Orgulhosamente Desajustado

Ensaios sobre a Corrupção

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corrupAh, a corrupção. Quando ouvimos esta palavra, imediatamente nos vem à cabeça a imagem de um político enfiando dinheiro na cueca. Mas é só isso mesmo?

Corrupção é QUALQUER atitude que cause a deterioração total ou parcial do do sistema, e quando pensamos nesses termos, começamos a enxergar que a mesma está em todo lugar.


Por que corrupção causa degeneração do sistema?

Como sociedade, temos um grupo de regras estabelecidas e aceitas por uma maioria.
Quem joga nas regras, pode ser mal recompensado, ou bem recompensado se jogar bem.
Não jogar nas regras é passível de punição.

O corrupto entra na história como um oportunista, o cara que conhece as regras, porém utiliza ferramentas não aprovadas socialmente pra conseguir a sua recompensa. Note que existe esforço e risco, só não é considerado válido pelas maiorias. Um cara que planeja um assalto teve um enorme trabalho, assim como um político que elabora um esquema.

A degradação do sistema se dá pelo fato dessas ações recompensarem de maneira desmedida em relação às recompensas dadas aos que jogam por dentro das regras.
Não é que o corrupto se esforça menos, porém a sua infração deprecia o mérito individual de TODOS ao seu redor. Tira o valor do esforço de cada um.

Determinamos uma certa forma de avaliação para quantificar o mérito de cara jogador, geralmente representado através de “Fichas” (tokens). Obter essas fichas por fora da avaliação desorganiza o jogo inteiro, como se o corrupto fosse um parasita de esforço.

Isso torna-se mais fácil ainda quando essas fichas são anônimas e transferíveis.
Imagine que aconteça um assalto bem na frente da sua loja. A seguir, o bandido entra e quer comprar alguma coisa. Você aceitaria esse dinheiro? Muitos não, por ser fácil enxergar aí a origem corrupta desses tokens.
Porém a aceitação muda quando os crimes acontecem longe dos olhos, como por exemplo quando recebemos uma pequena renda em nossa poupança, vinda das dívidas de famílias miseráveis sendo exploradas por golpes de empréstimos impagáveis. Lavamos as mãos nesses casos.

Quais são as regras do jogo?

Em nossa sociedade, o que consideramos mérito não é a bondade, o autruísmo ou as boas intenções. Por mais bonitos que sejam esses valores, estes não são funcionais num mundo repleto de escasses. Já dizia o ditado que uma mão trabalhando vale mais que vinte mãos rezando. E é isso que medimos. Valorizamos as pessoas que contribuem com a sociedade através do trabalho.

Todos que fornecem à sociedade algum tipo de produto ou serviço, recebem “fichas” que representam e quantificam a contribuição do indivíduo. Para isso serve o nosso velho conhecido, o dinheiro.

Mais difícil de notar, é que a partir do momento da definição das regras, tudo o que cai pra fora desse gargalo torna-se automaticamente corrupção.
Nessa hora, a teoria econômica ortodoxa tem muito a falar sobre, apesar de nem sempre definir com clareza os pontos.
É definido que para o bom funcionamento do sistema, as trocas de “fichas” devem acontecer voluntariamente por ambas as partes, o comprador e o vendedor do produto/serviço. Qualquer coisa fora disso ou é corrupção ou é manipulação.

A corrupção de fato:

Pra enxergamos a corrupção, vamos usar um exemplo simplificado, para depois expandir para um modelo mais complexo.
Nessa caso, o velho Banco Imobiliário cai como uma luva. Tem um conjunto de regras definidas as quais todos participantes concordam, e tem fichas que quando acumuladas, servem de indicador do desempenho de cada um. Ah sim, e não tem estado pra interferir também, estaremos operando num modelo teoricamente, de livre-mercado.

Corrupção “Negativa”: Considero essas as mais fáceis de enxergar. Esse tipo é gritado pela mídia 24 horas por dia.

O espertinho (O assaltante) – Quando ninguém está olhando, Pedrinho passa a mão na grana dos outros. Ele ganhar ou não, depende das oportunidades que aparecem dele roubar, porém uma coisa é certa: O perdedor absoluto nunca vai ser ele.

O dono da Bola (O banqueiro internacional) – Juquinha é o dono do Banco Imobiliário. Se ele perder, vai ficar putinho, levantar e ir embora com o jogo inteiro, impedindo todos de brincar. Toda vez que ele começa a perder, todo mundo empresta um pouquinho pra ele. Ao contrário de Pedrinho, Juquinha ganha SEMPRE. A mesma coisa acontece com os bancos internacionais, que ameaçam quebrar a economia toda vez que não recebem pacotes de ajuda bilionários.

O Bully (O ditador estadista) – Muito simples. Sidão veio jogar com a gente, e devido à sua grande estatura, todos sabem que depois do jogo ele arrebenta na porrada todos que ganharem dele. Depois das primeiras partidas, ele não precisa mais bater em ninguém, mas “coincidentemente”, ele sempre ganha. Exceto se você tiver um primo maior que ele. Vide Oriente Médio, e todos países que são amiguinhos dos EUA.

