Orgulhosamente Desajustado

Nos limites da Propriedade Privada (Parte-2)

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Quando se fala em Reforma Agrária, ao menos no Brasil a primeira imagem que vem na nossa cabeça, é a de pessoas pobre, feia e suja, armada com foices querendo literalmente se apossar da terra dos outros.

Por isso, no Post anterior ( http://www.desajustado.org/2014/12/13/nos-limites-da-propriedade-privada-parte-1/ ), tentei expor um pouco das motivações para se entender essa proposta.

Ainda sim, mesmo depois de tudo que foi dito ainda é fácil visualizar um monte de gente de vermelho, e começarmos a botar a culpa na Dilma, no  Lula e no PT, e principalmente, da Esquerda. No tal bando de maconheiros que defende esse bando de vagabundos que quer ganhar terra sem trabalhar duro.

O que ninguém sabe, é que a Reforma Agrária Clássica não foi uma bandeira socialista, foi um projeto Democratico, Republicano! Foi um projeto impulsionado por BURGUESES!

Como assim, por burgueses?
Tendo a terra como bem da natureza, a esperta burguesia industrial Européia sabiamente percebeu que o camponês, apesar de mais pobre, é um consumidor em potencial. Fizeram as contas, e perceberam que se todo mundo for mais ou menos rico e puder consumir produtos industrializados, eles lucram muito mais apesar de ter sua propriedade reduzida.

A partir daí, a burguesia industrial Européia faz uma pressão enorme para que fosse realizada uma reforma agrária massiva, e abre uma respeitável distância dos outros países. Praticamente fica todo mundo com propriedades de 100 a 400 hectares, e através disso, incorporam os camponeses no mercado consumidor, e estimulam a produtividade.

No mesmo espírito, veio a Reforma Agrária Norte-Americana.
Até 1862, os EUA eram igualzinhos o Brasil, escravocratas e fornecedores de Matéria-Prima. Depois da guerra-civil, a burguesia do Norte impõe suas vontades, estabelece a reforma e abre essa vantagem sobre o Brasil que sentimos até hoje.

Depois da Segunda Guerra, o Japão fez a mais radical de todas as reformas agrárias: POR LEI, ninguém poderia ter mais do que 4 hectares! E tudo conseguiu se adaptar a isso.

Já a burguesia Brasileira, não tão esperta quanto as outras, optou por não fazer a reforma agrária, deixando o mercado consumidor menor, cobrando mais em cima dos produtos, sem abrir mão da concentração de propriedade.

As consequências sociais disso?
O trabalhador camponês, ficando sem Terras e sem Emprego, fica sem saída senão migrar desesperadamente para as cidades. Ocorre um inchasso urbano, as favelas surgem, e com elas o desemprego em massa. Aceitam qualquer coisa, e presenciamos a formação de um pelotão de Faxineiras e Peões de Obra.

Com pouca oferta de emprego, forma-se o chamado “Exército de Reserva” de desempregados, que tem como função básica literalmente ASSOMBRAR os outros trabalhadores, fazendo com que aceitem qualquer salário com medo de ser substituído. Por isso até hoje, o Brasil tem os salários industriais mais baixos do mundo.

Agora, o grande Agronegócio controla com punho de ferro o monocultivo Brasileiro, através da chamada Associação Brasileira do Agronegócio. São 50 empresas que determinam tudo que vai ser produzido no Brasil. Além dos previsíveis clássicos como a Monsanto, Syngenta, Cargill e Nestlé, você vai encontrar associados como a Rede Globo e o Grupo Estado!
Talvez seja por isso que você nunca vai ouvir falarem algo bom sobre Reforma Agrária, ou qualquer tipo de movimento relacionado a ela.

Talvez, em sua concepção simplista, os nossos indígenas não poderiam estar mais corretos. A idéia da própria Terra ser um bem, algo que pertence a alguém, não faz sentido algum. Seria como alguém querer se apropriar do Mar, do Ar, ou do Sol, e permitir ser dono de tudo isso, é permitir esse alguém ser literalmente dono da VIDA dos demais.

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17 de December de 2014 at 23:42 Comments (0)

Nos limites da Propriedade Privada (Parte-1)

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Vamos assumir por um instante que uma das proposições clássicas do capitalismo seja válida, e vamos considerar que dinheiro “é” sinônimo de mérito e esforço. Se você tem alguma coisa, é invariávelmente porque trabalhou e mereceu, e se você tem mais, é porque trabalhou mais do que os outros.

