Orgulhosamente Desajustado

Debatendo como Gente Grande

duty_callsAnedotas e Estatísticas

Na era internet, em especial na era das redes sociais, o número de debates acontecendo se multiplicou de maneira a ser impossível acompanhar tudo, ao mesmo tempo que os confrontos entre diferentes  escolas de pensamentos acabam sendo inevitáveis. Algumas discussões tornam-se mais agressivas, outras menos, porém um elemento é sempre presente: As anedotas. Historinhas de casos individuais utilizadas para explicar a regra geral a qual a pessoa acredita que funciona.

Em geral, anedotas são ótimas para se terminar uma discussão sem chegar a lugar nenhum. Você apresenta seus exemplos, o oponente apresenta os dele, e no final cada um volta para seu canto sem mudar de idéia e sem aprender nada com o debate, ambos com a sensação de “vitoriosos”, como se o objetivo de todo debate fosse uma competição na qual a vitória ou derrota são os únicos resultados possíveis. Quando não, “aprende” que precisa buscar mais exemplos ainda pra defender seu próprio caso, e o “derrotado” torna-se aquele que tiver que voltar às suas atividades cotidianas primeiro.

É muito comum sentir que uma discussão foi ganha ao apresentar essas histórias, afinal os argumentos utilizados ficam claros como o dia em nossas mentes, porém isso é uma peculiaridade fisiológica herdada ao longo de alguns milhares de anos. Temos uma fortíssima tendência biológica de lembrarmos das coisas que gostamos e que fazem a gente se sentir mais forte, e simplesmente esquecermos o que nos contraria. É o porquê mesmo rezando milhares de vezes e sendo atendido apenas uma vez, algumas pessoas ainda acreditam em milagres.

Mas o que há de errado na utilização de Anedotas?
Sendo elas casos de acontecimentos reais, de certa maneira eles servem pra explicar uma parte da mecânica do mundo, afinal essas coisas aconteceram de verdade!

Ambos os lados podem aceitar que os eventos apresentados são uma realidade, porém o calor da discussão combinamos com o comportamento competitivo que nos foi ensinado desde pequenos,é normal acabarmos esquecendo que uma das propostas de uma discussão é na verdade um trabalho cooperativo, onde tentamos construir um modelo, uma fórmula geral que descreva a realidade em que vivemos. E a partir do momento que estamos discutindo o mundo material, temos de colocar de lado as noções de “certo” ou “errado”, e passarmos a pensar em “mais preciso” ou “menos preciso”.

Pensando (um pouco) estatísticamente

É possível sentir o terror exalar pelos poros de alguns quando se fala em estatística, mas não é preciso se apavorar.
Para ter um pouco mais de noção de como enriquecer as discussões e ganhar “COM” ela (ao invés de ganhar “A” discussão), não é preciso saber muito de matemática, é necessário apenas um pouco de paciência pra pensar alguns minutos a mais, e mais um pouco de imaginação.

Toda vez que pensar em uma história que defende a maneira como você pensa, utilize alguns instantes a mais pra imaginar quantas vezes aquela mesma coisa foi tentada naquela mesma época, e quantas vezes deu certo, e essa frequência dessa história é que vai determinar a precisão desse modelo.

Por exemplo, no último post a respeito de Meritocracia: ( http://www.desajustado.org/2014/04/03/meritocracia-uma-fantasia/ )

Quando se discute o mérito, dois exemplos são bastante comuns: Um é o do cara que trabalhou como vendedor a vida inteira e continuou pobre, e o outro é de algum “Silvio Santos” da vida, que começou como ambulante e agora é dono de um império corporativo. As duas histórias são reais, aconteceram!

Porém, imaginem por um instante TODOS os casos de vendedores naqueles primeiros anos. Alguns se esforçaram um pouco mais, outros um pouco menos, mas podemos afirmar que de maneira geral todos se esforçaram, e que ninguém queria falhar (afinal, a vida deles dependia disso). Qual caso se repetiu mais vezes?

Não tenho um estudo em mãos, mas vamos supôr que o caso “Silvio Santos” foi 1 em 1.000.000.
Não é que o modelo “Silvio Santos” está “errado”, mas podemos dizer que ele tem 0,0001% de frequência.

Logo, imagine agora que você vê um vendedor ambulante na rua, e você resolve apostar com seu amigo a respeito do futuro daquele cara. (E vamos fingir que você tem como rastreá-lo e conferir daqui 10 anos) Em qual dos futuros você apostaria? Que o cara tornou-se um Milionário, ou que o cara continuou no mesmo lugar? Sabendo que as chances são baixas, é mais seguro apostar na segunda hipótese, não?

