Vivendo sem Partido ?

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Uma das pautas que tem surgido com bastante vocalidade com a ascensão desde governo provisório, é a ideia da “Escola Sem Partidos”, onde a proposta seria proibir e punir discussões sobre posicionamentos partidários ou ideologicos em escolas.

Ter uma forma de ensino neutra, imparcial, é um conceito bastante sedutor.
Apresentar a informação como se vinda da fonte, seria o ideal. E mesmo se admitirmos que é algo impossível, ficar permanentemente buscando essa direção, seria algo pelo que valeria a pena lutar.

E para viabilizar esse tipo de proposta, acredito que a primeira coisa a fazermos seria avaliar o quão perto ou longe estamos desse ideal da neutralidade. Antes de sermos neutros na educação… É possível ser neutro em alguma coisa?

Se gastarmos dois minutos pensando, acredito que todo mundo chega à conclusão que não.
Toda ação é política. Toda ação vai favorecer um posicionamento A ou B, independente da vontade da pessoa. O que define seu posicionamento político não é o que você declara, são suas ações e escolhas.

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Vamos à um exemplo: O simples ato de comprar um produto A ou B.
Sabendo que o produto A é mais caro, ainda sim você poderia justificar sua compra ao dizer que na produção de A, o trabalhador é menos explorado, os salários são mais justos e o impacto ambiental é menor, enquanto que “B” apesar de mais barato, usa mão-de-obra semi escravizada e causa um enorme dano ao meio-ambiente.

Agora, note o seguinte: Mesmo que você não pense em tudo isso ao comprar alguma coisa, mesmo que sua escolha seja completamente alienada, mesmo que seja uma decisão baseada na ignorância, você ainda sim vai dar suporte à forma de produção A ou B. Se nada disso passa pela sua cabeça quando você compra algo, ainda sim, SUAS AÇÕES estão fazendo uma declaração. Ou a que você não se importa com a maneira que aquilo é produzido, desde que seja bom e barato, ou que você não tem dinheiro pra fazer outra escolha.

É disso que estamos falando ao dizer que TODA ação é política, independente de você ser consciente do processo ou não, e independente do que você declara sobre seu posicionamento político

Enfim, você pode SIM ser “apartidário” no sentido de não defender e nem sentir-se representado por nenhum partido político, porém suas ações cotidianas e suas repercussões, jamais serão.

Imagine uma situação em que você vai instalar um aplicativo em seu computador ou celular. Quando você vai instalar um programa, sempre existe um conjunto de configurações Padronizadas, o tal do “Default Settings”, ou configurações de Fábrica.
Se você abrir essas configurações, irá encontrar uma série de opções ligadas ou desligadas, independente da sua escolha. Mesmo que você não ligue, e nunca tenha aberto as configurações, as opções estão lá atuando. Não existe posição “neutra” nos botões.

Se você enxergar o cérebro humano como um grande computador, e a formação de um indivíduo como a instalação de um aplicativo, acaba sendo a mesma coisa. Porém, a “Configuração de Fábrica” é a ideologia dominante. É o conjunto de valores apresentados FORA DA ESCOLA, pela família, pela Televisão, pela vida cotidiana. Esses valores, acredito que todos conhecemos intimamente.

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Voltando à questão da escola.

Se as escolas de hoje forem semelhantes à escola onde me formei (tomando muito cuidado para não cometer a falácia da evidência anedótica aqui), o que teríamos hoje é a discussão de temas. Quando estudei geopolítica, me falaram de capitalismo tanto quanto de socialismo.

Ouvi sobre Adam Smith tanto quanto de Marx. E mesmo que meu professor de história falasse com mais entusiasmo sobre Marxismo, nas outras 12 horas do meu dia fora da escola, tudo ao meu redor era capitalismo, eu sabia de todos valores. (Confissões: Na minha juventude, fui SUPER Coxinha)

Para quem não quer que exista a discussão de ideologias, QUALQUER COISA vai servir de desculpas. Professor falar com mais entusiasmo sobre o tema A ou B. Gastar mais tempo no tema A ou B. Usar uma camisa A ou B. Como falamos antes, toda ação é política.

E a proposta de “Escolas sem Partido” é essencialmente sobre isso.
Sobre não haver discussão, não haver debate. É deixar o indivíduo “apenas” sob a influência das outras 12 horas de cultura dominante padronizada.
É basicamente, fazer com que você nunca abra a sua “Tela de Configurações” para se customizar. É aliás, você nem saber que é possível alterar essas configurações.

