Orgulhosamente Desajustado

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O casamento inglório do merecimento com o consumo

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Em inglês existe uma palavra que não tem uma tradução muito boa em português, e que faria o entendimento do título (e talvez do texto) um pouco mais fácil. A palavra é entitlement, que poderia ser traduzida como a outra que escolhi: merecimento. Mas não é exatamente isso, pois merecimento carrega um sentido de mérito, e o mérito pode ser real ou percebido. Não vou entrar na discussão da famigerada meritocracia, no sentido neoliberal da coisa, pois isso já fiz em outro texto. O fato é que o mérito nem sempre é o que parece ser, logo o real merecimento pode muito bem ser uma fantasia. E o entitlement ilustra bem isso, pois a palavra vem, claramente, de “title” (título), ou seja denota um merecimento mais no sentido de direito adquirido, algo que você merece apenas por que merece, por que seu pai mereceu, seu avô antes dele, etc. Merece por quem você é, por quem seu pai é, pela posição que você ocupa, pelo seu saldo no banco, o carro que dirige, enfim – você já entendeu, mérito passa longe.

Tem uma palavra em português pra isso? Se tiver, manda aí nos comentários que eu mudo esse primeiro parágrafo e reescrevo o texto. Pra resumir bem o que eu desejo ilustrar como merecimento, a melhor frase que me vem à cabeça é “você sabe com quem está falando?”. E eu gostaria de explorar nesse texto o quanto esse conceito, que não é nada novo, está diretamente ligado a um dos maiores cânceres que assolam nosso planeta hoje, que em comparação, é bastante novo: o consumismo.

A coisa de uns 15 anos atrás, logo depois que saí da faculdade e consegui um emprego razoavelmente bem pago (muito bem pago para padrões brasileiros), eu escrevi um texto com um título bem idiota “O dinheiro, o poder e o foda-se”. Pois bem, naquela época eu já farejava algo de errado com essa coisa de ter mais dinheiro do que realmente é necessário para viver e as consequências desastrosas que isso poderia ter em nossas escolhas. Mas não soube muito bem elaborar meus pensamentos – sendo totalmente sincero, naquela época eu escrevia muito mal, espero ter melhorado.

O consumo não é algo novo. Existe desde que inventaram o dinheiro ou até antes disso. Mas nunca foi um real problema. O consumismo, ao contrário, é um fenômeno relativamente recente (pós-Revolução Industrial) pois é totalmente fabricado e meticulosamente planejado. De repente me caiu a ficha de onde a porcaria do merecimento cai como uma luva para se tornar um feedback positivo no processo e ajudar a colocar um ismo nefasto no consumo.

O consumismo pode ser resumido em uma única brilhante frase, do Tyler Durden, em Clube da Luta: “compramos coisas que não precisamos, com dinheiro que não temos, para impressionar pessoas das quais não gostamos”.

Acho que não preciso perder meu tempo aqui falando em como o consumismo é uma maluquice que não se sustenta, mas que mesmo assim, tem um apelo tão grande em todos nós, mesmo os que se consideram “livres” dele ou esclarecidos o suficiente para termos auto-controle. Tolinhos. Somos todos vítimas. Quem nunca se viu numa situação de compra por impulso, de compra por causa de marca, de status, de comprar mais do que precisa, de gastar muito mais do que o necessário, etc.

E é aí que os dois pontos (o consumismo e o entitlement) se encaixam, por que é exatamente isso o que eles, os artífices do mercado global, desejam. Associar trabalho, dinheiro, merecimento e consumo. Incutir nas mentes de todas as pessoas que essas coisas são tão naturalmente conectadas como prótons e elétrons. Que não tem nada de artificial e orquestrado na dinâmica do consumismo ao associar a compra de produtos com o quanto você trabalha, quanto dinheiro você tem, e o quanto você “merece” aquelas coisas.

