Os tais três primeiros meses (da paternidade)

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Um bebê chorando

Meu filho faz sete meses daqui há alguns dias. Já tem algum tempo que pretendo escrever esse post, mesmo sabendo que iguais a ele devem haver trocentos por aí – mas eu não acompanho nenhhum “blog de mãe” então não li nenhum, nem antes do parto nem em nenhum momento depois. Fiquei enrolando por que precisava ter certeza de que a tal “fase crítica” da paternidade já estava no passado e eu poderia olhá-la de longe, com uma perspectiva mais ampla. Acho que já deu. Se demorar muito mais, vou esquecer. É o que falam por aí que acontece.

Uma das coisas que você mais ouve de pais de bebês é que “passa muito rápido”. Sempre que ouvi isso, achei uma enorme bobagem pois entendo muito bem por que a gente percebe o tempo de maneiras diferentes, dependendo do nosso estado mental: os minutos antes do recreio são os mais longos do mundo, enquanto aqueles “só mais 5” que você passa brincando com seus amigos parece que duraram meros segundos. Enquanto estávamos, eu e minha mulher, passando pela fase crítica dos três primeiros meses, nunca esse conceito de “passa rápido” me pareceu mais estapafúrdio: as madrugadas com meu filho berrando de dor no meu colo duravam eternidades. E elas se repetiam; dia sim, dia também. Eu, como bom ansioso que sou, ficava torcendo pra esse marco dos três meses chegar logo – essa também era uma coisa que todos falavam: calma, depois de três meses melhora muito. Nisso escolhi acreditar religiosamente.

Pois bem, vamos ao que interessa. Meu objetivo aqui não é assustar ninguém querendo ter filhos, minimizar o perrengue ou tirar onde que eu “passei por essa” fase da vida. É um relato e nada mais. Eu tenho certeza que daqui há alguns anos virei aqui ler isso de novo, para lembrar de como era. É tanto para mim como para meus parcos leitores.

Por que é que são 3 meses? Não sei. Não esperem aqui dados sobre a biologia dos bebês e seu desenvolvimento. Não entendo nada disso (tirando é claro a sabedoria popular de facebook). Acho que é uma coisa mais de senso comum, por que de fato (talvez eu estivesse sob sugestão, vai saber), a coisa dá uma bela melhorada por volta desse período.

E o que rola nesses três meses que o tornam tão estressante e cansativo? Vamos lá.

Primeiro vem o óbvio que é o soco no estômago que é o parto. No meu caso (ou melhor, no caso da minha mulher) foi parto normal e foi bem forte a experiência. Nunca havia visto minha mulher sofrer tanto e isso deixa marcas. Os primeiros momentos da vida do bebê te colocam contra a parede de uma maneira como nada antes na vida se compara. Seu despreparo é total e isso gera muita ansiedade. Lembro que das 48h que passamos na maternidade eu devo ter dormido umas 5h no máximo. Ficamos podres. E aí você vai pra casa com aquela mini-coisa frágil e mole que sequer sabe se mexer sozinha direito. Você fica tonto sem saber o que fazer.

O bebê até os três meses não interage. Isso é foda. Ele não consegue fixar o olhar, ele não te reconhece. Ele só mama, dorme e chora. Não existe outro estado possível. Ele não brinca, não sorri e não consegue fazer nada. Fica só lá parado, com olhar sério, mirando fixo o vazio. É muito complicado você desenvolver um real sentimento por aquela coisinha, mesmo ele sendo seu filho e ter sido tão esperado. Sendo bem duro e sincero aqui, aquela coisa que você se apaixona loucamente no momento que ele nasce é pura balela. É um processo, lento e nesses três primeiros meses de perrengue frenético, eu diria que o sentimento ainda é bem fraquinho. Mas ele existe, é sutil, mas está lá. Afinal só mesmo um amor que você nem entende direito é capaz de te dar essa força pra aguentar tanta barra.

Além do fato do bebê ser extremamente indefeso e molinho, os pais estão sob um estresse muito grande. Especialmente a mãe que passa por transformações biológicas tremendas e ainda sob efeito de uma cacetada de hormônios. O bebê nessa fase é totalmente imprevisível e pode começar a berrar do nada, deixando os pais num estado de alerta constante. Além disso, como o desenvolvimento é acelerado, a cada semana ele muda. Então você desenvolve uma técnica “supimpa” pra acalmá-lo e fazê-lo dormir e fica se achando o tal. Do nada para de funcionar, sem aviso. Se vira pra inventar outra e começar tudo de novo. A amamentação, que também é muito vendida como algo lindo e sublime que te conecta ao bebê pode ser uma fonte de stress e ainda mais preocupação. Não vou entrar em detalhes, mas no nosso caso, não foi nada fácil.