Nesse momento, propriedade privada torna-se mais do que um símbolo de conquista, torna o direito a essa conquista irrevogável. Você trabalhou por aquilo, e NINGUÉM deveria ter o direito de tirar aquilo de você, nem estado nem nada, não importa o uso ou desuso que você está dando para aquilo.

Parece lógico, não?
Você se ralou, se esfolou pra obter aquilo, e permitir a alguém ir tomar aquilo de você seria uma tremenda injustiça, certo?

Beleza, então vamos extender esse exercício de pensamento.
Vamos imaginar que você é uma dessas pessoas excepcionalmente trabalhadoras, e que por isso, conseguiu ir comprando terras e propriedades, expandindo virtuosamente seu patrimônio.

20% do estado de São Paulo passou a ser seu. Você não dá conta de dar uso pra tudo isso. Algumas partes você transforma em negócios e vira um grande produtor, outras partes você arrenda, outras você revende, mas como você é um bom administrador, isso acaba sempre se revertendo em mais terras.

A expansão continua, e você passa a deter controle de 30% das Terras do estado de São Paulo. Quando isso acontece, ocorre um fenômeno curioso.
Mesmo não conseguindo dar uso pra tudo que tem e tendo uma parcela considerável  de terras ociosas, você ainda detém uma massiva produção em escala. Sua produtividade é tão grande, que seus concorrentes não dão conta de te acompanhar.

Para seus negócios é um excelente momento, repleto de oportunidades. Esse bando de perdedores não tem saída senão começar a vender pra você a preço de banana as terras restantes.
Para o resto da sociedade, surge um efeito dramático. Toda essa massa desempregada de gente agora não tem saída senão migrar em peso para as cidades, que agora ficam abarrotadas.

Nessas cidades, agora há gente demais e a oferta de emprego não dá conta de manter tanta gente contratada. Para a maior parte da população, a vida nunca foi tão sofrida, mas para as pessoas um pouco mais ricas da cidade, veio uma era de ouro. Esse bando de gente passando fome não tinha saída senão aceitar qualquer emprego a qualquer salário. Tornaram-se faxineiras, pedreiros, motoristas de ônibus e porteiros. É o que futuramente virá a ser chamado “Reserva de exército de trabalhadores“.

Manter a cidade ser lotada de gente virou um mecanismo importante aí, porque era isso que garantia os baixos salários. Se você não aceita um salário de fome, tem um bando de gente pobre sem trabalho, alguém vai aceitar. O medo de ficar desempregado é o que garante o lucro dos pequenos empresários. E tudo isso começou porque você tem terra demais…

Falando em você, seu patrimônio, que mais começa a se parecer com um império, nunca esteve tão grande e nunca cresceu tão rápido. 40% de São Paulo é seu, e expandindo.

Com facilidade, você chega passa a ser dono de 50% do estado de São Paulo. Metade das suas Terras estão ociosas, ou seja, 25% do que poderia ser produção agrícola, está parado. Mas não é por ingerência sua, muito pelo contrário. você descobriu que se você produzir demais, a oferta de alimentos fica muito alta e os preços caem. O que garante o seu lucro agora é manter uma parte das pessoas passando fome, para que as pessoas com medo de passar fome, paguem qualquer coisa pela comida que você oferece.
E tudo isso porque você tem terra demais…

60%, 70%, 80%, onde isso vai parar, ninguém sabe. Você é uma força da natureza, uma potência.

Porém, você batalhou, trabalhou DURO por tudo isso. É um empresário e empreendedor genial com uma carreira invejável, construiu tudo do nada, arrancar isso de você seria uma grande injustiça.

Pelo seu suor, tudo aquilo é seu, e se você quiser deixar aquilo PARADO, causando sofrimento a milhares de pessoas, é um direito seu sim senhor!

Ou será que não? Até que ponto o direito à propriedade privada vem acima dos direitos humanos? Se fosse colocado um limite ali, a sociedade se desenvolveria de uma maneira diferente? Como seria um mundo onde ninguém pode ter terra demais?

Se você você já se perguntou isso, talvez você seja a favor da famosa reforma agrária, tão mal falada e tão mal vista…

Mas isso fica para uma parte dois, não perca!