Se não há a discussão da diversidade de posicionamentos, o que sobra não é a neutralidade.
O que sobra, é a instalação de fábrica.
O que sobra, é a ideologia dominante.

E qual a ideologia dominante?
Bom, basta notar que o discurso sempre presente na proposta do apartidarismo, é combater a esquerda. Livrar nossas crianças da esquerda, do marxismo, do comunismo.

É interessante como sob ótica dos “Neutros”, todo mundo que é comunista é por doutrinação, e todo mundo que é capitalista, é por opção.

Isso quer dizer que existe realmente essa ótica Dualista de mundo?
Não. Se você abrir suas caixa de “Configurações”, o que só vai acontecer se houver a discussão, descobrirá que é possível uma infinidade de opções, que darão origem a um gradiente de posicionamentos, e não apenas extrema esquerda ou direita.

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Em conclusão, não querer que haja discussão sobre ideologias na escola, não tem nada a ver com neutralidade. Tem a ver com aquela velha polêmica que vemos durante a infância toda: Quem está ganhando o jogo nunca quer discutir sobre a justiça das regras.

O dono do aplicativo tem MUITO à ganhar quando ninguém vê escrito em letras pequenas, que junto com a instalação padrão, você vai instalar aquele monte de coisas no seu browser.

Nota Furiosa:
Não ensinarem sobre a escola Austríaca não é prova nenhuma que há doutrinação Marxista na escola. De acordo com os estudos do Projeto Open Syllabus que levanta os livros mais significativas nas universidades que falam inglês, tem Marx, tem Adam Smith, tem de tudo, mas não tem escola Austríaca.

Isso poderia nos levar a duas conclusões:
– As universidades dos países anglo-saxões são fortemente comunistas, doutrinadas pelo MEC;
– Escola Austríaca não tem representatividade, e Ayn Rand e Mises são dois bostas.


Como a mídia fabrica o terrorismo

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Mais um ataque terrorista (aparentemente, nada confirmado ainda) e já observamos a ridiculamente exagerada cobertura da imprensa. Isso me dá um nojo tão grande que resolvi falar um pouco a respeito. Claro que não é apenas com o terrorismo que vemos esse comportamento carniceiro da grande mídia: a espetacularização é a alma do negócio. Tudo que puder ser transformado em show, e se aquilo se traduzir em audiência, tá valendo. E já tem tempo que os artífices da grande mídia aprenderam: violência e tragédias, vendem como água no deserto. É simplesmente irresistível. Mas é mesmo?

Não, não é. Só é pra redes te televisão que se alimentam disso e que precisam disso para vender seus comerciais e novelas. E é fácil identificá-las, observando a rapidez a magnitude com que tratam um evento como esse. Nada é mais importante do que parar toda a programação e mostrar um atentado que matou 70 pessoas na França. A notícia é de fato importante, é chocante, mas precisa de tanto? Precisa parar tudo e falar só nesse único assunto o dia inteiro? Não precisa. E não deveria.

O terrorismo só é terrorismo por causa disso. Eles (os “terroristas”, termo criado obviamente, pela grande mídia) fazem o que fazem por que tem a certeza que vai ter peixe mordendo a isca. Vai ter rede de televisão mundo a fora que vão se comportar como abutres diante de uma carcaça. Vão transformar aquilo num show. Vão correr pra enviar repórteres ao local, colher depoimentos, repetir as mesmas imagens milhares de vezes, convidar especialistas, discutir o assunto. Tudo numa pressa e numa eficiência impressionantes. Tudo a serviço do espetáculo.

No útlimo grande espetáculo midiático da violência, tivemos o massacre na boate LGBT na Flórida. E dessa vez, já foi possível observar, mesmo que ainda muito inspiente, uma revolta da população em relação a cobertura dos fatos. Surgiu um grito nas redes sociais, que clamava algo como “parem de falar do assassino, parem de mostrar a foto dele, falem das vítimas, mostrem fotos deles, eles são maiores e mais importantes que esse único psicopata; o lugar dele é no esquecimento, não no holofote!” Achei fantástica essa reação, pois atinge em cheio o cerne da questão.

