Orgulhosamente Desajustado

Israel, Palestina e as narrativas infinitas

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De novo esse conflito não tem nada. Aliás, levando em consideração esta geração e todas as guerras que estudamos na escola e as que vimos passar ao vivo na TV, esse pode ser considerado o mais antigo ainda em plena atividade.

Mas uma coisa é totalmente nova, que é a cobertura do evento na era das redes sociais onde as notícias (e as opiniões, é claro) são bombardeadas com a mesma intensidade dos mísseis e incursões de tanques por terra. Apesar de não ser de hoje a intensa cobertura midiática da coisa, nunca foi tão rápido e dinâmico o noticiamento dos bombardeios, mortes e outros atentados – e a emissão de tantas opiniões e análises dos muitos blogs, vlogs e jornais online. É tanta coisa, num ritmo tão acelerado que ficamos até tontos.

Pois bem. Dessa vez (digo, no atual estágio do conflito) me interessei como nunca havia antes e resolvi estudar o assunto um pouco mais. Já não é de hoje que a mídia de massa tradicional é completamente irrelevante pra mim como fonte de informação e opinião, então geralmente o que chega à minha atenção é de certa forma “filtrado”. Não necessariamente certo ou “melhor” – naturalmente de acordo com minhas ideologias – mas pelo menos com um menor grau de manipulação e opiniões muito parciais.

Levando em consideração minhas fontes atuais de informação – facebook, Quora, blogs, vlogs, jornais e pensadores que acompanho – notei uma situação não muito comum. O que eu já tinha ouvido falar bastante em relação a esse conflito se confirmou. O tal do “é complicado”. Mas não usado pelos formadores de opinião (professores, jornalistas, blogueiros, filósofos) com objetivo de se eximir da obrigação de opinar, mas sim numa tentativa (muitas vezes frustrada) de assumir, a priori, alguma parcela de culpa por não conseguir emitir uma opinião plenamente informada. Os que sequer mencionavam o “é complicado” (não necessariamente com essas pobres palavras, é claro) fatalmente caiam em erros factuais e parcialidades.

Por que esse conflito é muito, mas muito complicado mesmo. A medida que ia lendo (muito), refletindo, estudando e vendo vídeos de aulas, ao invés de me sentir mais capacitado a opinar (e quem sabe, escolher um lado – coisa que hoje me parece uma covardia intelectual gritante), o contrário se observava – eu ia ficando mais confuso, não sabia mais no que (e em quem) acreditar.

Comecei a perceber que estava cercado por uma infinidade de narrativas subjetivas, cada autor juntando os fatos como acreditava que eles se conectavam para formar o todo – na tentativa de explicar a aparente falta de esperança de solução que ronda esse conflito. Um dos complicadores é que essa briga tem suas raízes em questões religiosas que se misturam com políticas, através de guerras e perseguições, que podem tanto “começar” no fim do século XIX como no século I quando os judeus foram expulsos pelos romanos daquela região. (Antes disso?)

Se você vê uma aula que começa a explicar o “problema Israel x Palestina” começando no fim da primeira guerra mundial, e pulando logo pra 1948, uma outra que inicia a explicação no final do século XIX, e outra ainda voltando até idade média, citando a vida dos judeus na Europa, a convivência “pacífica” que os judeus tinham com os árabes na Palestina, etc – como escolher qual está mais acertada? Quantas décadas ou séculos precisamos voltar para tentar entender? Algumas explicações colocam o Sinonismo como principal motor para a migração em massa de judeus para a Palestina (talvez onde tenha começado a ficar “esquisita” a convivência com os árabes), meio que já com a futura Israel em mente; outras nem tanto, não levam isso em consideração como ponto importante da problemática. Hoje em dia o foco está no Hamas e suas táticas terroristas (escudos humanos, lançar mísseis a partir de escolas, etc), mas eles nem sempre estiveram no poder e no início eram uma organização de assistência social – mas que se desvirtuou e passou a adotar uma abordagem fundamentalista, que antes era obra do Fatah (do Yasser Arafat, lembram dele?). Ou seja, focou, perde-se o contexto maior. Abriu o leque histórico e entram trocentos mil fatos muito relevantes para uns e irrelevantes para outros.

