A moralística do atraso

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Pois bem, finalmente decidi escrever sobre esse assunto da maneira mais imparcial que consigo, afinal um mimimi sobre o tema eu já tenho. Não sei por que só as 37 anos de idade que eu cheguei a essa “conclusão”, mas o fato é que consegui identificar um abismo de entendimento entre as duas partes (os atrasados e os pontuais), especificamente quando o tema é investigado sobre uma ótica moralista. Nenhuma parte entende a outra e a vitimização é constante, o que não facilita o debate e não nos leva a evolução alguma.

Por mais que tente ser o mais imparcial possível, quando tratamos de aspectos morais é praticamente impossível ser um observador suficientemente distante e inerte; então se parecer que estou puxando a sardinha para o lado dos pontuais, bom, faz parte do desafio de dar uma de filósofo da moral utilizando como ferramenta uma mente altamente moralizada.

Antes de mais nada, acho que é interessante tentarmos olhar para o assunto de uma perspectiva totalmente objetiva, para que dessa forma possamos perceber uma coisa bem simples: horários existem para que as coisas funcionem da melhor maneira possível, e todos tiram proveito disso, atrasados e pontuais.

Imaginem um aeroporto: com sua enorme complexidade de processos, sistemas e fluxos de pessoas, funcionando como um organismo, non-stop. Se não houver, nesses processos e sistemas, uma preocupação com controle do tempo que para alguns mais relaxados poderia ser comparada a uma neurose, seria impossível manter os horários dos voos minimamente organizados. Se você levar em consideração que cada aeroporto está conectado à dezenas de outros ao redor do mundo, a complexidade desses sistemas e a preocupação com o horário necessária se torna ainda mais rígida. Mas mesmo assim, atrasos acontecem. Pode ser por causa de mau tempo, algum passageiro atrasou no embarque, ou simplesmente um pequena falha na enorme complexidade dos processos. E vamos combinar: ninguém gosta desses atrasos. Nem pontuais, nem atrasados. Se você atrasou pra sair de casa e pegar seu voo, e deu a “sorte” do voo atrasar em 1h, deu sorte, ótimo. Pontuais também gostam dessa sorte. Mas quando um voo atrasa 6h devido a uma sequencia de problemas que pode ter começado na noite anterior do outro lado do planeta, não é legal. Independente da causa (que raramente chegamos a conhecer), não é legal pra ninguém: nem pros funcionários, nem pros passageiros. O que me leva a uma simples conclusão que acredito que possa ser compartilhada por atrasados e pontuais: ninguém gosta de atraso. Ponto. Podemos concordar com isso? Ok, seguindo em frente.

Portanto, resumindo: de um ponto de vista puramente objetivo, podemos todos (atrasados e pontuais) concordar que atraso é ruim. Por indução lógica, a pontualidade (controles, eficiência de processos, sistemas a prova de falhas, punições para desvios, etc) é geralmente vista como boa e útil – para todos! O que coloquei em parênteses na pontualidade é importante ressaltar também, pois não se iludam, pontualidade não existe magicamente. Requer esforço, auto-avaliações e melhorias contínuas. Quase uma obsessão, da qual todos se beneficiam. Os trens da Europa não operam com precisão de minutos apenas por que os sistemas deles são otimizados, mas por que tudo funciona bem, e todas as pessoas envolvidas tem como o objetivo ser cada vez mais e mais pontuais e precisas. E nem sempre isso é agradável para os envolvidos. Não é exatamente divertido.

Mas (e aqui começa a parte polêmica) quando moralizamos o tema do atraso e da pontualidade, parece não haver um ponto em comum. Não existe mais o “para todos”. E não apenas na forma como a moralização do atraso é vista por cada um dos lados. O que ocorre na maioria dos casos é que um dos lados (os pontuais) ficam com toda a carga moral da questão, enquanto os atrasados tentam ver a questão sempre de forma objetiva, excluindo qualquer conotação ética. E isso é especialmente verdade quando o atraso sendo avaliado é um atraso social – ou seja, de um simples encontro entre pessoas ou grupos (um jantar, uma viagem, uma festa, uma mesa de bar, etc).