Sem palanque, as ações desses psicopatas fanáticos não ecoariam e não teriam o efeito desejado – que é de espalhar o medo e o terror. Claro que não é só a mídia a única responsável por moldar a cultura, e incitar o ódio entre os povos através de esteriótipos ridículos. O cinema faz isso, a música, a arte em geral. Cada um de nós é responsável por alimentar ou frear essas forças que dividem em vez de somar. Mas a mídia tem um lugar especial no inferno, pois ela está todo dia, com aquele ar sério, de imparcialidade, de profissionalismo, nos vendendo distorções ideológicas e alimentando o monstro do ódio. Tudo fantasiado de “jornalismo de qualidade”.

No dia 4 de julho (apenas 11 dias atrás), um ataque terrorista matou 250 pessoas no Iraque. Quatro vezes mais que o de ontem em Nice. E como foi a cobertura? Você lembra? Parou tudo? Ficou dias inteiros falando no assunto? Tiveram cortes na programação com imagens ao vivo do local? Hmmm, acho que não. Por que será? Ah, já sei: “O Iraque é um país islâmico, ou seja, terrorista, então foda-se quem morre por lá”. Por acaso nessas mil conversas com “especialistas” no assunto, é lembrado o fato de que a violência entre Sunitas e Shiitas mata muito mais gente do que a ISIS e a Al Qaeda matam Europeus? Aaahhh, acho que não também. Afinal, deixa esses dois grupos fanáticos se matarem a vontade. O terrorismo “deles” não vende jornal. Em janeiro de 2015, o grupo radical Boko Haram matou aproximadamente 2000 (duas mil!!) pessoas na Nigéria, numa série de massacres, um deles, em uma escola, matando várias crianças. Você deve ter ouvido falar, mas, “parou tudo”? Não parou. A julgar pelo espetáculo em volta de recentes shows-violência, esse do Boko Haram mereceria um mês de programa especial em todas as emissoras. Mas não. Afinal o Boko-Haram não é tão superstar assim como a ISIS, e vidas africanas não valem tanto como uma vida européia ou americana. Em novembro do mesmo ano, o ataque em Paris, que matou pouco menos de 200, parou o mundo e até reuniu Chefes de Estado em uma marcha simbólica.

Terrorismo não é o que a mídia te diz (insistentemente) que é. Terrorismo não é “pessoas com cara de árabe matando pessoas com descendência européia”. Mas isso é martelado ad infinitum pela mídia cada vez que um maluco (ou grupo de malucos) resolve matar um monte de gente (mas só se for na Europa ou EUA, claro). Está sendo martelado na cabeça de todos nesse exato momento, enquanto o mundo acorda chocado com mais uma ação de violência radical.

Ignorar o poder que a mídia tem de fabricar esteriótipos e modelos de ordem global obsoletos é demonstrar profundo desconhecimento da natureza da mente humana. É se colocar num patamar de racionalidade e objetividade utópico. Somos todos, absolutamente todos, sujeitos a sugestão da mídia, da publicidade e de ideologias. Consumimos, achando que estamos tomando decisões puramente racionais, quando na verdade agimos por impulso – alimentado por campanhas massivas de propaganda. Discutimos conceitos que acreditamos ser “nossos” e fonte de estudo, quando na verdade pegamos emprestado (e repetimos sem crítica) do mainstream cultural, da mídia, do cinema, da arte, da sociedade.

Desligue a TV (ou pelo menos, mude de canal; acredite, ainda há jornalismo sério). A exposição prolongada a esses espetáculos de violência te dessensibiliza para os fatos, e os conceitos furados e simplistas que querem vender (que não tem um objetivo, se não o de te tornar cada vez mais ávido por consumir esses espetáculos) se insinuam na sua mente da mesma forma que o desejo de comprar “aquele carro”.

A desigualdade de que ninguém fala

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desigualdade econômica

Estamos sempre ouvindo falar sobre desigualdade social, e esse conceito já faz meio que parte da nossa psique, do inconsciente coletivo do brasileiro, digamos assim – até por que, somos um dos países mais desiguais do planeta. Todo mundo sente na pele o resultado dessa desigulade mesmo sem saber exatamente dar um nome a isso, ou saber as suas principais causas. Mas algo me diz que, mesmo entre os “entendidos”, esse conceito tão amplamente debatido e trazido à tona quando falamos de políticas públicas, não está contando a história inteira. E existe um motivo pra isso.