A corrupção “Positiva”: Essa é mais difícil de enxergar, e quando diz-se positiva, não é que seja boa. É apenas socialmente aprovada, ignorada, ou até mesmo acidental!

O influente - Rafael não joga muito bem, mas é um cara muito legal. Empresta os brinquedos pra todo mundo, não é regulado. Vira e mexe, dão uma colher de chá pra ele. Não é sempre que ele ganha, mas nunca é o grande perdedor.

O herdeiro - Dessa vez, o jogo aconteceu em familia. Papai estava debulhando todo mundo, porém tinha que ir dormir cedo pra trabalhar no dia seguinte. Entregou toda a grana pra Joãozinho, que apesar de jogar mal pra caramba, obviamente ganhou de todo mundo no lugar de seu pai, só teve de dar “golpe de misericórdia.”

O fofoqueiro - Talita sabe os podres de todo mundo. O pode ter certeza que se ela não ganhar, alguma coisa vai vazar sobre quem estiver no caminho.

O político - Rafael tem uma lábia do caramba. Um especialista em prometer e enrrolar, só que é muito difícil enxergar isso, porque o jogo sempre termina antes dele ter de pagar tudo o que deve. “Se o jogo não tivesse terminado, eu teria pago” diria ele.

A avassaladora - Karen é uma gatinha, todos babam por ela. Com cada pequena bajulação e/ou colher de chá que dão pra ela, seu patrimônio aumenta e eventualmente ela ganha. O engraçado é que ela nem precisa fazer nada em favor disso, simplesmente nasceu bonitinha.

Os monopolistas - Luíz e Robson são melhores amigos, como carne e unha. Sempre que entram na jogo juntos, é um dos dois que ganham. Usam diversos códigos que só os dois entendem, e planejam as jogadas por debaixo dos panos. É como uma pessoa só jogando com duas posições de jogador, fica fácil ganhar assim.

Notem que nenhuma das “armas” utilizadas por esses fortes candidatos a ganhar o jogo, independente de serem negativas ou positivas, os fazem de fato melhores jogadores, no quesito “habilidade” no próprio jogo. De fato, em alguns casos eles mal precisam saber jogar direito. São mais aptos a ganhar, mas não em função de suas habilidades no jogo. São maus jogadores!

Aos nossos colegas Anarcocapitalistas e Liberais de Plantão: Percebam também que toda forma de corrupção “positiva” isso não tem absolutamente nada a ver com estado, ou a utilização do mesmo. As vantagens acumuladas ali serão exorbitantes, injustas, causarão danos ao funcionamento da sociedade, e um detalhe: Discretamente dentro das regras. Não há o uso de violência física ou intimidação.

Agora, um pequeno exercício de pensamento: Imaginem uma familia e/ou grupo tornando-se especialista em formas discretas de corrupção “positiva”. Eventualmente, tornarão-se imbatíveis de tão poderosas, e poderão ditar as regras do jogo. O próprio fato do Liberalismo não fazer vista grossa à acumulação de poder privado, é o que faz surgir o estado dentro de uma sociedade teoricamente livre.

Existe ainda um último exemplo que deixei por último, que torna o nosso modelo socioeconômico extremamente BIZARRO:

O coração mole - Bruno apesar de gostar de jogar, simplesmente não possui a brutalidade que o jogo exige. Não consegue ficar indiferente à tristeza de seus colegas que estão quase perdendo, e acaba a ajudá-los. Sua natureza gentil não permite, e isso faz com que ele nunca ganhe.

Porém Bruno mal sabe o mal que está fazendo à sociedade. Seus atos gentis, sua empatia faz com que os indivíduos mais inaptos continuem no jogo, quando deveriam sair. Ao ajudar os outros, preserva maus jogadores, não deixando essa simplória forma de “seleção natural” agir. Ou seja, num sistema altamente competitivo, empatia torna-se uma forma de corrupção. Mesmo que você não faça questão de ganhar, o bom funcionamento das regras exige dos jogadores um grau mínimo de brutalidade.

Quem ganha o jogo?

Estranhamente, o sociopata. Aquele indivíduo que nunca sente nada por ninguém, não tem sensibilidade ou habilidade social nenhuma, seria o ganhador desse jogo. Não porque é um bom jogador, mas porque sua falta de tato o torna imune à muitas das formas de corrupção “positiva”. Nunca vai gostar da menina, e nunca vai cair na ladainha dos outros não porque resistiu a elas, mas porque sua biologia falha não permite entendê-las.

E por fim, imaginem os efeitos a longo prazo. Pensem em um mundo onde as pessoas mais gentis e de coração mole são punidas e extintas, enquanto os sobreviventes são os sociopatas.
Para os que defendem um mundo governado pelo “livre-mercado” e pelas “democracias de mercado”, provavelmente esse é um cenário de mundo ideal, de humanos desumanos.

