Orgulhosamente Desajustado

"Não é sinal de saúde ser ajustado à uma sociedade profundamente doente." – J. Krishnamurti

Reflexão sobre a origem da moral

Se existe um terreno espinhoso para debater e refletir, esse é o da questão da moralidade humana. As origens e a estrutura da moral já foram matéria de estudo por todos os grandes paladinos da filosofia e da moralidade na história, de Sócrates a Hume, de Buda a Jesus Cristo e Ghandi. De onde vem a moral? Como ela é formada? Como ela é distorcida e transformada no caos de valores que vemos no mundo? Para onde ela vai?

Tais perguntas aparecem frequentemente na vida de todos nós, especialmente quando nos deparamos com algo a que consideramos extremamente imoral, ou seja, que fere profundamente a ética de uma determinada época e cultura. Ao nos depararmos com crimes bárbaros, ficamos sempre impressionados com nossa capacidade de sermos maus com nossos semelhantes – homo sapiens, nesse caso. Sempre vamos precisar de uma explicação para essa ausência do “bem” no mundo, e mais especificamente, naquela pessoa, que cometeu aquele crime.

Já é bastante difícil – para não dizer impossível – definir qual é a moral válida para qualquer época, lugar e cultura. A lei nos obriga a certos comportamentos e nos proibe de fazer um grande número de coisas, mas não quer dizer que a lei traduza a ética fielmente. Em muitos casos, a lei existe, mas ninguém a segue, ou ela já não representa mais os valores vigentes. Pegue o caso da homossexualidade, por exemplo, que ainda no século passado era considerada crime na Inglaterra. Pode-se dizer que a moral é um fenômeno social e dinâmico, em constante mudança. A lei escrita é incapaz de acompanhar o avanço e mudanças de valores em uma dada sociedade.

Apesar disso é possível observar que a moral caminha geralmente para melhor, o bem maior, apesar de muitos não conseguirem enxergar isso e outros até acreditarem ser o oposto. O conjunto de valores morais da humanidade em geral vem se aprimorando ao longo da história, o que fica bem evidenciado, por exemplo, ao sermos capazes de nos reunir e elaborar algo chamado A Declaração Universal dos Direitos Humanos. Durante séculos, divergimos no próprio fundamento da questão dos direitos humanos pois sequer éramos capazes de considerar todos os humanos como iguais. A moral de épocas passadas considerava outros povos raças inferiores, com serventia apenas para serem escravos – algo que hoje em dia é considerado absurdamente imoral na maior parte do mundo – mesmo que ainda haja milhões de pessoas fazendo trabalho escravo devido as pressões do capitalismo; a grande diferença é que hoje, é velado, pois já não é mais aceito e validado, nem mesmo nas leis. Grandes homens, considerados progressistas em suas épocas seriam considerados idiotas hoje em dia. Abraham Lincoln, um dos heróis do fim da escravidão nos EUA, escreveu diversas vezes que considerava a raça negra como inferior.

Ainda que se concorde que desde que o mundo é mundo os valores morais vem caminhando (mesmo que a passos curtos e por vezes, tortos) em direção a um “bem maior” ainda é possível ver diariamente exemplos de atrocidades, que já deveriam ser parte apenas da história, escritas como lei e aceitas em nome da tradição. Exemplos variam de obrigação de uma mulher estuprada se casar com o estuprador, mutilação genital infantil, apedrejamento como punição para adultério e pena de morte para homessexualismo. Não é muito difícil tentar traçar uma linha, mesmo que indireta, entre essas práticas e a fé religiosa, ou pelo menos às suas consequências diretas (como a inferiorização das mulheres, por exemplo).

Seria extremamente leviano e estúpido da minha parte, prosseguir com essa argumentação tentando provar que todo o mal do mundo vem da religião. Além de ser um insulto aos nomes citados no primeiro parágrafo. Me dêem algum crédito, não sou um idiota. Não é nada disso e vou explicar. Na verdade eu gostaria de propor uma reflexão quase inversa, partindo do pressuposto de que a grande maioria dos religiosos, defendem que a própria origem da moral humana é a religião – cada um na sua, claro. Um católico vai defender que a moral vem de Deus, um muçulmano de Alá, e um judeu, de Yahweh. Como essa moral chega a nós, reles mortais de carne e osso? Pelas escrituras, ora bolas. De onde mais?

Essa defesa da origem divina (ou sobrenatural) da moral é percebida facilmente, bastando ver o discurso padrão que as religiões tem em relação aos ateus. “Se você é ateu, como pode ser bom? Sem Deus, para que ser bom?”. Ou traduzindo melhor: “se você não tem medo do inferno, o que te impede de ser um completo filho da puta”? Vamos analisar bem o que significa a religião ser a origem da moral, para saber se faz sentido.