Mas vamos descer um pouco da nave espacial e pousar um pouco em terra firme aqui: você não merece porra nenhuma! Só por que você trabalhou algumas horas a mais durante um mês e ganhou uma graninha extra você “merece” comprar aquela roupa ridiculamente cara que você sabe que não vale um décimo, ou comprar um telefone novo quando o atual tá perfeito e você sequer sabe o que vai fazer com o antigo? Não, você não merece. Suas escolhas tem impacto no planeta e em vidas que são exploradas, e o seu entitlment é usado como cortina de fumaça pra esconder esses “detalhes”. Você não merece porra nenhuma, repito, muito menos ainda você “tem o direito” (pra mudar um pouquinho) de parar o seu carro na rua só por que você tem dinheiro suficiente pra pagar a multa quinhentas vezes.

Mas tudo a nossa volta, todo o marketing, boa parte do pensamento ocidental (especialmente da direita, muito influenciado também por algumas religiões), centenas de livros e teorias econômicas vão te fazer acreditar que sim, que você merece – que você é especial no grande jogo do capitalismo. Você venceu! E aí você vai lá se acha “merecedor” dos espólios, das explorações, das inovações, seja lá quanto custem (para o planeta). E quanto mais você tem, mais gasta, mais precisa ganhar dinheiro, pra merecer ainda mais, e de repente o privilégio passa a ser não mais uma coisa distante, que você leu e viu em filmes – até o dia que você se transforma naquele babaca que diz “sabe com quem você tá falando”?

E todo mundo odeia aquele babaca. Acho que até ele se odeia um pouquinho, é muito insegurança numa pessoa pra ele chegar nesse nível de ter que apelar pro papai quando a coisa esquenta. Repetindo, essa coisa do entitlement e do privilégio são tão antigas quanto o acúmulo de sacos de grãos. Uns tem, outros não. Não é que “sempre foi assim” (não foi, estude um pouquinho) – mas a coisa é velha, mais velha que a própria história. Agora o consumismo não é tão antigo e estabelecido assim, e já se apropriou do conceito de merecimento pra se justificar, se reinventar e crescer – e pelo visto funciona bem, né?

Quem nunca justificou um surto consumista com “eu mereço”?

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1 de September de 2015 at 16:36 Comment (1)

Seu Celular é Vegano ?

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veggie-heart
Em meu quarto ano de Vegetarianismo (ou ovolacto-vegetarianismo, para os que quiserem depreciar o feito), resolvi me permiti um jantar peculiar. Quis me presentear com um Hamburguer tradicional.

Fomos até a hamburgueria, e quando olhei para o cardápio, não consegui. Me veio à cabeça tudo o que fiz até aquele momento. Nesses quatro anos, aconteceu de uma vez ou outra eu ter ingerido algum eventual pedaço de carne, como por exemplo quando minha cônjuge não aguenta terminar a refeição. Por não gostar NADA da idéia de disperdício, já cheguei a comer restos.

Porém, estar ali, e fazer o pedido voluntariamente e conscientemente, não consegui. E me senti melhor não tendo feito.

Naquela semana, comecei a refletir à respeito de “dar o próximo passo“, ou seja, caminhar para o Veganismo. Pouco tempo depois, fui a uma sorveteria, e uma mulher à minha frente na fila perguntou: “Esse sorvete é a opção Vegana ?“, e não sendo, foi embora.

Opção Vegana” – Essa palavra ficou ecoando na minha cabeça, e resolvi pesquisar à respeito. As duas definições mais sintéticas que consegui encontrar sobre o veganismo foram:

“O estilo de vida no qual o indivíduo busca atender suas necessidades, sem a utilização de produtos que causam sofrimento à seres vivos sencientes.”

ou

“O estilo de vida no qual o indivíduo se opõe a utilizar qualquer produto de origem animal.”

Quando observamos esses posicionamentos de maneira superficial, parece ser uma opção louvável, admirável, e de certa maneira, faz muito sentido.
Afinal, quando olhamos a história do desenvolvimento do ser humano, foi uma caminhada na ampliação da empatia.

Aprendemos a nos importar com o que acontece aos membros de nossa familia, depois de nossa tribo, depois de nossa compatibilidade ideológica, depois do mesmo país. O próximo passo seria extender essa empatia a todos os seres humanos, e depois disso, a evolução lógica seria o respeito a todos seres vivos desse planeta, no qual compartilhamos parentesco genético com cada célula existente.

Porém, depois de tentar desconstruir a opção Vegana, esse não me parece ser o caminho mais coerente para esse próximo passo da humanidade.