Conclusão

Não podemos afirmar também que colocar um estado controlando tudo resolveria toda a situação. É tão nocivo quanto. O problema está no sistema monetário em sí, o qual exige competição infinita, independente da presença de estado ou não. E com competição brutal crescendo ao infinito, corrupção torna-se o modus operandi do jogo, onde famosas “trocas com as duas partes concordando” representam na verdade uma parcela muito pequena das operações.

A maior parte dos seres humanos toma decisões constantemente sob a influência de hormônios, de feromônios, são afetados por emoções, medo, impulso. São manipulados pelo ambiente e coagidos pelos sentimentos. Acreditar que ninguém é manipulável, suscetível a coerção e pensar que todas as trocas ocorrendo são com os dois lados concordando sim, é que é utopia.

“Um homem vai ao consultório, e diz:
– Doutor, meu irmão pensa que é uma galinha!
– Dê esse remédio, e em duas semanas ele estará curado. – Diz o doutor.
– Não, doutor, você não entende. Estamos precisando dos ovos.”

Você é corrupto, eu sou corrupto, somos acidentalmente corruptos pelo simples fato de sermos humanos.
Corrompemos quando nos importamos.

Corrupção é o próprio sistema, e se ele só funciona quando seus participantes não se comportam como seres humanos, então é o sistema errado a se utilizar.

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17 de May de 2013 at 16:46 Comments (0)

Direitos humanos e a tal inversão de valores

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Depois da recente espetacularização midiática do caso do traficante Matemático, as redes sociais novamente viraram palco para um “debate sadio” sobre um tema eternamente polêmico: os direitos humanos e sua defesa por políticos e instituições.

Ainda me choca (sinceramente, não sei por que) ver pessoas cultas (?) e educadas repetindo a máxima absurda do “bandido bom é bandido morto”. Mas o que mais vem sido questionado, como sempre, é a inversão de valores que supostamente existe na defesa dos direitos, e mais uma frase de efeito surge com bastante frequência – “direitos humanos para humanos direitos”.

Sugiro assistirem a um breve vídeo de 10min que explica a história dos Direitos Humanos e como eles representam um dos maiores avanços que tivemos como civilização.

Vale a pena também saber quais são esses direitos,  na Declaração Universal assinada por 49 países. Clique aqui para ler, não é grande.

Ao expressarem suas opiniões sugerindo algum tipo de desigualdade de tratamento, esquecem-se de que os “Direitos Humanos” foram criados especificamente para equalizar a garantir direitos fundamentais a todo ser humano, independente de raça, cor, credo, status social ou localização geográfica. “Aonde estão os direitos humanos para a mulher estuprada no ônibus?” dizem alguns para salientar a inversão de valores. Mesmo estando chocado como qualquer um com a brutalidade do crime, não podemos pegar um exemplo e tentar em cima dele traçar uma linha argumentativa, como estão fazendo comparando a morte do traficante com a prisão do “terrorista” em Boston. Uma coisa não tem nada a ver com outra e compartilhar imagens comparativas só mostra a quantidade de tempo e massa encefálica gasta pelas pessoas refletindo e analisando a questão.

Na grande maioria das vezes, quando clamamos por direitos humanos a quem sofreu o crime, em oposição (apelando para a “inversão de valores”) ao criminoso, imaginamos que o primeiro, por ser o lado vitimado é mais merecedor da defesa de seus direitos fundamentais. Isso só pode ter algum sentido se considerarmos totalmente furada toda e qualquer associação entre oportunidades, estratificação social e criminalidade. Abundam estudos que demonstram que quanto maior a estratificação social, maior a criminalidade – e não só de crimes “financeiros” ou contra o patrimônio, mas também crimes violentos. Isso não quer dizer que estão isentos de culpa sobre seus crimes aqueles que se encontram na base da pirâmide em situação de risco, às margens da sociedade. Pobreza não é desculpa para imoralidade.

Mas é nesse ponto que falha a lógica das pessoas ao tentar apelar e distorcer essa simples relação de causalidade, daí o uso descontrolado de contra-exemplos em qualquer debate “minha empregada nasceu na favela mas não é bandida”, “um amigo meu da faculdade nasceu na favela”, “na favela tem mais trabalhador que bandido”, etc. Os estudos mais recentes (procurem no Google por Estudo White Hall) apontam que não é a pobreza (baixo poder aquisitivo) em si a principal causadora da violência e aumento de atividades criminosas, mas sim a estratificação da sociedade, e às diferenças de “tratamento” para cada camada. Não é novidade pra ninguém que existe uma justiça para ricos e uma para pobres, uma saúde para ricos e outra para pobres e obviamente, uma segurança para ricos e outra para pobres. É essa divisão e mais ainda, a sensação dessa divisão, que gera a violência e os crimes. Dessa forma, uma pessoa que nasce nos estratos mais baixos da sociedade já inicia sua vida em situação de risco, não apenas por estar mais “perto” de criminosos ou por que vive em uma área onde o Estado não chega.

