Orgulhosamente Desajustado

Ensaios sobre o suposto Populismo

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Após o resultado do primeiro turno das eleições de 2014, todas as pautas políticas tornaram-se elementos decisivos para o possível futuro do país.

Nesse delicado momento, pudemos ver logo de cara acusações exacerbadas chamando o governo PT de Populista, usando como exemplo principal os programas de bolsa criados nos últimos anos, como se esses fossem uma forma de “Compra de Eleitorado” para garantir o próximo mandato.

É uma acusação trágica de tão ilógica, se pararmos para pensar por dois minutos.

Ao analisarmos a crítica, qual o elemento de “Injustiça” criticado pelos que concordam com esse raciocínio?
A idéia de haver um programa social que beneficia um grupo específico de pessoas, e esse influenciar a opinião daquele grupo, fazendo com que elejam novamente os criadores desses programas.

A princípio, parece fazer sentido. Exceto que: Quando diabos as ações de um político ou partido NÃO INFLUENCIA a sua opinião? Tudo influencia, e sempre existe uma influência!

Se formos seguir essa mesma lógica, então se houver um governo que melhora e beneficia pequenas empresas, então os donos de pequenas empresas não poderão votar. Se houver um programa que melhora a qualidade de vida da classe média, a classe média inteira deveria perder o direito de voto? Cada vez que uma ação beneficiar um setor, aquele deve perder os direitos ?

Se continuarmos essa lógica, então ao se criar um programa, quanto maior o número de beneficiados que ele atingir, menores as chances daquele partido dar continuidade ao programa, pois aquele número de beneficiados não poderia votar!
E mais ainda, em última instância, os que teriam mais chances de serem eleitos, seriam os que não fazem nada! Não beneficiam ninguém! Afinal, se você fizer algo que não ajuda em nada, todos poderão votar!

Mesmo que um espertinho diga “Teríamos que votar em programas que beneficiam toda a população!” é fácil de vermos que mesmo existindo um programa que beneficia a todos, não o fará homogeniamente. Haverão níveis diferentes em setores diferentes, e influenciariam de maneira diferente cada opinião.

Então, quando passa a ser populismo? E quando o populismo passa a ser algo “feio” ?
Se você faz um programa que beneficia uma minoria, não tem problemas, mas se beneficiar um grande número de pessoas, passa a ser errado? Não faz o menor sentido.

Não é preciso muito pra ver que essa lógica tropeça na própria perna.

Exceto, claro, se discretamente você quiser ser parte de uma minoria beneficiada, e travestir isso de injustiça pelo fato do seu grupinho ter ficado de fora.
Existem setores da sociedade que precisam de mais ajuda, e outros de menos, ainda mais quando se tratam de direitos básicos humanos. Mas como já fiz em críticas anteriores, nos princípios deformados dessa tal de meritocracia, não há espaço para empatia.

Em conclusão, tudo que se é feito, bom ou ruim, vai influenciar na opinião do Eleitor. E assim, se o tal populismo se dá quando uma grande faixa da população é influenciada por algo que efetivamente ajudou, então populismo não é algo ruim.

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6 de October de 2014 at 22:02 Comment (1)

O que os olhos não vêem, o coração não sente

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Imagine se você neste exato momento decidisse largar todo o conforto da vida na cidade grande para viver no campo. Porém a única coisa concreta que você tem no seu ponto de destino é um terreno. Não há uma construção sequer, somente um terreno. Pense então no que seria minimamente necessário como ponto de partida.

Acho que todos precisamos de um teto, então uma casa seria o primeiro item essencial. Construir uma estrutura com paredes, chão e teto pode ser extremamente complexo, mas nada comparavél ao pensar na estrutura de canos e tubulações para formar uma rede de esgoto e água viável para uso. Para facilitar um pouco, para não dizer bastante, digamos que você tenha um rio com água potável à sua disposição. Ainda que sua fonte de abastecimento esteja resolvida, chegamos no primeiro impasse: para onde drenar todos os dejetos que nosso incrível corpo humano produz diariamente? Jogar no rio com sua água cristalina não é bem uma solução, certo? Até porque, você precisará dessa água, então vamos ter que pensar numa forma de processar toda essa matéria orgânica para que ela retorne ao ambiente de forma harmoniosa.

