitoriosos”, como se o objetivo de todo debate fosse uma competição na qual a vitória ou derrota são os únicos resultados possíveis. Quando não, “aprende” que precisa buscar mais exemplos ainda pra defender seu próprio caso, e o “derrotado” torna-se aquele que tiver que voltar às suas atividades cotidianas primeiro.

É muito comum sentir que uma discussão foi ganha ao apresentar essas histórias, afinal os argumentos utilizados ficam claros como o dia em nossas mentes, porém isso é uma peculiaridade fisiológica herdada ao longo de alguns milhares de anos. Temos uma fortíssima tendência biológica de lembrarmos das coisas que gostamos e que fazem a gente se sentir mais forte, e simplesmente esquecermos o que nos contraria. É o porquê mesmo rezando milhares de vezes e sendo atendido apenas uma vez, algumas pessoas ainda acreditam em milagres.

Mas o que há de errado na utilização de Anedotas?
Sendo elas casos de acontecimentos reais, de certa maneira eles servem pra explicar uma parte da mecânica do mundo, afinal essas coisas aconteceram de verdade!

Ambos os lados podem aceitar que os eventos apresentados são uma realidade, porém o calor da discussão combinamos com o comportamento competitivo que nos foi ensinado desde pequenos,é normal acabarmos esquecendo que uma das propostas de uma discussão é na verdade um trabalho cooperativo, onde tentamos construir um modelo, uma fórmula geral que descreva a realidade em que vivemos. E a partir do momento que estamos discutindo o mundo material, temos de colocar de lado as noções de “certo” ou “errado”, e passarmos a pensar em “mais preciso” ou “menos preciso”.

Pensando (um pouco) estatísticamente

É possível sentir o terror exalar pelos poros de alguns quando se fala em estatística, mas não é preciso se apavorar.
Para ter um pouco mais de noção de como enriquecer as discussões e ganhar “COM” ela (ao invés de ganhar “A” discussão), não é preciso saber muito de matemática, é necessário apenas um pouco de paciência pra pensar alguns minutos a mais, e mais um pouco de imaginação.

Toda vez que pensar em uma história que defende a maneira como você pensa, utilize alguns instantes a mais pra imaginar quantas vezes aquela mesma coisa foi tentada naquela mesma época, e quantas vezes deu certo, e essa frequência dessa história é que vai determinar a precisão desse modelo.

Por exemplo, no último post a respeito de Meritocracia: ( http://www.desajustado.org/2014/04/03/meritocracia-uma-fantasia/ )

Quando se discute o mérito, dois exemplos são bastante comuns: Um é o do cara que trabalhou como vendedor a vida inteira e continuou pobre, e o outro é de algum “Silvio Santos” da vida, que começou como ambulante e agora é dono de um império corporativo. As duas histórias são reais, aconteceram!

Porém, imaginem por um instante TODOS os casos de vendedores naqueles primeiros anos. Alguns se esforçaram um pouco mais, outros um pouco menos, mas podemos afirmar que de maneira geral todos se esforçaram, e que ninguém queria falhar (afinal, a vida deles dependia disso). Qual caso se repetiu mais vezes?

Não tenho um estudo em mãos, mas vamos supôr que o caso “Silvio Santos” foi 1 em 1.000.000.
Não é que o modelo “Silvio Santos” está “errado”, mas podemos dizer que ele tem 0,0001% de frequência.

Logo, imagine agora que você vê um vendedor ambulante na rua, e você resolve apostar com seu amigo a respeito do futuro daquele cara. (E vamos fingir que você tem como rastreá-lo e conferir daqui 10 anos) Em qual dos futuros você apostaria? Que o cara tornou-se um Milionário, ou que o cara continuou no mesmo lugar? Sabendo que as chances são baixas, é mais seguro apostar na segunda hipótese, não?

Agora, voltemos à nossa realidade. Se você diz acreditar na Meritocracia, estará sem perceber apostando a SUA VIDA naqueles 0,0001%. Essas são regras do jogo as quais você concorda?
Logo, poderíamos dizer que o modelo “Silvio Santos” é menos preciso que o modelo “Vagabundo porque quer“.

Surgimento de Padrões

Outra coisa a se ficar atento, é que quando não se surge um padrão na frequência da idéia apresentada, geralmente sugere-se que não há correlação entre os pontos apresentados, e portanto a precisão do modelo fica impossível de se distinguir.

Observe o gráfico fictício:
grafico_patrimonio1(gráfico fictício)
Com algo assim, poderíamos afirmar que o quanto você trabalha e estuda não influencia se você vai ficar rico ou não, portanto a correlação é pequena ou nula.

Já se tentarmos com outra variável:
grafico_patrimonio2(gráfico fictício)
Com isso, poderíamos dizer que correlação. Quanto maior o patrimônio herdado, maior as chances de você ampliá-lo. Quanto mais pobre você nasce, maiores as chances de você continuar pobre.
Haverão sempre os “Outliers” (Casos Particulares)? Sim. Porém, é possível afirmar que esse modelo descreve melhor a realidade do que o anterior.