Os direitos humanos priorizam essas pessoas – as camadas mais baixas e as minorias – e não estão errados ao fazer isso, não há inversão de valores. Eles devem priorizam quem, então? A classe média? Os ricos? As maiorias? Que já tem saúde, segurança, educação e até justiça privadas?

Quando vemos na mídia um caso de crime bárbaro (espertamente explorado pela mídia) e a ação de instituições de direitos humanos para garantir justiça ao criminoso, ficamos revoltados pois de alguma forma isso fere nosso senso interno de justiça (ou seria vingança?). Queremos mesmo é que ele seja linchado em praça pública, ou no caso de um estupro, que tenha seu pau cortado fora e que seja currado na prisão até sangrar pelos olhos. Ao fazer isso estamos simplesmente pegando um exemplo e querendo cagar regra em cima dele. Pois a mesma instituição que defende direitos humanos para traficantes e assassinos, defende também para ladrões de galinha que muitas vezes são presos sem devido julgamento e apodrecem na cadeia enquanto filhinhos de papai que bêbados matam pessoas ao volante ficam livres contando com “furos” nas leis garantidos por seus caríssimos advogados. É contra esse tipo de absurdo que se batalha a defesa os direitos humanos, que só fazem sentido uma vez que são universais. E sim, universal inclui traficantes e estupradores. E também os “terroristas” que estão presos em Guantánamo.

Entendendo que são universais, que só fazem sentido se forem universais, a sua defesa deve sim ser priorizada àqueles a quem a sociedade classicamente não oferece direito algum: pobres e minorias. Infelizmente é essa priorização que nos dá a impressão de inversão de valores, quando uma pessoa é vítima de um crime violento e as organizações de direitos humanos correm em auxílio do criminoso. E a vítima, como fica? Quem deve garantir a segurança das pessoas é o Estado. Quem deve julgar o crime é a justiça. E quem deve garantir que esse julgamento seja, de fato, justo, sem distorções provenientes de cor, raça, credo, classe social e nível educacional, são os Direitos Humanos Universais. É simples assim.

Ou é assim, ou voltamos à época em que “culpados” por crimes eram julgados pelo humor de um rei ou senhor feudal, e a violência de sua punição variava de acordo com o clamor popular e seu desejo de, naquele dia específico, ver mais ou menos sangue.

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9 de May de 2013 at 9:17 Comments (0)

Eduque-se a comer melhor (antes que seja tarde)

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balanced-meal2Em primeiro lugar, por que que é provavelmente (eu arriscaria até um “certamente”) o aprendizado que mais lhe renderá benefícios até o fim da sua vida. Em segundo, por que é de graça. Em terceiro, por que ninguém mais vai fazer isso por você. Se seus pais falharam – ou seja, se a sociedade venceu a guerra ao moldar suas preferências alimentares – ninguém mais vai conseguir, a não ser que parta diretamente de você. Em quarto, e por último, por que, devido a difícil associação entre paladar e aprendizado, sobre a qual discorrerei em mais profundidade neste artigo, é melhor fazer agora, com tempo e recursos abundantes, do que mais tarde na vida, com tempo e recursos escassos, quando sua saúde deteriorar (repare que não usei “se”, por que não é uma questão de escolha, sua saúde vai deteriorar mais cedo ou mais tarde), e você ser obrigado a começar do zero, forçadamente.

Obesidade e má alimentação não são assuntos novos, mas uma coisa que é relativamente recente é esse boom (pelo menos por aqui) de programas de TV sobre o assunto. Claro que também não são exatamente novidade, mas em anos recentes, quando a obesidade se tornou realmente uma pandemia, e nossa comida está cada vez pior, com transgênicos, agrotóxicos, e gorduras trans da vida, parece que acharam realmente um nicho de mercado e a cada semana surge um programa novo – só de reality de emagrecimento eu já vi uns cinco. O mais famoso, que todo mundo deve ter visto, ou pelo menos ouvido falar, foi o do emagrecimento do jogador de futebol Ronaldo.

Esses programas são interessantes, educativos, e oferecem, na maioria das vezes informações úteis e de qualidade, mas são, em sua maioria, ineficazes. Pelo menos se considerarmos seus objetivos como “educar as pessoas a cuidarem melhor de suas saúdes e se alimentarem bem”. Por que se o objetivo for “ter audiência e ganhar dinheiro”, então a eficácia é comprovada. Os motivos para serem ineficazes são inúmeros, sendo um dos principais, o fato de representarem uma pulga (programa educativo na TV) na luta contra um gigante (mídia de massa, que tem, com sucesso, ao longo de décadas nos convencido que quantidades industriais de gordura, sal, açúcar e conservantes nos fazem felizes). Eu não vou falar sobre esse motivo principal, vou me concentrar na incapacidade que esses programas, e não só eles, qualquer outro projeto ou iniciativa, tem de fazer as pessoas mudarem seus hábitos alimentares.