Poderíamos pegar milhares de exemplos das mais diversas escrituras religiosas, seus rituais e práticas para esta argumentação, mas isso facilmente renderia um livro e não um post em um blog. Para facilitar, direto na Biblia, que é o disparado o livro mais vendido da história e fonte de inspiração para bilhões. Será mesmo que os católicos tiram sua moral da Biblia? (Ou: será que os religiosos em geral tiram sua moral de suas escrituras?)

Existe uma frase muito boa do Isaac Asimov, propícia neste momento: “Lida propriamente, a Bíblia é a força mais potente para o ateísmo jamais concebida”. Pois é. A Biblia (versão oficial de King James) é um dos livros mais sangrentos e imorais já publicados. Os diversos evangelhos, que frequentemente se contradizem, contém histórias recheadas de comportamentos absolutamente inimagináveis nos dias de hoje. São encontradas em diversas passagens menções diretas (e não metafóricas) a: ódio contra outros povos (não judeus), ódio e desprezo a mulheres, ódio a homossexuais, estupro, genocídio, infanticídio, vingança, inveja, ganância, entre outras pérolas. “Ah, mas isso são textos do Velho Testamento e não os consideramos mais hoje em dia” dirá rapidamente um teólogo em defesa. O Novo Testamento, apesar de ser uma melhora significativa (Jesus foi, de fato, um grande inovador ético) ainda possui diversas passagens detestáveis para os padrões atuais. “Abandone tudo, sua casa, amigos, e sua família, e venha me seguir”. Que papo é esse? Se fosse hoje em dia, seria considerado uma seita louca, e o Jesus de nossos tempos levaria um tiro de sniper na testa, provavelmente ao vivo na CNN. Sem falar no conceito do pecado original, onde toda humanidade é culpada pelo erro de Adão ao comer a maçã da árvore do conhecimento. Já nascemos devendo e culpados por algo que não fizemos. Nice one.

O problema é: se a moral vem de Deus, que nos é passada através de escrituras, as quais foram escritas por homens, de diversas épocas, muitos deles que as vezes nem se conheceram, como podemos confiar nessas escrituras? Por acaso existe algum manual dizendo “essa é uma lenda de valor moral válido; essa e essa não”? Não, não existe tal manual nem nada parecido. Devemos considerar que Lot foi correto ao oferecer suas duas filhas para serem estupradas por toda a cidade de Sodoma, para proteger os anjos enviados por Deus, ou refletir e absorver como valores apenas os ensinamentos do Sermão da Montanha? Sem um manual explícito, sem um documento minimamente estruturado, como decidir? Não dá, né? O que nos resta, então? Termos as escrituras interpretadas para nós, por qualquer um que se ache apto para isso. E bom, não preciso explicar por que isso é evidentemente um problema seríssimo quando estamos falando de valores básicos, que são os alicerces de qualquer sociedade.

Existem tribos indígenas que não possuem deuses e nem ritos religiosos conforme os conhecemos. Podem ser considerados ateus para nossos padrões de religião. E não os vemos como loucos sanguinários sem nenhum direcionamento do que é certo e errado, cada um fazendo apenas o que é melhor para si. Eles possuem moral, cuidam uns dos outros, tem famílias, e nada disso veio de escritura alguma.

Um outro belo exemplo que vale citar é a história dos primeiros navegadores ao desembarcarem nas Ilhas Maurício, que, ao se depararem com os gentis dodos, não penseram que estavam fazendo nada de mal ao exterminar a todos na base do porrete. Simplesmente acharam que era o que se devia fazer. Nem sequer os comeram, pois diz-se que tinham gosto horrível. Imaginem algo assim ocorrendo nos dias de hoje. Ia ser capa de todos os jornais como um crime ambiental sem precedentes, carregado com conotações de crueldade e ignorância. Com certeza você não vai achar escrito em escritura alguma que se deve exterminar novas espécies ao encontrá-las pela primeira vez. Igualmente não vai encontrar que devemos fazer carinho e amá-las. É simplesmente algo que vamos aprendendo pelo caminho.

Podemos concluir então, que, definitivamente não, nossa moral (nem a boa, nem sua prima má) não vem da religião nem das escrituras. É claro que, para religiosos, especialmente os fundamentalistas, as escrituras possuem um enorme peso (quase esmagador) na formação da base moral, mas isso não se observa em toda a humanidade, que, como já falei, está constantemente mudando seus valores de certo e errado ao longo das eras e culturas – inclusive, mais lentamente, refletida na forma de leis. Ninguém precisa de religão para ser bom – nem mal, obviamente.