Eu sou uma pessoa metódica e adoro rotina. O bebê vem pra detonar tudo que é método, processo e rotina. A casa fica uma bagunça, os horários viram todos de cabeça pra baixo, e até pra comer fica complicado. Não preciso nem falar que o conceito de “tempo livre” vira coisa do passado. As coisas que você fazia pra relaxar e “passar o tempo”, esquece, agora o tempo que você tem “livre” é pra arrumar a casa e descansar – quando der.

E algo que nem preciso mencionar são as madrugadas insones, acordar de 3h em 3h pra amamentar, fora crises de cólica e e gases – que no nosso caso duraram mais de um mês, todo os dias. Punk!

E como que melhora? Não é exatamente uma coisa ou outra que de repente “puf”, some como mágica e a vida melhora. É um conjunto de coisas que aos pouquinhos vão se estabelecendo, junto com o desenvolvimento do bebê. E o conjunto dessas coisas, de fato, atinge um ponto de inflexão por volta dos três meses.

Primeiro que a partir dos dois meses, o bebê começa a sorrir, ou seja interagir. Te olha no olho e te reconhece. De repente ele começa e querer brincar e você se vê capaz de divertir ele – por volta dessa período, o sentimento passa a ficar mais forte cada vez mais rápido. O bebê começa a ficar “durinho”, ou seja, você já consegue começar a carregá-lo sem tanto medo da cabeça dele cair pra tras violentamente. A casa já tem uma rotina. Mesmo que ainda meio bagunçada e ainda pior antes do nascimento, já dá pra confiar em alguns horários. Ele passa a dormir cada vez mais, especialmente de madrugada. Passa de 3h, pra 4h pra 5h e de repente está dormindo 8h. Claro que isso varia muito de bebê pra bebê, tem uns que não dormem bem nunca, mas em compensação tem outros que não tem sequer uma crise de gases na vida. As dificuldades variam.

Os pais também já estão bem mais calmos, o bebê fica mais previsível e as mudanças já não ocorrem na velocidade da luz. O choro já não desespera tanto, aquela sensação do “e agora?” já não é tão rotineira. Tudo que você teve que aprender na marra, agora você já está craque então aquilo não te causa mais ansiedade: trocar fralda e dar banho viraram algo tão corriqueiro como escovar os dentes. Mas algo que “falam bastante” (pois é, nunca na vida, esse “falam” teve tanto peso na minha vida) é que apesar desses três meses do capeta serem inevitáveis, não quer dizer que ao final deles, tudo fica suave. Os desafios agora são outros e a cada nova fase vamos aprendendo e nos virando. E agora que o “pior” (será?) passou, olha que coisa, já estamos pensando no próximo. =)