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13 de December de 2014 at 12:31 Comments (7)

…e a crítica sobre o sequestro da crítica

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Após ter visto o último post do Christian, quis de imediato responder, porém ao ver o tamanho da resposta me pareceu pertinente este tornar-se um post inteiro à parte, uma espécie de adendo ao que foi dito aqui:

http://www.desajustado.org/2014/12/01/sobre-o-sequestro-da-critica-ao-sistema/

Antes de tudo, gostaria de contrariar a retórica, dizendo que não, não é apenas chato. Chatos nós somos quando estamos desinformados.
Informados, somos insuportáveis! Inclusive para nós mesmos, quando percebemos que é extremamente difícil aceitar qualquer coisa sem torcer o nariz. Porém, é um efeito colateral aceitável para aqueles que se iniciaram na prática de se questionar TUDO.

Mas enfim, de volta ao tópico principal: A experiência da tal da “Wik1nomia” apresentada no Reboot me pareceu na verdade a sequência de um processo o qual eu tomei consciência em 2010, porém pode ter se iniciado bem antes disso.

Naquele ano, eu estava bastante “pilhado” em termos de ativismo, tentando transformar o mundo pra ontem, e participando de tudo que aparecia pela frente. Foi quando junto com alguns colegas, fui informado do evento Empreender com Valores 2010, o qual tinha como proposta o compartilhamento de idéias para a criação de empreendimentos “socialmente responsáveis”, aproveitando a onda de crescimento do tal quarto setor, o qual começava a ter seus efeitos na correlação de forças da sociedade.

Por ter sido organizado principalmente por Fundações e Instituições de ensino, a infiltração do pensamento econômico ortodoxo não foi tão evidente quanto na experiência do Christian, porém este não foi necessário. Existia um espaço aberto para todos falarem, e ao apresentarmos idéias mais fora da caixa como a Economia Baseada em Recursos, ou quando meramente citamos propostas horizontais sem concentração de poder ou propriedade privada, era comum ser ouvido coisas do tipo: “Não, veja bem, eu acho que dá pra ser sustentável, sem deixar de ser rico ao mesmo tempo. Não é preciso abrir mão do consumo“.

Podem imaginar a frustração, não?
Uma massa de pessoas que se tinha como empreendedores vanguardistas, não conseguia sequer conceber a possibilidade de uma estrutura social alternativa, praticando da autocensura e colocando pra fora o típico desejo de ascensão ao estilo “Pequenas Empresas, Grandes Negócios“.

Para quem está de saco cheio com o Capitalismo, foi uma derrota enorme. Como diria o finado autor Michael Ruppert, “você não pode simplesmente comprar a saída desse problema”. Porém, não houve nem a necessidade dos banqueiros e economistas infiltrarem-se, o pensamento de pra mudar o mundo basta apenas continuar consumindo ao máximo, mas agora apenas as coisas com tarjas verdes, já estava estabelecido.

Mesmo já tendo “vencido” aquela batalha em 2010, anos de expertise fazem com que o sistema não trabalhe com margens de erro. Era apenas uma questão de tempo até instituições financeiras capitalizarem a idéia, pra depois deformar e revender, como o Christian presenciou alguns anos depois. A tática funcionou, mas é manjada e já vimos acontecer repetidas vezes.

O chamado https://pt.wikipedia.org/wiki/Greenwashing é o exemplo mundialmente mais forte disso.

Já no caso do Brasil, vemos algumas batalhas ainda em andamento. A grande imprensa não perde nenhuma das oportunidades de criticar e massacrar o ensino das universidades públicas, gritando aos quatro ventos que estas devem ser privatizadas. Não existe um cidadão brasileiro que tenha ouvido, independente de concordar ou não, que estudante de humanas é tudo vagabundo.

O cenário ideal é facinho de imaginar: Todas faculdades privatizadas, financiadas por quem? Os grandes bancos, claro. Formando um exército de quê? Engenheiros e Técnicos altamente especializados em suas àreas e nada mais. Qualquer conhecimento extra poderia fazê-los questionar sua própria posição de engrenagem do sistema.

Em relação à tudo isso, devemos admitir que Presidente Uruguaio Pepe Mujica acerta em cheio: Deveríamos fundar escolar novas, as quais apresentem pensamentos alternativos. Tem gente que surta ao ouvir isso, porém convenhamos. Não é preciso ser de esquerda pra ver que isso criaria diversidade de pensamento, e isso é favorável a sociedade, e essencial à democracia.

O engraçado é que fácil achar horrível uma escola que ensine apenas a perspectiva branca, hétero e cristã, porém quando pensam em ensinar alternativas ao Capitalismo, a repressão chega a ser pior do que as três anteriores juntas, e pra isso acontecer, nem é preciso ser patrocinado pelo Itaú.