E ai? O que veio primeiro, o ovo ou a galinha? Quem deu o primeiro tiro? Isso é realmente importante no cenário atual? O que ocorre é que, sempre que você ler algo a esse respeito, especialmente se estiver tentando entender todo o contexto histórico, você vai ser apresentado a uma narrativa daquela pessoa, seja ele jornalista, PhD em história árabe, judeu sionista, muçulmano ou ateu. Como a história é de fato muito embolada (procure algumas aulas por aí, no Youtube tem várias) e repleta de erros e burradas por parte das nações dominantes em cada período da história, fica muito fácil deixa-se levar por uma narrativa bem amarradinha que conte a história juntando uma cacetada de fatos históricos numa sequência que parece perfeitamente lógica. E aí você começa a “pender” para um lado culpar o outro. Isso não ajuda ninguém. Enquanto isso for deixado para ser resolvido no um-contra-outro, só pode acabar em merda, ou com Israel aniquilando totalmente toda insurgência de Gaza ou o Hamas colocando as mãos numa bomba atômica e pulverizar 8 milhões de judeus de uma vez só numa espécie de Holocausto Instantâneo.

A mensagem final que precisa ficar é: de forma alguma procure um lado, por que os dois estão muito errados. Hamas se utilizando da covardemente da mídia para parecer coitadinho e Israel não respeitando leis internacionais ao ocupar territórios palestinos, entre outras barbaridades praticadas pela IDF. Os dois fazem merda atrás de merda, e eles não querem (ou não parecem querer) paz. Israel nunca vai ter paz enquanto houver Palestinos que os odeiam por tê-los expulsado de sua terra. A Palestina nunca vai aceitar Israel do jeito que está ali. Cabe à comunidade internacional procurar soluções para mediar o conflito e manter a paz, tentar desfazer a merda que fizeram há quase 70 anos. Eu sinceramente não vejo como. Mas nem por isso vou me render à confortável e covarde alternativa de comprar uma historinha que faz todo sentido, apontando as “reais vítimas” apenas de um lado, para odiar uma das partes e apoiar a outra incondicionalmente.

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30 de July de 2014 at 15:18 Comment (1)

“Motorista, pode abrir aqui, por favor?”

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Passageiro descendo fora do ponto

Um pedido tão simples, uma frase tão corriqueira, porém com grande significado. Quem costuma andar de ônibus já deve tê-la ouvido uma centena de vezes – e até tê-la proferido algumas tantas também. Mas o que tem demais nesse pedido?

Um assunto que me causa grande curiosidade e é constantemente objeto das minhas reflexões é a civilidade e o comportamento das pessoas, especialmente no conturbado meio urbano. O transporte público é um dos melhores laboratórios que existe para tais observações. Na ida e volta do trabalho geralmente as pessoas estão cansadas, com pressa e por causa disso, estão mais sujeitas a “furar um pouco” as regras do bom convívio, seja de forma inconsciente ou nem tanto.

Já não é de hoje que é vedado ao motorista parar fora do ponto. Há fiscais em alguns pontos, e tais fiscais podem relatar o desvio de conduta e o motorista ser punido – sem contar na perda de eficiência operacional como um todo, afinal, quanto mais paradas o ônibus faz, mais ele demora para completar a viagem. Mesmo assim, em algumas situações, com o ônibus parado em um sinal ou engarrafamento, se torna a oportunidade ideal para que um pedido de “posso descer aqui” seja atendido sem maiores problemas. Esse tipo de conduta de parar fora dos pontos é naturalmente muito mais comum em locais sem fiscalização.

Acontece que de uns dois ou três anos para cá, vem sido implantado no Rio de Janeiro o sistema BRS (Bus Rapid System), que cria faixas exclusivas para ônibus e separa as linhas em categorias (1, 2 e 3) fazendo com que os ônibus não parem mais em cada ponto existente, mas apenas no pré-definidos. Um sistema evidentemente mais eficiente, que beneficia a todos – mas obviamente recebeu críticas dos usuários de carros que agora tem menos espaço para circular (um outro exemplo da visão limitada de que trato nesse texto). O pedestre terá que andar coisa de dois ou três minutos a mais para chegar ao ponto correto, para que o sistema com um todo, e seus usuários, tenham um ganho de dez a quinze minutos no total do trajeto do ônibus (estou chutando aqui, mas só para base de comparação) – sem contar na viagem mais agradável, com menos paradas.