Quem aqui nunca viu um Alternativa Saúde (do GNT) da vida com “dicas” pras pessoas perderem alguns quilinhos? Pegam pessoas sedentárias, com hábitos alimentares duvidosos e dão a dica de uma salada “super fácil de fazer” e “deliciosa”. Vamos combinar uma coisa? Dica de merda que nem essa, é equivalente a um estímulo a comer bacon. Ignoram um aspecto vital de uma mudança alimentar drástica como inserir salada no cardápio diário de uma pessoa: a ideia de que podemos nos educar a comer melhor, e não simplesmente “ter que comer coisas que não gostamos” pra sempre.

Mas peralá, Christian, desde quando paladar é um aprendizado? Paladar é um sentido, assim como o tato e a visão. Você não tem que aprender nada, e não pode ensinar sua língua a gostar ou não gostar de algo.

Eu gostaria então de usar esse espaço, para propor uma nova forma de enxergar a questão da mudança de hábitos alimentares. Encarar a coisa como um aprendizado. E como todo aprendizado, requer-se tempo e esforço, mas analogamente também, há feedback e recompensa. Pense num aprendizado qualquer para comparação: um novo instrumento, uma nova língua, dirigir um carro, etc. No início, as coisas poderão parecer bem difíceis, e é exatamente nessa etapa que a maioria das pessoas desiste (se isso é uma opção). Diferentes “coisas” que se aprende apresentam diferentes curvas de aprendizado. As diferenças na curva representam o equilíbrio entre o tempo e esforço dedicados e feedback e resultados obtidos. E a principal coisa que falta informar melhor ao público-alvo de qualquer programa de TV sobre saúde, é que, comer melhor é um processo lento, como o aprendizado de algo bastante complexo, e que o resultado não está apenas nos quilinhos a menos, mas também, na maneira como você percebe o que está comendo, inclusive durante o aprendizado (isso é importante!).

Não adianta mostrar na TV uma chef de cozinha fazendo uma saladinha rápida na esperança de que isso vá incentivar pessoas que sequer comem folhas e legumes passem a incluir a tal “saladinha” no seu dia-a-dia. Não vão fazer por um motivo simples: salada não é bife, alface não é bacon. Não tem como competir. Os incetivos da perda de peso, e dos benefícios evidentes para a qualidade de vida, parecem que já não são suficientes. É preciso mostrar que a boa alimentação não é um estorvo, um gosto ruim que somos obrigados a aturar. É um processo que possui outros feedbacks, especialmente feedbacks em loop, ou seja, resultados que apoiam o próprio processo de aprendizado.

Explicando melhor esse lance de feedback em loop, vou usar exemplo do aprendizado de instrumentos musicais. Se você toca violão, ou já tentou aprender, sabe que em algum momento vai chegar na maldita pestana que é uma posição da mão que exige um certo jeito e uma certa força aplicada bem difíceis de dominar. É bastante frustrante por que enquanto você vai tentando aprender, o som fica horrível, até o dia que você domina a técnica. E então, um feedback em loop ocorre, pois a partir desse momento, abre-se um mundo de novas e mais complexas músicas que você agora pode tocar e isso te incentiva a continuar aprendendo (daí o loop). Na gaita acontece algo similar. Você passa por diversos desafios enquanto aprende a tocar, mas nenhum é mais desafiador que o bend - a capacidade de alterar o fluxo de ar de forma a atingir semi-tons de um buraco na gaita, que em teoria só tem duas notas (uma soprada e uma aspirada). Vou te contar, é bem difícil, parece impossível até o dia que de repente você consegue, e partir daí seu aprendizado dá um salto; é como passar de uma fase muito difícil em video-game que você estava quase desistindo. Agora você vai até o final com todo o gás!

Agora tentem fazer uma analogia com alimentação, sei que não parece muito fácil, mas tentem. Comer salada, pra que não está acostumado, é horrível e não adianta fingir que é gostoso na televisão. Mas eu garanto uma coisa, existe feedback em loop no processo de reeducação alimentar. Falo por experiência própria. Eu também detestava salada. Hoje eu adoro? Não, também não é assim. Da mesma forma também não sou mestre do violão nem da gaita. Não precisa chegar no topo pra valer a pena. Mas eu posso falar sinceramente que gosto de salada, e mais importante, eu sinto falta. E sentir falta de salada, vamos combinar, é muito bom, por que salada faz bem porra! Sentir falta de Coca-Cola é mole, né?

A consciência corporal é um dos feedbacks em loop valiosos que você vai ganhar de brinde no processo de aprendizado – cada vez que você sair do controle e se entupir de porcaria, seu corpo vai te avisar de diversas formas, e você vai se sentir impelido de volta a uma boa alimentação, coisa que não ocorre com quem come merda todo dia (maioria das pessoas que eu conheço). Outro é que, apesar de que dificilmente seu paladar um dia vai mudar suficientemente para você gostar de abóbora e alface, a medida que você come mais e mais salada (forçadamente no início) você se coloca disposto a experimentar outras coisas e pode até encontrar algumas que você realmente gosta, e isso não tem preço. Acho que se tivesse um pouco mais de “honestidade” nesses programas de TV e iniciativas, mostrando que, sim, salada não tem gosto bom, e não é fácil se acostumar, mas que, ainda assim, o processo todo é recompensado (e reforçado) em outros aspectos além daqueles óbvios, talvez tivéssemos um êxito maior ao convencer as pessoas ter pratos mais coloridos.

