Sobre Ser Selvagem, Ter Coragem e Não Guardar Rancor

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Quando eu era criança, minha tia Arminda morava em Piratininga, praia linda praqueles lados ali de Niterói. Não sei como está agora, mas naquele tempo era mesmo um pedacinho de paraíso. Com a minha tia moravam vários cães, alguns de raça outros não. Não sei ao certo o número, mas passava de 10 com certeza.

Eu passei muitas férias lá. E amava. Fiz amizade com a galera da rua, aquela coisa toda. Era mesmo aquele período da vida que você não tem preocupação com nada e tem dias infinitos de praia, bicicleta, pique tá, salada mista.. rs! E, ainda por cima, dentre todos aqueles cães, tinha o Rex, o pastor alemão da minha tia.

Por que especificamente o Rex? Porque ele era visivelmente diferente dos demais. Primeiramente ele era mais forte e mais ágil que os outros. Só que, o mais impressionante, era que ele olhava com uma profundidade superior, parecendo estar lendo a sua alma. Aprendia rápido. Deixava que a gente agarrasse ele, apertasse mesmo. Era meigo e carinhoso. Com a gente. Se algum estranho encostava no portão ele já fazia aquela cara de bolado e intimidava geral.

Como não se apaixonar por um cão assim? E eu passei uma parte importante do meu desenvolvimento junto à este cão. Literalmente, crescemos juntos. Mas é triste que o tempo dele seja tão mais rápido assim que o nosso e eu sofri quando ele se foi. Ficou aquela vontade eterna de poder conviver com outro cão com características semelhantes. Claro, semelhantes, porque cada cão tem personalidade própria e isso é com certeza o que mais cativa o ser humano.

Só que eu nunca pude nem ao menos cogitar a possibilidade de conviver com um cão deste porte nos apartamentos que morara até então. Quando casei, mudei para um local com tamanho apropriado, mas o mais importante mesmo é ter hoje um estilo de vida que me permita o comprometimento de ter um cão deste porte. Eu não sou uma criança que quer um au au, não quero colocar fotinhos legais de pastor alemão no meu Instagram. E eu levo a criação do Logan muito à sério, quem me conhece sabe.

Antes de mais nada, procurei incansavelmente um canil de confiança. Em uma primeira fase na internet, depois em grupos de criadores, depois visitando diversos canis, até chegar ao canil onde conheci a mãe e o pai do Logan. Em Teresópolis (lá é meio que um polo de criação de cães); Instalações perfeitas, ambiente totalmente acolhedor onde os cães visivelmente adoravam viver. Muitíssimo bem treinados, fiquei bem impressionado. Só fiquei triste quando ele me disse que, segundo o ciclo de cruzas que ele permitia à cadela dele ter, ela só teria filhotes agora depois de mais de um ano da data que estávamos. Eu teria que esperar. Mas a causa era nobre e achei muito legal que ele agisse assim. Esperei.

Voltei lá um ano e meio depois, assim que permitido visitar, quando o Logan tinha apenas 21 dias. Todos os filhotes muito bem tratados, em um ambiente totalmente asseado. A mãe lindona, forte, amamentava 14 filhotes. Eu seria o primeiro a escolher. Segui o conselho do Milan e não fui no mais extrovertido. Observei outro mais calmo. Lindo. Era o Logan, nunca vou esquecer. Depois de mais 40 dias, voltei lá para finalmente trazer o Logan para nossa casa.

Antes disso, eu já estava estudando à vera. Livros de adestramento e, principalmente, psicologia canina, que eu ainda não estava ligado como é importante e, mais que isso, fascinante. Ele aprendeu tudo com uma velocidade incrível e, o mais viagem, algumas coisas ele aprendeu sozinho. Não, na verdade o mais viagem mesmo é o tanto de coisa que ele com apenas dois anos e meio já me ensinou sobre a vida. Nós temos uma parceria transcendental, de vidas passadas, sei lá.

Percorremos milhares de quilômetros juntos, caminhando ou de bicicleta, somando uma hora e meia de treino todos os dias. Every fucking day. Fazemos jardinagem, limpamos a piscina, vamos ao Parcão, Quinta da Boa Vista, Leblon, Joatinga, São Paulo, Paraty, Trindade, São José, Lumiar.. é impossível imaginar minha vida sem ele. Nossa vida, no caso.