Ao menos, a lógica é tão simplista que é fácil de ver.

Há algumas décadas atrás, uma pessoa “Nerd” era alguém que pensava de uma determinada maneira. Hoje, todo mundo que consome “Produtos Nerds” se acha Nerd.
Antes,  uma pessoa “Alternativa” tinha uma postura e visão específicas do mundo.
Hoje, quem consome “Produtos Alternativos” se acha o diferentão.
Antes, uma pessoa “Sustentável” era alguém que pensava e se comportava de uma certa maneira. Hoje, todo mundo que consome “Produtos Sustentáveis” é verde.

Consumo, exponencial e infinito, são as regras da sociedade.
Qualquer alternativa a esse pensamento acaba sendo comprada e transformada em produto para consumo novamente.
E a partir do momento que você enxerga isso em todo lugar, e começa a discordar, e demonstrar, sabe o que acontece?

Você se torna um chato.

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3 de December de 2014 at 14:27 Comments (0)

Sobre o sequestro da crítica ao sistema

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puppet-masterNesse último fim de semana o Rio de Janeiro foi palco para um evento de economia colaborativa, apelidada de forma espertinha de “Wik1nomia”, chamado Reboot. O slogan do evento dizia “novas soluções para uma sociedade mais humana, criativa e colaborativa”. Muito legal, né? Fui logo atraído, assim como alguns amigos meus e inclusive encontrei alguns por lá, num ambiente super moderninho e agradável.

Antes de começar essa minha análise, preciso confessar algo: sou um chato. Ranzina, crítico na maioria das vezes além da medida do saudável, até para mim mesmo. Mas após fazer essa pequena análise do significado de um simples evento, peço que vistam meus sapatos e me
digam se estou exagerando, ou realmente tenho motivo para ficar desanimado.

Como sou chato (isso já está estabelecido, mas não custa reforçar) procurei saber o mínimo possível antes de ir ao festival para não ir para lá cheio de preconceitos e nariz torto. Mas logo na porta alguma coisa me cheirou mal. O negócio estava alto-nível demais, um tanto “chique” como eu gosto de dizer – ou seja, rolou uma grana ali, e geralmente, onde tem grana tem interesses. Continuemos.

Os primeiros dez minutor foram inexpressivos com um tal “circuito” onde você vai vendado até uma sala onde passa uns vídeos – que pra mim não era nada demais, já tinha visto todos. Enfim, vamos conhecer o resto. Em uma sala, que parecia ser a principal, haviam alguns projetos artísticos, DJ e umas comidinhas honestas (orgânicos, independentes, cerveja artesanal, etc). Nessa mesma sala haviam mesas onde era possível preencher alguns formulários em que você colocava sua vida e seus projetos em perspectiva e podia também cadastrar ideias para concorrer a um prêmio de R$ 10 mil. Continuemos.

Na hora que chegamos não havia nenhuma palestra interessante agendada. Fomos conhecer o resto e aí que fica interessante. Havia uma sala onde eram exibidos, em forma de cartazes dentro de caixas, vários projetos e instituições que estimulavam o empreendedorismo, como encubadoras, financiadora de “projetos sociais” (o que quer que seja a deinição deles), etc. E lá no meio eu encontro: Easy Taxi e Bike Rio. Peralá. Pausa para reflexão. Easy Taxi? Num evento de economia colaborativa? Bike Rio? Sério? Quem será que patrocina esse evento? Pega aí o folheto. Aaaah, tá explicado: o Itaú.

Estou sendo chato? (Estou claro, enfim…) Easy Taxi configura, de alguma forma, uma iniciativa colaborativa? Pra mim é apenas um negócio. Um negócio legal, que facilita a vida das pessoas, mas um negócio de qualquer forma – que visa o lucro, e não mudar o mundo. E o Bike Rio? Ótimo também, mas alguém aqui é ingênuo de pensar que quem mais lucra com esse projeto é o próprio Itaú, com mini-outdoors sobre rodas perambulando por toda a cidade?

E aí eu dei uma passada de novo por todos os cartazes e notei que praticamente metade tinha a ver com encubadoras, capital para start-ups e muito mais a ver com “facilitamos e apoiamos o seu negócio” do que uma crítica ao mercado em si ou até de uma forma nova de produzir e consumir, que fuja do conceito de “negócio”. Afinal, se estamos falando de economia colaborativa, acho que uma premissa de que não se pode escapar é a de mudança de paradigma do modelo atual. E um banco certamente não faz parte de nada que seja colaborativo. É o completo oposto. Me senti ali numa propaganda de televisão onde vendem aquela ideia estapafúrdia de o banco está ali pra ajudar você a ter uma vida melhor, sem preocupações.