E agora, em conclusão, voltamos ao primeiro parágrafo do artigo: pense na diferença que é você se educar tendo bastante tempo e recursos (restaurantes, possibilidade de coisas que você pode comer e lugares aonde você pode ir) em contraste a ter que fazer isso quando já for mais velho e seu médico lhe dar um ultimato “ou você muda sua alimentação, ou vai morrer em meses”. Pois é. Imagine uma vida inteira comendo só carboidratos, gorduras, carnes e batata frita e de repente se vendo obrigado a transformar metade do seu prato em salada e cortar o sal? E isso da noite pro dia. Feedbacks em loop? Esquece, vai ter que comer e pronto, igual a quando era criança. Se essas novas perspectivas, somadas aos já evidentes benefícios da boa alimentação não são suficientes para fazer alguém repensar seus hábitos, não sei mais o que pode ser.

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7 de March de 2013 at 15:06 Comment (1)

Todos contra “O Sistema”

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prod_esc1Com o recente “boom” do ativismo incentivado pelas redes sociais, é cada vez mais comum ver as pessoas expressando suas críticas ao governo, violência, intolerância, capitalismo e outras mazelas da nossa civilização. Não estou nem falando de quem fica o tempo todo falando mal da saúde pública, da corrupção e reclamando do preço da passagem de ônibus e do calor. Isso não é ativismo, é puro bitching.

Mesmo que o cyberativismo, ou “ativismo de sofá” seja visto por muitos como vazio e inútil, certamente ele ainda é muitas ordens de grandeza mais eficaz e transformador do que simplesmente reclamar. Uma das coisas que se pode perceber como diferença básica, é a presença, no discurso do ativista, de uma conexão do assunto (seja corrupção no governo ou sementes geneticamente modificadas) a algo maior, mesmo que seja uma teoria maluca da conspiração; parece que “entende” um pouco melhor como as coisas funcionam, e esse parece ser o tema da maioria das coisas que faz, fala e compartilha.

E é no ativismo que mais comumente vemos referências a termos como “o sistema”, “status quo”, ou na mais famosa acepção em inglês, “establishment”. Todos eles significam basicamente a mesma coisa, talvez com algumas pequenas diferenças, mas como o mais usado por aqui é “o sistema” é nele que vejo mais e mais pessoas o utilizando sem parecer saber muito bem do que estão falando. Ser ativista, é ser “contra o sistema”. Temos que “derrotar” o sistema, “derrubar” o sistema. Se a pessoa soubesse do que se trata um sistema, saberia que “O” sistema também é um sistema como qualquer outro, logo desejar sua derrubada não é das coisas mais inteligentes.

Todos nós somos apresentados ao conceito de sistema em algum momento de nossas vidas, mas poucos sabem que esse conceito na verdade é uma abstração para descrever conjuntos de partes interconectadas que produzem um resultado. E essa abstração pode se encaixar das mais diversas formas e a palavra sistema pode ser entendida de maneira bastante diferente pelas diversas disciplinas do conhecimento humano. Todo mundo fala em sistema nervoso ou sistema operacional (Windows, iOS, Linux), prestando pouca atenção ao papel da palavra sistema nessas coisas.

Qual é a acepção que parece ter essa palavra que os ativistas sociais usam, como se fosse “a fonte dos problemas”? Tudo de que reclamam e são contra é, de alguma forma, direta ou indiretamente, culpa do sistema. Que sistema é esse? Quem é ele? Ele pode ser uma forma de governo, a democracia, uma ditadura. Pode ser o capitalismo, sistema econômico predominante no mundo atual. Pode ser uma teoria conspiratória, como o plano que o Illuminati tem para dominar o planeta. De todas essa formas, há algo em comum na forma como alguns ativistas erram horrivelmente ao ser “contra o sistema”. Esquecem – ou preferem fingir que não sabem – que são partes integrantes e funcionais, desse sistema, qualquer que seja. Parece bastante bobo e óbvio, mas não é.

Ao se declararem contra o sistema estão simplesmente declarando que estão “fora” dele e que ser contra automaticamente lhes exime de qualquer responsabilidade sobre os resultados e produtos deste sistema. A abstração “sistema” pode ser entendida de diversas formas e em variados escopos e abrangências. Podemos entendê-lo apenas como nossa organização política e econômica ao nos declararmos simplesmente como indivíduos que trabalham para ganhar dinheiro, gastar por aí, pagar impostos e de vez em quando, fazer algumas decisões políticas. Ou podemos expandir para entender como “o sistema” o planeta inteiro, nos colocando como parte de um todo maior, em que nossa ações podem ter impacto em escala global, o que é especialmente verdadeiro na era da comunicação em tempo real. Mesmo assim, somos partes integrantes, e mais importantemente, indissociáveis, do tal “sistema” ao qual estamos declarando guerra em nosso ativismo.