Porque no começo a Xanda era contra. “Por que não um cão menor Newton? Precisa ser um Pastor Alemão?”. E no primeiro dia ela se apaixonou e se envolveu de maneira absoluta. Sem o engajamento dela, as coisas não dariam tão certo como deram. E ontem, ela ficou até meia noite preparando a “comida natural” do Logan. Ela mesma estudou tudo sobre alimentação natural canina, estava cortando e pesando todo o conjunto para congelarmos. É o último movimento para o Logan ter o que estamos chamando de vida perfeita para um cão.

Nessas andanças em matilha conheço muitas outras pessoas que convivem com cães em suas casas. Nem todos são gente boa, mas muitos são. Impressiona perceber que a maioria não tem a menor noção de comportamento canino e, na maioria das vezes sem querer, faz o cão sofrer de ansiedade de alguma maneira. Muitas dessas pessoas adotaram cães, alguns já em situação degradante. E eu estimo muito isso. De alguma maneira, eles são mesmo heróis por esta atitude.

Agora, não é por isso que alguns podem pensar que tem o direito de acusar publicamente criadores e treinadores de cães de raça de serem culpados pelos maus-tratos feitos a cães em canis que nada mais são do que verdadeiros pardieiros. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. É quase como pedir que mais nenhuma mulher engravide porque já há crianças demais no mundo. Há canis e canis, e é papel do criador/comprador estudar e procurar quais canis possuem boas práticas de manejo, não comprar no Mercado Livre ou em algum fundo de quintal.

Muitos que têm essa posição radical não gostariam (e nem entenderiam), caso eu dissesse que dormir na mesma cama ou deixar que suba no sofá não é muito bom para a cabeça do cãozinho deles. Deixar comida à vontade ou dar sua própria comida a ele também não. Será que essas pessoas fazem tão bem aos seu cães quanto pensam? Realmente estudaram? Este estudo sim é sinônimo de amor. Muitas atitudes que a maioria pensa serem boas para os cães, na verdade são boas para si mesmas, com decisões tomadas por achismos, sem perceber o egoísmo dessa posição.

É sempre aquela velha história: por que é tão difícil olhar para si mesmo primeiro, antes de apontar o dedo aos outros? Será que a maioria das pessoas que acusaram criadores de cães de raça de serem na verdade assassinos de cães são pessoas éticas e de caráter tão irretocável para julgar outros através de uma comparação esdrúxula, que coloca todos os criadores que compraram seus cães no mesmo bolo?

O preço que se paga é o ódio

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Quando eu era adolescente, fui apresentado pela primeira vez, não sei exatamente quando, ao conceito-frase “There is no free lunch” (não há almoço grátis). Na ocasião, absorvi apenas uma pequena parte do que esse simples conceito representa, que seria o de que as coisas na vida que parecem ser grátis, realmente não o são. Então quando eu via alguma coisa escrito “Grátis” na banca de jornal ou no mercado, eu lembrava dessa frase e imaginava o que haveria por trás dessa palavra mágica. Claro, o “almoço grátis” se refere a prática comum no mundo corporativo de empresas chamarem executivos de outras empresas para um “almoço de negócios”, pagando toda a conta obviamente, onde vão discutir formas de alavancar seus produtos e serviços. Para os convidados parece uma ótima, comer de graça, sem compromisso. Mas enganam-se. Um dia o valor daquele almoço lhe será cobrado em dobro, seja em forma de um favor, seja em forma de um contato, ou de uma “ajudinha” pra fechar um contrato.

Hoje em dia, na internet, vivemos a ilusão que tudo parece de graça. Claro, há muitos serviços pagos, mas é perfeitamente possível usar os gratuitos, que são excelentes, e se virar muito bem.

Há alguns anos, fiz uma reflexão similar sobre o custo da TV aberta (não achei aqui no blog, snif). Analogamente, a mesma chega sem custo em nossos lares, oferecendo conteúdo sem que precisemos mexer no bolso. O custo, evidentemente, está na tonelada de anúncios a que você é submetido. Mas as pessoas, mesmo assim, ainda creem que estão fazendo um bom negócio, pois não percebem como aqueles anúncios a afetam. Na verdade, sentem-se completamente imunes ao jogo do consumo e vivem na ilusão de que suas decisões na hora de comprar são totalmente conscientes, racionais e livres de qualquer estímulo midiático. Ahã.