(Estudo real sobre desigualdade social: https://www.youtube.com/watch?v=Vrea5DzIk6E )

Definição de sucesso e Gradientes

Convenhamos, casos como o do “Silvio Santos” são fáceis de se rebater através da lógica, e portanto é uma tática comum o modelo ser modificado pra algo mais abrangente. Nesse caso, os argumentos ficam mais brandos e viram “É ingenuidade achar que todos se tornarão milionários, mas conheço inúmeros casos de gente que começou de baixo e hoje está bem de vida”.

A partir de agora, o modelo de “sucesso” não é mais o parâmetro “Silvio Santos“, mas o parâmetro “Estilo de vida da Classe Média” nas esperanças que o mesmo modelo pareça mais justo ao ser distribuir, mais ou menos como algo assim:
inequality1
No caso, quem seria o “bem-sucedido” seriam todos entre os 40% e 80%.

Porém, quando olhamos em detalhes e notamos que na verdade o modelo é assim:
inequality2
Já aqui, quem seria o “bem-sucedido” seriam apenas os entre 80% e 90%.

Nota-se que continua sendo uma descrição baseada em excessões, e logo não é muito funcional utilizá-la pra descrever a realidade, ou pior ainda: Guiar sua própria vida utilizando um modelo falho.
(Observação: Esses gráficos são a respeito da desigualdade nos Estados Unidos, mas não se preocupe. No Brasil é tão ruim quanto. Fonte:  https://www.youtube.com/watch?v=QPKKQnijnsM )

Isso aqui também é uma anedota?

Seria possível dizer aqui que também estou utilizando anedotas pra atacar a meritocracia. De fato, estou utilizando sempre o mesmo exemplo (Pelo comodismo da familiaridade, é o caso mais frequente que vejo) porém acredito que o mesmo seja aplicável para outros casos.

Por exemplo, bancando o advogado do Diabo pra nivelar: Os “Esquerdopatas” agora costumam utilizar contra os “Discípulos da Rachel Sheherazade” aquele argumento do Negro que foi adotado por uma familia Francesa, e hoje é professor e palestrante super famoso e reconhecido. Para validarmos esse modelo, teríamos que pegar quantas pessoas as quais foram adotadas e tratadas como ele foi, que obtiveram um “sucesso” similar. Independente de qualquer coisa, que vai validar o argumento são os dados, não as anedotas, haverão “Outliers“, e possívelmente não será possível afirmar que “Todo Negro adotado acaba bem-sucedido“.

Por fim, não só é possível dizer que um estudo vale mais do que mil anedotas. Um estudo é a própria condensação de mil anedotas. Claro, se o estudo foi bem-feito ou não acaba dependendo da metodologia utilizada, e ainda sim devemos duvidar de tudo. Porém, analisar estudos acaba ficando pra outro dia.

Claro que, ao se deparar com alguém que ignora deliberadamente estudos e dados, fica evidente que ali não há a intenção de se enriquecer a discussão, mas sim de disseminar uma ideologia. Nesse caso, não há muito no que se insistir.

Que tipo de lógica você pode apresentar para alguém que não valoriza a lógica ?” ~ Sam Harris

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8 de April de 2014 at 0:08 Comments (0)

Meritocracia, uma fantasia

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meritocraciaEu fico pasmo cada vez que estou participando de uma discussão política e essa coisa da meritocracia – “é pobre por que quer” – aparece como argumento pra alguma coisa na sociedade. Fico pensando se não vivemos em dimensões diferentes e a teoria dos multiversos já não está assim tão reservada ao domínio da física teórica. Realmente aquela pessoa falando comigo vive num mundo totalmente diferente, um mundo onde a meritocracia faz sentido e realmente é medida de alguma coisa real.

O que é mérito pra você? Talvez essa definição seja o cerne do problema, e os seres que vivem naquela outra dimensão tenham uma definição completamente diferente. Curiosamente (ou nem tanto), uma definição parecida com a que reis e nobres usavam na antiguidade para justificar suas posições de poder. Muito fácil falar em meritocracia quando você não precisa de mérito.

Mérito = merecimento, mas tirando a parte que você merece algo por que é filho de Fulano ou recebeu uma benção do deus Beltrano. Mérito tem a ver com esforço para se atingir um objetivo. Tem a ver com sofrimento, renúncia, estudo, trabalho, etc. Pense num violonista de nível internacional que toca com orquestras. Quando você escuta uma bela obra sendo executada e vê a enorme dificuldade técnica daquilo, o que é possível imaginar? Milhares de horas de estudo, de prática. Anos de renúncia a outras atividades (como sair pra beber, viajar, etc) e dedicação quase exclusiva à música. Isso é mérito. Quando o público aplaude ao fim da execução, cada músico ali tem todo mérito de estar sendo aplaudido – uns mais outros menos (falarei sobre isso depois).