Vou fazer uma pergunta e quero que você pause e responda com a primeira coisa que vier na sua cabeça: o que você entende por desigualdade econômica? Naturalmente a desigualdade econômica é o que se percebe em qualquer sociedade, a divisão entre os muito ricos, os ricos, a classe média, os pobres e muito pobres. Até uma criança de 8 anos entende isso. Mas uma criança de 8 anos de idade ainda não sabe como se consegue dinheiro e por que algumas pessoas são mais ricas do que outras.

A medida que essa criança vai entendendo melhor o mundo, logo ela é apresentada ao conceito de salário. Primeiro ela deve ver na TV que o Neymar ganha, sei lá, um milhão de Euros por mês. Porra, isso é muito dinheiro. Por isso ele é tão rico. Mas ele não era rico antes. É de origem humilde, seu pai ganhava uma merreca, e agora com um salário desse, vive como rei. Ou seja, desigualdade econômica é basicamente desigualdade de renda. É uma indução totalmente lógica e não está errada. Mas não é a história toda.

A faxineira não deve ganhar lá muito bem, pensa a criança. Mas meu pai certamente ganha muito mais que ela, afinal tem esse apartamento, paga a minha escola, minha comida e meus brinquedos, e ainda sobra pra pagar a ela. É assim que as coisas são. Uns ganham mais que outros e ponto final. Ponto final? Antes fosse.

Essa percepção, a de que desigualdade econômica é basicamente a desiguladade de renda, é tão amplamente reconhecida, e dada como correta, que praticamente não é discutida. Raramente se vê qualquer discussão de desiguladade social que vá além da renda. Mas essa noção está bastante incompleta, e equivocada.

Antes de eu prosseguir, gostaria de deixar claro que a desigualdade em si não é necessariamente prejudicial. Vivemos num mundo extremamente complexo com pessoas em todas as categorias de necessidades e potencialidades, e garantir que todas essas pessoas tenham exatamente (até o último centavo) a mesma posição social e mesma renda, é simplesmente inviável, utópico. A desigualdade, poderia se dizer, é até necessária para que haja progresso. As pessoas estão constantemente tentando melhorar de vida, para isso se especializam, empreendem e a maré leva todos para cima juntos. Pode parecer estranho eu estar falando isso nesse blog, que é obviamente de esquerda, mas não é. É uma visão meramente racional e fria das coisas como elas são. Não adianta fingir que há um mundo possível cor-de-rosa nos aguardando, quando sabemos que o ser humano está bem longe desse nível de evolução – estamos destruindo nosso próprio planeta, seria meio ridículo pensar em um mundo plenamente equalitário. Muita merda pra resolver antes.

O que ocorre – e todos podem facilmente perceber isso – é que a desiguldade social vem atingindo níveis alarmantes mundo afora. A globalização só piorou tudo. Desigualdade extrema é sinônimo de uma sociedade em falência. Um relatório recente, aponta que os 1% mais ricos, possuem a mesma riqueza dos outros 99% somados. Isso é absolutamente surreal e precisa ser endereçado, pois é algo que já está fora de controle e a tendência é piorar. Daqui a uns anos será 0,1% igual a 99,9%. A pirâmide vai ficando com uma base mais larga, ou seja, temos mais pessoas extremamente pobres, e a classe média (a principal força produtiva), vai ficando espremida no meio e também sendo depredada e pressionada.

E o que causa isso? É o salário desses top 1%? É óbvio que não. Essas pessoas, em sua enorme maioria, sequer ganham salário, talvez nunca tenham recebido um único vencimento em toda a vida. E mesmo assim, veem suas fortunas crescendo. Como pode?

Simples: desigualdade de capital. E essa é infinitamente mais complexa que a desiguladade de renda. Pra começar, o capital, especialmente hoje em dia, é algo cada vez mais difícil de definir e controlar. Renda é renda, não tem papo. É quanto você recebe no fim do mês pelo seu trabalho – seja de um empregador, seja dos seus clientes se você for autônomo. Mas e o capital? Essa palavra que toda vez que aparece, já remete a Marx. Pois é, ele sabia das coisas quando identificou que o buraco era mais embaixo. Incluem-se aí: bens imóveis (casas, apartamentos, terrenos), investimentos, ações, participações em empresas, contas no exterior, etc, etc. A galera do top 1% retira todo seu dinheiro do fato de que tem muito dinheiro, e dinheiro faz dinheiro, sozinho, sem demandar força produtiva ou retornar algum produto ou serviço. Ahn? Como assim?