Algo que parece bem óbvio, como “somos parte do problema” não é percebido no discurso quando se referem ao “sistema”. O teor é sempre separatista e raramente inclui um “mea culpa”. Eles lá, eu aqui. Eu não sou parte disso. Pelo simples fato de ter lido alguns livros, visto alguns filmes e ter formado alguns conceitos na mente, refletem, percebem conexões e abstrações e se colocam como “diferentes e separados” da massa que faz as engrenagens girarem e o mundo funcionar. Falham ao perceber que isso é uma ilusão. Não há tal separação. O “sistema” não precisa ser derrotado, derrubado ou substituído.

Pode parecer clichê usar aquela frase do Ghandi que todos conhecem, adoram partilhar, mas ninguém consegue botar em prática: Seja a mudança que você quer ver no mundo. Por que é bem isso. Não mude o mundo, o mundo não vai se adaptar a você. Para mudar o mundo (ops, o sistema), entenda, primeiramente que você é tão parte dele como ditadores genocidas ou políticos corruptos. Você não vai mudá-los, mas você pode mudar a si mesmo, e estimular transformações ao seu redor. A mudança esperada em todo “O Sistema”, se um dia ocorrer, será em direção a uma maior sinergia entre suas partes para que funcione melhor, sem desperdícios, desequilíbrios e erros. Algo que conseguimos facilmente desejar e verificar no Windows do nosso computador, mas falhamos quando aumentamos a abstração para toda a civilização planetária.

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22 de February de 2013 at 11:53 Comments (11)

Para além da Meritocracia

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Meritocracia (do latim meritu, mérito e cracia, poder) é um sistema de organização que considera o mérito a razão para se atingir determinada posição. Qual o benefício de se atingir posições mais altas? O acesso a recursos, serviços e em alguns casos, até o direito à vida.

Quando pensamos bem, é possível notar qualquer forma de distribuição de benefícios é essencialmente meritocrática. Um “Bully” que consegue tudo através do uso da força possui o mérito de ter mais músculos, e a “Gostosona” que faz todos pagarem tudo pra ela tem o mérito de possuir o padrão de beleza da época. Enfim, existe uma diversidade de qualidades pra se avaliar um indivíduo.

Mas e no Capitalismo?
Em teoria, seria a capacidade de produtividade de cada um. Na prática, é a capacidade de acumulação de capital.

Observemos o exemplo simplificado:
Imaginem que temos três fazendeiros compentindo por fatias de mercado em  uma ilha. (E para simplificar, vamos imaginar que o dinheiro em circulação é indestrutível e sem juros).

Mês-1
Fazendeiro A: Produção:4 Capital:4
Fazendeiro B: Produção:5 Capital:5
Fazendeiro C: Produção:6 Capital:6

Mês-2
Fazendeiro A: Produção:3 Capital:3
Fazendeiro B: Produção:5 Capital:5
Fazendeiro C: Produção:6 Capital:7

Mês-3
Fazendeiro A: Produção:3 Capital:2
Fazendeiro B: Produção:6 Capital:6
Fazendeiro C: Produção:7 Capital:7

O que aconteceu aqui?
Nesse momento, os Anarco-Capitalistas, Neoliberais entre outros tem a respostas na ponta da língua: É o exemplo clássico do “Gafanhoto e a Formiga”. O Fazendeiro “C” trabalhou mais que os outros enquanto o Fazendeiro “A” era o mais preguiçoso, produziu menos e portanto recebeu menos. O que estamos vendo é a Meritocracia em ação!

Será mesmo?

Capitalismo brutal, indiferente, intolerante e inflexível

É muito simplista supôr que a baixa produtividade de alguém se deve apenas à sua falta de força de vontade. Um sujeito preguiçoso obviamente produz menos que os outros e por isso deveria ser menos recompensado, mas existem dezenas de fatores afetando o mundo!

Observem:
• Se cair uma tempestade e destruir a plantação, o indivíduo vai ser tão punido financeiramente quanto se fosse alguém preguiçoso;
• Se ele tiver o azar de ficar doente ou se machucar naquele mês, também será punido como se fosse alguém preguiçoso;
• Se ele simplesmente nasceu uma pessoa mais burra, mais destraída ou mais ingênua, vai ser tão punido quanto uma pessoa preguiçosa e improdutiva.

Nesses casos, a pessoa não foi responsável por NENHUM desses fatores, porém estará tão condenada quanto uma pessoa que deixa de contribuir para a sociedade intencionalmente!

E o grande problema é que a coisa não para por aí:
• Se a pessoa deixar de trabalhar pra ajudar alguém, diminuirá a produtividade e será punida como o preguiçoso;
• Se ele for coração-mole e distribuir uma parte da produção de graça, será tão punido financeiramente quanto o preguiçoso;
• Se ele se solidarizar com o vizinho que teve mais azar naquela safra, não só vai ser penalizado com menos capital, estará colaborando com um concorrente que poderá criar mais dificuldades a longo prazo;
• E o pior: Se ele for sincero e honesto, e admitir que os produtos do vizinho estão mais saborosos naquela safra, também será punido.