Portanto, de onde vem a nossa moral? Ainda não sabemos. Será uma vantagem evolutiva possuir empatia e colaborar? Estudar a evolução da moral na humanidade pode ser uma peça chave para melhor compreender por que temos tanta dificuldade em fazer com que essa evolução seja mais homogênia e eficaz. Talvez a resposta esteja em estudar nossos ancestrais macacos e demais espécies. Finalizo deixando o vídeo abaixo (infelizmente, por enquanto apenas com legendas em inglês), para que possam refletir.

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04/20/2012 at 10:06 am Comments (4)

A questão das Sacolinhas Plásticas

Esse mês, vence o período de adaptação dos super-mercados para a interrupção do serviço de fornecimento das sacolinhas de plástico.
Bom, gostaria de ter abordado a questão antes, mas fui impedido pela falta de tempo. Porém com o assunto em ênfase novamente, não posso perder a oportunidade.

Antes de começar, gostaria de deixar bem claro: Não sou contra pararmos com o uso de Sacolas plásticas, mas existem algumas coisas que me incomodam MUITO nesse evento.

Vamos lá, a primeira coisa que deveríamos perguntar é qual a intenção dessa proposta.
Evidentemente, seria reduzir o impacto ambiental causado pelo uso de sacolas de plástico, através da substituição das mesmas por sacolas reutilizáveis.
Se a proposta ficasse sóbria assim, eu teria ficado quietinho e não soltaria um pio. Porém, com uma enorme ajuda da grande mídia e da propaganda, fizeram o que sabem fazer melhor: Distorcer e exagerar.

E assim o slogan do projeto virou a seguinte falácia: “Vamos tirar o planeta do Sufoco”.
Não sei quanto a você, mas ao ler essa frase, tive a impressão que se pararmos de usar sacolinhas de plástico, vamos resolver a maior parte do problema e mais nada precisa ser feito. Poderíamos todos dormir tranquilos em relação à produção de lixo plástico.

Pra não ter discussão, fiz uma experiência doméstica que todo mundo pode fazer.
Fiz uma compra pequena com 8 itens, e quando pesei as embalagens depois, obtive o seguinte resultado:
- 2x Requeijão: 21g cada = 42g
- 2x Desodorante: 23g cada = 46g
- 1x limpa-móveis: 37g
- 1x lustra-móveis: 49g
- 2x Refrigerantes de 2 litros: 54g cada = 108g
Pra transportar isso, precisei de 3 sacolas. (Tive que usar duas pra levar os refrigerantes, senão rasgaria). Cada sacola pesava 2-3g, dando um total de 6g.

Com esses dados, dá pra fazer um cálculo aproximado da proporção encontrada:
Do total de 288 gramas de lixo gerado, 6 gramas correspondem às sacolas plásticas. Isso corresponde a 0,48% do lixo total.
(Pra obtermos mais precisão, recomendo fortemente que mais pessoas repitam o experimento)

Agora, vamos usar os dados fornecidos pela campanha, e cruzar com os nossos.
A campanha alega ao mudarmos de hábito, estaremos deixando de utilizar o exagerado número de 7 milhões de sacolas plásticas por mês. Mais uma vez, só pra parecer que estamos fazendo muita coisa.

Porém ao invés de lidarmos com unidades, por que não lidar com peso?
vamos deixar de produzir mensalmente, 21 toneladas de plástico com o fim desse serviço.
ENTRETANTO, para cada 21 toneladas de sacolinhas, produziremos 4375 toneladas de plástico vindo de outros produtos.

Deu pra sentir a falta de efetividade real da proposta?
É como falar que multando as pessoas que jogam papel de bala no chão de São Paulo, vai fazer com que as enxentes parem.

A partir daqui, fica evidente que das duas, uma: OU quem apresentou essa proposta não tem a menor noção de impacto ambiental, OU quem apresentou essa proposta não tinha a menor intenção de resolver a questão ambiental.
Eu particularmente, estou inclinado a acreditar que o predominante é o segundo item. Afinal a partir de agora, as corporações vão lucrar duplamente.
Primeiro, porque vão vender as sacolas, abrindo um novo mercado.
E segundo porém mais sutil: Antigamente, o preço das sacolinhas estava embutido no preço dos outros produtos que você comprava no supermercado. Depois que a proibição foi implementada, alguém viu algum preço abaixar em função disso? Pois é, virou lucro.