Mas existe um jogo novo na praça. Bom, não é exatamente novo, essa coisa que engoliu o mundo chamada da “rede social” já está por aí há cerca de 10 anos. O facebook foi criado em 2008. Ainda assim, acho que dá pra chamarmos de novidade pois a forma como o facebook (e outras redes) foi se inserindo em nossas vidas de forma a se entremear em praticamente todos os apectos dela, ainda está a todo vapor. É raro encontrar pessoas que não acessem frequentemente, praticamente a mesma proporção dos que não bebem.

E assim como tudo na vida, o facebook não é um almoço grátis. O Google também não é, nem o Twitter ou o Instagram. Assim como a TV aberta, esses serviços tem em seu modelo de receita basicamente estar sempre aumentando seu número de usuários, mantendo-o os conectados o máximo de tempo possível – para? Acertou, oferecer anúncios, cada vez mais personalizados e imperceptíveis.

Mas no caso das redes sociais, há ainda um outro preço a pagar, ainda mais difícil de identificar como custo efetivamente. Se os anúncios são facilmente desprezados e considerados ínfimos incômodos em relação ao serviço oferecido, esse outro “custo” passa ainda mais batido. Estou falando do ódio. Sim, o ódio.

Não é nova essa reflexão, já alguns anos alguns especialistas começaram a notar o crescimento exponencial de redes de ódio na internet, pessoas que se organizam em grupos, em sites e redes sociais para espalhar mensagens de ódios à minorias e outros grupos socialmente marginalizados. É inegável o efeito que as redes sociais tiveram em facilitar a criação desses grupos e o anonimato dos mesmos. Mas não é só nesses grupos fechados que está o problema. O real custo está no dia-a-dia, dos debates que ocorrem nas redes sociais sobre os mais diversos e polêmicos assuntos.

Claro, nem todos, aliás, eu diria só a minoria, usa o facebook e outros sites para discutir assuntos sérios como política, economia, questões éticas e eventos de interesse público. Mas são uma minoria bastante verbal (estou incluido nela, é claro) que incomoda bastante os que estão ali apenas a passeio para compartilhar selfies e fotos de comida. E cada vez mais eu percebo como os assuntos iniciados no facebook viram assuntos fora dele, sendo que o foco é sempre na forma e não no conteúdo. Percebo as pessoas cada vez mais chocadas em como é fácil – e corriqueiro – que pessoas, amigos e conhecidos, que são bons de papo no tête-a-tête, mas quando estão atrás do teclado, parece que debatem sem camisa, suando, com uma faca entre os dentes.

E isso não é de hoje, tanto que já tem uns dois anos que eu transformei meu facebook em um centro de notícias. Não há publicações de pessoas no meu feed, e isso me isola desses debates desnecessariamente acolaroados, que 99 em 100 vezes, não levam a absolutamente nada. É uma forma de me manter minimamente em contato, sem pagar esse preço do ódio. Esse eu me recuso a pagar. Já me senti bastante afetado por ele e certamente me identificaria com esse texto caso o tivesse lido dois anos atrás. Na época, o custo era pago a vista, com débito automático.

Que o trânsito nos transforma todos em babacas irritados, acho que todos já sabem, mas infelizmente pra evitá-lo, só saindo da cidade. Já a rede social, é um vício a ser combatido (e acreditem ou não, é bem mais fácil se identificar com sentimentos ruins como raiva e ódio do que se imagina), igual o da TV, que refleti a alguns anos atrás.

Os tais três primeiros meses (da paternidade)

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Um bebê chorando

Meu filho faz sete meses daqui há alguns dias. Já tem algum tempo que pretendo escrever esse post, mesmo sabendo que iguais a ele devem haver trocentos por aí – mas eu não acompanho nenhhum “blog de mãe” então não li nenhum, nem antes do parto nem em nenhum momento depois. Fiquei enrolando por que precisava ter certeza de que a tal “fase crítica” da paternidade já estava no passado e eu poderia olhá-la de longe, com uma perspectiva mais ampla. Acho que já deu. Se demorar muito mais, vou esquecer. É o que falam por aí que acontece.