Agora, voltemos à nossa realidade. Se você diz acreditar na Meritocracia, estará sem perceber apostando a SUA VIDA naqueles 0,0001%. Essas são regras do jogo as quais você concorda?
Logo, poderíamos dizer que o modelo “Silvio Santos” é menos preciso que o modelo “Vagabundo porque quer“.

Surgimento de Padrões

Outra coisa a se ficar atento, é que quando não se surge um padrão na frequência da idéia apresentada, geralmente sugere-se que não há correlação entre os pontos apresentados, e portanto a precisão do modelo fica impossível de se distinguir.

Observe o gráfico fictício:
grafico_patrimonio1(gráfico fictício)
Com algo assim, poderíamos afirmar que o quanto você trabalha e estuda não influencia se você vai ficar rico ou não, portanto a correlação é pequena ou nula.

Já se tentarmos com outra variável:
grafico_patrimonio2(gráfico fictício)
Com isso, poderíamos dizer que correlação. Quanto maior o patrimônio herdado, maior as chances de você ampliá-lo. Quanto mais pobre você nasce, maiores as chances de você continuar pobre.
Haverão sempre os “Outliers” (Casos Particulares)? Sim. Porém, é possível afirmar que esse modelo descreve melhor a realidade do que o anterior.

(Estudo real sobre desigualdade social: https://www.youtube.com/watch?v=Vrea5DzIk6E )

Definição de sucesso e Gradientes

Convenhamos, casos como o do “Silvio Santos” são fáceis de se rebater através da lógica, e portanto é uma tática comum o modelo ser modificado pra algo mais abrangente. Nesse caso, os argumentos ficam mais brandos e viram “É ingenuidade achar que todos se tornarão milionários, mas conheço inúmeros casos de gente que começou de baixo e hoje está bem de vida”.

A partir de agora, o modelo de “sucesso” não é mais o parâmetro “Silvio Santos“, mas o parâmetro “Estilo de vida da Classe Média” nas esperanças que o mesmo modelo pareça mais justo ao ser distribuir, mais ou menos como algo assim:
inequality1
No caso, quem seria o “bem-sucedido” seriam todos entre os 40% e 80%.

Porém, quando olhamos em detalhes e notamos que na verdade o modelo é assim:
inequality2
Já aqui, quem seria o “bem-sucedido” seriam apenas os entre 80% e 90%.

Nota-se que continua sendo uma descrição baseada em excessões, e logo não é muito funcional utilizá-la pra descrever a realidade, ou pior ainda: Guiar sua própria vida utilizando um modelo falho.
(Observação: Esses gráficos são a respeito da desigualdade nos Estados Unidos, mas não se preocupe. No Brasil é tão ruim quanto. Fonte:  https://www.youtube.com/watch?v=QPKKQnijnsM )

Isso aqui também é uma anedota?

Seria possível dizer aqui que também estou utilizando anedotas pra atacar a meritocracia. De fato, estou utilizando sempre o mesmo exemplo (Pelo comodismo da familiaridade, é o caso mais frequente que vejo) porém acredito que o mesmo seja aplicável para outros casos.

Por exemplo, bancando o advogado do Diabo pra nivelar: Os “Esquerdopatas” agora costumam utilizar contra os “Discípulos da Rachel Sheherazade” aquele argumento do Negro que foi adotado por uma familia Francesa, e hoje é professor e palestrante super famoso e reconhecido. Para validarmos esse modelo, teríamos que pegar quantas pessoas as quais foram adotadas e tratadas como ele foi, que obtiveram um “sucesso” similar. Independente de qualquer coisa, que vai validar o argumento são os dados, não as anedotas, haverão “Outliers“, e possívelmente não será possível afirmar que “Todo Negro adotado acaba bem-sucedido“.

Por fim, não só é possível dizer que um estudo vale mais do que mil anedotas. Um estudo é a própria condensação de mil anedotas. Claro, se o estudo foi bem-feito ou não acaba dependendo da metodologia utilizada, e ainda sim devemos duvidar de tudo. Porém, analisar estudos acaba ficando pra outro dia.

Claro que, ao se deparar com alguém que ignora deliberadamente estudos e dados, fica evidente que ali não há a intenção de se enriquecer a discussão, mas sim de disseminar uma ideologia. Nesse caso, não há muito no que se insistir.