Mas o tal do “pode abrir aqui, por favor?” prevalece, sem indicativos de que vai diminuir, mesmo já tendo passado um bom tempo para que toda a população se acostume ao novo sistema. Não só o pedido se mantém constante, como a reação à resposta negativa do motorista é a da mais pura revolta, caras feias e as vezes até xingamentos. É possível perceber aqui o quanto o cidadão está realmente preocupado com o bem comum, quando um incremento na qualidade de vida de todos cause um incômodo, ínfimo que seja, em sua vida.

A famigerada frase, que pode soar a tantos como totalmente inofensiva – “não custa nada” – é uma demonstração de egocentrismo agudo (seja oriundo de uma cabeça muito ocupada com problemas e dificuldades ou pura ignorância), um pedido “bobinho” para que o motorista fure as regras do sistema para atender a um pedido pessoal, que ajudaria bastante naquele momento a quem está com pressa. Se não, só no próximo ponto, o correto. Mas o correto é longe e “não custa nada abrir”, não é?. Não é. Custa sim. Se a pessoa for capaz de escapar do loop mental que a prende nas próprias necessidade individuais e pensar um pouco no coletivo e no funcionamento do transporte público como um todo, vai ver que pequenas coisas assim – multiplicadas por cada pessoa que pede, em cada cada ônibus – fazem uma grande diferença no total. Tanto que em países “civilizados”, tal pedido sequer é cogitado, ninguém nem pensa em pedir para parar fora do ponto. É algo impensável, digno de vergonha. Aqui, ao contrário, é a norma, e o motorista se vê obrigado a ser “o chato” quando responde negativamente, as vezes precisando ser duro e ríspido, apenas cumprindo as regras e fazendo seu trabalho.

Civilidade, em última análise, não é nada mais que isso. É ser capaz de escapar do seu mundinho particular, da sua pressa, do seu atraso, do seu incômodo, e pensar no todo. É estar constantemente atento a este todo (não precisa ser neurótico, como alguns devem pensar, para comodamente se afastarem da ideia), pois onde circulam milhares de pessoas, o espaço que seu corpo ocupa pode estar incomodando alguém ou atrapalhando a movimentação de pessoas e veículos. Você não está com pressa sozinho, seus problemas não são mais especiais – todo mundo quer chegar em casa/no trabalho logo, e para isso o sistema tem que ser o mais eficiente possível, dependendo da colaboração de cada um. Parece tão óbvio, mas não é. No momento que alguém fala “posso descer aqui?” e faz cara feia ao tomar um “não” do motorista, tudo isso que parece óbvio se torna obviamente o contrário na cabeça daquela pessoa. Como podemos atingir civilidade e respeito ao próximo dessa forma? Difícil, muito difícil.

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17 de July de 2014 at 10:16 Comment (1)

A coerência exigida não é a mesma oferecida

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Sofremos de uma falha grave como seres sociais. Essa falha tem sua origem, entre outras coisas, na mente descontínua, sobre a qual falei um pouco nesse post. Resumindo bastante, a mente descontínua é uma estratégia evolutiva do nosso cérebro em realizar julgamentos rápidos criando padrões arbitrários, ignorando nuances e alternativas. Tal estratégia é de suma importância, pois tais julgamentos são necessários para que consigamos viver em sociedade com eficiência. Na grande maioria das vezes, não teremos posse de todas as informações possíveis para “decidir” se confiamos ou não em uma pessoa ou fazer a avaliação de risco em uma situação – é tudo bastante automático, e obra da mente descontínua.

Mas se é necessário – e é bastante fácil verificar como esse mecanismo é indispensável – como pode ser ao mesmo tempo uma falha? Por que (e aí eu recomendo que você leia o texto se quiser um pouco mais de aprofundamento) abusamos dessa estratégia e deixamos que esse “modo automático” tome conta de nossas vidas e nossa forma de pensar, mesmo depois que já estarmos devidamente informados para tomar decisões e realizar julgamentos sem a necessidade de arbitrariedades e aproximações.