Uma das coisas que você mais ouve de pais de bebês é que “passa muito rápido”. Sempre que ouvi isso, achei uma enorme bobagem pois entendo muito bem por que a gente percebe o tempo de maneiras diferentes, dependendo do nosso estado mental: os minutos antes do recreio são os mais longos do mundo, enquanto aqueles “só mais 5” que você passa brincando com seus amigos parece que duraram meros segundos. Enquanto estávamos, eu e minha mulher, passando pela fase crítica dos três primeiros meses, nunca esse conceito de “passa rápido” me pareceu mais estapafúrdio: as madrugadas com meu filho berrando de dor no meu colo duravam eternidades. E elas se repetiam; dia sim, dia também. Eu, como bom ansioso que sou, ficava torcendo pra esse marco dos três meses chegar logo – essa também era uma coisa que todos falavam: calma, depois de três meses melhora muito. Nisso escolhi acreditar religiosamente.

Pois bem, vamos ao que interessa. Meu objetivo aqui não é assustar ninguém querendo ter filhos, minimizar o perrengue ou tirar onde que eu “passei por essa” fase da vida. É um relato e nada mais. Eu tenho certeza que daqui há alguns anos virei aqui ler isso de novo, para lembrar de como era. É tanto para mim como para meus parcos leitores.

Por que é que são 3 meses? Não sei. Não esperem aqui dados sobre a biologia dos bebês e seu desenvolvimento. Não entendo nada disso (tirando é claro a sabedoria popular de facebook). Acho que é uma coisa mais de senso comum, por que de fato (talvez eu estivesse sob sugestão, vai saber), a coisa dá uma bela melhorada por volta desse período.

E o que rola nesses três meses que o tornam tão estressante e cansativo? Vamos lá.

Primeiro vem o óbvio que é o soco no estômago que é o parto. No meu caso (ou melhor, no caso da minha mulher) foi parto normal e foi bem forte a experiência. Nunca havia visto minha mulher sofrer tanto e isso deixa marcas. Os primeiros momentos da vida do bebê te colocam contra a parede de uma maneira como nada antes na vida se compara. Seu despreparo é total e isso gera muita ansiedade. Lembro que das 48h que passamos na maternidade eu devo ter dormido umas 5h no máximo. Ficamos podres. E aí você vai pra casa com aquela mini-coisa frágil e mole que sequer sabe se mexer sozinha direito. Você fica tonto sem saber o que fazer.

O bebê até os três meses não interage. Isso é foda. Ele não consegue fixar o olhar, ele não te reconhece. Ele só mama, dorme e chora. Não existe outro estado possível. Ele não brinca, não sorri e não consegue fazer nada. Fica só lá parado, com olhar sério, mirando fixo o vazio. É muito complicado você desenvolver um real sentimento por aquela coisinha, mesmo ele sendo seu filho e ter sido tão esperado. Sendo bem duro e sincero aqui, aquela coisa que você se apaixona loucamente no momento que ele nasce é pura balela. É um processo, lento e nesses três primeiros meses de perrengue frenético, eu diria que o sentimento ainda é bem fraquinho. Mas ele existe, é sutil, mas está lá. Afinal só mesmo um amor que você nem entende direito é capaz de te dar essa força pra aguentar tanta barra.

Além do fato do bebê ser extremamente indefeso e molinho, os pais estão sob um estresse muito grande. Especialmente a mãe que passa por transformações biológicas tremendas e ainda sob efeito de uma cacetada de hormônios. O bebê nessa fase é totalmente imprevisível e pode começar a berrar do nada, deixando os pais num estado de alerta constante. Além disso, como o desenvolvimento é acelerado, a cada semana ele muda. Então você desenvolve uma técnica “supimpa” pra acalmá-lo e fazê-lo dormir e fica se achando o tal. Do nada para de funcionar, sem aviso. Se vira pra inventar outra e começar tudo de novo. A amamentação, que também é muito vendida como algo lindo e sublime que te conecta ao bebê pode ser uma fonte de stress e ainda mais preocupação. Não vou entrar em detalhes, mas no nosso caso, não foi nada fácil.

Eu sou uma pessoa metódica e adoro rotina. O bebê vem pra detonar tudo que é método, processo e rotina. A casa fica uma bagunça, os horários viram todos de cabeça pra baixo, e até pra comer fica complicado. Não preciso nem falar que o conceito de “tempo livre” vira coisa do passado. As coisas que você fazia pra relaxar e “passar o tempo”, esquece, agora o tempo que você tem “livre” é pra arrumar a casa e descansar – quando der.