Onde quero chegar?
Para demonstrar meu ponto, seria necessário fazermos uma revisão ponto a ponto.

As Necessidades

Pois bem, tudo se inicia nas necessidades.
Devemos admitir que para um Homo Sapiens Sapiens existir, ele precisa consumir o mundo ao seu redor, do primeiro ao último dia de sua vida. Ao mesmo tempo, aprendemos rapidamente que não só nos seres humanos, mas em toda espécie viva a definição de “necessidade” não se restringe apenas ao consumo devido de calorias e micronutrientes para manter aquela máquina biológica operacional.

Mas antes de entrarmos na esfera da abrangência total, notaremos que só a esfera humana já é complicada o suficiente.
Como podemos definir as necessidades humanas?
Para tentar responder a essa pergunta, foi desenvolvida a chamada “pirâmide de maslow“, onde nossas necessidades são divididas entre básicas, psicológicas, e de auto-realização. (Obviamente, existe algum viés burguês ali, afinal propriedade não é necessidade, mas não desmecere boa parte do estudo)

maslow
Nessa hora, entramos em uma àrea cinza que não souberam me responder bem.
Em geral, de quais necessidades os Veganos estão falando? Das Básicas? Das Básicas e Psicológicas? De todas as necessidades?
E a questão torna-se mais complexa ainda quando nos lembramos que seres humanos diferentes tem necessidades diferentes, ao menos as psicológicas e pessoais.

O Sofrimento

Acredito que seria justo afirmar: Todo ser vivo que não tem suas necessidades atendidas, em algum nível sofre.

Ao adicionarmos essa variável, a questão se complica ainda mais.
Porque pelo menos a meu ver, considerar apenas o sofrimento causado diretamente na fabricação e utilização de um produto específico, não só é “raso”, é incoerente.

Não se trata apenas de ser cuidadoso para ver se a Soja que está consumindo não vem de uma plantação na qual foi destruída mata nativa causando sofrimento à várias outras espécies, até porque aqui a alienação é pequena e fácil de enxergar.

Antes de fazermos nossa Eco-trilha, utilizamos algum tipo de veículo que causou sofrimento de várias espécies, desde a extração da matéria prima que exigiu devastação, até os atropelamentos rodoviários (ou aéreos) que causam.

E o celular que você usa, é vegano?
A extração do petróleo e dos minerais utilizados com certeza causou sofrimento a diversas espécies, a construção da fábrica também precisou de devastação. E a construção dos aparelhos foi feita por mãos humanas em condições semi-escravas.
E pasmem: Seres-humanos em condição semi-escrava também são seres vivos que também estão sofrendo!
E o pior de tudo: Não é pra atender uma necessidade básica, mas uma necessidade psicológica.

Isso porque não consideramos o uso de àgua.
Sabemos muito bem que é necessário 15 mil litros de àgua pra fazer 1 Kg de carne.
Mas já se perguntou quantos mil litros de àgua são necessários no processo industrial de fabricação de um produto altamente tecnológico ?
E sem àgua, todo mundo sofre!

Nesse sentido, a idéia de Boicote começa a ficar cada vez mais complicada, porque fica evidente que tudo parece afetar tudo. E não deixa de ser verdade isso, tudo realmente é interligado.

A Senciência e o Reino Animal

De todo o debate vegano, esse é um do que mais causa sensibilização, porém ao mesmo tempo pelo menos pra mim, é o menos coerente.
É óbvio e respeitável que desejemos causar o mínimo sofrimento possível a todo o tipo de ser vivo, porém uma vez que chegamos à conclusão que é impossível não causarmos impacto algum, resta a opção de gerenciar a quais grupos queremos causar sofrimento ou não.

Porém até hoje, aos meus olhos, todas as opções que adotamos foram intimamente Antropocêntricas. Ou seja, colocamos o ser humano em uma espécie de pedestal de referência, e todas as qualidades similares às de um ser humanos, são as dignas de proteção.

Por que a senciência é tão importante? Porque é uma qualidade humana.
Por que a dinâmica dos seres pertencentes ao reino animal são tão importantes? Porque são os que mais possuem qualidades humanas.