Não precisa ir longe, lá pros top1%. Eu mesmo, tendo trabalhado mais de 10 anos na mesma empresa, possuindo apartamento próprio, casado com uma mulher que também tem um salário legal, já consegui juntar uma grana boa em investimentos. Não vou dizer quanto, é irrelevante. O fato é que, esse dinheiro cresce sozinho. E o rendimento, assim como os juros, é cumulativo. Ou seja, esse meu dinheiro, parado lá, cresce, como massa de bolo, sem que eu mova uma palha pra isso. No máximo gasto algumas horas por mês pra acompanhar o rendimento e ver se posso, com alguns clicks, fazer algo pra obter resultados melhores.

Digamos que alguém tenha R$ 500.000 num investimento, seja por que juntou isso durante 20 anos trabalhando, seja por que herdou da tia que morreu. Esse dinheiro, num investimento merda, rende 1% ao mês. Ou seja, hoje é 500, mês que vem é 505 e no outro é 510,05. Cinco mil reais, limpinhos, zero esforço. Isso é muito mais que a renda da grande maioria do planeta, que rala horrores pra ganhar uma merreca no fim do mês. Qual é o capital dessa grande maioria mais pobre? Zero. Capital zero não rende nada. Na verdade, a maioria dessas pessoas possui capital negativo, pois estão constantemente adquirindo dívidas e tomando crédito. Você não junta capital se o salário nem chega ao fim do mês.

Grande novidade hein, Christian? Todo mundo sabe disso. Sabe? Então por que não cobramos dos nossos governantes que mudem isso? Por que não vamos às ruas pedir a Taxação Progressiva de grandes fortunas? Sabemos que os maiores sonegadores do Imposto de Renda são exatamente aqueles que fazem todo tipo de manobra pra esconder sua renda, e seu capital, colocando tudo no nome dos filhos e usando contas no exterior. Quem paga a conta, é quem menos tem. E por que?

Bom, é simples, e também óbvio – lá vem o Christian de novo com o óbvio – poder econômico = poder político. Em todo lugar, desde sempre. Dinheiro compra tudo; compra políticos, compra legislação, compra isenções bilionárias, e basicamente, mantém o status quo. A própria herança não é debatida, é vista como direito inalienável, quase divino. Eu mesmo fui super beneficiado por heranças mas discordo totalmente que não devam ser mais taxadas (progressivamente, lógico).

Não adianta querer combater a desiguldade social com todo tipo de programa pra melhorar a renda do trabalhador, quando ele nunca vai ter as mesmas oportunidades de alguém que já nasce com um capital inicial garantido. O capital permite a pessoa a empreender, investir, se especializar – com pouco ou nenhum risco, sem precisar tomar crédito e pagar juros exorbitantes. E o capital, como eu já mencionei, cresce sozinho (alugéis, investimentos, ações), sem dar qualquer retorno à sociedade, sem a taxação devida, criando ainda mais desigualdade de oportunidades.

Boa parte dos 1% mais ricos, são mais ricos por que já nasceram dessa forma, nunca trabalharam e nem vão trabalhar na vida, e mesmo sem mover um cílio verão suas fortunas crescerem enquanto tomam champagne na beira da piscina. Tudo por causa de um sistema que foi desenhado e manipulado para beneficiá-los: regras de herança, diversificação de capital, ausência de regulação e taxação específicas, etc. Ou muda isso, ou pode vir o Bolsa Família Delux-Plus 200 que pouca coisa vai mudar – pode melhorar, claro, especialmente pra base da pirâmide, mas a tendência mundial permanecerá a de colapso. E não tem absolutamente nada a ver com “não dar o peixe”.

Por que o machismo é tão difícil de combater

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A resposta curta e simples é: atinge homens também. A resposta “completa” virá ao longo do post. Não, não estou querendo com esse texto dar uma desculpa esfarrapada para a falha desse que vos escreve em combater esse mal. Apenas dar uma visão o “lado de cá” da história, pois há opressão também entre os opressores.

O machismo é prevalente por que ele é ao mesmo tempo increvelmente escancarado e violento – como no caso de estupros e abusos contra mulheres e LGBTS – e sutil e sorrateiro, quando se insinua e molda comportamentos e conceitos de homens (e mulheres!) em formação. Quando o menino faz manha, tanto a mãe como o pai dizem “menino não chora”, “deixa de ser fresco”. Quando o menino já está maiorzinho e não demonstra interesse em futebol ou esportes coletivos, ou tem medo de se machucar, os pais ficam frustrados – não está sendo o “homem padrão” que a sociedade espera.