Um exemplo bastante simples de verificar isso é a polarização política esquerda x direita. Quando você identifica uma pessoa como sendo de qualquer uma dessas ideologias, julga automaticamente saber tudo sobre ela. E a partir daí começa a esperar certas atitudes, comportamentos e ideias. Caso alguma dessas falhe em atender as suas expectativas, isso será imediatamente associado a uma falta de coerência daquela pessoa. Se é de esquerda, como ter um iPod? Se é de direita, como pode ser beneficiário de bolsa de estudos financiada pelo governo? Que hipócrita!

Vemos esse tipo de julgamento todos os dias e eles dificultam muito qualquer tipo de discussão saudável sobre qualquer assunto. Operando baseados apenas na mente descontínua, no modo automático, assumimos que as pessoas são um pacote fechado, um conjunto fixo de idéias e atitudes. Falhamos gravemente em não entender que cada ser humano é um universo de indivualidade. Se qualquer pessoa te disser exatamente como ela passou a acreditar em alguma coisa ou ser adepta de uma ideologia, ela estará mentindo. O conjunto de experiências e informações absorvidas que a levaram até aquilo é tão grande que ninguém, nem mesmo a própria pessoa, é capaz de reconhecer de forma linear e organizada.

Como podem, então, pedir coerência? Somos todos confusos. Somos múltiplos. Somos basicamente incoerentes, com nós mesmos, com os outros, com a vida. Somos falhos e fragmentados. Ninguém é uma unidade perfeita de pensamentos e atitiudes o tempo todo, a vida toda. Não estou aqui, no entanto, dando carta branca para a hipocrisia. São outros quinhentos. Falar uma coisa e fazer outra é uma falha moral e nada tem a ver com a mente descontínua, e não se trata apenas de falta de coerência. É muito pior. Das duas uma: ou você é maluco, ou é um cretino.

Com a Copa chegando, mais uma vez começam a pipocar os efeitos negativos dessa cobrança de coerência onde uma coerência não pode existir. Se você é contra a Copa, não pode ver os jogos e torcer pelo Brasil. O que uma coisa tem que ver com a outra? Quanto raciocínio foi gasto para falar uma besteira desse tamanho? Muito pouco, creio eu.
Até as análises que li sobre esse fenômenos foram bastante bobas, tratando apenas do aspecto político da coisa. Uma tristeza que as pessoas mergulhem tão raso na complexidade do ser humano.

O fato de que as coisas estão interligadas, interconectadas e tenham fortes correlações não obrigam ninguém a gostar de futebol e samba só por que nasceu no Brasil. Ser contra a Copa não é ser anti-Brasil, anti-futebol, e ser a favor da Copa não é um atestado de ignorância política.

Eu sou contra a Copa. Sou anti-FIFA e deploro a pequena elite política responsável por tanto desmando e roubalheira. Mas vai ter Copa, e eu vou ver o jogo amanhã. Vou tomar cerveja com os meus amigos e espero poder gritar GOL!, do Brasil, mais de uma vez, e torço por uma vitória. Isso não faz de mim um hipócrita. Incoerente? Talvez um pouquinho, mas quem não é?

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11 de June de 2014 at 11:55 Comment (1)

Proibir para educar

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mona-lisaAntes de mais nada, confesso que não sou fã das proibições. Na maioria dos casos, são dadas como soluções bastante mal pensadas para problemas simples, e em alguns casos geram resultados piores do que em sua ausência – especialmente quando os problemas são mais complexos e é difícil prever os resultados.

Temos como exemplo clássico a proibição sobre uso de substâncias, com consequências trágicas como no caso da Lei Seca americana e mais recentemente, da falida e desastrosa Guerra às Drogas.

Outro exemplo simples de uma proibição que simplesmente não serve pra nada é a de “escutar som alto em transporte público” que recentemente foi transformada em Lei. É uma resposta nula do legislativo a um problema básico de civilidade – que das duas uma: ou são auto-regulados pela sociedade ou endereçados pela educação (seja ela informal ou formal).

Não que eu tenha uma ideia melhor ou alternativas, mas proibir aquilo que não se tem como coibir na origem e/ou punir no ato, é inútil e muitas vezes nocivo.