A cerca de um ano atrás eu fiz uma pergunta no Quora, indagando sobre o aspecto moral do atraso. Eu já sabia que seria uma pergunta que ia gerar reações diversas e algumas até ultra-defensivas, mas eu nunca imaginava que a polarização seria tanta. O que se pode perceber lá claramente é que os pontuais realmente acreditam que quem atrasa está errado, que não está dando o real valor ao tempo do outro, etc. E os atrasados, praticamente todos, evitaram completamente de avaliar seus comportamentos sob a ótica moral e falaram sobre responsabilidade, produtividade, etc. Não há ponto em comum. Como eu falei, os pontuais moralizam demais a questão, enquanto os atrasados moralizam de menos, quase nada.

O que falta para que seja possível conversar sobre isso objetivamente, sem mimimi, e sem cada um tentar ser a vítima é cada um ser mais honesto sobre a sua personalidade e a consequência de seus atos. Como não há tal coisa, cada lado acha que entende o outro, e por que ele é do jeito que é. Pontuais veem atrasados como pessoas enroladas e insensíveis. Atrasados veem pontuais como pessoas controladoras e chatas.

O fato é que todos sofrem. Pontualidade não é uma “virtude” legal de se ter. As desvantagens são enormes, especialmente se você deu o azar de nascer num lugar que dá pouco valor a isso (ex: Brasil). Está geralmente associada à ansiedade e pessimismo. Atrasados tendem a perceber o comportamento do pontual como facilitado pelos seus hábitos, por exemplo, de dormir e acordar cedo. Quando na verdade é o contrário: o fato de ser pontual é que o condiciona a ter seus comportamentos regrados. Pontuais, especialmente quando chateados com algum atraso, tendem a julgar o ocorrido de um ponto de vista primordialmente moral, “como pode a pessoa dar tão pouco valor ao meu tempo?”, e isso influencia seu julgamento da coisa como um todo, ignorando o fato que sua mente é tão completamente diferente da do atrasado (nesse aspecto específico) como comparar a visão de neoliberais e comunistas sobre a propriedade privada.

Pra piorar, o lado “prejudicado” da história quase sempre são os pontuais, logo eles serão quase sempre também os únicos a falar e reclamar disso. A única vez que li um texto realmente legal e bastante honesto (e engraçado) sobre um atrasado, e do que faz ele ser atrasado foi nesse blog. Se você for um atrasado e concordar com ele, comenta aí e vamos debater.

Mas existe algo além disso. E mais outros “algos” também que me fogem. O comportamento de grupo (herd mentality), a que somos todos sujeitos, de maneiras que nem percebemos, dificulta uma real aproximação maior entre os indivíduos de cada um dos grupos para que essas sutilezas venham à tona. Preferimos nos fazer de vítimas e culpar o outro, buscando validação dos nossos comportamentos no grupo a que pertencemos. Em cada sociedade a proporção entre os grupos é diferente, mas cada grupo é sempre grande o suficiente para ser possível buscar tal validação e conforto sobre seu posicionamento.

Para terminar, precisamos voltar um pouco ao aspecto objetivo da coisa. E já esclarecemos o fato de que atraso é ruim, certo? Então sob a ótica puramente objetiva da consequência das ações de cada um, o pontual, por mais que ele tenha lá suas questões internas e chatices, está “certo” na maioria das vezes quando o horário é a questão. Em sociedades atrasadas como a nossa, chegar atrasado é até esperado. Ninguém chega no exato horário combinado, e como ninguém quer ser o primeiro a chegar, colocam mais 30 minutos na mistura. Com isso, a cultura do atraso se fortalece e com ela a legitimação do atrasado – qualquer possibilidade de moralizar seu próprio comportamento vai pro ralo.

Precisamos equilibrar essa balança da carga moral do assunto “atraso”. É peso demais para alguns poucos pontuais carregarem.

Por que é tão difícil derrubar um político?

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acm

Enquanto a população brasileira assiste impotente aos mandos e desmandos de Cunha no congresso, suas manobras pra atrapalhar tudo que pesa contra ele, alternamos sentimentos da mais pura revolta e de estupefação. Quando parece que “dessa vez vai”, o cara manda uma outra manobra e parece que sai fortalecido após cada ataque. Como pode?