E essa premissa foi certamente burlada logo de cara. Que indpendência tem a curadoria de um evento como esse quando é um banco que tá pagando? Os palestrantes podem falar mal do capitalismo? Falar mal dos bancos? Do Itaú? Nem pensar! Um pouco limitante, não acham?

Isso quer dizer que o evento foi inútil, que as palestras (confesso que vi apenas uma) foram vazias e sem impacto? De forma alguma. Espero que muitas pessoas ali, que foram ao evento por estarem interessadas em formas diferentes de ver o mundo, tenham se inspirado – especialmente se não foram afetadas pelo filtro crítico dos patrocínios. Mas me preocupa muito o sequestro dessas iniciativas por grandes empresas, que parecem já estar de olho em tudo que rola e querem um pedacinho do bolo. Se a crítica ao status-quo não vier de baixo e permanecer embaixo, de nada adianta, pois é subvertida a transformada em negócio.

O poder midiático desses big players é enorme; vejam o que aconteceu com a sustentabilidade, que já foi totalmente transformada em business e faz as pessoas acreditarem que comprando orgânicos e reciclando lixo estão fazendo sua parte para salvar o planeta – não estão! Isso não é suficiente, nem de longe, muito de longe; mas certamente é o que as empresas querem te fazer acreditar que é. Compre os produtos certos e você está do lado certo da história. Faça o que quiser mas não pare de consumir. E agora algo parecido começa a acontecer com as reflexões sobre paradigmas econômicos? Medo.

E aí, sou apenas chato? (Sou, mas enfim, você entendeu – ou não.)

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1 de December de 2014 at 10:27 Comments (5)

Se cada um fizesse sua parte…

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CiD
Se existe um mantra que ultrapassa as barreiras sociais, culturais e até nacionais, acredito que seria a famosa frase:
“Se cada um fizesse sua parte, o mundo seria um lugar melhor.”

Apesar de podermos expandir vastamente a discussão na tentativa de definir o que a “parte” de cada um, vamos evitar fazê-lo, afinal pra mim por exemplo, se alguém separa o lixo mas fica assistindo seriado ao invés de se informar de política, não está fazendo sua parte. Nesse caso, vamos considerar apenas o que é aceito pela maioria das pessoas como a parte de cada um.

Essa semana, ví alguns artigos extremamente desanimadores a respeito do futuro de nosso planeta.
Alguns deles demonstram com clareza que passamos pelo menos uns 10 anos do ponto de podermos fazer alguma coisa para revertermos os estragos feitos à natureza. Agora os danos já estão aí, não são mais especulação, e a única pauta em discussão pela comunidade científica é sobre como administrar o prejuízo.

A seguir, descobri que todos esses impactos que estamos sentindo hoje, toda a seca, crise hídrica, aquecimento, instabilidade climática, está ocorrendo em função dos estragos feitos há 30 anos atrás.
Os estragos que estamos fazendo hoje, são cerca de 200 vezes maiores que no passado, e o impacto está por vir nos próximos 30 anos, o que não é nada animador.

Estamos incontestávelmente à beira da Sexta grande Extinção em massa do planeta Terra.

Diante do enorme sentimento de impotência, brotou também uma forte sensação de injustiça, em função daquele suposto inocente ditado. Segui as mais diversas recomendações. Uso carro só uma vez por semana, tomo banhos curtos, não como carne. Não consumo muito, separo meu lixo, os dois únicos celulares que eu tive na vida, foram dados por pessoas que não queriam mais. Pratico consumo consciente e faço diversos boicotes.
Me alimento de produtos orgânicos de agricultura local, pratico exercícios regularmente, e o principal: Apesar de poder conseguir mais, eu não ALMEJO mais do que isso. A única coisa que quero da vida é saúde, paz e poder continuar aprendendo sobre o mundo até o dia que morrer.
E tenho plena consciência: nem de longe sou o mais radical desse estereótipo de pessoa.

Todos os dias, vejo pessoas ao meu redor mudar de hábitos, e mesmo assim, não conseguimos salvar o mundo.
Vamos assistir nossos oceanos acidificarem, nossas plantas secarem e morrerem, pra morrermos algumas semanas depois.