Com todo o conhecimento científico que temos hoje, poderíamos fazer escolhas muito melhores. Ao observarmos a natureza, é visível que a senciênia não é tão importante assim, e pertencer ao reino animal também não.
Por que não priorizamos por exemplo, a complexidade? Ou a importância daquele ser para a biosfera? Sâo coisas que hoje podemos medir, existem inúmeras qualidades importantíssimas, e são mais coerentes do que a semelhança com as qualidades humanas.

A pegada Ecológica

Após essa análise, me parece que a quantidade de sofrimento que um ser humano causa a outras espécies tem uma correlação muito mais forte com o tamanho de sua pegada ecológica, do que com o consumo de produtos de origem animal.

Como é muito binário tentar qualificar tudo como vegano ou não-vegano, e o mundo natural não funciona assim, poderíamos pensar em veganismo como uma graduação quantificável.

E nesse sentido, acredito que muitos veganos não gostariam da idéia.
Porque um índio que come carne seria muito mais vegano do que um vegano que usa Celular, camisa de fibra de Cannabis e pega Avião.

Apesar da opção vegana em geral reduzir sua pegada ecológica, existem diversos caminhos para fazê-lo, todos importantes, respeitáveis, e que reduzem o sofrimento causado a outras espécies. Não faz sentido ressaltar um e repreender outro.

Em conclusão

A questão da moralidade sempre foi complicada para o ser humano.
Se você perguntar para alguém se ele mataria uma pessoa para salvar dez, a cada pequena mudança nas circunstâncias mudaria a resposta.
Adicionar outras espécies na questão moral torna tudo mais difícil ainda, porém é um esforço louvável, e se queremos nos tornar uma espécie cada vez mais empática e civilizada, são questões que precisam ser discutidas.

Porém, apesar de ter um enorme respeito à opção Vegana, essa não me parece a saída definitiva para esse caminho da solidariedade incremental a todas as formas de vida. Algo ser de origem animal ou não, é muito raso.

No momento, me parece que a decisão mais respeitosa e coerente a se tomar, é o maior comprometimento possível com a redução de sua pegada ecológica. Quanto menos você consome, especialmente de produtos industrializados, menor o sofrimento que você causa a outras espécies.
E o mais lindo de tudo?
Dessa vez sem discriminação. A redução da pegada ecológica diminui o sofrimento de literamente todas as formas de vida.

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4 de April de 2015 at 15:13 Comments (0)

A problemática da liberdade de expressão

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Free-Speech

Faz um tempão que não escrevo nada por aqui e esse me pareceu um assunto bom pra voltar. Afinal os recentes acontecimentos na França meio que tornaram obrigatório esse tema ser discutido. Mas apesar de eu achar positivo que se discuta, no fim das contas eu vejo que as pessoas não estão realmente afim de discutir, apenas de externar suas opiniões velhas sobre tudo, que sempre foram as mesmas, e nunca vão mudar. Quem era contra continua contra, quem é a favor continua a favor, e alguns indecisos, continuam indecisos. Então deixa eu tentar esclarecer pelo menos, o que penso a respeito, que no fundo, não é nada concreto, mas que aceita críticas e possíveis mudanças.

O problema desse assunto em específico – o da liberdade de expressão – é a variedade de opiniões possíveis que alguém pode ter, o que torna bastante difícil se chegar a um meio-termo aceitável por todos, ou ao menos pela maioria. É como se fosse um continuum com a censura total em um extremo e a liberdade irrestrita no outro. Todas as pessoas possuem posições que estão dentro desse continuum. Mas para diferentes situações, elas se moverão para cá e para lá no continuum, ou seja, tendo posições múltiplas sobre um único tema. Também é bastante raro você encontrar defensores dos extremos, afinal, qualquer extremo são difíceis de defender. Não é pra qualquer um.

No caso do Charlie Hebdo, duas coisas ficaram bastante claras: 1) existe uma quantidade considerável de liberdade de expressão na imprensa francesa; e 2) essa liberdade tem um preço, que mais cedo ou mais tarde, será cobrado. E aí que começa a complicar.

