Orgulhosamente Desajustado

Se cada um fizesse sua parte…

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CiD
Se existe um mantra que ultrapassa as barreiras sociais, culturais e até nacionais, acredito que seria a famosa frase:
“Se cada um fizesse sua parte, o mundo seria um lugar melhor.”

Apesar de podermos expandir vastamente a discussão na tentativa de definir o que a “parte” de cada um, vamos evitar fazê-lo, afinal pra mim por exemplo, se alguém separa o lixo mas fica assistindo seriado ao invés de se informar de política, não está fazendo sua parte. Nesse caso, vamos considerar apenas o que é aceito pela maioria das pessoas como a parte de cada um.

Essa semana, ví alguns artigos extremamente desanimadores a respeito do futuro de nosso planeta.
Alguns deles demonstram com clareza que passamos pelo menos uns 10 anos do ponto de podermos fazer alguma coisa para revertermos os estragos feitos à natureza. Agora os danos já estão aí, não são mais especulação, e a única pauta em discussão pela comunidade científica é sobre como administrar o prejuízo.

A seguir, descobri que todos esses impactos que estamos sentindo hoje, toda a seca, crise hídrica, aquecimento, instabilidade climática, está ocorrendo em função dos estragos feitos há 30 anos atrás.
Os estragos que estamos fazendo hoje, são cerca de 200 vezes maiores que no passado, e o impacto está por vir nos próximos 30 anos, o que não é nada animador.

Estamos incontestávelmente à beira da Sexta grande Extinção em massa do planeta Terra.

Diante do enorme sentimento de impotência, brotou também uma forte sensação de injustiça, em função daquele suposto inocente ditado. Segui as mais diversas recomendações. Uso carro só uma vez por semana, tomo banhos curtos, não como carne. Não consumo muito, separo meu lixo, os dois únicos celulares que eu tive na vida, foram dados por pessoas que não queriam mais. Pratico consumo consciente e faço diversos boicotes.
Me alimento de produtos orgânicos de agricultura local, pratico exercícios regularmente, e o principal: Apesar de poder conseguir mais, eu não ALMEJO mais do que isso. A única coisa que quero da vida é saúde, paz e poder continuar aprendendo sobre o mundo até o dia que morrer.
E tenho plena consciência: nem de longe sou o mais radical desse estereótipo de pessoa.

Todos os dias, vejo pessoas ao meu redor mudar de hábitos, e mesmo assim, não conseguimos salvar o mundo.
Vamos assistir nossos oceanos acidificarem, nossas plantas secarem e morrerem, pra morrermos algumas semanas depois.

Quando começo a seguir essa linha de pensamento, o primeiro e mais óbvio argumento que ouço é um “Mas você é parte de uma minoria!

Então vamos falar das maiorias.
A maior parte deles, faz por tabela essa tal “parte”.
Não usam carro porque não tem, tomam banhos curtos porque não podem pagar a conta, não comem quase nada de carne porque não podem comprar. Enquanto optamos diminuir o consumo, eles são forçados a fazê-lo em função da falta de poder aquisitivo.

Ora, então quem diabos não está fazendo a própria parte?

E novamente, tudo se volta para o tal 1% da população, a qual é dona de 50% dos bens materiais do mundo.
Claro que não tem apenas a ver com consumo, mas com o impacto.

Esse mesmo 1% é quem detém os meios de produção. São as grandes empresas e corporações.
A opção de fabricar produtos que vão quebrar em poucos meses pra você ter que consumir de novo, é deles.
A opção de embalar coisas de plástico com mais plástico e isopor em volta, é deles.
A opção de usar metade da produção agrícola e da àgua do mundo pra alimentar gado, é deles.

Mas eles tem escolha? Não. Assim como a maioria de nós, eles foram criados em uma cultura onde o único dever deles, é maximizar os lucros independente de qualquer impacto social ou ambiental. São vítimas da MESMA cultura que faz o pobre roubar, o classe-média sonegar imposto, e o político desviar verba.

E você não pode fazer nada.
Pelo menos, não do jeito convencional. Mesmo que você exija de seus políticos ações que regulem essas empresas, sabemos que o poder político é submisso ao poder econômico.
Reclama-se da corrupção sem nunca perguntar: Mas quem corrompe? E quem corrompe é essa elite, pra que possa manter suas opções retrógradas. É dessa maneira que eles esmagam qualquer pequena iniciativa que poderia trazer alternativas.