Que tipo de lógica você pode apresentar para alguém que não valoriza a lógica ?” ~ Sam Harris

, , , , , , , , , ,
8 de April de 2014 at 0:08 Comments (0)

Meritocracia, uma fantasia

meritocraciaEu fico pasmo cada vez que estou participando de uma discussão política e essa coisa da meritocracia – “é pobre por que quer” – aparece como argumento pra alguma coisa na sociedade. Fico pensando se não vivemos em dimensões diferentes e a teoria dos multiversos já não está assim tão reservada ao domínio da física teórica. Realmente aquela pessoa falando comigo vive num mundo totalmente diferente, um mundo onde a meritocracia faz sentido e realmente é medida de alguma coisa real.

O que é mérito pra você? Talvez essa definição seja o cerne do problema, e os seres que vivem naquela outra dimensão tenham uma definição completamente diferente. Curiosamente (ou nem tanto), uma definição parecida com a que reis e nobres usavam na antiguidade para justificar suas posições de poder. Muito fácil falar em meritocracia quando você não precisa de mérito.

Mérito = merecimento, mas tirando a parte que você merece algo por que é filho de Fulano ou recebeu uma benção do deus Beltrano. Mérito tem a ver com esforço para se atingir um objetivo. Tem a ver com sofrimento, renúncia, estudo, trabalho, etc. Pense num violonista de nível internacional que toca com orquestras. Quando você escuta uma bela obra sendo executada e vê a enorme dificuldade técnica daquilo, o que é possível imaginar? Milhares de horas de estudo, de prática. Anos de renúncia a outras atividades (como sair pra beber, viajar, etc) e dedicação quase exclusiva à música. Isso é mérito. Quando o público aplaude ao fim da execução, cada músico ali tem todo mérito de estar sendo aplaudido – uns mais outros menos (falarei sobre isso depois).

E o que não é mérito? Alguém virar gerente de uma empresa por que conhece o dono. Não é mérito alguém ser rico por que o pai é rico. Não é mérito você saber “cuidar da herança do pai” e manter a fortuna da família ou mesmo fazê-la crescer. Mérito é de quem criou a fortuna (isso considerando que não houve atropelos no caminho, o que é bastante raro) onde não havia nenhuma antes. E também não é mérito você ser alto e bonito. Não é mérito seu ter visão perfeita enquanto todos os seus amigos usam óculos. E mesmo assim, essas coisas (altura, beleza) lhe dão vantagens, independente se houve mérito ou não.

Se você já trabalhou em uma empresa ou conheçe alguém que trabalha, certamente já ficou sabendo de como “certas pessoas” viram gerentes e diretores sem a menor competência para aquilo enquanto excelentes profissionais não são valorizados. E mesmo assim a empresa vende a meritocracia como valor fundamental. Empregam programas de avaliação na tentativa de metrificar o mérito (tarefa quase impossível dada a complexidade de relações interpessoais existentes e que afetam tais avaliações) e baseado nessa avaliação, premiar ou não as pessoas, com aumentos e promoções. Metrificar o mérito é algo incrivelmente complexo pois o máximo que você pode medir é o resultado do trabalho (a produção) e não o esforço que a pessoa teve naquela tarefa – pessoas mais inteligentes e com mais experiência certamente fazem o trabalho melhor e com menos esforço do que pessoas menos inteligentes e sem experiência. Quanto da inteligência da pessoa é mérito dela? E experiência, é mérito?

O pessoal da outra dimensão pensa que tudo é mérito, mesmo o que obviamente não é. Não só acreditam que a meritocracia é o principal balizador de “sucesso profissional” em uma empresa, como na vida como um todo. Daí surgem pérolas como “é pobre por que quer”.

Como pode alguém entender (honestamente) o que é mérito e acreditar que uma pessoa que nasce preta, pobre, baixinha e com três dedos a menos, tem as mesmas chances na vida que alguém de classe média, branco, alto, de olhos azuis, sem nenhum membro faltando? Usei a ausência de dedos e cor da pele pra salientar a diferença naquilo que foge do nosso controle (ou seja, que está totalmente isolado de qualquer mérito). O preto vai precisar vencer o racismo, vai precisar superar a falta dos membros ao mesmo tempo em que se esforça para ter seu lugar ao sol – uma desvantagem evidente. O branco não vai se preocupar com nada disso e poder dedicar todo seu tempo, e sua já pré-existente rede de contatos, para atingir seus objetivos. O branco tem opções: faculdade particular, a empresa do amigo, morar no exterior, conseguir um belo empréstimo para abrir uma empresa (usando o apartamento do pai como garantia), ou pode ainda virar vagabundo profissional e coçar o saco. O pobre não tem. O caminho dele é único: escola pública, faculdade pública (competindo com quem fez cursinho, que ele obviamente não pode pagar), crédito inexistente (com que garantia?) para iniciar um negócio. Não vou nem entrar no mérito de “virar bandido” ser uma opção, pois vão dizer que estou justificando o crime com pobreza. Tentem imaginar o que penso a respeito, mas não coloquem palavras no meu texto.