Nessa hora, surgem as pessoas mais positivas pra falar: “É melhor isso do que nada, temos que fazer a nossa parte!”
Muito bem, concordo em fazer nossa parte. Porém, quem é responsável pelos outros 99,52% do plástico gerado? Eles não tem que fazer a parte deles?

Sim, aí vem as corporações. Os fornecedores de sacola de plástico estão oferecendo uma alternativa, mas e as outras empresas?
Que governo vai ser “macho” o suficiente pra cutucar a Ypê? A Johnson? A Coca-Cola?
Que representante vai apresentar uma proposta EXIGINDO que essas corporações gigantescas ofereçam uma alternativa?

E vai além disso. A maioria esmagadora dos plásticos é derivada de petróleo. Imagina o impacto na economia, se diminuirmos o uso de petróleo?
Você acha que os lobbystas vão deixar isso acontecer?

Então, meu caro cidadão, a “sua parte” é bem maior do que você pensava.

É claro que temos que parar com o uso de sacolinhas de plástico, mas se você REALMENTE, se preocupa com o impacto ambiental, e se você REALMENTE tem alguma intenção de “tirar o planeta do sufoco”, é sua obrigação gastar 10 minutos do seu dia, pra escrever uma carta ou um e-mail pra Ypê, pra Johnson&Johnson, pra Coca-Cola, pra Ferrero Rocher, o que for, pra EXIGIR deles uma alternativa para as embalagens de plástico, porque quem é responsável pelos 99% de lixo plástico gerado são ELES, e eles NÃO estão oferecendo outras opções.
Tem que exigir e boicotar, até que ofereçam soluções.

Por que você tem que fazer isso?

Simplesmente porque ninguém mais vai. Nenhum governante ou partido, e definitivamente, nenhuma corporação por iniciativa própria.

Então é hora de mobilização, precisamos NÓS conduzirmos o mercado, e não nos conformar com o que quer que eles apresentem. ELES tem que vender os produtos que a gente quer, produzido do jeito que nós concordamos, com o impacto que nós concordamos.

Caso não tenha percebido seus representantes não te representam. Mas com a internet, você mesmo pode se representar.

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04/04/2012 at 3:38 pm Comments (18)

Precisamos competir para inovar?

Nossa sociedade vive com um conceito que já goza da qualificação de “senso comum” de que a competição traz desenvolvimento e inovação. O desenvolvimento esperado é principalmente o tecnológico, que deveria vir associado a uma melhora geral na qualidade de vida da população. Mas evolução enquanto civilização? Sério? Vejamos.

Desde as primeiras aulas de história e geografia, quando nos ensinam sobre guerras, ficamos sabendo que a disputa entre as potências as leva a investir em tecnologia. Mesmo que os motivos para essa disputa seja os mais imorais (ou até fúteis) possíveis, e o custo em vidas humanas seja imensurável, ainda assim, aceitamos o fato de que muitas tecnologias (úteis, algumas indispensáveis) da atualidade só existem pelo enorme incentivo ao avanço científico motivado por disputas entre grandes potências – especialmente em épocas de guerra.

Mas não precisamos apelar aos extremos para demonstrar a relação entre competição e inovação. Fomos ensinados também, ao aprender sobre conceitos rudimentares de economia, que, lá no início, quando Adam Smith criou sua teoria de livre mercado, em uma socidade em que todas as partes agem (competem) livremente, haveria equilibrio de forças, bem como incentivo a inovação tecnólogia. É importante ressaltar aqui, que para isso seria necessária intervenção mínima (idealmente nenhuma) do Estado neste mercado.

Não precisamos recorrer a livros de história para verificar que isso não funcionou muito bem. Hoje temos o Estado metendo o bedelho em praticamente todas as possíveis transações econômicas de uma sociedade. Com zero intervenção de uma entidade externa reguladora (o Estado), o mercado, deixado a sua própria sorte apresentou sintomas de desequilíbrio de forças: acúmulo de poder (capital), alianças, politicagens, falências, etc. Essas coisas, naturalmente, não favorecem a inovação.