Digamos que você tenha encontrado uma solução para este primeiro problema (veja bem, você mal chegou e já encontrou um grande desafio, mas vamos lá). O mercado mais perto do seu terreno fica a uma hora de distância. Não haverá uma grande facilidade para comprar alimentos diretamente de prateleiras. Portanto, você terá que produzir a sua própria comida. Então cuidadosamente você pode começar a pensar em formas de obter uma dieta variada e saudável, sem perder o sabor e que seja possível para o seu ambiente. Nada simples, né? Muitos pré-requisitos para uma tarefa tão banal quanto comer. Pois é, mas sem alimento, nenhum de nós sobrevive e é preciso encontrar uma solução.

E como não produzimos somente dejetos humanos, temos que pensar em outro aspecto fundamental: lixo. Diariamente produzimos enormes quantidades de matéria que precisamos descartar. Claro que isso varia de acordo com o estilo de vida de cada um, mas é praticamente impossível vivermos sem produzir lixo algum. Qualquer um que tem ou já esteve em alguma casa de campo sabe que, ao final da sua estadia, você recolhe todo o lixo produzido que, a propósito, eu não sei quanto a vocês, mas a minha experiência pessoal é de sempre obter espanto ao observar a quantidade de lixo que poucos de nós, seres humanos, somos capazes de produzir em tão pouco tempo. O quão excessivo é o nosso consumo no campo, local onde teoricamente não precisaríamos de tanto para viver, porém ficamos extremamente apegados ao nosso estilo de vida da grande cidade onde o “must have” abrange tantos elementos, principalmente aliado ao pensamento de que nada pode faltar sem a possibilidade de providenciar num mercado para atender nossos desejos. Mas deixando esse pensamento de temporada de lado, pensando numa vida permanente no campo, você pode até encontrar como solução de tempos em tempos juntar uma grande quantidade de lixo e depositar numa lixeira do bairro, mas isso não é exatamente uma solução, concordam? Isso é retirar da sua visão micro e transferir ao macro a responsabilidade de resolver um problema.

Pois é exatamente isso que fazemos todos os dias nas metrópoles. Pagamos impostos e contas de consumo mensalmente e em troca não precisamos pensar nisso. Nossa vida atribulada e bastante atarefada na cidade não nos permite este tipo de preocupação. Entendemos que o Estado ou as empresas privadas ligadas a ele tem obrigação de resolver este tipo de questão. E ainda que não tomemos conhecimento sobre a forma com a qual isso é feito, nos damos por satisfeitos por simplesmente não termos que nos envolver com isso. Gastamos boa parte do nosso tempo com o nossos trabalhos, famílias e obrigações do dia a dia para além de tudo termos que pensar no meio ambiente e itens básicos de sobrevivência. Temos que fazer exercícios regularmente, estarmos atualizados com relação às notícias do mundo, comer ou deixar de comer determinados produtos e ainda pensar em elementos tão essenciais, pelos quais pagamos por seu bom funciomaneto? Nem pensar.

Nem pensar mesmo. Porque se você parar para pensar, vai ver o quanto esses serviços são ineficazes. Sem tirar o mérito pela grandiosidade desses sistemas de escoamento e complexidade, dado o enorme contingente populacional que depende disso, muitas vezes a sensação que dá é o equivalente a pagar uma diarista para no fim do mês descobrir que toda a sujeira da sua casa foi jogada para debaixo do sofá. Você pode passar semanas vendo seu chão brilhando, mas a sujeira está lá e em algum momento não vai mais caber neste espaço limitado. Imagine todas as embalagens de biscoito, todo o papel higiênico, toda a matéria orgânica ali. Provavelmente antes de esgotar o espaço físico, todo este lixo vai, no mínimo começar, a feder.

Não queremos mais gastar tempo com itens básicos. Até comer se tornou um fardo, não o ato em si, mas tudo que é necessário para que a comida chegue na sua mesa. Ir ao mercado já é cansativo o suficiente para vc ainda ter que refletir sobre a procedência de cada produto, se faz bem ou mal à sua saúde e, não menos importante, à saúde do planeta em que vivemos. Este local tão grande e tão difícil de mensurar quanto 1 trilhão de dólares é tão microscópico quanto a água que você bebe e o ar que você respira. Basicamente toda a tecnologia e avanços na ciência acabam convergindo para um verbo: otimizar. Otimiza-se a produção, para otimizar nosso tempo e nosso lucro. Assim teremos tempo para passar um tempo livre com a família, tomar um banho de sol na praia ou até mesmo ficarmos horas e horas anestesiados olhando para a televisão, ainda que sem assistir nada, somente olhando para não ter que pensar em nada, ou então jogando candy crush com o mesmo objetivo. Esvaziar a mente entupindo ela de informação inútil. A “meditação” dos tempos modernos.