Voltando ao violonista, por que eu disse que há mais mérito para uns do que para outros? É só você imaginar uma orquestra e diferenciar as pessoas ali e seus caminhos até chegarem onde estão. Quem você acha que tem mais mérito? Um branco, de classe média, filho de músicos, e com talento natural (ou você acha que isso não existe? Seja honesto, por favor!); ou um preto, que nasceu na favela, sem inclinação pra música, o pai preso e a mãe alcóolatra? Quando está todo mundo ali sendo aplaudido ao fim da peça musical, quem teve mais mérito em estar ali? Não estou falando se ele é o melhor músico, ele pode até ser o pior, mas meritocracia sendo o balizador, ele merece mais aplausos que o maestro.

Eu usei aqui exemplos anedóticos e certamente quem discorda comigo fará o mesmo. Citará casos de pessoas que “vieram do nada” e ficaram ricos e poderosos. As bancas de jornais estão cheios de revistas com essas pessoas na capa, com receitas para o primeiro milhão e outras coisas que me dão vontade de vomitar. Use um pouco de bom senso: com qual frequência surgem essas pessoas que ficam ricas vindas da pobreza e o quão comum são pretos, pobres que moram na favela? É um em cada quantos milhões que “chega lá”? Será que é só mérito mesmo? Não tem sorte? Não tem outros fatores? E o resto todo (maioria quase absoluta) está com preguiça? Faça-me o favor!

, ,
3 de April de 2014 at 11:24 Comments (5)

Uma semente para o Terrorismo

rapazacorrentadoarvorefacebookrepEssa semana, diversos cidadãos resolveram realizar o que chamam de “Justiça” através de punições e humilhações públicas de criminosos. Até execução aconteceu.
Após conseguirem a atenção e a aprovação da apresentadora (recuso-me a chamá-la de Jornalista) Rachel Sheharazade, o tópico chamou a atenção popular e inundou as redes sociais, criando uma polarização assustadora entre os usuários.

Para alguns, a expectativa é que esses feitos tornem-se modelos de inspiração para outros “cidadãos de bem”, e que muitos mais comecem a buscar essa mesma peculiar forma de justiça popular. Rezam por uma varredura da criminalidade através desses “exemplos”.

Já outros como eu, enxergam aí os primeiros passos para uma campanha de medo e horror iniciando-se entre a população. Se você é um desses, acredito que esse tópico não seja pra você, mas sinta-se à vontade para utilizá-lo parcialmente ou integralmente, apresentando-o para aqueles que enxergam essas manifestações de barbárie e violência como de alguma maneira, justificável.

Para os “Justiceiros” e “Cidadãos de Bem”, não adianta apresentar motivos científicos e sócioeconômicos que levam uma pessoa a se comportar daquele jeito, não adianta mostrar motivos comparativos demonstrando que essa forma de justiça é restrita só à uma determinada classe de pessoas, e nem adianta demonstrar motivos comparativos demonstrando que as instituições privadas que apoiamos causam muito mais estrago do que alguém que tentou furtar um celular.

Nada disso adianta porque aqueles que pedem por sangue perderam a capacidade de ver um ser humano ali. A campanha de desumanização foi forte e funcionou. Cansei de ouvir que “aquilo não é gente”. Chega até a ser engraçado, pois por exemplo Paulo Maluf destruiu milhares de vidas indiretamente com sua gestão, mas pelo menos ele ainda é gente. O mesmo vale pro Thor Batista, George Bush, e surpreendentemente até pro Bin Laden, esses ainda eram humanos. Nunca vi aquela frase ser usada com eles.

Nada disso importa, pois conforme o pensamento dos Justos, direitos humanos são para humanos direitos, e ali não há uma pessoa que escolheu o caminho do mal. Não adianta de maneira alguma tentar detalhar e ilustrar com argumentos de qualquer profundidade. Por mais equipado que você estiver pra um debate, a condição sine qua non é que consigam enxergar uma pessoa ali, e os “Justiceiros” são completamente incapazes disso.