Vamos usar um exemplinho bobo para demonstrar esse desequilíbrio. Temos uma cidade onde não há sorveterias. Um astuto empreendedor, ao perceber isso, decide investir algum dinheiro e abrir uma. Um enorme sucesso desde a inauguração. A partir desse momento, criou-se um novo mercado na cidade, o de sorvetes, que é dominado por uma única sorveteria (monopólio). Todos estão felizes tomando seus sorvetes, mas só tem uma sorveteria, então não há estímulo para o dono de melhorar seu produto, baixar os custos ou algo assim. Algum tempo depois, um outro empreendedor decide se lançar como competidor no mercado de sorvetes e abre uma loja concorrente. Para atrair consumidores, oferece preços menores. Agora temos competição e o primeiro sorveiteiro se vê obrigado a reagir (inovar). Ele investe em tecnologia e baixa seus custos, igualando a concorrência, atraindo de volta os consumidores que estavam acostumados ao seu produto. O recém-chegado não tem opção a não ser inovar também, ou irá a falência. Nisso chega um terceiro player, disposto a dominar o mercado com sorvetes excelentes e pela metade do preço atual. O segundo sorveiteiro decide se unir ao novo player, vendendo sua estrutura e know-how. Em pouco tempo, o primeiro sorveteiro se vê obrigado a fechar as portas. Um novo monopólio agora domina o mercado. Mais uma vez a inovação desacelera, ou até para por completo.

O exemplo é bobo, quase infantil, mas é possível verificar como um mercado “livre” operando apenas com o interesse de suas partes pode se desequilibrar. Tais desequilíbrios se mostram nas seguintes formas: monopólio (um dominando tudo), cartel (acordo entre um grupo para controlar o resto do mercado), dumping, holding e tantas mais palavras chiques que somos obrigados a decorar para passar em geografia no ensino fundamental. Na tentativa de evitar tais práticas e tornar o mercado mais equilibrado o Estado foi cada vez mais se metendo: criando e impondo regras, fiscalizando, taxando, aplicando multas, etc. Temos então, nos dois extremos da teoria um mercado totalmente livre de regulamentação e fiscalização e um totalmente regulado pelo Estado. Não sei exatamente onde a economia mundial se encontra, mas vamos considerar, para fins didáticos, que é mais ou menos no meio do caminho. Existem diferentes teorias econômicas atualmente que divergem em exatamente quanta intervenção o Estado deve ter em um mercado, para que a competição seja “saudável” e todos saiam ganhando.

Mas é nesse ponto que eu gostaria de parar, dar um passo atrás e perguntar: será que existe esse ponto de equilíbrio? Ou será que estamos buscando um Santo Graal da economia, que nunca vai ser alcançado, e que, no meio tempo, vamos, aos trancos e barrancos, apenas mantendo em pé o castelo de cartas? E mais ainda: será mesmo que podemos considerar a competição como condição necessária à inovação?

Precisamos entender exatamente de que tipo de competição estamos falando aqui. No exemplo das guerras, acho bem difícil alguém concordar que os fins justificam os meios, e que, no fim das contas, valeu a pena morrerm milhões, pois agora temos as tecnologias X, Y e Z. E no caso do mercado, como se dá a competição? Menos visceral, mas basicamente desonesta. A competição não pode ser honesta. Nos esportes, por exemplo, esse não é o caso, pois as regras são rídigidas e estritamente e imparcialmente aplicadas, logo a competição é harmônica e equilibrada. Mas pense em um mercado, onde há lojas concorrentes disputando consumidores. Se vendem exatamente o mesmo produto, tem os mesmos custos e praticam o mesmo preço. Para ter vantagem, ou investem em tecnologia (inovam) e melhoram o produto, ou baixam o preço (com cortes de custos que muitas vezes são obtidos através de: exploração da mão-de-obra, desrespeito ao meio ambiente, negligência em diversos setores, etc), ou simplesmente falam “compra aqui, por que na loja do vizinho quebra mais rápido e a garantia não funciona”.

As empresas não podem ser 100% honestas sobre seus produtos e sobre suas vantagens em relação aos concorrentes, pois na maioria das vezes as vantagens são inexistentes. Gastam milhões em propaganda para mostrar que seu sabão em pó tira mais manchas sem observar um mínimo de método científico nessa comparação – puro blablablá. Mentem sobre duração de bateria, velocidade, durabilidade e praticamente qualquer característica que você possa imaginar para atrair consumidores – vale lembrar, independente destes, pois os fará comprar produtos piores e mais caros.

Você consegue imaginar entrar em uma loja e perguntar “qual o melhor celular que você tem aí?” e o vendedor responder “olha, é esse aqui, mas na loja aqui do lado tem um modelo melhor e mais barato”. Nunca aconteceria, certo?

Então, para fechar, pois o post já ficou muito grande: entende-se que sim, a competição incentiva a inovação, mas a que custo? A quantidade ideal de regulação do mercado para alcançar um equilíbrio de forças é algo inalcançável - a estrutura de poderes estabelecidos e interesses envolvidos inviabiliza a criação de uma entidade reguladora (Estado ou que quer que seja) totalmente imparcial e incorruptível. A competição, por definição é desonesta e não opera no interesse final de toda a sociedade – apenas de seus players e dos que detém as forças produtivas.