Realmente, nosso tempo está muito curto, né? Será mesmo? Será que não devemos dedicar parte dele estudando e tentando encontrar formas mais eficazes, menos imediatistas e mais inteligentes de resolver estes tópicos? Por nossos próprios meios ou cobrando do governo verdadeiras soluções? Diminuindo nosso consumo, sendo mais conscientes de que tudo o que fazemos tem consequências? Afinal, o que os olhos não vêem, o coração sente sim. As doenças estão aí demonstrando isso. A natureza também.

Então voltemos ao nosso ponto de partida, nossa área verde onde tentamos refletir sobre soluções básicas infraestrutura. Este exercício é diário na vida de muita gente, pessoas que decidiram que não podemos continuar como estamos, usando o planeta como se não houvesse amanhã. Pessoas que buscam incessantemente achar soluções mais eficazes para estas questões. Muitas, inclusive, já colocando este conhecimento prática há um bom tempo nas chamadas Ecovilas, várias delas podendo apresentar um reaproveitamento quase que completo do que é descartado e utilizando fontes de energias renováveis. A grande crítica a este modelo realmente é que resolve somente numa pequena escala e “obriga” a quem quer aderi-lo a morar no campo.

Porém, melhor soluções em pequena escala do que nenhuma, não? E não é só porque moramos nas cidades, que devemos fechar os olhos, empurrando a sujeira para debaixo do tapete. Precisamos nos envolver, questionar, cobrar e, principalmente, mudar nosso pensamento de consumismo desenfreado. Fique tranquilo, nada disso salvará o planeta. O planeta se salvará, ele é incrível, já passou por crises inimagináveis e, nem que demore bilhões de anos, ele se regenerará. Com sorte, salvaremos a nossa própria pele.

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15 de September de 2014 at 22:13 Comments (0)

Minha ideia pra combater o consumismo

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Há uns nove meses atrás, eu escrevi aqui no blog sobre uma nova ferramenta que eu havia desenvolvido, após uma tentativa frustrada de desenvolver um site. Como geralmente acontece com essas coisas, a “finalização” da ferramenta deixou um vazio, por que agora eu estava empolgado com programação e a vontade de fazer um site não tinha morrido.

Vou ser sincero. Não faço a mínima de como me veio a ideia de fazer o site sobre o qual vou falar aqui nesse post. Começamos eu e meu irmão, Pierre, a desenvolvê-lo a aproximadamente cinco meses atrás. Eu sei que queria fazer alguma coisa relacionada a interface de mapa (naturalmente puxando o gancho do Xumb) só não sabia exatamente o quê.

Então um dia pensei: que tal se existe um site que permitisse as pessoas doar coisas umas pras outras, tendo o mapa como apoio para que elas possam ver o que tem disponível e o melhor, exatamente aonde está, entre outros detalhes como categoria, estado, etc. No início a ideia foi apenas fazer um site com mapa, qualquer coisa – mas ao mesmo tempo, tinha que ter significado, algo que fosse importante pra mim. Em algum momento veio a ideia das doações e ai a coisa foi tomando corpo e me empolgando cada vez mais pra fazer. Meu irmão aceitou o desafio e começamos a colocar a mão na massa.

Conheçam o Interessa.org, um site que ajuda pessoas que querem doar algo mas não sabem para quem. Você já deve ter passado por essa situação antes – se bobear tem nesse momento uma sacola cheia de roupas, ou brinquedos velhos do seu filho em algum canto esperando o momento e a pessoa certa. Agora tem um site pra ajudar você a encontrar essa pessoa, que fará bom uso daquilo que pra você não serve mais.