E o que não é mérito? Alguém virar gerente de uma empresa por que conhece o dono. Não é mérito alguém ser rico por que o pai é rico. Não é mérito você saber “cuidar da herança do pai” e manter a fortuna da família ou mesmo fazê-la crescer. Mérito é de quem criou a fortuna (isso considerando que não houve atropelos no caminho, o que é bastante raro) onde não havia nenhuma antes. E também não é mérito você ser alto e bonito. Não é mérito seu ter visão perfeita enquanto todos os seus amigos usam óculos. E mesmo assim, essas coisas (altura, beleza) lhe dão vantagens, independente se houve mérito ou não.

Se você já trabalhou em uma empresa ou conheçe alguém que trabalha, certamente já ficou sabendo de como “certas pessoas” viram gerentes e diretores sem a menor competência para aquilo enquanto excelentes profissionais não são valorizados. E mesmo assim a empresa vende a meritocracia como valor fundamental. Empregam programas de avaliação na tentativa de metrificar o mérito (tarefa quase impossível dada a complexidade de relações interpessoais existentes e que afetam tais avaliações) e baseado nessa avaliação, premiar ou não as pessoas, com aumentos e promoções. Metrificar o mérito é algo incrivelmente complexo pois o máximo que você pode medir é o resultado do trabalho (a produção) e não o esforço que a pessoa teve naquela tarefa – pessoas mais inteligentes e com mais experiência certamente fazem o trabalho melhor e com menos esforço do que pessoas menos inteligentes e sem experiência. Quanto da inteligência da pessoa é mérito dela? E experiência, é mérito?

O pessoal da outra dimensão pensa que tudo é mérito, mesmo o que obviamente não é. Não só acreditam que a meritocracia é o principal balizador de “sucesso profissional” em uma empresa, como na vida como um todo. Daí surgem pérolas como “é pobre por que quer”.

Como pode alguém entender (honestamente) o que é mérito e acreditar que uma pessoa que nasce preta, pobre, baixinha e com três dedos a menos, tem as mesmas chances na vida que alguém de classe média, branco, alto, de olhos azuis, sem nenhum membro faltando? Usei a ausência de dedos e cor da pele pra salientar a diferença naquilo que foge do nosso controle (ou seja, que está totalmente isolado de qualquer mérito). O preto vai precisar vencer o racismo, vai precisar superar a falta dos membros ao mesmo tempo em que se esforça para ter seu lugar ao sol – uma desvantagem evidente. O branco não vai se preocupar com nada disso e poder dedicar todo seu tempo, e sua já pré-existente rede de contatos, para atingir seus objetivos. O branco tem opções: faculdade particular, a empresa do amigo, morar no exterior, conseguir um belo empréstimo para abrir uma empresa (usando o apartamento do pai como garantia), ou pode ainda virar vagabundo profissional e coçar o saco. O pobre não tem. O caminho dele é único: escola pública, faculdade pública (competindo com quem fez cursinho, que ele obviamente não pode pagar), crédito inexistente (com que garantia?) para iniciar um negócio. Não vou nem entrar no mérito de “virar bandido” ser uma opção, pois vão dizer que estou justificando o crime com pobreza. Tentem imaginar o que penso a respeito, mas não coloquem palavras no meu texto.

Voltando ao violonista, por que eu disse que há mais mérito para uns do que para outros? É só você imaginar uma orquestra e diferenciar as pessoas ali e seus caminhos até chegarem onde estão. Quem você acha que tem mais mérito? Um branco, de classe média, filho de músicos, e com talento natural (ou você acha que isso não existe? Seja honesto, por favor!); ou um preto, que nasceu na favela, sem inclinação pra música, o pai preso e a mãe alcóolatra? Quando está todo mundo ali sendo aplaudido ao fim da peça musical, quem teve mais mérito em estar ali? Não estou falando se ele é o melhor músico, ele pode até ser o pior, mas meritocracia sendo o balizador, ele merece mais aplausos que o maestro.

Eu usei aqui exemplos anedóticos e certamente quem discorda comigo fará o mesmo. Citará casos de pessoas que “vieram do nada” e ficaram ricos e poderosos. As bancas de jornais estão cheios de revistas com essas pessoas na capa, com receitas para o primeiro milhão e outras coisas que me dão vontade de vomitar. Use um pouco de bom senso: com qual frequência surgem essas pessoas que ficam ricas vindas da pobreza e o quão comum são pretos, pobres que moram na favela? É um em cada quantos milhões que “chega lá”? Será que é só mérito mesmo? Não tem sorte? Não tem outros fatores? E o resto todo (maioria quase absoluta) está com preguiça? Faça-me o favor!

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3 de April de 2014 at 11:24 Comments (5)

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