“Como pode?” é uma pergunta que imagino que muitos brasileiros se fazem, cada vez com mais frequência, cada vez que o nome desse cara aparece na mídia, por que no fundo, esperam que a próxima vez que vissem seria “Cunha sofre a primeira derrota”. Mas nunca é. Como pode? O que faz desse cara tão protegido? Como pode se livrar assim de todas as acusações que pesam sobre ele? É difícil responder em termos práticos e concretos, ou seja, exatamente quem (e como) o está protegendo. Mas em termos mais gerais, não é nenhuma surpresa.

O jogo político é esse, sempre foi. Você me ajuda hoje, eu te ajudo amanhã. Sua empresa emprega meu filho, que eu ajudo a vetar aquela lei que aumenta a fiscalização do que quer que sua empresa faça. E tem muita parte dessas coisas, que sob um olhar ético são evidentemente repreensíveis, do ponto de vista legal são perfeitamente normais, como o financiamento privado de campanhas: o conflito de interesses oficializado.

A verdade dura e difícil de engolir é que Cunha é apenas a ponta do iceberg. É bom lembrar que ele foi democraticamente eleito por seus pares, colegas deputados. Ele não virou o babaca que ele é apenas quando assumiu o cargo de presidente, ele sempre foi – o histórico dele comprova isso. Quem votou nele, conhece bem. E das duas uma, ou tem rabo preso em alguma negociata ou jogo de interesses, ou meramente divide com ele posições ideológicas. Vamos ser bonzinhos e considerar que é metade em cada caso.

Outro problema é a quantidade enorme de burocracia e “regras especiais” que protegem todas as esferas do governo nesse país, regras essas que são uma vergonha internacional. Juízes são considerados intocáveis, nunca são julgados ou presos não importa a gravidade do crime. Deputados e senadores gozam de foro privilegiado e imunidade parlamentar, o que lhes garante uma “justiça especial”, ou seja, são julgados pelos seus pares. E seus pares, vamos combinar, não são flor que se cheire. Temos nesse momento um dos piores e mais conservadores congressos da história do país. Não é surpresa que que seja Cunha o seu presidente.

Quando vemos no noticiário que o prefeito fulano ou o vereador cicrano foi deposto e preso, podem ter certeza que isso nada tem a ver com o teor das acusações que pesam sobre ele. Se são provas concretas ou menos-concretas. O que vale é quantos de seus aliados no legislativo e no judiciário ainda estão com ele, e se estão dispostos a segurar o rojão. No caso de Cunha, de algo podemos ter certeza: seus tentáculos de influência vão muito longe, e seus “amigos” estão muito bem posicionados. Não é aquele papo simplista “se eu caio, cai todo mundo”. Ele estar ali, interessa a muitos, não apenas por medo de serem também acusados (afinal, gozarão de todas as benesses das proteções que já citei), mas por que muita sujeira depende que certas pessoas estejam em certos cargos.

Derrubar Cunha é uma obrigação do parlamento e do judiciário desse país, por razões primordialmente éticas. A permanência dele no cargo é uma afronta à democracia e à justiça. Não só pelas acusações (que são gravíssimas e muitas), que fosse apenas pelo seu comportamento ridículo e infantil enquanto presidente de um congresso, agindo como um dono da bola e claramente contra o interesse do país e do congresso. Mas nada disso importa, se essa mesma permanência for necessária para que certos projetos, certos esquemas e certos cargos sejam garantidos. Ética é para os fracos.

E não se enganem, se sai Cunha, entra outro. A população brasileira ficará feliz, mas o congresso não. Seu sucessor pode não ser tão competente e frio como ele, mas isso não quer dizer que será menos perigoso. Poderá ser um testa de ferro ou um mero fantoche. O jogo não muda e nem a democracia estará “salva”.

Se podemos ser otimistas e pensar que de um pulha como ele pode sair algo de bom, é que ele perdeu tanto a linha em seus mandos e desmandos que talvez daí a oposição se fortaleça e consiga apoio pra mudar algumas dessas regras que protegem políticos e torna tão difícil tirar políticos como ele de seus cargos mais rapidamente.