Ou seja, autruísmo, honestidade, sinceridade, colaboração e empatia tornam-se qualidades negativas nesse sistema, passíveis de condená-lo a falência diante do peso da livre concorrência.

Mas o pior é visto aqui:
• Se o Fazendeiro C nunca se importar com ninguém, e não compartilhar com ninguém, será muito bem sucedido;
• Se o indivíduo nunca fizer nada sem botar um preço, será muito bem recompensado;
• Se o indivíduo for insensível às dificuldades alheias, poderá investir mais na própria produtividade e será ainda mais bem sucedido;
• Se ele esconder as próprias falhas, não explicar a procedência ou qualidade, e for desonesto em linhas gerais, será tão recompensado quanto alguém produtivo e honesto. (Desde que não for pego)

E com esse sistema de incentivo, a longo prazo estaremos criando indivíduos cujas qualidades mais desejáveis serão a apatia, o individualismo, a indiferença, a intolerância e a insinceridade.

O direito divino (A terra da minha fazenda é melhor porque mereci, fui abençoado)

Fica muito visível nesse ponto: Temos um sistema BRUTAL que não tolera nenhum erro, nenhum desvio, e nenhuma falha, seja ela intencional ou acidental. Nenhuma qualidade humana senão a capacidade de produção, é considerada. Erros não serão perdoados.

Mas em que mundo um sistema tão brutal e inflexível se tornaria a melhor solução?
E novamente os Capitalistas tem a resposta na ponta da língua e em côro dizem: “O nosso mundo. Basta olhar pra natureza, é a sobrevivência do mais apto em ação. Lá eles usam a força, aqui usamos a inteligência!”

Como entusiasta em biologia (e em teoria de jogos), posso afirmar que estão errados. Na natureza encontramos diversas situações onde temos “jogos de soma não-zero”, ou seja: Situações onde ambas as partes podem se beneficiar se cooperarem a longo prazo.
Já no Capitalismo, encontramos uma predominância de “jogos de soma zero”, ou seja, quando uma pessoa só ganha se a outra perder.

Porém quanto a necessidade eu não discordo. Se vivermos em um mundo onde a escassez é generalizada, onde se tem tão poucos recursos que é preciso arranjar uma forma de decidir quem vive e quem morre, um sistema meritocrático é necessário.
Não importa se foi por azar ou por preguiça, se a pessoa produziu pouco, ao final do dia vai faltar pra todo mundo e é preciso decidir quem vai ficar sem.

Ou seja, é um ótimo sistema para um mundo um mundo dominado pela escassez, primitivo e selvagem.

Mas e em um mundo abundante, onde há o suficiente para todos?
Tamanha brutalidade e inflexibilidade é necessária?

Em um mundo onde existe abundância para suprir as necessidades de cada indivíduo (não importando o quão diferente sejam), não é necessário decidir quem merece o quê. Não importa se a pessoa é preguiçosa,  azarada ou incapaz, não nos importamos se ela merece respirar. Não vai faltar ar pra você. Existem dezenas de fatores que comprometem a produtividade, e considerar tudo isso como se fosse incapacidade do indivíduo, evocando apenas a sobrevivência do mais produtivo, é muito próximo de advocar uma forma de eugenia.

Tentar avaliar o suposto “merecimento” de cada indivíduo em um mundo de abundância gera situações aberrantes, como uma pessoa roubar um celular de $100 e ser presa por 4 anos ao custo de $6000 por mês.

A abundância torna a meritocracia desnecessária, assim como não precisamos mais de rodinhas depois que aprendemos a nos equilibrarmos na bicicleta.

Mesmo que haja o suficiente pra todos, quem não trabalha não merece viver?
E se existir abundância mas não existir trabalho?

Em conclusão, assim como qualquer teoria, não existe uma proposta universalmente melhor do que outra. A eficiência de cada uma depende da realidade ao seu redor.

E sistemas meritocráticos só são a melhor forma de gestão quando estamos diante de escassez. Poderíamos até afirmar que a escassez é uma condição “sine qua non” pra mecanismos de troca.

Podemos adotar ideologias muito mais elevadas, que valorizam o autruísmo e a cooperação.
E para alguém demonstrar que a meritocracia é uma necessidade, das duas, uma:
Ou vai ter de demonstrar que a escassez generalizada é uma realidade em pleno século 21, ou vai ter de demonstrar que as necessidades humanas são infinitas.

O que convenhamos, vai ser bem complicado em um mundo onde produzimos 12 vezes mais comida do que a humanidade precisa, possuímos mais casas vazias do que pessoas sem-teto, e fabricamos mais celulares do que a quantidade de pessoas. E onde cada vez mais pessoas estão abrindo mão de conforto e status em nome da preservação, e onde a ciência demonstra que ganância e egoísmo são constructos sociais e não parte da natureza humana.

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29 de January de 2013 at 10:51 Comments (7)

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