Se dentro de casa é isso que a criança recebe, é isso que ela vai reproduzir quando iniciar sua socialização com amigos na escola e na rua. Como bem sabemos, não somos todos iguais, uns são mais feios, outros mais bonitos, uns maiores, outros menores. Tão logo isso fique claro (o que não é difícil, coisa de segundos em qualquer grupo), rapidamente, o Macho Alfa surge para deixar bem definidos os papéis. Aqui manda o maior, o mais bonito tem “direito” a tudo e todas. Os fracos “seguem” (i.e. obedecem) os fortes, os feios se limitam a ser zoados para sempre e engolir o choro. Se contentam com as sobras.

Se “menino não chora”, e ele apanha na escola e chora, ele então não é menino? É o que? Se ele não gosta de futebol, como pai e tios, será que ele nunca vai ser homem como o pai? Vai ser o que, então? O que é essa coisa de ser homem? Complicado. Se certas coisas são esperadas de um menino para ser homem e muitas delas fogem do seu controle, como compensar? Sendo mais violento, talvez? Tratando mal as meninas? Ou simplesmente não fazer nada, se fechar em si, e sofrer calado a inadequação. Conversar com o pai, nem pensar!

Não é novidade pra ninguém que o machismo não está apenas em casa e nas escolas – e mesmo que se fosse só nesses dois, já seria problema o suficiente, dada a importância formativa dos mesmos. Está em todos os lugares, na mídia, nas empresas, na rua, na arte, etc. Ele é auto-reforçado a cada vez que aparece se não é imediatamente identificado pelo que é e combatido. Como assim?

Digamos que um homem, vamos chamar ele de Rui, acaba de entrar numa empresa nova, e está tentando se enturmar. O colocam num grupo de Whatsapp (vamos deixar o exemplo bem moderno), e logo começa a receber fotos e vídeos de putaria. Ele deveria falar algo? Que ele é contra esse tipo de coisa? Imagina o estigma. Vai ser taxado de viado logo de cara. “Ser taxado de viado”, inclusive, parece ser o cúmulo da desonra e já é em si uma forma insidiosa de como o machismo molda nossas percepções de gênero.

Pra facilitar o entrosamento Rui agradece e manda algumas outras putarias de volta. De repente um dia, ele recebe umas fotos que parecem ser de uma menina de 14 anos no máximo. Opa, aí já é demais! Fala algo? Não fala nada? O chefe dele foi quem mandou. E aí? Rui fica quieto. Em outro dia, recebe aquelas fotos que “vazaram” da estagiária do andar de cima, confirmando o perfil do facebook dela e tudo. Rui fica quieto, mas não repassa as fotos, não acha legal essas coisas.

Creio que a maioria acharia difícil imaginar que Rui figure entre grande maioria ou a minoria dos homens. Mas não é difícil imaginar que ele seja a média. E a média se cala. E quem cala, como mamãe ensinou, consente. E assim o machismo prospera. Ele prospera no silêncio.

Não repassar as fotos da estagiária é o mínimo. Se calar diante de demonstrações risíveis de machimo (como alguém sugerindo, por qualquer ângulo, que a culpa da estuprada é da roupa que ela usou) é aquém do mínimo, e infelizmente, muitos de nós nos encontramos nessa categoria – a categoria que não fala nada. E dessa forma, não há diálogo, o assunto sequer é discutido. É o elefante na sala. Precisamos falar sobre o elefante.

Me lembro de uma vez, eu estava em uma reunião com pessoas de diversas áreas da empresa, de todas as idades, homens e mulheres, umas 15 pessoas. Até que dado momento, um homem, na casa dos 60 anos, de linguajar meio xulo e comportamento um tanto ogro, começa a descrever um cenário do projeto em questão e solta a seguinte pérola “e quando a minha quenga acessar o sistema […]”. Ahn? Quenga? Todos ficaram calados. E uma mulher, que não consegui identificar, perguntou baixinho, pra si mesma (sem querer iniciar um enfrentamento): “quenga?” estupefata (como o resto de nós) por ele ter usado essa palavra. O constrangimento no ar era quase sólido. De repente ele continua “Ué, não pode falar quenga? Estou falando da minha mulher, é carinhoso, sempre a chamei assim.”. Outra pessoa quebra o gelo com outro assunto, a reunião continuou e o cara calou a boca por alguns minutos percebendo a idiotice, mas certamente saiu da reunião certo de estar cercado de moralistas afrescalhados. Imaginem a educação que esse cara dá pro filho. Imaginem essa mulher, que aceita ser chamada de “quenga”, o machismo que ela ajuda a propagar. E o silência que ficou naquela sala, o silêncio mais significativo que existe. É o silêncio que diz tudo.