Durante milhares de anos as religiões dominantes do planeta impuseram regimes de censura fortíssimos. Não se podia sequer cogitar a ideia de adorar outro deus que você seria punido, as vezes com a vida. Não se podia questionar as autoridades, pois estes eram representantes de deus na Terra, e qualquer crítica era automaticamente uma blasfêmia – contra a qual você não tem a menor chance de apresentar uma defesa. De censura as religiões e autoridades entendem bem – até demais. De liberdade entendem muito pouco, infelizmente. Lá pra uns 500 anos antes de Cristo, Sócrates foi condenado por que suas ideias eram muito “progressitas”, ficava falando pros outros só acreditarem em coisas que pudessem ser comprovadas? Que papo de doido é esse? Galileu foi condenado pela Igreja Católica por sugerir que a Terra não era o centro do Universo. Não pode sair por aí falando essa coisas não, vai que o povo acredita?

Enfim, são casos anedóticos clássicos onde a repressão à liberdade de expressão só servia a um propósito: a manutenção do status quo. E essa tem sido a questão central desde que o assunto da liberdade de expressão começou, sei lá a quanto tempo atrás, provavelmente bastante. :)

A medida que nos tornamos mais livres para expor nossos pensamentos, que os governos se tornam mais seculares (ou seja, sem obrigação de atender a dogmas milenares), o próprio assunto da liberdade pode ser discutido mais, hmmm, livremente. Mas infelizmente isso não vale pra todos os lugares. O mundo ainda está repleto de de lugares regidos por religiões dominadoras que reprimem a liberdade de expressão dos indivíduos. É a forma de controle mais antiga do mundo. Volta e meia, essas correntes de pensamento – as posições mais próximas dos extremos no continuum – colidem , e dá no que deu.

Hoje, já entendemos que a imprensa, para cumprir um dos seus principais papéis, que é informar a população sobre os acontecimentos, baseados em fatos, e de também poder criticar as autoridades, mostrando aonde estão errando – só pode fazer isso, se tiver liberdade de expressão. E essa liberdade não pode ter limites. O limite mata a liberdade pela raiz.

Mas, e esse é um importante mas, precisamos entender que uma coisa é criticar ideias e outra é criticar pessoas. São liberdades diferentes, com “limites” diferentes. Uma parte de mim entende que, na teoria, liberdade com limites, não é liberdade, mas outra parte entende que, na prática, o que é sem limite, foge do controle – afinal, somos falhos, somos mal educados, somos imaturos. Dê uma arma na mão de uma criança, e ela vai matar a mãe, sem querer.

Por isso, minha posição no continuum é de que a liberdade para criticar ideias deve ser irrestrita. E deve incluir o ridículo. Não pode ser limitada a seriedade da crítica formal e “politicamente correta”. Deve incluir a ofensa, através do humor, da arte, de qualquer forma que quiserem. Mas não se pode ofender abertamente indivíduos ou grupo de indivíduos. Não se pode acusar sem provas. Ou melhor, poder pode, mas haverá consequências. Não se pode humilhar uma pessoa devido a uma característica, seja ela física, étnica ou cultural. Devemos zelar pelo bom senso e respeito entre as pessoas. Uai, mas isso não é limitar? É, com certeza. Por isso que eu falei que é complicado o assunto, as vezes é possível ter duas ou mais posições contraditórias – a não ser que você se posicione irrevogavelmente no extremo, o que penso não ser muito saudável.

Pra fechar, pegando mais uma vez o caso em questão, do Charlie Hebdo, o que estavam zombando era a ideia. Era a figura de Maomé, que representa tudo para os islâmicos e nada para os seculares. Para os islâmicos é uma ofensa gravíssima, mas eles não foram diretamente atacados. Só que na cabeça deles, foram, pois eles se identificam com sua fé de uma forma muito forte. Um ataque à seu credo é como uma ofensa direta a cada um deles. E não há papo que os convença do contrário.

E aí fica a pergunta, só por que há pessoas no mundo que nunca vão entender ou ser capazes de debater a liberdade de expressão (e que, de fato, são contra ela), isso quer dizer que devemos nivelar por baixo e nos censurar pra agradar aos mais “esquentadinhos”? Não na minha visão de mundo.

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20 de January de 2015 at 13:56 Comments (4)

Nos limites da Propriedade Privada (Parte-2)

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Quando se fala em Reforma Agrária, ao menos no Brasil a primeira imagem que vem na nossa cabeça, é a de pessoas pobre, feia e suja, armada com foices querendo literalmente se apossar da terra dos outros.

