Orgulhosamente Desajustado

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O (meu) medo da morte

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O medo é a característica mental primitiva (se é que podemos pegar emprestado o conceito de mente para espécies diferentes da nossa) que mais inexoravelmente nos une a todas as outras formas de vida pensantes. Mas não vale ser puro instinto, pois aí não é medo, é outra coisa ainda mais primitiva. Medo é aquilo que te protege do perigo te impedindo de fazer uma coisa perigosa e potencialmente fatal, uma segunda (e talvez última) vez. O medo tem essa função, de proteger do perigo conhecido.

É fácil ver o medo em animais próximos a nós na escala evolutiva. Você levanta a mão para um cachorro, ele baixa as orelhas e fecha os olhos aguardando a porrada. Isso é a mais pura expressão do medo. Ele sabe o que lhe aguarda e não vai ser bom. Medo requer um sistema nervoso avançado o suficiente para registrar o perigo diretamente experimentado ou não: memorizar uma experiência ruim (sua ou apenas observada), associá-la a risco juntamente com os sinais indicadores, para que possam ser reconhecidos no futuro. Um barulho em um arbusto na savana africana produziu medo em um ser humano primitivo há 200 mil anos atrás e continua produzindo o mesmo medo, igualzinho(?), até hoje. A resposta racional pode diferir dependendo de se você está sozinho, está armado, é noite ou dia, etc. Mas a sensação de medo que se manifesta nas estruturas mais básicas do seu cérebro, em uma fração de segundo, por causa do barulho, podemos arriscar a dizer que é praticamente idêntica.

Além disso, nós, humanos, homo sapiens sapiens, ao sermos agraciados com espetaculares cérebros, e a mais espetaculares ainda realizações desses cérebros – a auto-consciência e o raciocínio – ganhamos de brinde o medo da morte, a certeza da nossa finitude e fim das nossas experiências. E esse medo, diferentemente do medo do barulho no arbusto, muda muito de pessoa pra pessoa, de tempo pra tempo, de lugar pra lugar, pois não é algo que está presente nas estruturas primitivas do nosso cérebro, comuns a répteis, peixes e aves – mas sim  na estrutura que nos separa de todos os demais seres dotados de sistema nervoso, o córtex cerebral, o lugar onde toda a bagunça começa. Onde processamos informações, emoções, associações, alegria, sofrimento, e naturalmente, o medo de coisas abstratas e inexplicáveis.

Que medo pode ser simultaneamente tão abstrato e tão concreto como o da morte? Abstrato pois é algo que ninguém sabe como é, ninguém morreu e voltou para nos contar como é. Concreto pois está a nosso redor diariamente, em pessoas desconhecidas e em pessoas próximas. A morte se apresenta de diversas formas e em poucas tão gráficas como no decaimento do corpo humano e em catástrofes. Mas é tão abstrato que passamos boa parte da nossa vida ignorando a morte com um risco real, coisa que outros animais fazem instintivamente desde que nascem. Crianças humanas não temem a morte. Elas não tem como entender algo que não tem como ser explicado, é simples assim. Dessa forma, não temem. Mas a medida que percebem que a morte é responsável por levar embora, de uma vez por todas, pessoas que ela ama, um dia entram em contato com o pior (ou melhor?) aspecto da morte: a inexorabilidade. E a partir desse momento a morte passa a ser algo indesejado e temido. É necessário adicionar um pouco de razão e sensatez ao caldo da auto-consciência para que a própria finitude faça sentido e provoque sensações de medo.

Nem todos vão sentir medo da morte da mesma forma. Fanáticos e lunáticos podem desdenhá-la e até desejá-la; certas crenças podem ser tão transformadoras a ponto de converter o conceito morte em algo liberador e prazeroso. Mas de uma forma geral, o medo da morte é ubíquo. Exceções e bizarrices a parte, ninguém quer morrer, e ninguém é indiferente à própria morte. A religião e demais formas de pensar podem oferecer atenuantes ao propor a existência de algo após a morte – o fim não seria bem um fim. Não pretendo entrar em polêmica aqui sobre isso, mas não é engraçado o fato de mesmo as pessoas acreditando nisso, tentarem evitar a morte a qualquer preço e sofrerem tanto com a morte de pessoas queridas? O fato é que o medo está lá, mas está fantasiado de conforto.

Não estaríamos onde estamos hoje se não fosse por esse medo. Quase tudo que alcançamos em termos de tecnologia e medicina é no sentido de melhorar nossas vidas e ao mesmo tempo adiar ao máximo possível a morte, para que essas melhorias possam ser aproveitadas por cada vez mais tempo e mais pessoas. De que vale uma vida melhor, se esta não pode ser vivida?

Eu não temo a morte. Não o evento em si – seu aspecto concreto? – não o momento em que passarei de vivo pra morto. Mesmo considerando o fato de que a forma como vou morrer é um completo mistério para mim, isso não me causa ansiedade. Morrer, seja da forma que for, deve ser, para mim, exatamente como cair no sono, algo que você não registra, pois seu centro de processamento de consciência entra em modo shutdown. A diferença é que você nunca vai acordar deste derradeiro sono sem sonhos e sequer saber que morreu. O real sofrimento de perda e finitude, vai ser dos outros, que ficaram vivos. Imaginem que amanhã uma supernova lança sobre a nossa galáxia uma gigantesca explosão de raios gama que aniquilasse a Terra em questão de segundos? Haveria espaço para algum tipo de sofrimento a respeito da morte simultânea de quase 7 bilhões de pessoas? Sequer saberíamos que um dia vivemos.