Porém, ainda existe um argumento estratégico para ser discutido, com o máximo de racionalidade possível.

Mesmo fazendo compras de importados e financiando descaradamente o meio de vida Norte-Americano, muitos de nossos Justiceiros adoram ver os gringos se ferrar, e mantém na ponta da língua os argumentos pra legitimar o porque eles são tão odiados ao redor do mundo.
Os nossos bem informados “Cidadãos de Bem” sabem muito bem que os EUA criou seus próprios inimigos. Quando você invade um país, se apropria dos recursos naturais, e massacra sistematicamente a população, é ÓBVIO que vai dar origem ao terrorismo. “Os gringos pediram por isso” é a frase típica.

Agora, voltemos ao nosso caso. À partir do momento que os pobres, marginalizados, inferiorizados, se identificarem com o cidadão humilhado em praça pública e feito de exemplo, o que vocês imaginam que vá acontecer? Acham que vão ficar intimidados, ou que vai dar início a uma escalada de violência? Os EUA tem o maior exército do mundo e é a nação mais rica do mundo, e os terroristas ficaram intimidados?
Só que no nosso caso, além de não ter um mar separando, os pobres e marginalizados são maioria, estão melhor preparados, e melhor posicionados.
Exatamente como os Iraquianos, a população pobre brasileira foi explorada ao limite, colocada em condições sub-humanas com uma vida cheia de restrições.
Como diria o pensador Eduardo Marinho, “olhe pro horizonte, e me diga alguma coisa que não foi construída pela mão do pobre.”
Eles construíram os shoppings, e agora seus filhos não podem nem entrar neles.

São transportados como gado num sistema de transporte precário, tem a saúde e a educação negada desde o nascimento, perdem um tempo obsceno em função da ineficiência do sistema, e ainda depois tem que ouvir de “playboyzinho” que ele só é pobre porque quer. Dizendo que eles conhecem UM cara que nasceu na favela, estudou, se formou e hoje está bem de vida, enquanto descartam a existência de outros MILHÕES de caras que fizeram a mesma coisa, e não conseguiram o mesmo resultado. Não é de subir o sangue?

Agora, imaginem nessa panela de pressão, o dia que assim como os “Justiceiros” desses últimos dias, esse mar de pobres subir as ruas pra fazer a justiça deles, do que ELES consideram justo?
Não tem outro jeito de dizer. Vocês estão fudidos. Estão plantando sementes pra começar uma guerra que VÃO perder.

Se a situação do Brasil estava ruim como dizem, sabemos que esse não é o caminho pra melhorá-la. Já vimos filmes o suficiente pra saber que controle pelo medo não funciona quando a situação é desesperadora. A humanidade já viveu em uma era a qual a “justiça popular” existia, com exemplos pendurados em praça pública, e todos aqueles cenários era PIORES do que hoje. Não faz sentido achar que se fizermos a mesma coisa dessa vez, o resultado vai ser outro.

As tensões sociais vão aumentar com certeza, e se você está aplaudindo e elogiando essas últimas ações, está pedindo pra que elas se repitam.
Pode ser que seja apenas pra sentir um certo alívio psicológico momentâneo, mas tudo indica não é porque pensou nas consequências de um futuro próximo, que seria bem negro. É uma solução muito burra pra merecer qualquer tipo de aplauso.

Então, “Cidadãos de Bem” racionais, estrategistas natos que tomam todas suas decisões conscientemente.

Quais os resultados que esperam colher à médio e longo prazo com essa abordagem?

Esperam que com a disseminação progressiva desse comportamento, de alguma maneira se erga daí uma sociedade mais justa?
Ou acham que terminaria com outro erro histórico similar à morte de 6 milhões de pessoas? Porque é assim que começa…

, , , , , ,
7 de February de 2014 at 20:43 Comments (2)

As armadilhas da ideologia

ideologySe houve um efeito colateral bastante inusitado (para a maioria, pelo menos, talvez não para alguns mais antenados) das manifestações de junho passado, foi o recente fortalecimento do discurso de direita. Não que isso chegue a ser preocupante em escala eleitoral, mas é nítido que mais e mais pessoas agora perderam toda a timidez de se mostrar adeptos dessa linha de pensamento ou ideologia. Isso poderia ser uma coisa muito positiva (se fosse gerar mais debate), mas infelizmente, não é o que se percebe.