E o que aquela foto do ACM está fazendo nesse post? Estou cansado da cara feia do Cunha. Coloquei outro político nojento que ocupou o cargo muito mais tempo do que devia no lugar. Só pra dar uma variada e lembrar que esse problema não é nem um pouco novo.

Trinta reais

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Villagers carry rice and other humanitarian aids off a CH-53E Super Stallion helicopter, donated by the Samaritan's Purse International Aid, coordinated by US AID, Friday Oct. 9, 2009 in Koto Tinngi, north of Padang, Indonesia. The massive relief effort following Indonesia's deadly earthquake received a boost Friday when U.S. Navy ships and helicopters arrived to distribute aid and help thousands of struggling survivors. (AP Photo/Wong Maye-E)

Quando eu era criança, mais ou menos uns 10 anos de idade, lembro-me bem da minha mãe se irritando com umas pessoas que apareciam todo fim de semana lá em casa para cobrar algo. Depois de um tempo consegui entender que se tratava de uma instituição de caridade, da qual ela já havia se desfiliado, mas que continuavam insistindo em obter as doações. Minha mãe chegou a se emputecer de verdade e deu uns esporros bem duros em alguns dos “cobradores” (não é uma boa palavra, é?) que iam lá. Depois de um tempo, desistiram. Isso tudo deixou uma impressão em mim, bem ruim, desse lance todo de caridade. Se me recordo, era a LBV. Muitos anos depois, já na era Collor, ocorreu o escândalo com a primeira dama, Rosane, no qual ela foi acusada de desvio de verbas, da LBA. Como as siglas são parecidas, eu meio que juntei tudo. E aí que a impressão da coisa toda ficou ruim mesmo.

Mas já não sou criança há bastante tempo, e hoje a expressão “caridade” não carrega nenhuma das conotações negativas de alguém que sequer sabia direito o que estava julgando com 10 anos de idade. Mas ainda assim, convenhamos, vivemos no país da corrupção, e por aqui, não confiamos muito nessas instituições. Criança Esperança? Alo? Pois é. Mundo afora é um “mercado” que movimento muitos bilhões anualmente e isso deixa muita gente com a pulga atrás da orelha – totalmente compreensível.

De uns anos pra cá, porém, eu tenho mudado um pouco de perspectiva em relação a isso, e acho que a internet tem tido um papel fundamental nessa mudança. Hoje em dia, não precisamos simplesmente depositar cegamente o dinheiro na conta de uma instituição e esperar pelo melhor. Temos um ferramental investigativo gigantesco ao nosso dispor. Basta querer e não se render a racionalismos hipócritas pra não fazer porra nenhuma. Eu tenho feito algumas doações pontuais (coisa de 10, 15 dólares) a algumas instituições nas quais realmente acredito, por exemplo: Wikipedia, The Story of Stuff, HSI, AMURT, Uniceff (na ocasião do tsunami na Indonésia), e talvez outras que não estou lembrando. Mais recentemente, tenho apoiado alguns projetos de crowdsourcing.

Mas eu ainda carregava uma certa resistência com doações recorrentes, que são as mais significativas para qualquer instituição que dependa de doações pra viver. E acho que aí nessa parte deve remeter a minha infância e imagens da minha mãe irritada. Isso somado àquela desconfiança de que o dinheiro possa estar sendo desviado e eu sendo feito de otário, uma vez por mês.

Eu não sei se tá rolando uma crise generalizada nas instituições de caridade (pelo menos aqui no Rio), mas eu tenho visto cada vez mais daquelas pessoas com coletes coloridos te abordando na rua e pedindo uma grana. Sinceramente, eu acho isso bem chato e inoportuno – mas, um mal necessário, e dos males o menor. Bem menor que deputador que rouba merenda, “mas não incomoda ninguém”. Ética seletiva é isso aí.

Enfim, de alguma forma esse enxame de pessoas no meu campo visual todos os dias (Unicef, Anistia Interncional, MSF, etc), me fez repensar um pouco essa minha resistência com a caridade recorrente. Por que não? Certamente não é uma questão financeira. Trinta reais não vão me fazer falta em um mês! Vou para um bar e em 2h gasto mais que o dobro disso sem esforço. É a corrupção? Sim, com certeza uma grande barreira.