Um diálogo sobre aborto

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– … e aí ela teve que fazer um aborto, coitada.
– Sou contra.
– Contra aborto?
– Sim. Pra mim é homicídio.
– Peralá, vamos debater isso, sem dogmas, ok?
– Ok, mas você sabe que eu tive formação religiosa.
– Eu também, estudamos na mesma escola.
– Sim, mas você nunca acreditou, nunca deu bola pra educação religiosa.
– Verdade. Mas vamos lá, por que você acha que é homicídio?
– Não, antes responde você, você é contra ou a favor o aborto?
– Depende, é complicado.
– Como assim, depende? Ou é contra ou é a favor.
– Bom, é exatamente aí que essa discussão complica, e torna o debate muito pobre.
– Como assim?
– Você disse que é homicídio, e quando eu falei que depende, você ficou defensivo, então eu entendo que sua posição é categórica, não permite exceções e variações com base nas circunstâncias.
– Que circunstâncias?
– Por exemplo, se aquela criança for fruto de estupro, ou pior ainda, estupro incestuoso, não seria o caso para um aborto?
– Não. Toda vida é sagrada, não cabe a nós humanos julgar se podemos ou não eliminar uma. Onde vamos parar?
– Bom, aí que complica. Você estaria de acordo com o aborto com uma semana de gestação?
– Não.
– Mas com uma semana não tem nem feto ainda, é só um emaranhado de células, sem consciência, sem coração.
– Mas já tem alma.
– Não, não, não começa. Não inventa. Inventar coisas só piora o debate. Pra debater qualquer coisa, a gente precisa falar a mesma língua. Alma só existe na sua visão de mundo. Não na minha e nem na de várias outras religiões ou falta delas. Sem dogmas, ok?
– Ok.
– Então, tirando a alma, concorda que o que chamamos de ser humano ainda não começou ali?
– Não concordo. Já é um ser humano, só não plenamente desenvolvido. Se a gravidez não for interrompida, nascerá uma criança.
– Potencialmente.
– Como assim?
– Ué, não é toda gravidez que vai a termo. Inclusive é comum mulheres perderem o primeiro filho.
– Mas perder o filho assim é um processo natural. Não era pra ser.
– E um produto de estupro era pra ser? Imagina a vida dessa criança, que vai nascer sem pai, ou pior, ser obrigada a viver com um pai que é um estuprador, um doente. Muitas culturas obrigam a mulher estuprada a se casar com o estuprador.
– Você está desviando do assunto.
– Não estou não. Tudo isso faz parte do assunto “aborto”. Por isso é que é complicado e precisa ser debatido. Eu, por exemplo, não sou a favor do aborto. Eu não desejo que as mulheres façam o aborto sempre que quiserem. Mas sou a favor do direito de escolha, especialmente em casos como estupro ou se a mãe vive em situação de risco e não se acha capaz de criar uma criança. Imagina ter um filho no meio de uma guerra civil.
– Não, aborto é assassinato. Você não justifica um assassinato com as circunstâncias da vida do assassinado, não é?
– Eu não sou a favor da pena de morte, se é isso que você acha. Acho uma solução brutal e simplista.
– Pois é, aborto também. É brutal.
– Como é brutal? Um emaranhado de células não tem a capacidade de sentir dor e muito menos ter consciência. Até 3 meses de gestação ainda não existe sistema nervoso. Um feto é o equivalente mental de uma planta.
– Você tem certeza disso?
– Disso o quê?
– Que não sente dor.
– Bastante certeza. A neurociência é muito avançada nesse ponto.
– E a consciência, você tem certeza?
– Certeza não tenho, mas tenho certeza que um cão tem muito mais consciência que um embrião, e não temos problema nenhum em colocá-los pra dormir quando nos apetece.
– Como você tem certeza?
– Certeza absoluta não temos de nada, não é assim que a ciência funciona. Existe um corpo de conhecimento, e esse corpo todo concorda que todos os mamíferos tem consciência – e que onde não há um sistema nervoso, não tem como haver uma. Não sabemos direito como a consciência funciona, mas sabemos que ela não existe sem um cérebro avançado o suficiente.
– Pois é, então vocês não sabem.
– E daí que não sabemos? Existem outras questões além dessa, que tornam o debate necessário. Por exemplo, existem dados e fatos, irrefutáveis, que abortos acontecem não importa se são legais ou não – e que mulheres pobres sofrem com isso, pois são obrigadas a se submeter a procedimentos em clínicas de fundo de quintal, muitas vezes há complicações e até morte. Mulheres ricas abortam a vontade, sem problemas.
– Olha, eu estou a par dessas questões, mas nada disso pode ser maior que uma nova vida, inocente, que é sagrada. Não quero que mulheres sofram e morram, mas também não posso concordar que matar bebês não nascidos é a solução.
– Mas o conceito de vida de vocês é exagerado, vai desde a concepção. A ciência discorda, e muitos países se baseiam nessa concepção pra fazer suas leis pró-aborto. Ninguém quer sair por aí eliminando fetos, mas o aborto é um problema sério, é uma opção que a mulher tem que ter. As vezes ela tem uma gravidez de risco, ou o feto é inviável. É preciso debater essas coisas e chegar num meio termo melhor pra toda a sociedade.
– Não tem meio termo.
– Então não tem debate, né?
– Não, desculpa.
– Tá, deixa pra lá. Vamos pedir a conta.
– Saideira?
– Saideira.

Moda – o ladro negro das tendências

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kim-kardashian-champagne-glass-butt-paper-magazineQuando você pensa na palavra “tendência”, o que lhe vem a cabeça, quase de imediato? Deixa eu tentar adivinhar: moda. Acertei? Acho que sim.