Parafraseando o pensador Eduardo Marinho, “não é o ser humano quem está destruindo a Terra. É uma elitezinha, ZINHA.”

Aparentemente, a “parte” de cada um, é proporcional ao poder aquisitivo de cada um. E infelizmente, nosso planeta não é um sistema fechado que respeita os limites de cada propriedade privada. Logo, se essa minoria que é LITERALMENTE dona de metade do mundo já destruiu a metade que é “deles”, então estamos TODOS condenados. E possívelmente, é o que já está acontecendo.
E mesmo que você seja alguém que concorda e defende a idéia da propriedade privada, há de se concordar que não é justo 99% da humanidade estar condenada por causa de 1% que “Pode fazer o que quiser” com a parte deles.

Diante desse cenário dramático, seria fácil advogar a idéia de sair cortando a cabeça dos ricos, mas não é essa a proposta. Porém é necessário SIM algum tipo de revolução, pois através das vias convencionais acabamos ficando completamente dependentes de uma epifania moral, um momento de clareza vinda dessa elite, o que dificilmente vai acontecer. Sabemos que não dá pra contar com eles.

Enfim, não adianta em absolutamente nada se 99% do mundo donos de uma metade, utilizar “Ecobags”, tomar banhos curtos, e usar apenas transportes públicos, se os outros 1% que são donos da outra metade, não mudarem os meios de produção, e os objetivos do sistema.

Não estamos mais na beira do abismo, já caímos, mas ainda não batemos no chão.
E a maior parte da culpa, não é sua.

As chances são altas de que não é dessa vez que viraremos uma civilização de Tipo-1, desejemos mais sorte para a próxima.

Nota: Escrever um texto carregando sentimentos de frustração trás riscos à qualquer blogger, e corro o risco de desdizer muita coisa daqui. A idéia porém, não é desmotivar ninguém, mas colocar a par a situação real em que chegamos por termos seguido idéias ilusórias a respeito do “poder individual” de cada um. Não estou falando pra deixar de fazermos o que devemos fazer, mas não é só isso que pode fazer algo pelo mundo. A “nossa parte” vai além disso. Deve ser incluso nessa, puxarmos a orelha das elites.

Situação do Brasil – Por Antonio Nobre:

http://leonardoboff.wordpress.com/2014/11/01/estamos-indo-direto-para-o-matadouro-diz-antonio-nobre/

Situação do Mundo – Por Guy McPherson:

Referência ao “Tipo de Civilização” por Michio Kaku:

Referências à desigualdade no mundo:

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4 de November de 2014 at 0:14 Comments (2)

Toalhas de hotel e o aquecimento global

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De quanto em quanto tempo você lava as toalhas na sua casa? Uma vez por semana? Duas vezes por semana se você for bem neurótico com limpeza ou tiver muita gente em casa e a máquina de lavar tá sempre trabalhando? Já ouviu aquela pergunta pegadinha “se você está limpo quando sai do banho, para que precisa lavar a toalha”? Claro que é apenas uma pegadinha (do mesmo naipe de “se o Pato Donalds não usa calça, por que enrola uma toalha quando sai do banho?”), mas que faz até um certo sentido – obviamente é preciso lavar a toalha de tempos em tempos por que o ciclo de ficar molhando e secando toda hora vai acumulando a sujeira que está no ar e também pode gerar um cheiro ruim.

Mas e as toalhas de hotel? Você alguma vez na vida já parou pra pensar nisso? Talvez nunca tenha parado pra pensar antes de todo o hype do aquecimento global ou problemas com abastecimento de água, mas se você viajou recentemente deve ter visto pelo menos em algum hotel aqueles avisos que eles colocam, dizendo que estão “preocupados com o meio-ambiente”, querem “economizar água” e por isso só lavam as toalhas diariamente se o hóspede assim desejar, deixando as jogadas no chão ou na banheira, ou coisa assim. Se penduradas, deixam-as lá para serem usadas de novo, dessa forma economizando água. Que nobre gesto, não?