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E como que entra o consumismo nessa ideia? É simples. Doar deveria ser uma ação muito mais frequente do que é hoje. Mas não no sentido de caridade – um foco maior no desapego e economia alternativa. Deveríamos estar constantemente “nos livrando” daquilo que não usamos mais, para exercitar esse desapego e para abrir nossos olhos para nosso próprio consumismo. Quanto mais você doa, mais você percebe a quantidade de coisas inúteis que tem em casa. Coisas que comprou por puro impulso, as vezes nunca usou. Mas a coisa não é inútil em si. Pode haver (aliás, com certeza há, aposto nisso) por aí muita gente interessadíssima naquilo que você deixa no fundo de uma gaveta acumulando pó.

O site aparece como um facilitador de contato entre quem quer doar e quem está interessado, numa interface de mapa onde podem ser aplicados filtros e visualizado de forma simples o que tem mais perto de você. Instituições podem se cadastrar também, e é possível monitorar aquilo que está sendo cadastrado, por categorias e distância. Assim, por exemplo, você pode dizer que tudo que é brinquedo usado até no máximo 5km de distância te interessa e você será avisado sempre que um aparecer. Molezinha.

Claro que o tema do abuso já passou pela minha cabeça. Sempre haverão os mal intencionados que se aproveitarão da interface fácil pra sair pedindo tudo, ou pior, se aproveitar da bondade alheia em maneiras inimagináveis. Mas é assim com tudo na vida, com telefone, televisão, internet, etc – e isso não pode impedir que novas ferramentas e novas formas de comunicação surjam pra melhorar a vida de todos e colaborar pra espantar alguns dos grandes fantasmas da nossa sociedade capitalista: o consumismo, a obsolescência planejada e o desperdício.

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11 de September de 2014 at 11:23 Comments (3)

Israel, Palestina e as narrativas infinitas

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De novo esse conflito não tem nada. Aliás, levando em consideração esta geração e todas as guerras que estudamos na escola e as que vimos passar ao vivo na TV, esse pode ser considerado o mais antigo ainda em plena atividade.

Mas uma coisa é totalmente nova, que é a cobertura do evento na era das redes sociais onde as notícias (e as opiniões, é claro) são bombardeadas com a mesma intensidade dos mísseis e incursões de tanques por terra. Apesar de não ser de hoje a intensa cobertura midiática da coisa, nunca foi tão rápido e dinâmico o noticiamento dos bombardeios, mortes e outros atentados – e a emissão de tantas opiniões e análises dos muitos blogs, vlogs e jornais online. É tanta coisa, num ritmo tão acelerado que ficamos até tontos.

Pois bem. Dessa vez (digo, no atual estágio do conflito) me interessei como nunca havia antes e resolvi estudar o assunto um pouco mais. Já não é de hoje que a mídia de massa tradicional é completamente irrelevante pra mim como fonte de informação e opinião, então geralmente o que chega à minha atenção é de certa forma “filtrado”. Não necessariamente certo ou “melhor” – naturalmente de acordo com minhas ideologias – mas pelo menos com um menor grau de manipulação e opiniões muito parciais.

Levando em consideração minhas fontes atuais de informação – facebook, Quora, blogs, vlogs, jornais e pensadores que acompanho – notei uma situação não muito comum. O que eu já tinha ouvido falar bastante em relação a esse conflito se confirmou. O tal do “é complicado”. Mas não usado pelos formadores de opinião (professores, jornalistas, blogueiros, filósofos) com objetivo de se eximir da obrigação de opinar, mas sim numa tentativa (muitas vezes frustrada) de assumir, a priori, alguma parcela de culpa por não conseguir emitir uma opinião plenamente informada. Os que sequer mencionavam o “é complicado” (não necessariamente com essas pobres palavras, é claro) fatalmente caiam em erros factuais e parcialidades.

Por que esse conflito é muito, mas muito complicado mesmo. A medida que ia lendo (muito), refletindo, estudando e vendo vídeos de aulas, ao invés de me sentir mais capacitado a opinar (e quem sabe, escolher um lado – coisa que hoje me parece uma covardia intelectual gritante), o contrário se observava – eu ia ficando mais confuso, não sabia mais no que (e em quem) acreditar.

Comecei a perceber que estava cercado por uma infinidade de narrativas subjetivas, cada autor juntando os fatos como acreditava que eles se conectavam para formar o todo – na tentativa de explicar a aparente falta de esperança de solução que ronda esse conflito. Um dos complicadores é que essa briga tem suas raízes em questões religiosas que se misturam com políticas, através de guerras e perseguições, que podem tanto “começar” no fim do século XIX como no século I quando os judeus foram expulsos pelos romanos daquela região. (Antes disso?)