E algo que nem preciso mencionar são as madrugadas insones, acordar de 3h em 3h pra amamentar, fora crises de cólica e e gases – que no nosso caso duraram mais de um mês, todo os dias. Punk!

E como que melhora? Não é exatamente uma coisa ou outra que de repente “puf”, some como mágica e a vida melhora. É um conjunto de coisas que aos pouquinhos vão se estabelecendo, junto com o desenvolvimento do bebê. E o conjunto dessas coisas, de fato, atinge um ponto de inflexão por volta dos três meses.

Primeiro que a partir dos dois meses, o bebê começa a sorrir, ou seja interagir. Te olha no olho e te reconhece. De repente ele começa e querer brincar e você se vê capaz de divertir ele – por volta dessa período, o sentimento passa a ficar mais forte cada vez mais rápido. O bebê começa a ficar “durinho”, ou seja, você já consegue começar a carregá-lo sem tanto medo da cabeça dele cair pra tras violentamente. A casa já tem uma rotina. Mesmo que ainda meio bagunçada e ainda pior antes do nascimento, já dá pra confiar em alguns horários. Ele passa a dormir cada vez mais, especialmente de madrugada. Passa de 3h, pra 4h pra 5h e de repente está dormindo 8h. Claro que isso varia muito de bebê pra bebê, tem uns que não dormem bem nunca, mas em compensação tem outros que não tem sequer uma crise de gases na vida. As dificuldades variam.

Os pais também já estão bem mais calmos, o bebê fica mais previsível e as mudanças já não ocorrem na velocidade da luz. O choro já não desespera tanto, aquela sensação do “e agora?” já não é tão rotineira. Tudo que você teve que aprender na marra, agora você já está craque então aquilo não te causa mais ansiedade: trocar fralda e dar banho viraram algo tão corriqueiro como escovar os dentes. Mas algo que “falam bastante” (pois é, nunca na vida, esse “falam” teve tanto peso na minha vida) é que apesar desses três meses do capeta serem inevitáveis, não quer dizer que ao final deles, tudo fica suave. Os desafios agora são outros e a cada nova fase vamos aprendendo e nos virando. E agora que o “pior” (será?) passou, olha que coisa, já estamos pensando no próximo. =)