Mas ao mesmo tempo eu temo a morte, pelo que ela traz. O aspecto abstrato? Eu temo sua chegada pois ela significa o fim da minha experiência nesse Universo. Não acordarei mais uma manhã ao lado da minha esposa. Penso nas pessoas que deixarei de conhecer, nas novas músicas que deixarei de ouvir, novas comidas, filmes, lugares que deixarei de ir, coisas que deixarei de aprender. Isso me dá medo – o fim da experiência. Poderiam dizer que sou viciado em experiências. A vida é apenas o espaço-tempo onde elas ocorrem. Apesar de racionalmente o conceito que nada dura para sempre ser perfeitamente lógico, quando esse algo é a sua própria perspectiva, e a lógica se inverte, a razão deixa de ser razoável. Voltarei a não-existência prévia a meu nascimento. Não era ruim, mas também não era bom. Não era nada. Nada dá medo. Por mais estranho que isso possa parecer.

E você? Como é seu medo da morte?

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15 de January de 2013 at 16:03
2 comments »
  • 17 de January de 2013 at 10:42Bruno Arruda

    Quando eu era menor, meu maior medo era ficar sozinho. Tinha medo dos “mais próximos” partirem, e ficar sozinho.
    Com o passar dos anos, descobri amigos e amei mais pessoas. Descobri que as pessoas vem, e vão, e isso não é necessariamente uma coisa ruim.
    Assim como você, e acho que a grande maioria das pessoas, gosto das experiências, do “Conhecer”.
    Já passei por algumas situações, e hoje posso dizer, que não tenho medo de ficar só, mas sim, tenho medo de deixar as pessoas que gosto.
    Não tenho mais medo da morte, tenho medo da forma que ela virá, acredito que a maioria não gosta de sofrer, e sim, isso tenho medo.
    Para finalizar, gostaria de parafrasear Chico Anísio, ele falou:
    - “Não tenho medo da morte, tenho pena de morrer”
    Então é isso.

  • 17 de January de 2013 at 11:48rodrigo

    Fico realmente feliz quando encontro alguém com quem pode se refletir a respeito da morte.
    Apesar de sua constante presença diária, do fim dessa máquina maravilha poder estar à espera na virada da esquina, da possibilidade de a partir de amanhã uma pessoa querida nunca mais poder interagir com você, aparentemente é um tabú discutí-la e agimos como se fosse algo a ser evitado ao máximo.

    Se você sequer relembra da possibilidade da morte, geralmente é seguido de um “ai, credo! Vamos parar com esses papos”, ou um “Como você está depressivo hoje, que mórbido!”

    A morte nos cerca na mesma proporção que a vida, e por isso acho muito ilógico adiarmos esse tópico da maneira como fazemos. Deveria ser estudado com a mesma seriedade de outros campos.

    Em relação à minha experiência particular com a morte, a ironia é que meu medo era infindávelmente maior quando eu era teísta. Quando estava cercado de “certezas” e não concordava com elas, era um incômodo constante. Hoje, entender e aceitar a idéia de morte racionalmente de fato me conforta, e consigo lidar bem melhor com isso.

    A idéia de estar morto não me incomoda. Como disse uma vez o Sam Harris, a experiência de não se estar vivo antes de nascermos não era incômoda, e a idéia de voltar a não estar vivo, segue a mesma linha. Toda a noite, nos entregamos à sensação da total ausência de experiência nas primeiras horas de sono, e isso não nos incomoda. Suas alegrias vão embora, mas suas preocupações também.

    Porém, exatamente como o Christian o meu medo é de parar de experimentar a vida, incrementado pelo meu apego particular em aprender. Chegamos até aqui e aprendemos tanto, acumulamos com tanto cuidado essa rede de conexões, e mesmo que a consciência seja um contiinum, a idéia de “resetarmos” essa rede neural tão complexa e bem trabalhada não me agrada muito, mas admito que talvez isso seja simples apego.

    Ao mesmo tempo, saber que nossos materiais se reciclam indefinidamente me dá certo conforto que de certa maneira, tudo “isso aqui” poderá ser vida, e portanto experiências novamente. A preocupação porém, é na possibilidade deste material ser utilizado novamente pra uma experiência de vida miserável.

    Pense assim: A consciência existe, afinal estamos aqui presenciando experiências se desenrrolarem. A cada instante, “herdamos” essa máquina, sendo as lembranças o log de como essa máquina chegou até ali. Um dia, essa vai parar e os materiais dela serão usados pra fazer outras, porém se o mundo continuar uma merda vai ser frustante tudo que um dia você já foi, ser usado pra construir uma criança na Àfrica. Ou um cachorro abandonado. Ou um banqueiro.

    Claro que eles noções completamente diferentes, e até apreciação a vida de uma maneira diferente, porém o único controle que você tem a respeito das próximas experiências de vida que estão por vir, é o que você faz com o mundo AGORA…

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