Agora, há uma proibição que me faria muito gosto se fosse implementada: a de tirar fotos em museus e exposições de arte. Quem costuma visitar museus ou foi recentemente a uma aguardada (e popular) exposição e teve que enfrentar o enxame de câmeras, smarthpones e tablets, sabe o quanto é irritante. As pessoas estão mais preocupadas em tirar fotos das obras do que de fato observá-las e participar da experiência da contemplação da arte. Fotos que muito provavelmente nem vão ver depois, ou só verão uma vez ao mostrar para amigos e parentes que estiveram lá “naquela exposição legal de um cara que não lembro o nome”.

Fala-se muito em incentivar e facilitar o acesso a cultura, para que essa coisa abstrata, mutante e subjetiva, de alguma forma que ninguém realmente entende, contribuisse para formação de uma sociedade mais justa e feliz. Vamos simplesmente distribuir “cultura” (seja lá o que isso for) geralmente na forma de arte, e a sociedade inteira se beneficiará. Aí eu pergunto: como, exatamente?

Serve de alguma coisa levar dezenas de milhares de pessoas à uma exposição para que fiquem tirando selfies e fotos das obras? Algumas chegam ao cúmulo de sequer observar as obras com os próprios olhos e se direcionar a cada uma diretamente com a câmera, numa corrida insana para fotografar tudo que é possível, de todos os ângulos. Podemos realmente considerar isso uma “experiência cultural” construtiva? Digna de leis de incentivo e de meias entradas?

Portanto fica aqui meu voto para a proibição total de fotos em exposições – e com devida punição, pois não adianta apenas proibir e ficar pedindo baixinho, por favor, para respeitarem. Tirou foto uma vez, aviso, na segunda, rua. Não por que apenas incomoda – e muito – a todos aqueles que estão ali para ver com os próprios olhos e tentando focar mais no momento do que os da geração selfie que está ali já pensando em como vão publicar no instagram em algumas horas. Mas também por que isso poderia ajudar as pessoas a entender melhor como funciona a apreciação de uma obra artística – até para ver se elas realmente querem aquilo.

Uma proibição similar já existe e todos respeitam sem problemas: a de encostar nas obras. Na maioria das exposições e museus sequer há um aviso desta proibição, mas a mesma já se encontra bem firme no inconsciente coletivo e não vejo ninguém reclamando. Ninguém encosta e fica tudo ótimo.

Poderiam comparar o problema do enxame de câmeras com o exemplo que citei acima, do alto volume em público. Sim, a faltava de civilidade pode ser identificada como uma das causas, mas há uma diferença básica. No caso das fotos em exposições, é bastante simples fazer valer a regra. Há sempre monitores e seguranças em qualquer exposição que se preze. Não demoraria até que todos entendessem que não pode e nem mais levariam câmeras à museus ou tiraram seus celulares do bolso com o intuito de clicar.

O que falta para proibirem as fotos? Qual a desvantagem ou consequência negativa? Todos sairiam ganhando, penso eu.Mesmo os viciados em clicar que se sentiriam tolidos em um primeiro momento, depois perceberiam que há mais na experiência artística do que apenas ver o objeto, independente do formato ou tamanho. Afinal, se fosse pra ver o objeto, mesmo que à distância por foto, para que se deram ao trabalho de ir à exposição? Mais fácil ver as fotos (muito melhores do que poderiam tirar) na internet ou num livro. E se estão indo à uma exposição apenas para constar, tirar umas selfies e fotografar tudo que é exposto, há algo de profundamente torto nessa “experiência cultural” que tanto querem incentivar. O estímulo é para a apreciação das formas de arte, para reflexão e contemplação ou para aparecer no facebook e entupir smartphones com milhares de fotos idênticas?

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25 de April de 2014 at 15:47 Comments (3)

Debatendo como Gente Grande

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duty_callsAnedotas e Estatísticas

Na era internet, em especial na era das redes sociais, o número de debates acontecendo se multiplicou de maneira a ser impossível acompanhar tudo, ao mesmo tempo que os confrontos entre diferentes  escolas de pensamentos acabam sendo inevitáveis. Algumas discussões tornam-se mais agressivas, outras menos, porém um elemento é sempre presente: As anedotas. Historinhas de casos individuais utilizadas para explicar a regra geral a qual a pessoa acredita que funciona.