Resolvi outro dia, por impulso, me filiar ao MSF (Médicos Sem Fronteiras) com uma doação mensal, de 30 Dilmas – antes mesmo de refletir sobre o assunto, como estou fazendo aqui agora. Sempre achei o trabalho desse pessoal fantástico e me pareceu que valia a pena. Mas e a corrupção? As vezes a gente precisa saber parar a mente cheia de preconceitos e respostas prontas pra tudo, pois ela pode ser a sua maior inimiga em realizar algo. Nesse caso a atitude é: foda-se a corrupção, é o preço que se paga. Ponto, ponto, não pense mais, se não você trava! Se você quer ajudar, você ajuda. Não tenho agora, nem nunca vou ter, um controle e garantia total sobre como o dinheiro doado vai ser usado; a chance de que algo seja desviado ou não usado exatamente como você desejaria, é grande. É um fato da vida. Dinheiro desperta o pior nas pessoas. Muita grana disponível, vão roubar, não adianta. Mas e aí? Então ninguém doa nada, e não ajuda ninguém, só por causa disso? Digamos que das minhas 30 pilas, 15 sejam desviadas (o que é uma estimativa totalmente surreal), e só metade chegue num país de África pra comprar água e remédio contra a malária. Não vale a pena? Sim, dá raiva de saber que tem gente safada, filha da puta, roubando dinheiro que deveria ajudar crianças. Mas e aí? Não doando dinheiro está ajudando exatamente como a acabar com essa corrupção? Nada, absolutamente nada!

Uma das racionalizações mais comuns que travam as pessoas em contribuir com uma instituição de caridade, é que é “melhor fazer o bem ali na esquina”. Encontre alguma instituição perto da sua casa e vá lá, você mesmo, levar arroz e feijão. Ótimo, faça isso! Mas o que no final acaba acontencendo? Você vai uma vez, vai duas. E depois não vai mais. E também não dá dinheiro por que não quer sustentar safado – o que é uma justificativa totalmente oquei. E aí você volta pra estaca zero de não ajudar ninguém, nunca. E depois você para completamente de pensar no assunto, o que é o pior.

Tô aqui fazendo propaganda da MSF? Se você acha isso, não leu o texto direito. Releia. Como eu falei, nada me garante que daqui a 6 meses eu descubra um escândalo bizarro envolvendo eles e me decepcione o suficiente e pare de doar. Mas escrevo esse texto aqui pra tentar fixar na minha cabeça que não dá pra tomar um (ou alguns) péssimo(s) exemplo(s) como justificativa pra parar de ajudar. É muito fácil cairmos nessa armadilha. Certamente não vale R$ 30, e pra quem não tem acesso a água limpa nunca, os R$ 15 que sobram depois da minha grana ser filtrada pela roubalheira, fazem toda a diferença do mundo.

Não, esse não é um texto definitivo pró-caridade e eu também não passei por uma epifania de altruismo. São 30 pratas só, não sou nenhum filantropo. Existem centenas de pontos que não foram discutidos aqui, e que podem gerar opiniões totalmente diversas, todas válidas, e possivelmente opostas a essa que acabei de expor. Nem todo mundo que não doa nada é automaticamente um babaca egoísta. E nem que doa automaticamente é uma ótima e generosa pessoa. Nada disso. Nada disso mesmo. Mas instituições de caridade são necessárias. E se você se sente inclinado a ajudar mas tem uma pulguinha atrás da orelha, como eu tive por muitos e muitos anos, talvez esse texto te faça repensar. E aí já são mais R$ 15. =)

Ninguém nasce bandido – nem deputado

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meritEm tempos de Bolsonaro, onde as frases “tá com pena, leva pra casa”, “bandido bom é bandido morto” e “ninguém nasce bandido” são cada vez mais comuns – e mais aceitas – em rodas de conversa e nos noticiários, vale a pena aproveitar o gancho pra tentar entender a falha lógica desses argumentos, especialmente quando temos um contraponto bastante oportuno nesse caso. Tudo no final remete a um mesmo conceito incrivelmente falho que não é suportado pela ciência e muito menos pela realidade: que somos nós os únicos responsáveis por aquilo que nos tornamos. A velha balela do mérito, da opção, e de que “ninguém nasce bandido”… escolhe ser, pelo visto.