Já não é hora de pensarmos a uma alternativa ao mercado competitivo – de uma vez por todas? Pra que competição? Por que não fazer as coisas da melhor maneira possível simplesmente por que é o certo, para todos, e não por que vai dar vantagem de mercado a uma pessoa ou grupo? Exemplos de grandes contribuições científiticas que não geraram nenhum retorno financeiro para seus autores abundam, não vou listar aqui. Ironicamente, são essas as menos conhecidas do tal “senso comum” mencionado no início do texto. Será mesmo que somos uma espécie que precisa competir entre si para que possamos expandir nosso potencial e resolver nossos problemas?

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03/29/2012 at 1:43 pm Comment (1)

O que o consumo diz pras corporações

A princípio, minha intenção era dar um tipo de “resposta” ao Post do Christian, em relação ao vegetarianismo: http://www.desajustado.org/2012/01/23/sobre-a-questao-animal-e-alimentacao/

Pela segunda vez, estou tentando aderir ao vegetarianismo, e gostaria de expor minhas motivações em relação a essa escolha. Porém, no meio do caminho percebi que a questão era um pouco mais profunda e se extendia para além da questão do vegetarianismo. Não desejo mais comer carne pelos mesmos motivos que não desejo consumir mais um monte de coisas, e gostaria de falar um pouquinho desses por quês.

Motivações e Consumo

Num mundo com vegetarianos e Onívoros, de Religiosos e Ateus, de Ortodoxos e Revolucionários, o que TODOS tem em comum?
Além de sermos seres humanos, fazemos parte de uma vida social onde CONSUMIMOS. Mesmo que não se considere consumista,  você consome alguma coisa. Comida, Energia, Oxigênio, Àgua, Arte e Cultura. Foi feito um estudo uma vez, onde para ser categorizado como “consumidor”, basta estar vivo.

E por que consumimos determinados produtos? Por que este e não aquele?
Mesmo vivendo dentro de um sistema ditado por grandes monopólios, ainda existe uma margem de escolha. E o que influencia nessas escolhas?
Até o momento, consegui organizar três motivações básicas. Independente de ser uma necessidade básica ou não, uma pessoa consome um produto:

1. Quando conhece o jeito que a coisa foi produzida, conhece a qualidade, as consequências e impactos, CONCORDA com tudo aquilo e por isso faz essa escolha.
2. Quando não tem uma opção alternativa. Nesse caso ela concordar ou não, é irrelevante.
3. Quando desconhece (ou foi enganada) em relação ao método de produção, qualidade e consequências, mas NÃO concordaria com a escolha.

Posso estar enganado, mas do que conheço a respeito de economia tradicional, todas pessoas são enxergadas como o tipo “1″ de consumidor. Todos somos conscientes 100% do tempo, imunes a Manipulação, Propaganda, Neuromarketing e etc. Apesar de construirem uma economia inteira partindo desse princípio, considero o mesmo particularmente ingênuo. Talvez por isso a economia esteja desmoronando. Propaganda e comercial nunca foi tão efetivo, e empresas nunca esconderam tanto seus métodos de produção.

Entretanto, pela própria falta de informação (Que aliás, todo mundo acha normal. Acham até “legal” essas historinhas de patentes e segredos industriais), acredito que o MENOR motivo pra alguém consumir algo, é de fato pelos motivos do item 1.

Já o consumo pela falta de opção citada no item 2 é bastante comum hoje em dia. Claro que quando entramos em um supermercado, acreditamos que a variedade existe, porém não podemos ignorar que quando consideramos o preço e a abundância de certos produtos, as escolhas diminuem visívelmente. Um exemplo visível é no próprio ramo da alimentação.
O grande agronegócio recebe todo ano fatias generosas de subsídios vindas do governo, permitindo que este cresça e tenha mais oferta. Tendo oferta, os preços caem, ficando mais “acessíveis” para as maiores parcelas da população. Se a produção local (que em termos gerais, é mais saudável e tem um menor impacto ambiental, que o grande agronegócio) tivesse recebido esses incentivos no lugar dessas corporações gigantescas, seria muito mais acessível.

E a partir do momento que um governo favorece uma forma de produção e inibe outra, a variedade e acessibilidade passam a ser diferentes. E considerando que o governo tem como prioridade o lucro, e não o bem-estar da maioria, fica evidente que os incentivos se focam no custo/benefício, não na saúde da população. Então não se deixe enganar com as prateleiras coloridas: As opções são superficiais.