Por isso, no Post anterior ( http://www.desajustado.org/2014/12/13/nos-limites-da-propriedade-privada-parte-1/ ), tentei expor um pouco das motivações para se entender essa proposta.

Ainda sim, mesmo depois de tudo que foi dito ainda é fácil visualizar um monte de gente de vermelho, e começarmos a botar a culpa na Dilma, no  Lula e no PT, e principalmente, da Esquerda. No tal bando de maconheiros que defende esse bando de vagabundos que quer ganhar terra sem trabalhar duro.

O que ninguém sabe, é que a Reforma Agrária Clássica não foi uma bandeira socialista, foi um projeto Democratico, Republicano! Foi um projeto impulsionado por BURGUESES!

Como assim, por burgueses?
Tendo a terra como bem da natureza, a esperta burguesia industrial Européia sabiamente percebeu que o camponês, apesar de mais pobre, é um consumidor em potencial. Fizeram as contas, e perceberam que se todo mundo for mais ou menos rico e puder consumir produtos industrializados, eles lucram muito mais apesar de ter sua propriedade reduzida.

A partir daí, a burguesia industrial Européia faz uma pressão enorme para que fosse realizada uma reforma agrária massiva, e abre uma respeitável distância dos outros países. Praticamente fica todo mundo com propriedades de 100 a 400 hectares, e através disso, incorporam os camponeses no mercado consumidor, e estimulam a produtividade.

No mesmo espírito, veio a Reforma Agrária Norte-Americana.
Até 1862, os EUA eram igualzinhos o Brasil, escravocratas e fornecedores de Matéria-Prima. Depois da guerra-civil, a burguesia do Norte impõe suas vontades, estabelece a reforma e abre essa vantagem sobre o Brasil que sentimos até hoje.

Depois da Segunda Guerra, o Japão fez a mais radical de todas as reformas agrárias: POR LEI, ninguém poderia ter mais do que 4 hectares! E tudo conseguiu se adaptar a isso.

Já a burguesia Brasileira, não tão esperta quanto as outras, optou por não fazer a reforma agrária, deixando o mercado consumidor menor, cobrando mais em cima dos produtos, sem abrir mão da concentração de propriedade.

As consequências sociais disso?
O trabalhador camponês, ficando sem Terras e sem Emprego, fica sem saída senão migrar desesperadamente para as cidades. Ocorre um inchasso urbano, as favelas surgem, e com elas o desemprego em massa. Aceitam qualquer coisa, e presenciamos a formação de um pelotão de Faxineiras e Peões de Obra.

Com pouca oferta de emprego, forma-se o chamado “Exército de Reserva” de desempregados, que tem como função básica literalmente ASSOMBRAR os outros trabalhadores, fazendo com que aceitem qualquer salário com medo de ser substituído. Por isso até hoje, o Brasil tem os salários industriais mais baixos do mundo.

Agora, o grande Agronegócio controla com punho de ferro o monocultivo Brasileiro, através da chamada Associação Brasileira do Agronegócio. São 50 empresas que determinam tudo que vai ser produzido no Brasil. Além dos previsíveis clássicos como a Monsanto, Syngenta, Cargill e Nestlé, você vai encontrar associados como a Rede Globo e o Grupo Estado!
Talvez seja por isso que você nunca vai ouvir falarem algo bom sobre Reforma Agrária, ou qualquer tipo de movimento relacionado a ela.

Talvez, em sua concepção simplista, os nossos indígenas não poderiam estar mais corretos. A idéia da própria Terra ser um bem, algo que pertence a alguém, não faz sentido algum. Seria como alguém querer se apropriar do Mar, do Ar, ou do Sol, e permitir ser dono de tudo isso, é permitir esse alguém ser literalmente dono da VIDA dos demais.

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17 de December de 2014 at 23:42 Comments (0)

Nos limites da Propriedade Privada (Parte-1)

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Vamos assumir por um instante que uma das proposições clássicas do capitalismo seja válida, e vamos considerar que dinheiro “é” sinônimo de mérito e esforço. Se você tem alguma coisa, é invariávelmente porque trabalhou e mereceu, e se você tem mais, é porque trabalhou mais do que os outros.