Essa palavra, que cada vez mais faz parte do léxico que até pouco tempo era apenas reservada aos estratos mais altos da sociedade, agora está, definitivamente, na “boca do povo” – e isso não é acidental.
Eu estava voltando de viagem, e ainda na rodovia, na entrada da minha cidade, passei por algo que me parecia como atacado de moda (onde provavelmente a maioria das lojas que atendem aos estratos mais baixos repõe seus estoques). Um grande cartaz dizia “Tendências? Aqui tem”.

Fiquei pensando com meus botões (apesar de que no momento, tenho certeza estar de camiseta), como é que pode, que pessoas que vivem com tão pouco, que precisam de tanto, possam se preocupar com o que quer que seja a tendência da moda no momento?

Alguém poderia pensar que estou agindo com enorme preconceito de classe, como se vestir-se bem e se “sentir na moda” fosse exclusividade dos mais ricos. Preconceito de classe nenhum, mas em relação a exclusividade, antes fosse. O dano seria infinitamente menor.

Se você ainda não assistiu ao documentário The True Cost, recomendo que o faça. Eu sempre tive enormes reservas com a indústria da moda, tanto pelo seu impacto negativo no inconsciente coletivo, criando padrões de beleza irreais, como, mais recentemente, por estar cada vez mais mirando mais longe, atingindo a todos, cada vez mais jovens, cada vez mais pobres. E esse documentário só serviu pra cimentar meu profundo desprezo por essa indústria por mais um motivo: o impacto negativo no sustentabilidade do planeta e no mercado global.

Uma coisa que o filme me fez parar pra pensar foi no fato de que uma coisa que mudou bastante recentemente no mundo da moda é que não temos mais os famosos desfiles de coleção, baseado em estações. Eram mega-eventos, nas capitais da moda, Milão, Paris e Nova York. Não existe mais isso por que as tais coleções simplesmente não duram mais uma estação inteira. Temos agora desfiles o ano todo e novas coleções (e “tendências”) a cada duas semanas, ou menos. E isso coloca uma pressão enorme em toda a indústria, do estilista aos funcionários extremamente mal pagos que irão fabricar as roupas – pois num mercado globalizado, o custo é o que mais importa, e se um país asiático emergente consegue fabricar as mesmas roupas e se adaptar mais rapidamente às mudanças de coleção por alguns centavos a menos por peça, por que não mudar toda a produção para lá? Uma competição nesse nível, leva a condições de trabalho inaceitáveis para a grande maioria do “mundo desenvolvido”. Não é nenhuma surpresa que 90% da “moda” do mundo seja fabricada em países pobres como Vietnam, Bangladesh e Taiwan.

E o mercado das tais “tendências” age rápido para fabricar esses novos padrões, o tempo todo. Afinal, o que são “tendências”, na moda? Basicamente, damos o poder a algumas pessoas, “formadoras de opinião”, ou simplesmente, “bonitas e estilosas” – de nos dizer como devemos nos vestir e nos comportar. Vou repetir para ficar mais claro: nós é que lhes damos esse poder. Se você já ouviu o nome Kardashian e sabe de quem se trata, isso se deve a um único motivo: a capacidade que elas tem de criar e vender tendências. E fazem isso de forma tão esperta, que faz parecer que aquilo tudo é natural, que são apenas pessoas ricas e bonitas vivendo suas vidas “com estilo” e sendo filmadas e fotografadas o tempo todo.

E agora, as tais “tendências”, atingem a quase todas as classes sociais, e miram também cada vez mais jovens, crianças, o que coloca ainda mais pressão no sistema. O monstro da obsolescência planejada pegou uma carona em um dos seus mais potentes catalizadores. Pensem na quantidade absurda de roupas que são simplesmente descartadas e jogadas no lixo por conta dessa obsessão em “estar na moda” e mudar o estilo conforme mandam os ícones da tendência, cada vez mais rápido e com motivações mais fúteis?

Mas e o tamanho do problema? É grande, é enorme. Aproximadamente 40 milhões de pessoas estão empregadas hoje em dia no mercado de roupas, que atualmente é um dos principais motores para a desigualdade. Basta estar minimamente atento ao noticiário, quase sempre que se relata mais um escândalo de trabalho análogo ao escravo ou de condições de trabalho absurdas, é de roupas ou calçados – de algum lugar na América Latina ou Ásia (nunca em Londres, Paris ou Chicago).