Em geral, anedotas são ótimas para se terminar uma discussão sem chegar a lugar nenhum. Você apresenta seus exemplos, o oponente apresenta os dele, e no final cada um volta para seu canto sem mudar de idéia e sem aprender nada com o debate, ambos com a sensação de “vitoriosos”, como se o objetivo de todo debate fosse uma competição na qual a vitória ou derrota são os únicos resultados possíveis. Quando não, “aprende” que precisa buscar mais exemplos ainda pra defender seu próprio caso, e o “derrotado” torna-se aquele que tiver que voltar às suas atividades cotidianas primeiro.

É muito comum sentir que uma discussão foi ganha ao apresentar essas histórias, afinal os argumentos utilizados ficam claros como o dia em nossas mentes, porém isso é uma peculiaridade fisiológica herdada ao longo de alguns milhares de anos. Temos uma fortíssima tendência biológica de lembrarmos das coisas que gostamos e que fazem a gente se sentir mais forte, e simplesmente esquecermos o que nos contraria. É o porquê mesmo rezando milhares de vezes e sendo atendido apenas uma vez, algumas pessoas ainda acreditam em milagres.

Mas o que há de errado na utilização de Anedotas?
Sendo elas casos de acontecimentos reais, de certa maneira eles servem pra explicar uma parte da mecânica do mundo, afinal essas coisas aconteceram de verdade!

Ambos os lados podem aceitar que os eventos apresentados são uma realidade, porém o calor da discussão combinamos com o comportamento competitivo que nos foi ensinado desde pequenos,é normal acabarmos esquecendo que uma das propostas de uma discussão é na verdade um trabalho cooperativo, onde tentamos construir um modelo, uma fórmula geral que descreva a realidade em que vivemos. E a partir do momento que estamos discutindo o mundo material, temos de colocar de lado as noções de “certo” ou “errado”, e passarmos a pensar em “mais preciso” ou “menos preciso”.

Pensando (um pouco) estatísticamente

É possível sentir o terror exalar pelos poros de alguns quando se fala em estatística, mas não é preciso se apavorar.
Para ter um pouco mais de noção de como enriquecer as discussões e ganhar “COM” ela (ao invés de ganhar “A” discussão), não é preciso saber muito de matemática, é necessário apenas um pouco de paciência pra pensar alguns minutos a mais, e mais um pouco de imaginação.

Toda vez que pensar em uma história que defende a maneira como você pensa, utilize alguns instantes a mais pra imaginar quantas vezes aquela mesma coisa foi tentada naquela mesma época, e quantas vezes deu certo, e essa frequência dessa história é que vai determinar a precisão desse modelo.

Por exemplo, no último post a respeito de Meritocracia: ( http://www.desajustado.org/2014/04/03/meritocracia-uma-fantasia/ )

Quando se discute o mérito, dois exemplos são bastante comuns: Um é o do cara que trabalhou como vendedor a vida inteira e continuou pobre, e o outro é de algum “Silvio Santos” da vida, que começou como ambulante e agora é dono de um império corporativo. As duas histórias são reais, aconteceram!

Porém, imaginem por um instante TODOS os casos de vendedores naqueles primeiros anos. Alguns se esforçaram um pouco mais, outros um pouco menos, mas podemos afirmar que de maneira geral todos se esforçaram, e que ninguém queria falhar (afinal, a vida deles dependia disso). Qual caso se repetiu mais vezes?

Não tenho um estudo em mãos, mas vamos supôr que o caso “Silvio Santos” foi 1 em 1.000.000.
Não é que o modelo “Silvio Santos” está “errado”, mas podemos dizer que ele tem 0,0001% de frequência.

Logo, imagine agora que você vê um vendedor ambulante na rua, e você resolve apostar com seu amigo a respeito do futuro daquele cara. (E vamos fingir que você tem como rastreá-lo e conferir daqui 10 anos) Em qual dos futuros você apostaria? Que o cara tornou-se um Milionário, ou que o cara continuou no mesmo lugar? Sabendo que as chances são baixas, é mais seguro apostar na segunda hipótese, não?

Agora, voltemos à nossa realidade. Se você diz acreditar na Meritocracia, estará sem perceber apostando a SUA VIDA naqueles 0,0001%. Essas são regras do jogo as quais você concorda?
Logo, poderíamos dizer que o modelo “Silvio Santos” é menos preciso que o modelo “Vagabundo porque quer“.