Nesse momento, propriedade privada torna-se mais do que um símbolo de conquista, torna o direito a essa conquista irrevogável. Você trabalhou por aquilo, e NINGUÉM deveria ter o direito de tirar aquilo de você, nem estado nem nada, não importa o uso ou desuso que você está dando para aquilo.

Parece lógico, não?
Você se ralou, se esfolou pra obter aquilo, e permitir a alguém ir tomar aquilo de você seria uma tremenda injustiça, certo?

Beleza, então vamos extender esse exercício de pensamento.
Vamos imaginar que você é uma dessas pessoas excepcionalmente trabalhadoras, e que por isso, conseguiu ir comprando terras e propriedades, expandindo virtuosamente seu patrimônio.

20% do estado de São Paulo passou a ser seu. Você não dá conta de dar uso pra tudo isso. Algumas partes você transforma em negócios e vira um grande produtor, outras partes você arrenda, outras você revende, mas como você é um bom administrador, isso acaba sempre se revertendo em mais terras.

A expansão continua, e você passa a deter controle de 30% das Terras do estado de São Paulo. Quando isso acontece, ocorre um fenômeno curioso.
Mesmo não conseguindo dar uso pra tudo que tem e tendo uma parcela considerável  de terras ociosas, você ainda detém uma massiva produção em escala. Sua produtividade é tão grande, que seus concorrentes não dão conta de te acompanhar.

Para seus negócios é um excelente momento, repleto de oportunidades. Esse bando de perdedores não tem saída senão começar a vender pra você a preço de banana as terras restantes.
Para o resto da sociedade, surge um efeito dramático. Toda essa massa desempregada de gente agora não tem saída senão migrar em peso para as cidades, que agora ficam abarrotadas.

Nessas cidades, agora há gente demais e a oferta de emprego não dá conta de manter tanta gente contratada. Para a maior parte da população, a vida nunca foi tão sofrida, mas para as pessoas um pouco mais ricas da cidade, veio uma era de ouro. Esse bando de gente passando fome não tinha saída senão aceitar qualquer emprego a qualquer salário. Tornaram-se faxineiras, pedreiros, motoristas de ônibus e porteiros. É o que futuramente virá a ser chamado “Reserva de exército de trabalhadores“.

Manter a cidade ser lotada de gente virou um mecanismo importante aí, porque era isso que garantia os baixos salários. Se você não aceita um salário de fome, tem um bando de gente pobre sem trabalho, alguém vai aceitar. O medo de ficar desempregado é o que garante o lucro dos pequenos empresários. E tudo isso começou porque você tem terra demais…

Falando em você, seu patrimônio, que mais começa a se parecer com um império, nunca esteve tão grande e nunca cresceu tão rápido. 40% de São Paulo é seu, e expandindo.

Com facilidade, você chega passa a ser dono de 50% do estado de São Paulo. Metade das suas Terras estão ociosas, ou seja, 25% do que poderia ser produção agrícola, está parado. Mas não é por ingerência sua, muito pelo contrário. você descobriu que se você produzir demais, a oferta de alimentos fica muito alta e os preços caem. O que garante o seu lucro agora é manter uma parte das pessoas passando fome, para que as pessoas com medo de passar fome, paguem qualquer coisa pela comida que você oferece.
E tudo isso porque você tem terra demais…

60%, 70%, 80%, onde isso vai parar, ninguém sabe. Você é uma força da natureza, uma potência.

Porém, você batalhou, trabalhou DURO por tudo isso. É um empresário e empreendedor genial com uma carreira invejável, construiu tudo do nada, arrancar isso de você seria uma grande injustiça.

Pelo seu suor, tudo aquilo é seu, e se você quiser deixar aquilo PARADO, causando sofrimento a milhares de pessoas, é um direito seu sim senhor!

Ou será que não? Até que ponto o direito à propriedade privada vem acima dos direitos humanos? Se fosse colocado um limite ali, a sociedade se desenvolveria de uma maneira diferente? Como seria um mundo onde ninguém pode ter terra demais?

Se você você já se perguntou isso, talvez você seja a favor da famosa reforma agrária, tão mal falada e tão mal vista…

Mas isso fica para uma parte dois, não perca!

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13 de December de 2014 at 12:31 Comments (10)

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