Se você vê uma aula que começa a explicar o “problema Israel x Palestina” começando no fim da primeira guerra mundial, e pulando logo pra 1948, uma outra que inicia a explicação no final do século XIX, e outra ainda voltando até idade média, citando a vida dos judeus na Europa, a convivência “pacífica” que os judeus tinham com os árabes na Palestina, etc – como escolher qual está mais acertada? Quantas décadas ou séculos precisamos voltar para tentar entender? Algumas explicações colocam o Sinonismo como principal motor para a migração em massa de judeus para a Palestina (talvez onde tenha começado a ficar “esquisita” a convivência com os árabes), meio que já com a futura Israel em mente; outras nem tanto, não levam isso em consideração como ponto importante da problemática. Hoje em dia o foco está no Hamas e suas táticas terroristas (escudos humanos, lançar mísseis a partir de escolas, etc), mas eles nem sempre estiveram no poder e no início eram uma organização de assistência social – mas que se desvirtuou e passou a adotar uma abordagem fundamentalista, que antes era obra do Fatah (do Yasser Arafat, lembram dele?). Ou seja, focou, perde-se o contexto maior. Abriu o leque histórico e entram trocentos mil fatos muito relevantes para uns e irrelevantes para outros.

E ai? O que veio primeiro, o ovo ou a galinha? Quem deu o primeiro tiro? Isso é realmente importante no cenário atual? O que ocorre é que, sempre que você ler algo a esse respeito, especialmente se estiver tentando entender todo o contexto histórico, você vai ser apresentado a uma narrativa daquela pessoa, seja ele jornalista, PhD em história árabe, judeu sionista, muçulmano ou ateu. Como a história é de fato muito embolada (procure algumas aulas por aí, no Youtube tem várias) e repleta de erros e burradas por parte das nações dominantes em cada período da história, fica muito fácil deixa-se levar por uma narrativa bem amarradinha que conte a história juntando uma cacetada de fatos históricos numa sequência que parece perfeitamente lógica. E aí você começa a “pender” para um lado culpar o outro. Isso não ajuda ninguém. Enquanto isso for deixado para ser resolvido no um-contra-outro, só pode acabar em merda, ou com Israel aniquilando totalmente toda insurgência de Gaza ou o Hamas colocando as mãos numa bomba atômica e pulverizar 8 milhões de judeus de uma vez só numa espécie de Holocausto Instantâneo.

A mensagem final que precisa ficar é: de forma alguma procure um lado, por que os dois estão muito errados. Hamas se utilizando da covardemente da mídia para parecer coitadinho e Israel não respeitando leis internacionais ao ocupar territórios palestinos, entre outras barbaridades praticadas pela IDF. Os dois fazem merda atrás de merda, e eles não querem (ou não parecem querer) paz. Israel nunca vai ter paz enquanto houver Palestinos que os odeiam por tê-los expulsado de sua terra. A Palestina nunca vai aceitar Israel do jeito que está ali. Cabe à comunidade internacional procurar soluções para mediar o conflito e manter a paz, tentar desfazer a merda que fizeram há quase 70 anos. Eu sinceramente não vejo como. Mas nem por isso vou me render à confortável e covarde alternativa de comprar uma historinha que faz todo sentido, apontando as “reais vítimas” apenas de um lado, para odiar uma das partes e apoiar a outra incondicionalmente.

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30 de July de 2014 at 15:18 Comment (1)

“Motorista, pode abrir aqui, por favor?”

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Passageiro descendo fora do ponto

Um pedido tão simples, uma frase tão corriqueira, porém com grande significado. Quem costuma andar de ônibus já deve tê-la ouvido uma centena de vezes – e até tê-la proferido algumas tantas também. Mas o que tem demais nesse pedido?

Um assunto que me causa grande curiosidade e é constantemente objeto das minhas reflexões é a civilidade e o comportamento das pessoas, especialmente no conturbado meio urbano. O transporte público é um dos melhores laboratórios que existe para tais observações. Na ida e volta do trabalho geralmente as pessoas estão cansadas, com pressa e por causa disso, estão mais sujeitas a “furar um pouco” as regras do bom convívio, seja de forma inconsciente ou nem tanto.