Quando começo a seguir essa linha de pensamento, o primeiro e mais óbvio argumento que ouço é um “Mas você é parte de uma minoria!

Então vamos falar das maiorias.
A maior parte deles, faz por tabela essa tal “parte”.
Não usam carro porque não tem, tomam banhos curtos porque não podem pagar a conta, não comem quase nada de carne porque não podem comprar. Enquanto optamos diminuir o consumo, eles são forçados a fazê-lo em função da falta de poder aquisitivo.

Ora, então quem diabos não está fazendo a própria parte?

E novamente, tudo se volta para o tal 1% da população, a qual é dona de 50% dos bens materiais do mundo.
Claro que não tem apenas a ver com consumo, mas com o impacto.

Esse mesmo 1% é quem detém os meios de produção. São as grandes empresas e corporações.
A opção de fabricar produtos que vão quebrar em poucos meses pra você ter que consumir de novo, é deles.
A opção de embalar coisas de plástico com mais plástico e isopor em volta, é deles.
A opção de usar metade da produção agrícola e da àgua do mundo pra alimentar gado, é deles.

Mas eles tem escolha? Não. Assim como a maioria de nós, eles foram criados em uma cultura onde o único dever deles, é maximizar os lucros independente de qualquer impacto social ou ambiental. São vítimas da MESMA cultura que faz o pobre roubar, o classe-média sonegar imposto, e o político desviar verba.

E você não pode fazer nada.
Pelo menos, não do jeito convencional. Mesmo que você exija de seus políticos ações que regulem essas empresas, sabemos que o poder político é submisso ao poder econômico.
Reclama-se da corrupção sem nunca perguntar: Mas quem corrompe? E quem corrompe é essa elite, pra que possa manter suas opções retrógradas. É dessa maneira que eles esmagam qualquer pequena iniciativa que poderia trazer alternativas.

Parafraseando o pensador Eduardo Marinho, “não é o ser humano quem está destruindo a Terra. É uma elitezinha, ZINHA.”

Aparentemente, a “parte” de cada um, é proporcional ao poder aquisitivo de cada um. E infelizmente, nosso planeta não é um sistema fechado que respeita os limites de cada propriedade privada. Logo, se essa minoria que é LITERALMENTE dona de metade do mundo já destruiu a metade que é “deles”, então estamos TODOS condenados. E possívelmente, é o que já está acontecendo.
E mesmo que você seja alguém que concorda e defende a idéia da propriedade privada, há de se concordar que não é justo 99% da humanidade estar condenada por causa de 1% que “Pode fazer o que quiser” com a parte deles.

Diante desse cenário dramático, seria fácil advogar a idéia de sair cortando a cabeça dos ricos, mas não é essa a proposta. Porém é necessário SIM algum tipo de revolução, pois através das vias convencionais acabamos ficando completamente dependentes de uma epifania moral, um momento de clareza vinda dessa elite, o que dificilmente vai acontecer. Sabemos que não dá pra contar com eles.

Enfim, não adianta em absolutamente nada se 99% do mundo donos de uma metade, utilizar “Ecobags”, tomar banhos curtos, e usar apenas transportes públicos, se os outros 1% que são donos da outra metade, não mudarem os meios de produção, e os objetivos do sistema.

Não estamos mais na beira do abismo, já caímos, mas ainda não batemos no chão.
E a maior parte da culpa, não é sua.

As chances são altas de que não é dessa vez que viraremos uma civilização de Tipo-1, desejemos mais sorte para a próxima.

Nota: Escrever um texto carregando sentimentos de frustração trás riscos à qualquer blogger, e corro o risco de desdizer muita coisa daqui. A idéia porém, não é desmotivar ninguém, mas colocar a par a situação real em que chegamos por termos seguido idéias ilusórias a respeito do “poder individual” de cada um. Não estou falando pra deixar de fazermos o que devemos fazer, mas não é só isso que pode fazer algo pelo mundo. A “nossa parte” vai além disso. Deve ser incluso nessa, puxarmos a orelha das elites.

Situação do Brasil – Por Antonio Nobre:

http://leonardoboff.wordpress.com/2014/11/01/estamos-indo-direto-para-o-matadouro-diz-antonio-nobre/

Situação do Mundo – Por Guy McPherson:

Referência ao “Tipo de Civilização” por Michio Kaku:

Referências à desigualdade no mundo:

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4 de November de 2014 at 0:14 Comments (2)

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