Por último, o item 3. De longe, somos EXTREMAMENTE ignorantes em relação à produção das coisas que consumimos. E não estou falando só de saber que os vegetais tem níveis alarmantes de agrotóxicos e o frango é praticamente um balão de hormônios. Não temos informação alguma sobre as condições de higiene, o como são tratados e remunerados os funcionários, e muito menos o impacto social daquela empresa. Vai que a empresa gera ou patrocina injustiça e desigualdade, você saberia?

Muitos ficaram horrorizados quando foi exposta a produção da Zara, e as fábricas chinesas da Apple. Porém isso não isenta as outras empresas.
E só contar com órgãos fiscalizadores não dá, precisamos EXIGIR a abertura de todas corporações, pela nossa própria segurança e saúde.

Dinheiro NÃO fala

Com o advento da internet e a cada vez mais fácil distribuição de informações, nós que fazemos parte de uma parcela pequena e privilegiada da população estamos conseguindo lentamente algum acesso a essas informações corporativas. E com o pouquinho que descobrimos já ficamos horrorizados. E com a capacidade de fazermos escolhas mais conscientes do que consumimos, surge a responsabilidade de consumirmos APENAS produtos que atendem nossas exigências.

Por que um “APENAS” tão pontual e radical?
Quando você paga por um produto, e o presidente/investidores olham pro caixa, lá não aparece escrito: “Comprei seu produto porque concordo com o preço, mas não concordo com a qualidade, e não sei nada sobre o impacto ambiental.”

Se na reunião do final do mês eles analisam os dados e a empresa deu LUCRO, eles partem do pressuposto que estão fazendo TUDO direitinho. O dito popular diz que em time ganhando, não se mexe, certo? E exatamente aí que mora o perigo. Nos conformarmos com meias-especificações do que consumimos.

Os estudantes de economia costumam acreditar que é a população que conduz o mercado, porém com propaganda e manipulação isso passa bem longe de ser verdade. Mas se queremos realmente ter algum controle, precisamos levar essa idéia de consumo consciente MUITO a sério. Temos o dever moral de não consumir nada que não concordemos com QUALQUER aspecto.
A partir do momento que pegamos no bolso das corporações, aí eles vão querer levantar o que tem de errado. E muito possívelmente eles já sabiam disso antes, mas contaram com o nosso conformismo e docilidade pra continuar nos empurrando produtos inferiores.

E esse é o motivo pelo qual eu em particular, parei de consumir carne.
Não concordo com nada. Não concordo com o método de produção, nem com a higiene, nem com a maneira como eles tratam os funcionários, não concordo com o impacto ambiental e nem com a maneira como eles esmagam os pequenos concorrentes. É o mesmo motivo que o Christian não compra coisas da Apple. Entendem onde quero chegar?

Grana é INCENTIVO. E você pagar por algo é dizer pra eles continuarem fazendo o que estão fazendo.

Imaginem que você vai num restaurante, a comida está deliciosa. Aí você descobre que o cozinheiro recebe $500 por mês, e o gerente $5000. Não só nunca volte lá, deixe bem claro o porque você não vai voltar lá! Então, pessoal… Perguntem, fucem, descubram. se as leis não permitem que possamos descobrir esse tipo de coisa, que mudemos as leis.

Claro que conforme a vida moderna vai se desenvolvendo, vamos criando novas necessidades e possibilidades, e acaba ficando cada vez mais difícil abrir mão dessas novas dependências que criamos. Porém isso é uma fraqueza que estão constantemente explorando. Porém quanto mais fizermos isso, melhor.

Enquanto não “dermos preju” pras corporações, os papeizinhos nas famosas “caixinhas de sugestão” vão continuar lá entulhando. Até porque as pesquisas hoje não são pra descobrir quais são as suas necessidades, servem pra descobrir que tipo de manobra precisa ser feita pra você comprar seja lá o que for que eles querem vender.

Então, vamos lá pessoal.
A arma MAIS FORTE que temos é o BOICOTE. Há alguns anos no México, subiram o preço das tortillas (que estão enraizadas na cultura deles) 2 centavos sem justificativa. A população inteira se mobilizou no boicote. Não importava se você podia ou não pagar 2 centavos a mais, se o preço abaixasse TODOS sairiam ganhando.

Mesmo que você ganhe $10 mil por mês,e você possa pagar $1500 numa bolsa feita a preço de custo de $10, NÃO COMPRE, pelo simples fato que não concorda.
E isso vale pras pequenas coisas também. Pagar 20 reais num cinema é uma sacanagem. 5 reais num saco de salgadinho que vem um monte de ar pra te enganar, é sacanagem. E cada vez que você dá de ombros e compra mesmo assim, você está falando “Muito bem, continuem assim.”