Como eu falei lá logo no primeiro parágrafo, nada disso é acidental. Roupas “baratas”, moda “acessível”, “tendências, aqui tem”. A causa raiz disso tudo é conhecida de todos nós, o incansável estímulo ao consumo. Precisamos consumir cada vez mais, apenas para manter a roda do capitalismo girando. Não é possível sequer “estacionar” o nível de consumo pois isso levaria todo sistema a um colapso. E tudo isso tem um custo enorme, para o planeta e para a vida de milhões de pessoas, mas nada disso você vê nas lindas lojas, estilo Forever 21, que só vendem estilo com muita luz e perfume.

Vivendo sem Partido ?

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Uma das pautas que tem surgido com bastante vocalidade com a ascensão desde governo provisório, é a ideia da “Escola Sem Partidos”, onde a proposta seria proibir e punir discussões sobre posicionamentos partidários ou ideologicos em escolas.

Ter uma forma de ensino neutra, imparcial, é um conceito bastante sedutor.
Apresentar a informação como se vinda da fonte, seria o ideal. E mesmo se admitirmos que é algo impossível, ficar permanentemente buscando essa direção, seria algo pelo que valeria a pena lutar.

E para viabilizar esse tipo de proposta, acredito que a primeira coisa a fazermos seria avaliar o quão perto ou longe estamos desse ideal da neutralidade. Antes de sermos neutros na educação… É possível ser neutro em alguma coisa?

Se gastarmos dois minutos pensando, acredito que todo mundo chega à conclusão que não.
Toda ação é política. Toda ação vai favorecer um posicionamento A ou B, independente da vontade da pessoa. O que define seu posicionamento político não é o que você declara, são suas ações e escolhas.

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Vamos à um exemplo: O simples ato de comprar um produto A ou B.
Sabendo que o produto A é mais caro, ainda sim você poderia justificar sua compra ao dizer que na produção de A, o trabalhador é menos explorado, os salários são mais justos e o impacto ambiental é menor, enquanto que “B” apesar de mais barato, usa mão-de-obra semi escravizada e causa um enorme dano ao meio-ambiente.

Agora, note o seguinte: Mesmo que você não pense em tudo isso ao comprar alguma coisa, mesmo que sua escolha seja completamente alienada, mesmo que seja uma decisão baseada na ignorância, você ainda sim vai dar suporte à forma de produção A ou B. Se nada disso passa pela sua cabeça quando você compra algo, ainda sim, SUAS AÇÕES estão fazendo uma declaração. Ou a que você não se importa com a maneira que aquilo é produzido, desde que seja bom e barato, ou que você não tem dinheiro pra fazer outra escolha.

É disso que estamos falando ao dizer que TODA ação é política, independente de você ser consciente do processo ou não, e independente do que você declara sobre seu posicionamento político

Enfim, você pode SIM ser “apartidário” no sentido de não defender e nem sentir-se representado por nenhum partido político, porém suas ações cotidianas e suas repercussões, jamais serão.

Imagine uma situação em que você vai instalar um aplicativo em seu computador ou celular. Quando você vai instalar um programa, sempre existe um conjunto de configurações Padronizadas, o tal do “Default Settings”, ou configurações de Fábrica.
Se você abrir essas configurações, irá encontrar uma série de opções ligadas ou desligadas, independente da sua escolha. Mesmo que você não ligue, e nunca tenha aberto as configurações, as opções estão lá atuando. Não existe posição “neutra” nos botões.

Se você enxergar o cérebro humano como um grande computador, e a formação de um indivíduo como a instalação de um aplicativo, acaba sendo a mesma coisa. Porém, a “Configuração de Fábrica” é a ideologia dominante. É o conjunto de valores apresentados FORA DA ESCOLA, pela família, pela Televisão, pela vida cotidiana. Esses valores, acredito que todos conhecemos intimamente.

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Voltando à questão da escola.

Se as escolas de hoje forem semelhantes à escola onde me formei (tomando muito cuidado para não cometer a falácia da evidência anedótica aqui), o que teríamos hoje é a discussão de temas. Quando estudei geopolítica, me falaram de capitalismo tanto quanto de socialismo.