Equação das Manifestações

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Ao observar as Manifestações bastante maniqueístas ocorridas aqui no Brasil nos dias 13 e 18 de Março, a maneira mais fácil que encontrei para fazer um balanço de tudo, foi fingir ser de outro país. E principalmente, arregalar os olhos e tapar os ouvidos, e tentar ver o que estava na minha frente, sem ninguém tentando dizer no que eu deveria prestar atenção.

Porém, antes de dar meu parecer, é sempre bom lembrar que NÃO estou generalizando. É claro que havia uma diversidade de conteúdo em ambas marchas, porém em ambas também haviam maiorias predominando, e não há nenhum problema nisso.

A vergonha, é ter visto algumas pessoas terem usado de excessões pra se justificar, o que é lamentável e desonesto.

Pois bem: Logo de cara, quando usamos nossos olhos, as evidências são ÓBVIAS.
Parecia até que eram dois países diferentes, tamanhas as distinções.

A primeira de todas, era em relação ao tom de pele.
Novamente, vamos fingir por um instante que somos Alienígenas de pele Cinza, e não temos nenhum laço emocional com nenhum dos dois lados. Era clara a dominância de peles brancas no dia 13, e uma diversidade de cores no dia 18, vamos olhar as fotos.

Em segundo, a diversidade de cores de roupas e bandeiras.
No dia 13, havia uma unidade, literalmente tudo era verde e amarelo. Existia unidade, padrão, parecia literalmente um exército organizado.
Já no dia 18, apesar da dominância do vermelho, havia uma diversidade. Você não precisava se esforçar pra encontrar as outras cores. Sim, tinha bandeiras da CUT e do MST, mas também tinha bandeiras LGBT, do Brasil, de Movimentos Negros, Feministas, e de outros Movimentos.

E tudo isso acredito se explica no terceiro ponto: A receptividade de conteúdo e pauta.
No dia 13, a grande massa literalmente NÃO PERMITIU pautas diferentes do Impeachment/Corrupção, e quem levantava qualquer coisa diferente disso, era enxotado, às vezes até de maneira truculenta. Dos piores caso de agressão que aconteceram na paulista, o que mais me assustou foi o do sujeito que apanhou por PERGUNTAR quem assumia depois que a Dilma fosse impedida. Quando não pode existir questionamento, já não é mais política, é culto.

No dia 18, apesar de ser uma manifestação só, em termos de pauta ela começada dividida logo de cara. Existiam aqueles que estavam sim defendendo o governo Dilma, porém existia também, acredito que pelo menos uma metade, em defesa de democracia e legalidade de seus ritos.
Fora isso, existiam as mais diversas pautas. Movimento Negro, direitos LGBT, direitos das Mulheres, havia literalmente de tudo ali, muito bem recebidos.

Mas “tudo” NÃO foi o que recebeu cobertura. Existiu uma óbvia, inegável, indiscutível diferença de cobertura pela grande imprensa nos dois dias.
No dia 13 houve cobertura integral, em tempo real, entrevistas, e mais do que isso: Houve convocação, instruções, orientações.
No dia 18 não. A cobertura foi escassa, e as entrevistas mais ainda, acredito que em função do próximo ponto: A diferença de riqueza, profundidade, diversidade e relação emocional com o conteúdo.
Essa diferença torna INEGÁVEL que a imprensa tem interesses em jogo, tem um lado, e tem uma proposta.

A diferença de riqueza, profundidade, diversidade e relação emocional com o conteúdo:

No dia 13, a pauta das ruas Coincidia com a pauta da Imprensa. Era a pauta da derrubada da Presidenta, a qualquer custo e preço. O discurso era simples, curto e objetivo. E mais do que isso, o peso emocional era esmagador. A raiva era muito visível na linguagem tanto falada quanto corporal.

O discurso era em sua maioria SIM, de morte, linchamento e violência, não só contra a presidênte, mas contra a diversidade. Se você não era à favor, era imediatamente arremessado para o “outro lado”. Basta fazermos as contas de quantas sedes do PT foram depredadas, e quantas sedes do PSDB foram depredadas.