Pra mim nunca fez o menor sentido ter a necessidade de uma nova toalha a cada dia num quarto de hotel – não vou ser hipócrita, quando estou viajando, também gosto de um certo luxo, mas isso não é luxo, é idiotice purinha, do tipo que os antigos nobres da antiguidade deveriam exigir. Que puta frescura. Então, pra mim, esse tal aviso não teve qualquer efeito sobre meu comportamento. Eu saio do banho e penduro as toalhas, é automático, tanto em casa como no hotel. Eu tenho até uma certa dificuldade em imaginar que tipo de pessoa sai do banho e joga a toalha no chão pra que coloquem no dia seguinte uma novinha e passada.

Mas por que eu tô aqui falando de toalhas de hotel e o que isso tem a ver com o aquecimento global? Bom, primeiro por que essa tentativa dos hotéis claramente tem seu embasamento em uma tentativa de, ao mesmo tempo, economizar (mesmo que bem pouquinho) as quantidades absurdas de água que gastam todos os dias com lavanderia e ainda ganhar alguns pontos de “consciência verde” com os hóspedes. Mas mais importante que isso, por que revela em que ponto estamos, enquanto sociedade consumidora, nos posicionando frente aos problemas do planeta e no uso consciente da água. E esse posicionamento basicamente é: nenhum. Somos como crianças vendo um problema sério acontecer esperando pra ver o que nossos pais farão para resolvê-lo e quando virão nos buscar para nos levar embora e tomar um sorvete.

Dos hotéis que reparei que tem essa iniciativa, arrisco dizer que apenas metade realmente cumpre o que está no aviso. A maioria sequer treina as camareiras direito, e as toalhas são trocadas todos os dias. E mesmo nos que tem, qual a proporção das pessoas vocês acham que leem o aviso e mudam de comportamento? Especialmente estando em um hotel, que é sinônimo de terceirizar todos os problemas “de casa” já que estamos pagando. Quanto menos tiver que pensar e fazer, melhor.

Portanto, peço que passem a observar esse pequeno fenômeno nos próximos hotéis que visitarem. Enquanto a abordagem for essa de “se o hóspede puder deixar de ser ridiculamente fresco, quase um Luis XIV, o hotel se compromete a tentar economizar um pouquinho de água” – podem apostar que o problema do aquecimento global ainda é visto como algo que “um dia vai acontecer” e “eles [sei lá quem] vão resolver”. Quando a chapa estiver realmente quente, rapidinho os avisos vão mudar para “neste hotel lavamos as toalhas de três em três dias, se quiser uma nova diariamente a taxa será de X dinheiros” o que, ainda vai revelar o aspecto de consumo da coisa, pois certamente vai ter gente que vai pagar o extra – mas pelo menos, agora o problema não será mais um coisa que “está em dúvida”, mas uma realidade da qual ninguém pode mais escapar (mesmo que ainda alguns possam evitar, ou melhor, “adiar” pagando um pequeno extra).

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30 de October de 2014 at 9:54 Comment (1)

Ensaios sobre o suposto Populismo

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popu

Após o resultado do primeiro turno das eleições de 2014, todas as pautas políticas tornaram-se elementos decisivos para o possível futuro do país.

Nesse delicado momento, pudemos ver logo de cara acusações exacerbadas chamando o governo PT de Populista, usando como exemplo principal os programas de bolsa criados nos últimos anos, como se esses fossem uma forma de “Compra de Eleitorado” para garantir o próximo mandato.

É uma acusação trágica de tão ilógica, se pararmos para pensar por dois minutos.

Ao analisarmos a crítica, qual o elemento de “Injustiça” criticado pelos que concordam com esse raciocínio?
A idéia de haver um programa social que beneficia um grupo específico de pessoas, e esse influenciar a opinião daquele grupo, fazendo com que elejam novamente os criadores desses programas.

A princípio, parece fazer sentido. Exceto que: Quando diabos as ações de um político ou partido NÃO INFLUENCIA a sua opinião? Tudo influencia, e sempre existe uma influência!

Se formos seguir essa mesma lógica, então se houver um governo que melhora e beneficia pequenas empresas, então os donos de pequenas empresas não poderão votar. Se houver um programa que melhora a qualidade de vida da classe média, a classe média inteira deveria perder o direito de voto? Cada vez que uma ação beneficiar um setor, aquele deve perder os direitos ?