Ouvi sobre Adam Smith tanto quanto de Marx. E mesmo que meu professor de história falasse com mais entusiasmo sobre Marxismo, nas outras 12 horas do meu dia fora da escola, tudo ao meu redor era capitalismo, eu sabia de todos valores. (Confissões: Na minha juventude, fui SUPER Coxinha)

Para quem não quer que exista a discussão de ideologias, QUALQUER COISA vai servir de desculpas. Professor falar com mais entusiasmo sobre o tema A ou B. Gastar mais tempo no tema A ou B. Usar uma camisa A ou B. Como falamos antes, toda ação é política.

E a proposta de “Escolas sem Partido” é essencialmente sobre isso.
Sobre não haver discussão, não haver debate. É deixar o indivíduo “apenas” sob a influência das outras 12 horas de cultura dominante padronizada.
É basicamente, fazer com que você nunca abra a sua “Tela de Configurações” para se customizar. É aliás, você nem saber que é possível alterar essas configurações.

Se não há a discussão da diversidade de posicionamentos, o que sobra não é a neutralidade.
O que sobra, é a instalação de fábrica.
O que sobra, é a ideologia dominante.

E qual a ideologia dominante?
Bom, basta notar que o discurso sempre presente na proposta do apartidarismo, é combater a esquerda. Livrar nossas crianças da esquerda, do marxismo, do comunismo.

É interessante como sob ótica dos “Neutros”, todo mundo que é comunista é por doutrinação, e todo mundo que é capitalista, é por opção.

Isso quer dizer que existe realmente essa ótica Dualista de mundo?
Não. Se você abrir suas caixa de “Configurações”, o que só vai acontecer se houver a discussão, descobrirá que é possível uma infinidade de opções, que darão origem a um gradiente de posicionamentos, e não apenas extrema esquerda ou direita.

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Em conclusão, não querer que haja discussão sobre ideologias na escola, não tem nada a ver com neutralidade. Tem a ver com aquela velha polêmica que vemos durante a infância toda: Quem está ganhando o jogo nunca quer discutir sobre a justiça das regras.

O dono do aplicativo tem MUITO à ganhar quando ninguém vê escrito em letras pequenas, que junto com a instalação padrão, você vai instalar aquele monte de coisas no seu browser.

Nota Furiosa:
Não ensinarem sobre a escola Austríaca não é prova nenhuma que há doutrinação Marxista na escola. De acordo com os estudos do Projeto Open Syllabus que levanta os livros mais significativas nas universidades que falam inglês, tem Marx, tem Adam Smith, tem de tudo, mas não tem escola Austríaca.

Isso poderia nos levar a duas conclusões:
– As universidades dos países anglo-saxões são fortemente comunistas, doutrinadas pelo MEC;
– Escola Austríaca não tem representatividade, e Ayn Rand e Mises são dois bostas.


Como a mídia fabrica o terrorismo

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Mais um ataque terrorista (aparentemente, nada confirmado ainda) e já observamos a ridiculamente exagerada cobertura da imprensa. Isso me dá um nojo tão grande que resolvi falar um pouco a respeito. Claro que não é apenas com o terrorismo que vemos esse comportamento carniceiro da grande mídia: a espetacularização é a alma do negócio. Tudo que puder ser transformado em show, e se aquilo se traduzir em audiência, tá valendo. E já tem tempo que os artífices da grande mídia aprenderam: violência e tragédias, vendem como água no deserto. É simplesmente irresistível. Mas é mesmo?

Não, não é. Só é pra redes te televisão que se alimentam disso e que precisam disso para vender seus comerciais e novelas. E é fácil identificá-las, observando a rapidez a magnitude com que tratam um evento como esse. Nada é mais importante do que parar toda a programação e mostrar um atentado que matou 70 pessoas na França. A notícia é de fato importante, é chocante, mas precisa de tanto? Precisa parar tudo e falar só nesse único assunto o dia inteiro? Não precisa. E não deveria.

O terrorismo só é terrorismo por causa disso. Eles (os “terroristas”, termo criado obviamente, pela grande mídia) fazem o que fazem por que tem a certeza que vai ter peixe mordendo a isca. Vai ter rede de televisão mundo a fora que vão se comportar como abutres diante de uma carcaça. Vão transformar aquilo num show. Vão correr pra enviar repórteres ao local, colher depoimentos, repetir as mesmas imagens milhares de vezes, convidar especialistas, discutir o assunto. Tudo numa pressa e numa eficiência impressionantes. Tudo a serviço do espetáculo.