Surgimento de Padrões

Outra coisa a se ficar atento, é que quando não se surge um padrão na frequência da idéia apresentada, geralmente sugere-se que não há correlação entre os pontos apresentados, e portanto a precisão do modelo fica impossível de se distinguir.

Observe o gráfico fictício:
grafico_patrimonio1(gráfico fictício)
Com algo assim, poderíamos afirmar que o quanto você trabalha e estuda não influencia se você vai ficar rico ou não, portanto a correlação é pequena ou nula.

Já se tentarmos com outra variável:
grafico_patrimonio2(gráfico fictício)
Com isso, poderíamos dizer que correlação. Quanto maior o patrimônio herdado, maior as chances de você ampliá-lo. Quanto mais pobre você nasce, maiores as chances de você continuar pobre.
Haverão sempre os “Outliers” (Casos Particulares)? Sim. Porém, é possível afirmar que esse modelo descreve melhor a realidade do que o anterior.

(Estudo real sobre desigualdade social: https://www.youtube.com/watch?v=Vrea5DzIk6E )

Definição de sucesso e Gradientes

Convenhamos, casos como o do “Silvio Santos” são fáceis de se rebater através da lógica, e portanto é uma tática comum o modelo ser modificado pra algo mais abrangente. Nesse caso, os argumentos ficam mais brandos e viram “É ingenuidade achar que todos se tornarão milionários, mas conheço inúmeros casos de gente que começou de baixo e hoje está bem de vida”.

A partir de agora, o modelo de “sucesso” não é mais o parâmetro “Silvio Santos“, mas o parâmetro “Estilo de vida da Classe Média” nas esperanças que o mesmo modelo pareça mais justo ao ser distribuir, mais ou menos como algo assim:
inequality1
No caso, quem seria o “bem-sucedido” seriam todos entre os 40% e 80%.

Porém, quando olhamos em detalhes e notamos que na verdade o modelo é assim:
inequality2
Já aqui, quem seria o “bem-sucedido” seriam apenas os entre 80% e 90%.

Nota-se que continua sendo uma descrição baseada em excessões, e logo não é muito funcional utilizá-la pra descrever a realidade, ou pior ainda: Guiar sua própria vida utilizando um modelo falho.
(Observação: Esses gráficos são a respeito da desigualdade nos Estados Unidos, mas não se preocupe. No Brasil é tão ruim quanto. Fonte:  https://www.youtube.com/watch?v=QPKKQnijnsM )

Isso aqui também é uma anedota?

Seria possível dizer aqui que também estou utilizando anedotas pra atacar a meritocracia. De fato, estou utilizando sempre o mesmo exemplo (Pelo comodismo da familiaridade, é o caso mais frequente que vejo) porém acredito que o mesmo seja aplicável para outros casos.

Por exemplo, bancando o advogado do Diabo pra nivelar: Os “Esquerdopatas” agora costumam utilizar contra os “Discípulos da Rachel Sheherazade” aquele argumento do Negro que foi adotado por uma familia Francesa, e hoje é professor e palestrante super famoso e reconhecido. Para validarmos esse modelo, teríamos que pegar quantas pessoas as quais foram adotadas e tratadas como ele foi, que obtiveram um “sucesso” similar. Independente de qualquer coisa, que vai validar o argumento são os dados, não as anedotas, haverão “Outliers“, e possívelmente não será possível afirmar que “Todo Negro adotado acaba bem-sucedido“.

Por fim, não só é possível dizer que um estudo vale mais do que mil anedotas. Um estudo é a própria condensação de mil anedotas. Claro, se o estudo foi bem-feito ou não acaba dependendo da metodologia utilizada, e ainda sim devemos duvidar de tudo. Porém, analisar estudos acaba ficando pra outro dia.

Claro que, ao se deparar com alguém que ignora deliberadamente estudos e dados, fica evidente que ali não há a intenção de se enriquecer a discussão, mas sim de disseminar uma ideologia. Nesse caso, não há muito no que se insistir.

Que tipo de lógica você pode apresentar para alguém que não valoriza a lógica ?” ~ Sam Harris

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8 de April de 2014 at 0:08 Comments (0)

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