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02/19/2012 at 12:40 pm Comments (2)

O mito do crescimento econômico

Antes de começar esse post, gostaria que assistissem a um pequeno vídeo. É pequeno mesmo, tem pouco mais de um minuto – mas nesse pouco tempo, possui conteúdo para muita reflexão e transformação.

Pois bem, o tal do crescimento econômico de que falam todos os dias nos telejornais, e pela maneira como falam só poderia ser uma coisa positiva – tenho uma novidade, não é bem assim. E vou explicar por quê.

A pergunta feita no vídeo, você consegue respondê-la? Por que será que tudo que existe, absolutamente tudo no universo, tem o crescimento limitado, para posterior estagnação e decadência (ou desaparecimento súbito), enquanto a tal da economia precisa crescer ad infinitum? Por que será que ninguém questiona isso? Bom, acho que podemos atribuir essa falta de questionamento à nossa péssima educação, que em nenhum momento nos ensina como as coisas realmente funcionam e ao poder estupidificante  da mídia de massa – afinal, se o William Bonner está lá dando a notícia que o PIB cresceu tantos porcento com um sorriso no rosto, mas no mês seguinte fala que o crescimento está abaixo do esperado com uma expressão séria, quem poderia pensar diferente?

“Mas peralá, o crescimento econômico é sim uma coisa boa. Se o PIB cresce, significa que as indústrias estão produzindo mais, e que essa produção está sendo consumida pela população, o que significa por sua vez, que o poder de compra aumentou e o dinheiro está circulando.”

Acho que nesse ponto precisamos dar um passo atrás para entender melhor o que é esse crescimento e por que ele é necessário; por que é que quando a economia para de crescer, ou pior, começa a desacelerar e encolher, entramos em crise e o mundo fica em pânico. Isso se dá devido ao nosso querido sistema econômico vigente, chamado capitalismo de livre mercado. O capitalismo não é um sistema em equilíbrio. Para que o capitalismo sobreviva, a quantidade de dinheiro em circulação precisa crescer sem parar. A produção precisa crescer sem parar. O consumo precisa crescer sem parar. O consumo e a produção nunca se estabilizam, estão em constante crescimento exponencial. Estão sempre inventando novos produtos, descartando os “velhos”, inaugurando novas fábricas, ampliando, expandindo. Aonde isso vai parar? Lembra do Hamster?

Mesmo que o crescimento econômico fosse usado da melhor maneira possível por nossos governantes, ou seja, que o aumento no fluxo de capital fosse direcionado a investimentos em educação, segurança e saúde – algo que não poderia estar mais longe da realidade – mesmo assim, precisamos entender que esse crescimento não nos beneficia.

É bastante simples, aliás. Vivemos em um planeta com recursos finitos. Estamos em meio a uma crise energética, pois nossas necessidades aumentam exponencialmente ao passo que nossa tecnologia em extrair os recursos de que dispomos, mal consegue acompanhar. O petróleo, um dia, vai acabar. Não temos infinitos rios para fazer infinitas hidrelétricas.

Para que o capitalismo consiga que o consumo nunca pare, são necessários estímulos a esse consumo-eternamente-acelerado. São necessários novos produtos, usando recursos finitos e cada vez mais escassos. Não se sustenta um sistema que depende de uma produção e consumo em constante crescimento, baseado em recursos finitos e não renováveis. Mas os economistas parecem sempre dar um jeito de “esquecer” que a economia depende do planeta para funcionar; precisa de petróleo, de gás, de comida, água, ferro, madeira, carvão, etc. Nada dessas coisas entram nos cálculos de crescimento que eles adoram divulgar toda a noite na TV.

Quando o PIB cresce, significa que o capitalismo deu mais um suspiro, ganhou sobrevida. Significa que quem tem muito dinheiro, agora tem mais. Significa que o consumismo está a pleno vapor, com pessoas correndo às lojas parar comprar qualquer bosta que inventem com dinheiro que não tem. Dificilmente significará aumento na qualidade de vida das pessoas, mais saúde e educação.  Cada vez que a economia acelera, significa que manobras no sistema financeiro que ninguém entende foram suficientes pra manter o fino equilíbrio das coisas, para parecer que “está tudo bem” já que a economia vai bem.

Será mesmo que a economia pode crescer sem parar? Pare um pouco e reflita. Já não é hora de pensarmos em uma alternativa a um sistema que dependa do crescimento eterno (e impossível)? Lembre-se do Hamster.

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02/15/2012 at 11:13 am Comments (6)

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