Para não acharem (e garanto que alguns acharão, lerão só o primeiro parágrafo e já correrão pra comentar) que esse texto tem alguma coisa a ver com criticar o discurso de direita, não se trata disso, pois o anterior e já vociferado aos montes, de esquerda, é idêntico. Não se vê debate de ideias, não se vê ninguém buscando um meio termo e soluções conjuntas. O que se vê é só um apego incondicional à ideologia – seja ela qual for, sempre demonstra incrivel eficiência em acumular defensores, atrapalhar o debate e distorcer a realidade.

O “problema da ideologia” não é de hoje, muito pelo contário, é tão velho como a inteligência e consciência humanas. Aderir a uma ideologia é tão humano como se apaixonar. E da mesma forma que, após repetidos períodos de intenso sofrimento trazidos por essas paixões, estamos sempre nos deixando apaixonar de novo – só para sofrer tudo de novo. A diferença é que a ideologia é uma amante mais promíscua e não rejeita ninguém.

Ideologias se apresentam de muitas formas, umas mais brandas e flexíveis e outras mais duras e dogmáticas, mas invariavalmente são formas de ver o mundo (e se comportar nele) baseadas em um conjunto de ideias fixas: Deus criou o universo, a terra é plana, a posição dos astros determina quem somos, comer carne é errado, a culpa é do Estado, o Estado é a solução, o homem é naturalmente bom, o homem é naturalmente mal, etc.

O fato inegável é que, durante nossas vidas, vamos nos afiliar a um sem número de ideologias sem sequer notar isso. A maioria de nós, em algum momento, já foi apresentado a alguma nova forma de ver o mundo e, sem muitas evidências daquilo, as vezes meramente por pressão ou afinidade de grupo, passou a se comportar de forma diferente e até defender aquelas ideias com unhas e dentes. Quem nunca?

A armadilha está em não se dar conta de como nossas mentes “gostam” de se agarrar à conjuntos pré-estabelecidos e aparentemente logica e belamente arrumudos de ideias, que dão sentido à coisas que nos incomodam e geram dúvida. Apesar de não gostarmos de assumir isso, nossa mente está sempre disposta a desligar o senso crítico o suficiente para adotar uma ideologia como na canção do Cazuza “eu quero uma pra viver”.

Voltando a eterna briga de esquerda e direita, o que me levou a escrever esse texto, foi exatamente ver alguns amigos, inclusive alguns que considero bastante inteligentes “sairem do armário” como defensores da direita, e demonstrarem o quão totalmente imersos estão com esta corrente política – senso crítico em mínimo, abertura para debate zero. Só postam coisas da Veja, vídeos, reflexões e textos de pessoas claramente de direita (mesmo quando em alguns casos, hipócritas e não se posicionam), sem nunca “dar uma chance” para um discurso mais moderado. Os de esquerda fazem igualzinho, mas o pior, é que agora, como que em resposta a esse crescimento do discurso conservador, passaram também a rebater postando cada vez mais só as coisas da esquerda, e agora as mais radicais, que muito provavelmente já liam há tempos mas ficavam “meio receosos” de parecer extremo.

Eles debatem? Não. Eles discutem, cada um querendo mostrar com sua ideologia é brilhante e o resto é pura idiotice? Sim! Eles postam coisas que as vezes colocam em cheque os pontos centrais da ideologia? Nem fudendo. E o aspecto mais bizarro dessa coisa toda é um fenômeno recente, que se percebeu apenas com a popularização as redes sociais. Basta qualquer coisa na internet ter um teor crítico à determinada ideologia (seja política, religiosa, científica ou qualquer coisa que o valha), os defensores correm em auxílio dos “gurus” e das ideias centrais geniais e irrefutáveis da mesma. Isso já virou até motivo de chacota e “nomezinhos engracados” envolvendo tais gurus viraram lugar comum nas discussões e memes.

A que tudo isso serve? Ao meu ver, nada de útil, nada de construtivo. Eu as vezes faço parte da zoação também, as vezes me pego no flagra atuando como “defensor” de uma linha de pensamento que apenas me agradou mas que não entendo muito a respeito. Somos pegos por essas armadilhas o tempo todo. Dependendo sua personalidade, você vai trocar de ideologia como muda de roupa, outros podem passar uma vida inteira acreditando e defendendo algo sem ter parado um minuto da vida para validar aquilo com critério.