Se continuarmos essa lógica, então ao se criar um programa, quanto maior o número de beneficiados que ele atingir, menores as chances daquele partido dar continuidade ao programa, pois aquele número de beneficiados não poderia votar!
E mais ainda, em última instância, os que teriam mais chances de serem eleitos, seriam os que não fazem nada! Não beneficiam ninguém! Afinal, se você fizer algo que não ajuda em nada, todos poderão votar!

Mesmo que um espertinho diga “Teríamos que votar em programas que beneficiam toda a população!” é fácil de vermos que mesmo existindo um programa que beneficia a todos, não o fará homogeniamente. Haverão níveis diferentes em setores diferentes, e influenciariam de maneira diferente cada opinião.

Então, quando passa a ser populismo? E quando o populismo passa a ser algo “feio” ?
Se você faz um programa que beneficia uma minoria, não tem problemas, mas se beneficiar um grande número de pessoas, passa a ser errado? Não faz o menor sentido.

Não é preciso muito pra ver que essa lógica tropeça na própria perna.

Exceto, claro, se discretamente você quiser ser parte de uma minoria beneficiada, e travestir isso de injustiça pelo fato do seu grupinho ter ficado de fora.
Existem setores da sociedade que precisam de mais ajuda, e outros de menos, ainda mais quando se tratam de direitos básicos humanos. Mas como já fiz em críticas anteriores, nos princípios deformados dessa tal de meritocracia, não há espaço para empatia.

Em conclusão, tudo que se é feito, bom ou ruim, vai influenciar na opinião do Eleitor. E assim, se o tal populismo se dá quando uma grande faixa da população é influenciada por algo que efetivamente ajudou, então populismo não é algo ruim.

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6 de October de 2014 at 22:02 Comment (1)

O que os olhos não vêem, o coração não sente

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Imagine se você neste exato momento decidisse largar todo o conforto da vida na cidade grande para viver no campo. Porém a única coisa concreta que você tem no seu ponto de destino é um terreno. Não há uma construção sequer, somente um terreno. Pense então no que seria minimamente necessário como ponto de partida.

Acho que todos precisamos de um teto, então uma casa seria o primeiro item essencial. Construir uma estrutura com paredes, chão e teto pode ser extremamente complexo, mas nada comparavél ao pensar na estrutura de canos e tubulações para formar uma rede de esgoto e água viável para uso. Para facilitar um pouco, para não dizer bastante, digamos que você tenha um rio com água potável à sua disposição. Ainda que sua fonte de abastecimento esteja resolvida, chegamos no primeiro impasse: para onde drenar todos os dejetos que nosso incrível corpo humano produz diariamente? Jogar no rio com sua água cristalina não é bem uma solução, certo? Até porque, você precisará dessa água, então vamos ter que pensar numa forma de processar toda essa matéria orgânica para que ela retorne ao ambiente de forma harmoniosa.

Digamos que você tenha encontrado uma solução para este primeiro problema (veja bem, você mal chegou e já encontrou um grande desafio, mas vamos lá). O mercado mais perto do seu terreno fica a uma hora de distância. Não haverá uma grande facilidade para comprar alimentos diretamente de prateleiras. Portanto, você terá que produzir a sua própria comida. Então cuidadosamente você pode começar a pensar em formas de obter uma dieta variada e saudável, sem perder o sabor e que seja possível para o seu ambiente. Nada simples, né? Muitos pré-requisitos para uma tarefa tão banal quanto comer. Pois é, mas sem alimento, nenhum de nós sobrevive e é preciso encontrar uma solução.

E como não produzimos somente dejetos humanos, temos que pensar em outro aspecto fundamental: lixo. Diariamente produzimos enormes quantidades de matéria que precisamos descartar. Claro que isso varia de acordo com o estilo de vida de cada um, mas é praticamente impossível vivermos sem produzir lixo algum. Qualquer um que tem ou já esteve em alguma casa de campo sabe que, ao final da sua estadia, você recolhe todo o lixo produzido que, a propósito, eu não sei quanto a vocês, mas a minha experiência pessoal é de sempre obter espanto ao observar a quantidade de lixo que poucos de nós, seres humanos, somos capazes de produzir em tão pouco tempo. O quão excessivo é o nosso consumo no campo, local onde teoricamente não precisaríamos de tanto para viver, porém ficamos extremamente apegados ao nosso estilo de vida da grande cidade onde o “must have” abrange tantos elementos, principalmente aliado ao pensamento de que nada pode faltar sem a possibilidade de providenciar num mercado para atender nossos desejos. Mas deixando esse pensamento de temporada de lado, pensando numa vida permanente no campo, você pode até encontrar como solução de tempos em tempos juntar uma grande quantidade de lixo e depositar numa lixeira do bairro, mas isso não é exatamente uma solução, concordam? Isso é retirar da sua visão micro e transferir ao macro a responsabilidade de resolver um problema.