No dia 18, eu admito ter ficado surpreso. Por ter sido criado no coração da classe média, pra mim é muito difícil se livrar da impressão que pobre é ignorante. Quebrei a cara. Ao ver as entrevistas, a riqueza de palavras, questionamentos, ponderações, era novamente, em sua maioria, muito nítida. Ficou difícil acreditar que o dia 18 era a massa do segundo grau incompleto, e o dia 13 era o dos mestres e doutores. Parecia tudo invertido.

E mais do que isso, o pessoal do dia 18 evidentemente não queria a aniquilação, a destruição do outro lado. O apelo era por compreensão e ponderação.

A “Vibe” dos dois dias foi emblematicamente diferente.
O que não parece ser muito bom. Por que como pode, pessoas que moram na mesma cidade, usando as mesmas ruas, ter vidas tão diferentes a ponto de parecer que são dois países sobrepostos? Porém essas diferenças escancaram a realidade da desigualdade social.

E nesse ponto, eu tenho um posicionamento, com pleno espaço para discordância.
Como falei, eu nasci no coração da classe média, e já fui cercado de amigos brancos, educados e eloquentes. Hoje já não tenho mais nenhum desses. Porque onde tem ódio não tem espaço pra diálogo, apenas para simplificações grosseiras.

Então a primeira coisa, seria eliminar a raiva e abrir espaço pra racionalidade.
Estamos no século 21, e estamos longe de chegarmos a uma situação que precisa ser levada às últimas consequências. Apesar de situações graves, não estamos em um estado de emergência.

Apesar de para alguns ser “Bonito” ver essa unidade presente no dia 13, para outros é assustador. Essa falta de diversidade é algo que sim, leva ao facismo. Recomendo urgentemente a esses ex-colegas da direita, que sacrifiquem dois episódios de “House of Cards” para assistirem “A onda” (2008, tem no Netflix), e percebam os perigos do discurso reducionista.

É óbvio mesmo para quem está à esquerda, que o governo Dilma é indefensável!
Porém vocês precisam de uma proposta muito mais rica do que tirar a Presidenta e “ver no que dá”. Me desculpem a sinceridade, mas nesse sentido o Povão lá do PSTU está dando um pau nos senhores mestres e doutores. Eles tem propostas, tem um projeto de país, e não uma simples aposta. Isso é ser politizado. Novamente, assistam as entrevistas de rua, vejam a diferença na linguagem, na vibração, na riqueza.

E tenham em mente duas coisas:
A primeira, é que no dia 18 ocorreram DOIS protestos sobrepostos. Um em favor da Democracia, e outro em favor da Presidente, não importa o que a Globo diga.

E segundo, é que sim, o que aconteceu no dia 13 teve sim uma significância. Teve FORÇA.
Só que essa força não foi utilizada em favor daqueles que a disponibilizaram.
Se fosse feita a mesma coisa para qualquer outra causa, muito poderia se conseguir, sem nem precisar golpear a Democracia.
Imagine se esse pessoal todo de verde e amarelo tivesse ido pra pedir mais saúde, mais educação, mais justiça social. Marchar “contra a Dilma” ou “contra a Corrupção” não é um sinônimo que representa tudo isso.

É preciso entender: Metade do pessoal que foi às duas no dia 18, está tão insatisfeito quanto o o pessoal do dia 13. Muitas das reivindicações inclusive se coincidem. A grande diferença, é que o pessoal do dia 13 quer isso a qualquer custo, o pessoal do dia 18, não.

E qual o custo?

Mesmo em um governo RUIM como o da Dilma, ainda existe a democracia, e mesmo que as chances sejam pequenas, existe espaço para discussão e novas propostas.
Em um estado de excessão como o de intervenção militar, não existe espaço pra discussão alguma.

Entre o alguma chance e o nenhuma chance de mudança, me parece sensato ficar com o primeiro.

Por fim, quando a Democracia vai embora, ela não dá previsão de volta.
O discurso de 1964 foi -exatamente- o mesmo. Os militares tomaram o poder apenas pra “botar ordem na casa” e depois devolveriam o poder ao povo. O que ninguém antecipou, é que eram eles quem decidiam quando estaria “Em ordem”, por isso o episódio é lamentavelmente chamado de “O dia que durou 21 anos“…

Reivindicações e luta, sempre.
A qualquer custo, nunca.