Lendo Krishnamurti há alguns anos, me deparei com um dos alicerces de seu pensamento que se resumia em “não há guru, não há mestre, você é o mestre, você é o guru, você é tudo!”. Ele dizia para não aceitar nada do que ele dizia e duvidar de tudo. Eu tinha dificuldade pra entender aquilo, pois ele passava uma montanha de ensinamentos e sabedoria em suas palestras e depois me fala pra não aceitar nada daquilo? Como assim? Eu estou concordando, estou gostando – não devo aceitar?

Na verdade o que ele ficava ressaltando o tempo todo era que as ideias precisavam ser constantemente criticadas, e não apenas entendidas intelecualmente, mas “vividas” profundamente sem os diversos filtros de nossa cultura e passado – e que ninguém deveria considerar as ideias melhores ou piores por que vinham de uma figura como ele. Isso é muito simples de falar mas quase impossível de realizar na prática. Ao ler algo que “se encaixa” com aquilo que você acredita surge uma empatia natural com o autor daquelas ideias e isso cria um feedback de forma que, no futuro, você aceitará com mais facilidade (ou seja, com o filtro do senso crítico mal configurado) outras coisas que ele disser – e depois de outros que pensam parecido.

Portanto, se você se pega constantemente lendo textos dos mesmos autores, confirmando aquilo que você acredita, criticando aquilo que você (ou melhor, a ideologia que você escolheu) condena – há grandes chances de você estar viciado nessas ideias, e preso num espiral de “confirmações” e “irmãos na causa” incapaz de perceber que por mais sentido que aquilo tudo possa fazer, não pode ser a verdade única e absoluta, provavelmente está repleta de falhas factuais e lógicas, talvez algumas que você até reconhece mas finge não ver.

Ninguém está livre disso. Nossa mente é programada para se agarrar nessas coisas, procurar o caminho mais curto e menos trabalhoso para fazer sentido do mundo e de tanta complexidade. Como diria Krishnamurti, só mesmo a vigilância contínua e a completa recusa a dar valor a certas ideias baseadas no seu autor, pode nos armar contra essas armadilhas e tornar possível o um senso crítico refinado e real confronto de ideias, e não as infinitas discussões de facebook onde cada um só quer mostrar como fez seu dever de casa e leu mais livros “pra confirmar as ideias que acredita serem a resposta pra tudo.

, , ,
4 de February de 2014 at 15:19 Comments (15)

E os tais Rolezinhos?

shoppings-defendem-que-pais-respondam-pelos-rolezinhos.jpg.280x200_q85_cropDepois de presenciar todo o destaque que o assunto dos “Rolézinhos” ganharam na imprensa, sem ouvir quase nenhum argumento realmente racional vindo dos cidadãos abastados. Muitos se posicionam prontamente contra eles, sem perguntar o porque tudo isso começou a acontecer, e dessa maneira ficou bem claro pra mim que era reação de medo, de horror.

E por que tanto medo?
Porque a classe média já viu esse filme antes…

Já teve a sensação de seu mundo estar ficando cada vez menor? Basicamente é isso.
Como ex-cidadão da classe média, acredito poder falar com propriedade dessa perspectiva e expôr um pouco da escrotidão e hipocrisia não-assumida pelos antigos frequentadores de shopping.

Até a adolescência, antes de ocorrer o divórcio de meus pais, fiz parte da classe média-alta da comunidade paulistana, em função da riqueza proporcionada pelo meu avô.
Quando eu tinha nascido, já não se era possível pra minha “casta” frequentar o centro da cidade, porque lá tinha muita gente “meio estranha, meio feia”, e assim passei a infância sem pisar lá.
Aos finais de semana, descíamos pro litoral pra curtir a praia como família. Subitamente, as praias começaram a se enxer de gente “meio estranha” de novo, e pude finalmente ver como eram essas pessoas “meio feias”. Era gente pobre, simplesmente.
Surgiu a internet, e pelo menos ali teríamos paz, mas não. A tecnologia tornou-se barata e acessível, e a cultura periférica começou a se infiltrar por aqui também. Quem nunca ouviu reclamações sobre a “maldita inclusão digital” ou sobre a “orkutização” da internet?

À medida que fui crescendo, era bem visível o como se articulavam pra manter fora da mistura, onde pisava o pobre, o rico mudava de lugar. Como quando alguém barulhento senta do seu lado no cinema. E como já citei, chegava a ser caricato o como evitam falar a palavra P-O-B-R-E, era “sempre gente feia, gente estranha, um povão”, quem já fez parte disso sabe do que estou falando. Ao final, tiveram a brilhante de inventar os condomínios fechados. Dessa maneira, criaram um tipo de “túnel” onde o rico podia fazer a tragetória  casa->trabalho, casa->entretenimento, e o caminho de volta, sem se misturar com o resto do mundo. Se bobear, poderia instalar o vidro fumê pelo lado de dentro, pra não ver o “mundo feio” lá fora.