Que ninguém nasce bandido, é óbvio. É uma coisa incrivelmente estúpida de se afirmar, ainda mais quando usada na tentavia de provar algo igualmente fantasioso como a meritocracia. A ideia de que a genética tem tamanho poder sobre o nosso destino, e que já dentro do útero estamos determinados na vida a nos tornamos gênios, idiotas, bandidos ou santos é tão simplista e ultrapassada como dizer que somos produtos do meio, que “O homem é bom” como dizia Rousseau, que somos todos naturalmente gentis, e é o meio que nos estraga.

Hoje (aliás, já tem tempo – mas Bolsonaros e amigos não estudam, né? Não da pra esperar muito) as ciências sociais, os estudos mais profundos da neurociência e comportamento tem chegado cada vez mais a conclusão de que não é nem uma coisa, nem outra, mas uma combinação de ambas, não sabendo ao certo quanto de cada. Exemplos clássicos disso são incontáveis relatos de filhos adotivos que mesmo tendo recebido a melhor das criações em uma família estável, apresentam distúrbios de comportamento e chegam a ser violentos com seus pais de criação. Não faltam também relatos de gêmeos criados separadamente e que se tornam pessoas incrivelmente diferentes – ou, mais surpreendente ainda, incrivelmente parecidos apesar de toda a sorte de experiências diametralmente opostas.

O que se deseja argumentar aqui é que uma frase como essa – ninguém nasce bandido – jogada assim numa argumentação sobre direitos humanos, é incrivelmente vazia e só tem um objetivo: jogar toda a culpa de um ato violento no indivíduo. E ao fazer isso, eximir completamente a sociedade e o Estado (composto também de pessoas) de qualquer responsabilidade. Ter nascido na favela, em meio a zonas de conflito, onde o Estado não chega, não tem qualquer efeito sobre a decisão de um indivíduo de se tornar um criminoso. Claro.

Mas porque eu estou falando do Bolsonaro, e o que deputados tem a ver com isso? Bom, é simples. Por que quem defende essa coisa da meritocracia, precisa defendê-la a qualquer custo, pois toda sua filosofia de vida se baseia nisso, é uma via de mão dupla. Se um bandido é bandido apenas porque quer, e sua situação miserável é culpa sua, aqueles que vencem na vida, e se tornam deputados, também, pela mesma regra, são os únicos responsáveis por isso. A socidade não os ajudou em nada, muito menos o Estado. Ahã.

Vejamos. Bolsonaro é deputado federal, o mais votado no RJ. Seus filhos são: um verador, um deputado estadual e um federal. Devemos mesmo acreditar que o patriarca teve zero influência tanto na decisão de seus pimpolhos de seguirem seus passos, como em garantir suas devidas eleições? O quão cínico você precisa ser para fingir que acredita nisso?

Vamos colocar as coisas em perspectiva. Nasce Ricardo, no Complexo do Alemão. O pai é pedreiro e a mãe faxineira. Será que eles vão “botar pilha” pro filho se candidatar a Deputado? No Leblon, nasce Eduardo, filho do Bolsonaro Master. Estuda em escola particular e desde sempre escuta histórias do pai sobre ser político e querer transformar o Brasil num local livre de gays e feministas. Qual a chance do Eduardo assaltar um banco e do Ricardo sequer ter a chance de uma campanha política? Vamos ser honestos. A chance existe pra ambos os casos. Nem todo bandido é pobre e negro. Nem todo deputado é bem nascido e filho de político. Mas… e vamos lá, honestos, ok? É uma chance pequena, bem pequena – e não é achismo, são fatos, dados, estatísticas, disponíveis pra quem quiser ver. E aí que os meritocracia-fan-boys piram. Na cabeça deles, todos, absolutamente todos, tem a mesma chance. Se todos tem a mesma chance, e a família feliz do Bolsonaro que está toda sorrisos encaminhados como políticos, os pretos e pobres nascidos na favela poderiam estar lá também. É só querer, estudar, trabalhar “duro”, tudo está ao alcance. O fato de que onde moram não tem hospital, posto de saúde, que a escola vive em greve e não tem professor, que volta e meia não pode ir pra casa por causa de tiroteio – isso é tudo frescura, são “obstáculos” que todos precisam enfrentar. Os Bolsoninhos tiveram obstáculos também, né? Claro, ninguém tem a vida garantida.