Um diálogo sobre aborto

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– … e aí ela teve que fazer um aborto, coitada.
– Sou contra.
– Contra aborto?
– Sim. Pra mim é homicídio.
– Peralá, vamos debater isso, sem dogmas, ok?
– Ok, mas você sabe que eu tive formação religiosa.
– Eu também, estudamos na mesma escola.
– Sim, mas você nunca acreditou, nunca deu bola pra educação religiosa.
– Verdade. Mas vamos lá, por que você acha que é homicídio?
– Não, antes responde você, você é contra ou a favor o aborto?
– Depende, é complicado.
– Como assim, depende? Ou é contra ou é a favor.
– Bom, é exatamente aí que essa discussão complica, e torna o debate muito pobre.
– Como assim?
– Você disse que é homicídio, e quando eu falei que depende, você ficou defensivo, então eu entendo que sua posição é categórica, não permite exceções e variações com base nas circunstâncias.
– Que circunstâncias?
– Por exemplo, se aquela criança for fruto de estupro, ou pior ainda, estupro incestuoso, não seria o caso para um aborto?
– Não. Toda vida é sagrada, não cabe a nós humanos julgar se podemos ou não eliminar uma. Onde vamos parar?
– Bom, aí que complica. Você estaria de acordo com o aborto com uma semana de gestação?
– Não.
– Mas com uma semana não tem nem feto ainda, é só um emaranhado de células, sem consciência, sem coração.
– Mas já tem alma.
– Não, não, não começa. Não inventa. Inventar coisas só piora o debate. Pra debater qualquer coisa, a gente precisa falar a mesma língua. Alma só existe na sua visão de mundo. Não na minha e nem na de várias outras religiões ou falta delas. Sem dogmas, ok?
– Ok.
– Então, tirando a alma, concorda que o que chamamos de ser humano ainda não começou ali?
– Não concordo. Já é um ser humano, só não plenamente desenvolvido. Se a gravidez não for interrompida, nascerá uma criança.
– Potencialmente.
– Como assim?
– Ué, não é toda gravidez que vai a termo. Inclusive é comum mulheres perderem o primeiro filho.
– Mas perder o filho assim é um processo natural. Não era pra ser.
– E um produto de estupro era pra ser? Imagina a vida dessa criança, que vai nascer sem pai, ou pior, ser obrigada a viver com um pai que é um estuprador, um doente. Muitas culturas obrigam a mulher estuprada a se casar com o estuprador.
– Você está desviando do assunto.
– Não estou não. Tudo isso faz parte do assunto “aborto”. Por isso é que é complicado e precisa ser debatido. Eu, por exemplo, não sou a favor do aborto. Eu não desejo que as mulheres façam o aborto sempre que quiserem. Mas sou a favor do direito de escolha, especialmente em casos como estupro ou se a mãe vive em situação de risco e não se acha capaz de criar uma criança. Imagina ter um filho no meio de uma guerra civil.
– Não, aborto é assassinato. Você não justifica um assassinato com as circunstâncias da vida do assassinado, não é?
– Eu não sou a favor da pena de morte, se é isso que você acha. Acho uma solução brutal e simplista.
– Pois é, aborto também. É brutal.
– Como é brutal? Um emaranhado de células não tem a capacidade de sentir dor e muito menos ter consciência. Até 3 meses de gestação ainda não existe sistema nervoso. Um feto é o equivalente mental de uma planta.
– Você tem certeza disso?
– Disso o quê?
– Que não sente dor.
– Bastante certeza. A neurociência é muito avançada nesse ponto.
– E a consciência, você tem certeza?
– Certeza não tenho, mas tenho certeza que um cão tem muito mais consciência que um embrião, e não temos problema nenhum em colocá-los pra dormir quando nos apetece.
– Como você tem certeza?
– Certeza absoluta não temos de nada, não é assim que a ciência funciona. Existe um corpo de conhecimento, e esse corpo todo concorda que todos os mamíferos tem consciência – e que onde não há um sistema nervoso, não tem como haver uma. Não sabemos direito como a consciência funciona, mas sabemos que ela não existe sem um cérebro avançado o suficiente.
– Pois é, então vocês não sabem.
– E daí que não sabemos? Existem outras questões além dessa, que tornam o debate necessário. Por exemplo, existem dados e fatos, irrefutáveis, que abortos acontecem não importa se são legais ou não – e que mulheres pobres sofrem com isso, pois são obrigadas a se submeter a procedimentos em clínicas de fundo de quintal, muitas vezes há complicações e até morte. Mulheres ricas abortam a vontade, sem problemas.
– Olha, eu estou a par dessas questões, mas nada disso pode ser maior que uma nova vida, inocente, que é sagrada. Não quero que mulheres sofram e morram, mas também não posso concordar que matar bebês não nascidos é a solução.
– Mas o conceito de vida de vocês é exagerado, vai desde a concepção. A ciência discorda, e muitos países se baseiam nessa concepção pra fazer suas leis pró-aborto. Ninguém quer sair por aí eliminando fetos, mas o aborto é um problema sério, é uma opção que a mulher tem que ter. As vezes ela tem uma gravidez de risco, ou o feto é inviável. É preciso debater essas coisas e chegar num meio termo melhor pra toda a sociedade.
– Não tem meio termo.
– Então não tem debate, né?
– Não, desculpa.
– Tá, deixa pra lá. Vamos pedir a conta.
– Saideira?
– Saideira.

Moda – o ladro negro das tendências

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kim-kardashian-champagne-glass-butt-paper-magazineQuando você pensa na palavra “tendência”, o que lhe vem a cabeça, quase de imediato? Deixa eu tentar adivinhar: moda. Acertei? Acho que sim.

Essa palavra, que cada vez mais faz parte do léxico que até pouco tempo era apenas reservada aos estratos mais altos da sociedade, agora está, definitivamente, na “boca do povo” – e isso não é acidental.
Eu estava voltando de viagem, e ainda na rodovia, na entrada da minha cidade, passei por algo que me parecia como atacado de moda (onde provavelmente a maioria das lojas que atendem aos estratos mais baixos repõe seus estoques). Um grande cartaz dizia “Tendências? Aqui tem”.

Fiquei pensando com meus botões (apesar de que no momento, tenho certeza estar de camiseta), como é que pode, que pessoas que vivem com tão pouco, que precisam de tanto, possam se preocupar com o que quer que seja a tendência da moda no momento?