Pois é exatamente isso que fazemos todos os dias nas metrópoles. Pagamos impostos e contas de consumo mensalmente e em troca não precisamos pensar nisso. Nossa vida atribulada e bastante atarefada na cidade não nos permite este tipo de preocupação. Entendemos que o Estado ou as empresas privadas ligadas a ele tem obrigação de resolver este tipo de questão. E ainda que não tomemos conhecimento sobre a forma com a qual isso é feito, nos damos por satisfeitos por simplesmente não termos que nos envolver com isso. Gastamos boa parte do nosso tempo com o nossos trabalhos, famílias e obrigações do dia a dia para além de tudo termos que pensar no meio ambiente e itens básicos de sobrevivência. Temos que fazer exercícios regularmente, estarmos atualizados com relação às notícias do mundo, comer ou deixar de comer determinados produtos e ainda pensar em elementos tão essenciais, pelos quais pagamos por seu bom funciomaneto? Nem pensar.

Nem pensar mesmo. Porque se você parar para pensar, vai ver o quanto esses serviços são ineficazes. Sem tirar o mérito pela grandiosidade desses sistemas de escoamento e complexidade, dado o enorme contingente populacional que depende disso, muitas vezes a sensação que dá é o equivalente a pagar uma diarista para no fim do mês descobrir que toda a sujeira da sua casa foi jogada para debaixo do sofá. Você pode passar semanas vendo seu chão brilhando, mas a sujeira está lá e em algum momento não vai mais caber neste espaço limitado. Imagine todas as embalagens de biscoito, todo o papel higiênico, toda a matéria orgânica ali. Provavelmente antes de esgotar o espaço físico, todo este lixo vai, no mínimo começar, a feder.

Não queremos mais gastar tempo com itens básicos. Até comer se tornou um fardo, não o ato em si, mas tudo que é necessário para que a comida chegue na sua mesa. Ir ao mercado já é cansativo o suficiente para vc ainda ter que refletir sobre a procedência de cada produto, se faz bem ou mal à sua saúde e, não menos importante, à saúde do planeta em que vivemos. Este local tão grande e tão difícil de mensurar quanto 1 trilhão de dólares é tão microscópico quanto a água que você bebe e o ar que você respira. Basicamente toda a tecnologia e avanços na ciência acabam convergindo para um verbo: otimizar. Otimiza-se a produção, para otimizar nosso tempo e nosso lucro. Assim teremos tempo para passar um tempo livre com a família, tomar um banho de sol na praia ou até mesmo ficarmos horas e horas anestesiados olhando para a televisão, ainda que sem assistir nada, somente olhando para não ter que pensar em nada, ou então jogando candy crush com o mesmo objetivo. Esvaziar a mente entupindo ela de informação inútil. A “meditação” dos tempos modernos.

Realmente, nosso tempo está muito curto, né? Será mesmo? Será que não devemos dedicar parte dele estudando e tentando encontrar formas mais eficazes, menos imediatistas e mais inteligentes de resolver estes tópicos? Por nossos próprios meios ou cobrando do governo verdadeiras soluções? Diminuindo nosso consumo, sendo mais conscientes de que tudo o que fazemos tem consequências? Afinal, o que os olhos não vêem, o coração sente sim. As doenças estão aí demonstrando isso. A natureza também.

Então voltemos ao nosso ponto de partida, nossa área verde onde tentamos refletir sobre soluções básicas infraestrutura. Este exercício é diário na vida de muita gente, pessoas que decidiram que não podemos continuar como estamos, usando o planeta como se não houvesse amanhã. Pessoas que buscam incessantemente achar soluções mais eficazes para estas questões. Muitas, inclusive, já colocando este conhecimento prática há um bom tempo nas chamadas Ecovilas, várias delas podendo apresentar um reaproveitamento quase que completo do que é descartado e utilizando fontes de energias renováveis. A grande crítica a este modelo realmente é que resolve somente numa pequena escala e “obriga” a quem quer aderi-lo a morar no campo.