É só uma coincidência que comunidades onde o Estado não chega são dominadas por traficantes e milícias, e que a grande maioria dos criminosos que estampam as páginas de jornal saem dessas comunidades, e que a maioria é preto e, obviamente, pobre. É coincidência também que o Paladino do Machismo tenha uma família inteira de Mini-Mes.

Todo mundo escolheu sozinho, sem influências, a carreira política, uma puta coincidência, e todo mundo correu atrás do zero, sem nenhuma ajuda do pai. Inclusive todos decidiram estudar em escola pública, trabalhar desde os 14 pra pagar o cursinho e garantir vagas em universidade públicas, e recorreram somente ao SUS quando precisavam de assistência médica. Ah, e quando fizeram merda (afinal todo adolescente faz merda) tomaram tapa de policial, dormiram na delegacia, e nunca ligaram pro papi pra pedir ajuda.

Ia ser legal se toda essa última parte fosse (ao menos um pouquinho) verdade né? Ia acabar com meu argumento. Pena que não é.

Ignorantes, idiotas e babacas

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capitalismo-e-fila

Antes de começar esse post, já aviso logo, vou ser um pouco babaca – ou talvez apenas idiota. Vocês decidem após a leitura. O fato é que pretendo aqui categorizar pessoas e isso requer algum grau de arrogância e prepotência, características predominantes na idiotice e na babaquice. Mas visto a carapuça sem maiores reservas, pois sei que pego emprestado essa posição com a licença poética que um blog me permite, e também por que eu acho que sou um cara legal (todo mundo acha né?), e isso vocês também podem decidir lendo outras coisas que escrevo aqui ou se me conhecem pessoalmente. Já aviso também, caso o único texto lido meu seja esse, e a licença poética não for ofertada de bom grado pelo leitor, é possível que a impressão fique: “esse Christian é um babaca”. Enfim, esse é o risco que vou correr. Nem Jesus agradou a todos.

Pois bem, vamos ao que interessa. Me proponho aqui a fazer algo que provavelmente que nunca vi escrito de forma sistemática. Ignorante, idiota e babaca são termos usados por todos em alguns (vários) momentos da vida quando queremos xingar alguém ou simplesmente classificar pessoas devido às suas ações e comportamentos. Nada de errado até aqui. Somos humanos, humanos julgam, o tempo todo – com palavras, adjetivos, fazem parte da linguagem e de nosso cotidiano.

Mas quero tentar entender melhor e tentar classificar direito as coisas. Pra quê? Por que sim. (viu? fui idiota).

Claro que vou me focar aqui na civilidade e respeito entre as pessoas pra tentar classificar esses três tipos de pessoas, ou melhor de atitudes, estados de espírito. E não custa salientar que nada disso é genético e ninguém está preso a uma dessas definições do nascimento à morte. Todos nós estamos sujeitos a ignorância, idiotice e babaquice por nossas vidas. O problema está em ficar preso muito tempo numa delas, ou pior, “passar de fase”, de ignorante pra idiota, e de idiota pra babaca.

Os critérios que vou utilizar na classificação são: preocupação com o outro, atenção e intenção. São esses os três ingredientes, que misturados nas devidas proporções, fazem de uma pessoa um gente boa, um imbecil ou um filho da puta. Possivelmente tudo no mesmo dia. Mas vamos voltar aos nossos três termos escolhidos a dedo pra essa análise, pra não perder o rumo.

Imaginem que todas as ações reprováveis, do ponto de vista da civilidade básica, poderia ser dividida entre: ignorância, idiotice e babaquice. Apliquem inicialmente o critério da intenção. Nesse sentido, teríamos claramente uma progressão iniciando no ignorante e terminando no babaca, pois o que ignora, sequer sabe que está fazendo algo errado, enquanto o babaca não só sabe, como o faz por prazer ou sei lá por quais motivações de sua instabilidade emocional. Ou seja, o babaca é um idiota de propósito!