Alguém poderia pensar que estou agindo com enorme preconceito de classe, como se vestir-se bem e se “sentir na moda” fosse exclusividade dos mais ricos. Preconceito de classe nenhum, mas em relação a exclusividade, antes fosse. O dano seria infinitamente menor.

Se você ainda não assistiu ao documentário The True Cost, recomendo que o faça. Eu sempre tive enormes reservas com a indústria da moda, tanto pelo seu impacto negativo no inconsciente coletivo, criando padrões de beleza irreais, como, mais recentemente, por estar cada vez mais mirando mais longe, atingindo a todos, cada vez mais jovens, cada vez mais pobres. E esse documentário só serviu pra cimentar meu profundo desprezo por essa indústria por mais um motivo: o impacto negativo no sustentabilidade do planeta e no mercado global.

Uma coisa que o filme me fez parar pra pensar foi no fato de que uma coisa que mudou bastante recentemente no mundo da moda é que não temos mais os famosos desfiles de coleção, baseado em estações. Eram mega-eventos, nas capitais da moda, Milão, Paris e Nova York. Não existe mais isso por que as tais coleções simplesmente não duram mais uma estação inteira. Temos agora desfiles o ano todo e novas coleções (e “tendências”) a cada duas semanas, ou menos. E isso coloca uma pressão enorme em toda a indústria, do estilista aos funcionários extremamente mal pagos que irão fabricar as roupas – pois num mercado globalizado, o custo é o que mais importa, e se um país asiático emergente consegue fabricar as mesmas roupas e se adaptar mais rapidamente às mudanças de coleção por alguns centavos a menos por peça, por que não mudar toda a produção para lá? Uma competição nesse nível, leva a condições de trabalho inaceitáveis para a grande maioria do “mundo desenvolvido”. Não é nenhuma surpresa que 90% da “moda” do mundo seja fabricada em países pobres como Vietnam, Bangladesh e Taiwan.

E o mercado das tais “tendências” age rápido para fabricar esses novos padrões, o tempo todo. Afinal, o que são “tendências”, na moda? Basicamente, damos o poder a algumas pessoas, “formadoras de opinião”, ou simplesmente, “bonitas e estilosas” – de nos dizer como devemos nos vestir e nos comportar. Vou repetir para ficar mais claro: nós é que lhes damos esse poder. Se você já ouviu o nome Kardashian e sabe de quem se trata, isso se deve a um único motivo: a capacidade que elas tem de criar e vender tendências. E fazem isso de forma tão esperta, que faz parecer que aquilo tudo é natural, que são apenas pessoas ricas e bonitas vivendo suas vidas “com estilo” e sendo filmadas e fotografadas o tempo todo.

E agora, as tais “tendências”, atingem a quase todas as classes sociais, e miram também cada vez mais jovens, crianças, o que coloca ainda mais pressão no sistema. O monstro da obsolescência planejada pegou uma carona em um dos seus mais potentes catalizadores. Pensem na quantidade absurda de roupas que são simplesmente descartadas e jogadas no lixo por conta dessa obsessão em “estar na moda” e mudar o estilo conforme mandam os ícones da tendência, cada vez mais rápido e com motivações mais fúteis?

Mas e o tamanho do problema? É grande, é enorme. Aproximadamente 40 milhões de pessoas estão empregadas hoje em dia no mercado de roupas, que atualmente é um dos principais motores para a desigualdade. Basta estar minimamente atento ao noticiário, quase sempre que se relata mais um escândalo de trabalho análogo ao escravo ou de condições de trabalho absurdas, é de roupas ou calçados – de algum lugar na América Latina ou Ásia (nunca em Londres, Paris ou Chicago).

Como eu falei lá logo no primeiro parágrafo, nada disso é acidental. Roupas “baratas”, moda “acessível”, “tendências, aqui tem”. A causa raiz disso tudo é conhecida de todos nós, o incansável estímulo ao consumo. Precisamos consumir cada vez mais, apenas para manter a roda do capitalismo girando. Não é possível sequer “estacionar” o nível de consumo pois isso levaria todo sistema a um colapso. E tudo isso tem um custo enorme, para o planeta e para a vida de milhões de pessoas, mas nada disso você vê nas lindas lojas, estilo Forever 21, que só vendem estilo com muita luz e perfume.