No útlimo grande espetáculo midiático da violência, tivemos o massacre na boate LGBT na Flórida. E dessa vez, já foi possível observar, mesmo que ainda muito inspiente, uma revolta da população em relação a cobertura dos fatos. Surgiu um grito nas redes sociais, que clamava algo como “parem de falar do assassino, parem de mostrar a foto dele, falem das vítimas, mostrem fotos deles, eles são maiores e mais importantes que esse único psicopata; o lugar dele é no esquecimento, não no holofote!” Achei fantástica essa reação, pois atinge em cheio o cerne da questão.

Sem palanque, as ações desses psicopatas fanáticos não ecoariam e não teriam o efeito desejado – que é de espalhar o medo e o terror. Claro que não é só a mídia a única responsável por moldar a cultura, e incitar o ódio entre os povos através de esteriótipos ridículos. O cinema faz isso, a música, a arte em geral. Cada um de nós é responsável por alimentar ou frear essas forças que dividem em vez de somar. Mas a mídia tem um lugar especial no inferno, pois ela está todo dia, com aquele ar sério, de imparcialidade, de profissionalismo, nos vendendo distorções ideológicas e alimentando o monstro do ódio. Tudo fantasiado de “jornalismo de qualidade”.

No dia 4 de julho (apenas 11 dias atrás), um ataque terrorista matou 250 pessoas no Iraque. Quatro vezes mais que o de ontem em Nice. E como foi a cobertura? Você lembra? Parou tudo? Ficou dias inteiros falando no assunto? Tiveram cortes na programação com imagens ao vivo do local? Hmmm, acho que não. Por que será? Ah, já sei: “O Iraque é um país islâmico, ou seja, terrorista, então foda-se quem morre por lá”. Por acaso nessas mil conversas com “especialistas” no assunto, é lembrado o fato de que a violência entre Sunitas e Shiitas mata muito mais gente do que a ISIS e a Al Qaeda matam Europeus? Aaahhh, acho que não também. Afinal, deixa esses dois grupos fanáticos se matarem a vontade. O terrorismo “deles” não vende jornal. Em janeiro de 2015, o grupo radical Boko Haram matou aproximadamente 2000 (duas mil!!) pessoas na Nigéria, numa série de massacres, um deles, em uma escola, matando várias crianças. Você deve ter ouvido falar, mas, “parou tudo”? Não parou. A julgar pelo espetáculo em volta de recentes shows-violência, esse do Boko Haram mereceria um mês de programa especial em todas as emissoras. Mas não. Afinal o Boko-Haram não é tão superstar assim como a ISIS, e vidas africanas não valem tanto como uma vida européia ou americana. Em novembro do mesmo ano, o ataque em Paris, que matou pouco menos de 200, parou o mundo e até reuniu Chefes de Estado em uma marcha simbólica.

Terrorismo não é o que a mídia te diz (insistentemente) que é. Terrorismo não é “pessoas com cara de árabe matando pessoas com descendência européia”. Mas isso é martelado ad infinitum pela mídia cada vez que um maluco (ou grupo de malucos) resolve matar um monte de gente (mas só se for na Europa ou EUA, claro). Está sendo martelado na cabeça de todos nesse exato momento, enquanto o mundo acorda chocado com mais uma ação de violência radical.

Ignorar o poder que a mídia tem de fabricar esteriótipos e modelos de ordem global obsoletos é demonstrar profundo desconhecimento da natureza da mente humana. É se colocar num patamar de racionalidade e objetividade utópico. Somos todos, absolutamente todos, sujeitos a sugestão da mídia, da publicidade e de ideologias. Consumimos, achando que estamos tomando decisões puramente racionais, quando na verdade agimos por impulso – alimentado por campanhas massivas de propaganda. Discutimos conceitos que acreditamos ser “nossos” e fonte de estudo, quando na verdade pegamos emprestado (e repetimos sem crítica) do mainstream cultural, da mídia, do cinema, da arte, da sociedade.

Desligue a TV (ou pelo menos, mude de canal; acredite, ainda há jornalismo sério). A exposição prolongada a esses espetáculos de violência te dessensibiliza para os fatos, e os conceitos furados e simplistas que querem vender (que não tem um objetivo, se não o de te tornar cada vez mais ávido por consumir esses espetáculos) se insinuam na sua mente da mesma forma que o desejo de comprar “aquele carro”.