Porém, melhor soluções em pequena escala do que nenhuma, não? E não é só porque moramos nas cidades, que devemos fechar os olhos, empurrando a sujeira para debaixo do tapete. Precisamos nos envolver, questionar, cobrar e, principalmente, mudar nosso pensamento de consumismo desenfreado. Fique tranquilo, nada disso salvará o planeta. O planeta se salvará, ele é incrível, já passou por crises inimagináveis e, nem que demore bilhões de anos, ele se regenerará. Com sorte, salvaremos a nossa própria pele.

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15 de September de 2014 at 22:13 Comments (0)

Minha ideia pra combater o consumismo

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Há uns nove meses atrás, eu escrevi aqui no blog sobre uma nova ferramenta que eu havia desenvolvido, após uma tentativa frustrada de desenvolver um site. Como geralmente acontece com essas coisas, a “finalização” da ferramenta deixou um vazio, por que agora eu estava empolgado com programação e a vontade de fazer um site não tinha morrido.

Vou ser sincero. Não faço a mínima de como me veio a ideia de fazer o site sobre o qual vou falar aqui nesse post. Começamos eu e meu irmão, Pierre, a desenvolvê-lo a aproximadamente cinco meses atrás. Eu sei que queria fazer alguma coisa relacionada a interface de mapa (naturalmente puxando o gancho do Xumb) só não sabia exatamente o quê.

Então um dia pensei: que tal se existe um site que permitisse as pessoas doar coisas umas pras outras, tendo o mapa como apoio para que elas possam ver o que tem disponível e o melhor, exatamente aonde está, entre outros detalhes como categoria, estado, etc. No início a ideia foi apenas fazer um site com mapa, qualquer coisa – mas ao mesmo tempo, tinha que ter significado, algo que fosse importante pra mim. Em algum momento veio a ideia das doações e ai a coisa foi tomando corpo e me empolgando cada vez mais pra fazer. Meu irmão aceitou o desafio e começamos a colocar a mão na massa.

Conheçam o Interessa.org, um site que ajuda pessoas que querem doar algo mas não sabem para quem. Você já deve ter passado por essa situação antes – se bobear tem nesse momento uma sacola cheia de roupas, ou brinquedos velhos do seu filho em algum canto esperando o momento e a pessoa certa. Agora tem um site pra ajudar você a encontrar essa pessoa, que fará bom uso daquilo que pra você não serve mais.

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E como que entra o consumismo nessa ideia? É simples. Doar deveria ser uma ação muito mais frequente do que é hoje. Mas não no sentido de caridade – um foco maior no desapego e economia alternativa. Deveríamos estar constantemente “nos livrando” daquilo que não usamos mais, para exercitar esse desapego e para abrir nossos olhos para nosso próprio consumismo. Quanto mais você doa, mais você percebe a quantidade de coisas inúteis que tem em casa. Coisas que comprou por puro impulso, as vezes nunca usou. Mas a coisa não é inútil em si. Pode haver (aliás, com certeza há, aposto nisso) por aí muita gente interessadíssima naquilo que você deixa no fundo de uma gaveta acumulando pó.

O site aparece como um facilitador de contato entre quem quer doar e quem está interessado, numa interface de mapa onde podem ser aplicados filtros e visualizado de forma simples o que tem mais perto de você. Instituições podem se cadastrar também, e é possível monitorar aquilo que está sendo cadastrado, por categorias e distância. Assim, por exemplo, você pode dizer que tudo que é brinquedo usado até no máximo 5km de distância te interessa e você será avisado sempre que um aparecer. Molezinha.

Claro que o tema do abuso já passou pela minha cabeça. Sempre haverão os mal intencionados que se aproveitarão da interface fácil pra sair pedindo tudo, ou pior, se aproveitar da bondade alheia em maneiras inimagináveis. Mas é assim com tudo na vida, com telefone, televisão, internet, etc – e isso não pode impedir que novas ferramentas e novas formas de comunicação surjam pra melhorar a vida de todos e colaborar pra espantar alguns dos grandes fantasmas da nossa sociedade capitalista: o consumismo, a obsolescência planejada e o desperdício.

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11 de September de 2014 at 11:23 Comments (3)

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