Reflexão sobre a origem da moral
Se existe um terreno espinhoso para debater e refletir, esse é o da questão da moralidade humana. As origens e a estrutura da moral já foram matéria de estudo por todos os grandes paladinos da filosofia e da moralidade na história, de Sócrates a Hume, de Buda a Jesus Cristo e Ghandi. De onde vem a moral? Como ela é formada? Como ela é distorcida e transformada no caos de valores que vemos no mundo? Para onde ela vai?
Tais perguntas aparecem frequentemente na vida de todos nós, especialmente quando nos deparamos com algo a que consideramos extremamente imoral, ou seja, que fere profundamente a ética de uma determinada época e cultura. Ao nos depararmos com crimes bárbaros, ficamos sempre impressionados com nossa capacidade de sermos maus com nossos semelhantes – homo sapiens, nesse caso. Sempre vamos precisar de uma explicação para essa ausência do “bem” no mundo, e mais especificamente, naquela pessoa, que cometeu aquele crime.
Já é bastante difícil – para não dizer impossível – definir qual é a moral válida para qualquer época, lugar e cultura. A lei nos obriga a certos comportamentos e nos proibe de fazer um grande número de coisas, mas não quer dizer que a lei traduza a ética fielmente. Em muitos casos, a lei existe, mas ninguém a segue, ou ela já não representa mais os valores vigentes. Pegue o caso da homossexualidade, por exemplo, que ainda no século passado era considerada crime na Inglaterra. Pode-se dizer que a moral é um fenômeno social e dinâmico, em constante mudança. A lei escrita é incapaz de acompanhar o avanço e mudanças de valores em uma dada sociedade.
Apesar disso é possível observar que a moral caminha geralmente para melhor, o bem maior, apesar de muitos não conseguirem enxergar isso e outros até acreditarem ser o oposto. O conjunto de valores morais da humanidade em geral vem se aprimorando ao longo da história, o que fica bem evidenciado, por exemplo, ao sermos capazes de nos reunir e elaborar algo chamado A Declaração Universal dos Direitos Humanos. Durante séculos, divergimos no próprio fundamento da questão dos direitos humanos pois sequer éramos capazes de considerar todos os humanos como iguais. A moral de épocas passadas considerava outros povos raças inferiores, com serventia apenas para serem escravos – algo que hoje em dia é considerado absurdamente imoral na maior parte do mundo – mesmo que ainda haja milhões de pessoas fazendo trabalho escravo devido as pressões do capitalismo; a grande diferença é que hoje, é velado, pois já não é mais aceito e validado, nem mesmo nas leis. Grandes homens, considerados progressistas em suas épocas seriam considerados idiotas hoje em dia. Abraham Lincoln, um dos heróis do fim da escravidão nos EUA, escreveu diversas vezes que considerava a raça negra como inferior.
Ainda que se concorde que desde que o mundo é mundo os valores morais vem caminhando (mesmo que a passos curtos e por vezes, tortos) em direção a um “bem maior” ainda é possível ver diariamente exemplos de atrocidades, que já deveriam ser parte apenas da história, escritas como lei e aceitas em nome da tradição. Exemplos variam de obrigação de uma mulher estuprada se casar com o estuprador, mutilação genital infantil, apedrejamento como punição para adultério e pena de morte para homessexualismo. Não é muito difícil tentar traçar uma linha, mesmo que indireta, entre essas práticas e a fé religiosa, ou pelo menos às suas consequências diretas (como a inferiorização das mulheres, por exemplo).
Seria extremamente leviano e estúpido da minha parte, prosseguir com essa argumentação tentando provar que todo o mal do mundo vem da religião. Além de ser um insulto aos nomes citados no primeiro parágrafo. Me dêem algum crédito, não sou um idiota. Não é nada disso e vou explicar. Na verdade eu gostaria de propor uma reflexão quase inversa, partindo do pressuposto de que a grande maioria dos religiosos, defendem que a própria origem da moral humana é a religião – cada um na sua, claro. Um católico vai defender que a moral vem de Deus, um muçulmano de Alá, e um judeu, de Yahweh. Como essa moral chega a nós, reles mortais de carne e osso? Pelas escrituras, ora bolas. De onde mais?
Essa defesa da origem divina (ou sobrenatural) da moral é percebida facilmente, bastando ver o discurso padrão que as religiões tem em relação aos ateus. “Se você é ateu, como pode ser bom? Sem Deus, para que ser bom?”. Ou traduzindo melhor: “se você não tem medo do inferno, o que te impede de ser um completo filho da puta”? Vamos analisar bem o que significa a religião ser a origem da moral, para saber se faz sentido.
Poderíamos pegar milhares de exemplos das mais diversas escrituras religiosas, seus rituais e práticas para esta argumentação, mas isso facilmente renderia um livro e não um post em um blog. Para facilitar, direto na Biblia, que é o disparado o livro mais vendido da história e fonte de inspiração para bilhões. Será mesmo que os católicos tiram sua moral da Biblia? (Ou: será que os religiosos em geral tiram sua moral de suas escrituras?)