Já não é de hoje que é vedado ao motorista parar fora do ponto. Há fiscais em alguns pontos, e tais fiscais podem relatar o desvio de conduta e o motorista ser punido – sem contar na perda de eficiência operacional como um todo, afinal, quanto mais paradas o ônibus faz, mais ele demora para completar a viagem. Mesmo assim, em algumas situações, com o ônibus parado em um sinal ou engarrafamento, se torna a oportunidade ideal para que um pedido de “posso descer aqui” seja atendido sem maiores problemas. Esse tipo de conduta de parar fora dos pontos é naturalmente muito mais comum em locais sem fiscalização.

Acontece que de uns dois ou três anos para cá, vem sido implantado no Rio de Janeiro o sistema BRS (Bus Rapid System), que cria faixas exclusivas para ônibus e separa as linhas em categorias (1, 2 e 3) fazendo com que os ônibus não parem mais em cada ponto existente, mas apenas no pré-definidos. Um sistema evidentemente mais eficiente, que beneficia a todos – mas obviamente recebeu críticas dos usuários de carros que agora tem menos espaço para circular (um outro exemplo da visão limitada de que trato nesse texto). O pedestre terá que andar coisa de dois ou três minutos a mais para chegar ao ponto correto, para que o sistema com um todo, e seus usuários, tenham um ganho de dez a quinze minutos no total do trajeto do ônibus (estou chutando aqui, mas só para base de comparação) – sem contar na viagem mais agradável, com menos paradas.

Mas o tal do “pode abrir aqui, por favor?” prevalece, sem indicativos de que vai diminuir, mesmo já tendo passado um bom tempo para que toda a população se acostume ao novo sistema. Não só o pedido se mantém constante, como a reação à resposta negativa do motorista é a da mais pura revolta, caras feias e as vezes até xingamentos. É possível perceber aqui o quanto o cidadão está realmente preocupado com o bem comum, quando um incremento na qualidade de vida de todos cause um incômodo, ínfimo que seja, em sua vida.

A famigerada frase, que pode soar a tantos como totalmente inofensiva – “não custa nada” – é uma demonstração de egocentrismo agudo (seja oriundo de uma cabeça muito ocupada com problemas e dificuldades ou pura ignorância), um pedido “bobinho” para que o motorista fure as regras do sistema para atender a um pedido pessoal, que ajudaria bastante naquele momento a quem está com pressa. Se não, só no próximo ponto, o correto. Mas o correto é longe e “não custa nada abrir”, não é?. Não é. Custa sim. Se a pessoa for capaz de escapar do loop mental que a prende nas próprias necessidade individuais e pensar um pouco no coletivo e no funcionamento do transporte público como um todo, vai ver que pequenas coisas assim – multiplicadas por cada pessoa que pede, em cada cada ônibus – fazem uma grande diferença no total. Tanto que em países “civilizados”, tal pedido sequer é cogitado, ninguém nem pensa em pedir para parar fora do ponto. É algo impensável, digno de vergonha. Aqui, ao contrário, é a norma, e o motorista se vê obrigado a ser “o chato” quando responde negativamente, as vezes precisando ser duro e ríspido, apenas cumprindo as regras e fazendo seu trabalho.

Civilidade, em última análise, não é nada mais que isso. É ser capaz de escapar do seu mundinho particular, da sua pressa, do seu atraso, do seu incômodo, e pensar no todo. É estar constantemente atento a este todo (não precisa ser neurótico, como alguns devem pensar, para comodamente se afastarem da ideia), pois onde circulam milhares de pessoas, o espaço que seu corpo ocupa pode estar incomodando alguém ou atrapalhando a movimentação de pessoas e veículos. Você não está com pressa sozinho, seus problemas não são mais especiais – todo mundo quer chegar em casa/no trabalho logo, e para isso o sistema tem que ser o mais eficiente possível, dependendo da colaboração de cada um. Parece tão óbvio, mas não é. No momento que alguém fala “posso descer aqui?” e faz cara feia ao tomar um “não” do motorista, tudo isso que parece óbvio se torna obviamente o contrário na cabeça daquela pessoa. Como podemos atingir civilidade e respeito ao próximo dessa forma? Difícil, muito difícil.

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17 de July de 2014 at 10:16 Comments (2)

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