Agora visualizem um gringo, desavisado, turistando por aí. É perfeitamente possível que, por desconhecer algumas das regras de conduta e costumes locais, ele cometa alguma gafe, ou se porte de maneira indevida. A isso classificamos – inicialmente – como ignorância. Uma segunda incidência do mesmo erro já fica estranho, ou um sequência de diferentes gafes também. Invocamos então o outro critério: a atenção. Se o cara vacila o tempo todo, provavelmente é um idiota. Está mais preocupado em tirar foto de tudo que se mexe do que em tentar entender e respeitar as regras de convívio do local onde se encontra.

Os dois critérios, da atenção e da intenção, são misturados com o terceiro, a preocupação com o outro, para podermos determinar uma ação como sendo mera ignorância, idiotice ou babaquice. Nem sempre nos é possível quantificar esses critérios apenas pelas atitudes de pessoas a nossa volta, mas mesmo assim estamos sempre prontos a xingá-los com o termo que achamos mais apropriado. Em outras situações, resta pouca dúvida. Vamos a alguns exemplos:

– ficar parado à esquerda em escadas rolantes – um bom exemplo que torna difícil saber se houve ignorância ou idiotice. Somos levados sempre a pensar no pior caso, especialmente quando estamos com pressa.

– furar fila: no mínimo idiota, mais provavelmente babaca

– proferir a frase “Você sabe quem está falando?”: ultra-babaca

– correr ou andar de bike na contramão em ciclovia: idiota

– estacionar carro na ciclovia: idiota treinando pra ser babaca

– não ceder o lugar aos mais necessitados em transporte público: ignorância, idiotice ou babaquice pura (o próximo parágrafo ajudará a determinar)

– trafegar pelo acostamento: babaca

Uma boa forma de identificar se uma atitude indevida foi fruto de simples ignorância é observar a reação da pessoa ao ser notificada. Se ela se sentir envergonhada e se desculpar, muito provavelmente foi ignorância, mas pode também ser um lapso de pura idiotice, ou até babaquice, se a pessoa se recusar em aceitar o erro. E aqui entra o lance do critério da atenção, que mencionei no exemplo do turista. Ninguém é obrigado a nascer sabendo as regras de civilidade de um dado local. Você as aprende com seus pais e na marra, vivendo em sociedade e descobrindo o que pode e o que não pode, muitas vezes em situações embaraçosas as quais estaremos sempre sujeitos e que precisamos saber como lidar. Se você é educado para ter atenção (ser consciente) e observar a necessidade das pessoas a sua volta (dois critérios consolidados aqui), seus episódios de quebra da civilidade ficarão sempre no reino da ignorância, e estará sempre aberto a aprender com eles. Se a preocupação com o outro estiver em baixa (devido a alguma ideologia que segregue, ou ao impacto de alguma desigualdade, por exemplo) ou a atenção não tá nas melhores (e aqui as causas são muito mais diversas: de problemas de saúde física e mental, pura distração, euforia, tumulto, medo, etc) – dificilmente as regras não escritas da sociedade terão o impacto necessário para que aquela reação de “me desculpe” sincero ocorram, gerando um comportamento idiota.

Nos exemplos acima, eu classifiquei conforme a minha visão de mundo. O ciclista na contramão por exemplo, eu acho que é visto com bastante complacência (ao menos no RJ), pois nunca vi nenhum ser repreendido. Mas não consigo classificar como pura ignorância, pois isso ia requerer uma falta de atenção tamanha (todo mundo vindo na direção dele, e todas as indicações visuais invertidas), que nem uma criança seria desculpada – pra mim já beira a idiotice. Não que a pessoa seja, de fato, um idiota, só por isso. Claro que não. Mas naquele momento, está sendo um, por pura falta de atenção. Atenção essa que, quando muito em falta, pode o levar a atitudes muito mais reprováveis.

Todos podem ser ignorantes sob vários aspectos da civilidade (menos e menos a medida que amadurecem, é claro), e alguns episódios de idiotice são desculpáveis. Babaquice nunca é, nunca. Só pra deixar isso claro, tive que escrever esse testamento. =)