Existe uma frase muito boa do Isaac Asimov, propícia neste momento: “Lida propriamente, a Bíblia é a força mais potente para o ateísmo jamais concebida”. Pois é. A Biblia (versão oficial de King James) é um dos livros mais sangrentos e imorais já publicados. Os diversos evangelhos, que frequentemente se contradizem, contém histórias recheadas de comportamentos absolutamente inimagináveis nos dias de hoje. São encontradas em diversas passagens menções diretas (e não metafóricas) a: ódio contra outros povos (não judeus), ódio e desprezo a mulheres, ódio a homossexuais, estupro, genocídio, infanticídio, vingança, inveja, ganância, entre outras pérolas. “Ah, mas isso são textos do Velho Testamento e não os consideramos mais hoje em dia” dirá rapidamente um teólogo em defesa. O Novo Testamento, apesar de ser uma melhora significativa (Jesus foi, de fato, um grande inovador ético) ainda possui diversas passagens detestáveis para os padrões atuais. “Abandone tudo, sua casa, amigos, e sua família, e venha me seguir”. Que papo é esse? Se fosse hoje em dia, seria considerado uma seita louca, e o Jesus de nossos tempos levaria um tiro de sniper na testa, provavelmente ao vivo na CNN. Sem falar no conceito do pecado original, onde toda humanidade é culpada pelo erro de Adão ao comer a maçã da árvore do conhecimento. Já nascemos devendo e culpados por algo que não fizemos. Nice one.
O problema é: se a moral vem de Deus, que nos é passada através de escrituras, as quais foram escritas por homens, de diversas épocas, muitos deles que as vezes nem se conheceram, como podemos confiar nessas escrituras? Por acaso existe algum manual dizendo “essa é uma lenda de valor moral válido; essa e essa não”? Não, não existe tal manual nem nada parecido. Devemos considerar que Lot foi correto ao oferecer suas duas filhas para serem estupradas por toda a cidade de Sodoma, para proteger os anjos enviados por Deus, ou refletir e absorver como valores apenas os ensinamentos do Sermão da Montanha? Sem um manual explícito, sem um documento minimamente estruturado, como decidir? Não dá, né? O que nos resta, então? Termos as escrituras interpretadas para nós, por qualquer um que se ache apto para isso. E bom, não preciso explicar por que isso é evidentemente um problema seríssimo quando estamos falando de valores básicos, que são os alicerces de qualquer sociedade.
Existem tribos indígenas que não possuem deuses e nem ritos religiosos conforme os conhecemos. Podem ser considerados ateus para nossos padrões de religião. E não os vemos como loucos sanguinários sem nenhum direcionamento do que é certo e errado, cada um fazendo apenas o que é melhor para si. Eles possuem moral, cuidam uns dos outros, tem famílias, e nada disso veio de escritura alguma.
Um outro belo exemplo que vale citar é a história dos primeiros navegadores ao desembarcarem nas Ilhas Maurício, que, ao se depararem com os gentis dodos, não penseram que estavam fazendo nada de mal ao exterminar a todos na base do porrete. Simplesmente acharam que era o que se devia fazer. Nem sequer os comeram, pois diz-se que tinham gosto horrível. Imaginem algo assim ocorrendo nos dias de hoje. Ia ser capa de todos os jornais como um crime ambiental sem precedentes, carregado com conotações de crueldade e ignorância. Com certeza você não vai achar escrito em escritura alguma que se deve exterminar novas espécies ao encontrá-las pela primeira vez. Igualmente não vai encontrar que devemos fazer carinho e amá-las. É simplesmente algo que vamos aprendendo pelo caminho.
Podemos concluir então, que, definitivamente não, nossa moral (nem a boa, nem sua prima má) não vem da religião nem das escrituras. É claro que, para religiosos, especialmente os fundamentalistas, as escrituras possuem um enorme peso (quase esmagador) na formação da base moral, mas isso não se observa em toda a humanidade, que, como já falei, está constantemente mudando seus valores de certo e errado ao longo das eras e culturas – inclusive, mais lentamente, refletida na forma de leis. Ninguém precisa de religão para ser bom – nem mal, obviamente.
Portanto, de onde vem a nossa moral? Ainda não sabemos. Será uma vantagem evolutiva possuir empatia e colaborar? Estudar a evolução da moral na humanidade pode ser uma peça chave para melhor compreender por que temos tanta dificuldade em fazer com que essa evolução seja mais homogênia e eficaz. Talvez a resposta esteja em estudar nossos ancestrais macacos e demais espécies. Finalizo deixando o vídeo abaixo (infelizmente, por enquanto apenas com legendas em inglês), para que possam refletir.
04/20/2012 at 10:06 am Comments (4)

Nossa sociedade vive com um conceito que já goza da qualificação de “senso comum” de que a competição traz desenvolvimento e inovação. O desenvolvimento esperado é principalmente o tecnológico, que deveria vir associado a uma melhora geral na qualidade de vida da população. Mas evolução enquanto civilização? Sério? Vejamos.