E assim, após um curto período de paz, começa a onda dos “Rolézinhos”. Dessa vez os filhos de pobres entram nos shoppings, transportam pra lá algo que apavora o cidadão de classe média. Não algo pior, e nem melhor, mas algo DIFERENTE.
A cultura desses jovens é completamente outra. A linguagem, o jeito de se vestir, a maneira como tratam uns aos outros. Sim, parece que é um baile funk na periferia, e você não precisa se identificar com eles e nem gostar, mas precisa reconhecer seu direito de serem como são. Se eles não tem direito, outras marchas que acontecem no país inteiro por diversos motivos, e também “perturbam a ordem e o trânsito” também não devem acontecer.

Falar que são todos bandidos vagabundos é uma generalização grosseira visivelmente impulsionada pelo medo.
Flash mobs, harlem shakes, Zombie walks, todo mundo aceitou numa boa. Isso entre coisas piores, como isso:

(Interessante que só a imprensa daqui condenou prontamente, a pequena cobertura da mídia internacional viu tudo como “Flash mobs da pobreza”)

É visível a diferença de aceitação e tolerância quando a proximidade cultural é maior, não?
Quando os dois pesos e duas medidas ficam claros, todas as expressões fazendo correlações com o Apartheid deixam de ser exageros. O preconceito contra a cultura da periferia é evidente. E sim, uma forma de cultura. Vejo constantemente tentativas de desqualificar qualquer manifestação pobre como cultura, em comentários ingênuos como “Rap e Funk não são música” e coisas do tipo. Como já falei, você não precisa gostar, basta reconhecer e respeitar.

De uma maneira ou de outra, o surgimento dos Rolézinhos aparentemente não são um caso isolado, e parecem indicar uma tendência.
Demonstra o encolhimento da possibilidade da alienação, da negação.

charge-rolezinhos-shoppings

Como na história do Buda, o típico cidadão de classe média ainda está preso pra dentro dos muros do castelo, alheio ao sofrimento do resto do mundo.
Porém em uma conclusão diferente, nossos “Budas” não quiseram sair, e mesmo assim a pobreza entrou pra dentro dos jardins imperiais.

Esse é o mundo real, não há como negar. Há pobreza, há sofrimento, há intimidação, ostentação, busca de status, e preenchimento com materialismo vazio, como é visto nas músicas da periferia. Tudo o que os abastados se negam a aceitar sobre eles mesmos. Deve doer bastante ver os “pomposos” admitirem a igualdade ali, que também buscam as mesmas marcas de grife e as mesmas formas de satisfação.

À medida que as barreiras ficam enfraquecidas, fica impossível empurrar a pobreza pra baixo do tapete, escondê-la dos olhos e finalmente, cupar o pobre pela própria pobreza.

A desigualdade social é uma presença terrível que precisa ser RESOLVIDA.
Até hoje, os governos de direita à esconderam e negaram sua existência, e os governos de esquerda a utilizaram pra crescer, mas ninguém quis resolver de fato.

De uma maneira ou de outra, independente de sua preferência partidária, todos agora se vêem forçados a defender políticas sociais que resolvam a desigualdade, para que possamos ter paz. Onde antes haviam vozes reclamando pra baixar os impostos de importados pra aumentar o consumo da classe média, agora precisam clamar por educação, saúde e redução da pobreza para que tenham algum espaço. Abrir mão do PS4 pra conseguir andar no shopping.

Parece não existir uma maneira de conciliar projetos que sejam ao mesmo tempo inclusivos e democráticos, e que simultaneamente empurrem a pobreza pra longe dos olhos. Se não queremos ver mistura, basta admitirmos que não queremos democracia.

Não há como fugir. Pra não se ver pobreza, é preciso contribuir pro fim da mesma, e não simplesmente culpar o pobre pela própria miséria, e esperar que ele cave seu caminho pra fora dela. Não há mais um lugar longe o suficiente onde os olhos não a vejam.

Os setores proprietários dizem que não se deve dar o peixe, mas ensinar as pessoas a pescar; mas quando destroçamos seu barco, roubamos sua vara e tiramos seus anzóis, é preciso começar dando-lhes o peixe.”Pepe Mujica

, , , , , , , , , ,
31 de January de 2014 at 11:15 Comments (2)

« Older Posts