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Música Eletrônica, DJs e a Era Digital – pt.4

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Para finalizar essa minha série de artigos (agora acaba, prometo! só um pouco mais de paciência), agora falarei exclusivamente do papel do DJ de música eletrônica e como o mesmo foi transformado.

Como já mencionado anteriormente, a tecnologia teve um profundo impacto na atividade do DJ, facilitando em muito seu trabalho, e também possibilitando coisas novas que acrescentaram em muito às performances que vemos hoje. E para nenhum tipo de DJ, esse impacto foi tão grande como para o DJ de EDM – pelo simples fato de que com os softwares existentes atualmente, o trabalho de acerto de batidas e BPM foi quase totalmente automatizado, sendo desnecessário que o DJ sabia como isso é feito “manualmente”.

Esse assunto, o famoso SYNC presente em diversos softwares específicos para performances de EDM, já foi tópico de infinitas polêmicas na atividade do DJ e pretendo falar um pouquinho sobre isso, para no fim, incluir minhas próprias reflexões a respeito.

Explicando um pouco para termos leigos, digamos que você que está aí lendo meu artigo decida se tornar um DJ de EDM hoje. Se amarra num techno ou em trance e quer muito tocar. O que você faz? Dá uma pesquisada, pergunta para alguns amigos que já tocam para saber do que precisa saber e que equipamentos adquirir. Há 10 anos atrás, essa pergunta seria respondida simplesmente com CDJs e mixer. Você teria que aprender a ajustar BPMs e encaixar batidas. Não é algo tão simples de fazer; para algumas pessoas pode ser tão difícil no começo que ela logo desiste, assim como tocar violão desestimula nas primeiras tentativas. Com um pouco de treino, uma hora você pega o jeito da coisa, e depois de bastante experiência vai ser quase automático – assim como acontece com qualquer coisa que você pratica com dedicação. Bom, de qualquer forma, você precisaria de acesso a CDJs e mixer, que não são equipamentos baratos (nem pequenos, diga-se de passagem) e você não vai sair comprando sem ter total certeza de que quer virar um DJ.

Hoje em dia, a coisa é diferente. Existem muitas formas de se tornar um DJ. Com as ferramentas disponíveis, qualquer um, com seu notebook e um baixo investimento inicial em equipamentos pode começar a aprender a tocar sozinho, em casa, como eu fiz. Claro que tocar não é apenas encaixar batidas e acertar BPM, é muito muito mais do que isso. Mesmo tendo essa parte do “serviço” entregue de bandeja, há muito o que aprender. Eu comecei em 2008 e estou aprendendo até hoje.

Uma breve listinha de algo que um DJ de EDM tem que fazer:

  • acertar batidas e BPM (softwares hoje em dia fazem 95% desse trabalho)
  • manter um repertório atualizado com músicas que refletem o som que você gosta e quer mostrar a seu público
  • saber montar um set, do início ao fim, tendo coerência na sequência das música e não simplesmente tocar qualquer uma depois de qualquer outra (isso você pode fazer se for um DJ da moda, tipo ex-BBB, e só tocar hits, aí não faz a menor diferença a ordem que você toca, todas as músicas estarão “certas”)
  • aprimorar sempre sua técnica de mixagem para refletir o que você deseja com seu set
  • estar atendo a novas possibilidades e como encaixá-las em seus sets: loops, efeitos, múltiplos decks, etc

O problema todo da polêmica em torno do SYNC é que diferentes pessoas dão diferentes pesos para cada uma das atividades acima. Até diferentes tipo de DJs de EDM possuem necessidades em graus diferentes de cada uma. Imaginem um DJ ex-BBB, que não entende porcaria nenhuma de música eletrônica e que só vai aprender pra tocar em umas festas e fazer uma grana. Ele pode até perder alguns dias aprendendo a encaixar batidas (ou pode pular essa etapa usando um notebook), mas claramente ele não terá a curva de aprendizado de um DJ que começou a tocar por que gosta muito de um tipo de som e já entendia dele bastante antes de começar a tocar. O trabalho dele de repertório e construção de sets vai ser praticamente nulo, afinal não dá trabalho algum obter os hits – o que dá trabalho é vasculhar o infinito universo de lançamentos na música eletrônica para achar o “seu som”. O tipo de festa que ele toca atrai o público mais alienado possível, que só conhece hits, e se o DJ sequer estiver tocando de verdade (ou seja, se tiver ali um CD com um set gravado rolando) ninguém vai notar.

Entre os DJs de ponta no cenário mundial, a coisa está dividida. Muitos ainda preferem tocar no CDJ, alguns (raríssimos) usam vinil, mas cresce a cada dia a quantidade dos que estão “migrando” para serem DJs-digitais. Tanto os DJs mainstream como os underground, em ambos a digitalização já cravou suas patas há bastante tempo. Entre os maiores DJs do mundo, já há aqueles que não encostam em um CD há muito tempo e não olham para trás, alguns até são garotos-propaganda de softwares. E para esses, com certeza, acertar batidas e ajustar BPM era como respirar e andar para o resto de nós mortais, ou seja, a decisão deles dificilmente pesou por causa disso. Foram outras coisas, como a possibilidade de acessar sua biblioteca de músicas muito mais facilmente, adicionar e misturar efeitos, criar loops com enorme facilidade, tocar vários decks ao mesmo tempo (alguns usam quatro em vez dos usuais dois), e por que não, ter mais tempo livre em suas mãos para curtir o set junto com seu público.

Enfim, as vantagens de ser um DJ-digital são inúmeras e inegáveis. Em uma mochila você carrega tudo que precisa para tocar e terá a sua disposição infinitamente mais possibilidades que um DJ que toca com CDJs. Mas é perfeitamente compreensível, por outro lado, aqueles que preferem tocar no CDJ, por “sentirem” mais a música ou simplesmente por que gostam mesmo de ajustar batidas. Eu cheguei a aprender mal e porcamente mas nunca consegui o suficiente pra tocar um set inteiro com segurança.

A coisa fica feia quando os dois tipos de DJ (os que usam e os que não usam SYNC) entram em embates e polêmicas sobre quem é mais ou menos DJ, e se usar SYNC é uma forma de “trapacear”. Cada um enxerga a coisa como quer e a discussão nunca vai ter fim, parece discussão de futebol. Isso não leva ninguém a nada. O preconceito já foi muito maior, hoje é bem mais aceito.

O que eu gostaria de salientar é para o fato de que a digitalização é um caminho sem volta. Aconteceu também com câmeras fotográficas e outras coisas das quais nem imaginamos. Imaginem no início, quando as primeiras câmeras surgiram, com baixa qualidade, eram os patinhos feios da fotografia. Mas elas trouxeram algo incrível, que foi a popularização (ou banalização, por outra perspectiva). Podemos claramente ver zoações a esse respeito por que pessoas tiram fotos horríveis de suas vidas e o mundo hoje está lotado de lixo fotográfico. Mas tirando isso de lado, popularizar é dar acesso, é permitir novas possibilidades. Se alguém gosta de tirar mil fotos do seu gato, por que não? Se um pai quer tirar mil fotos do seu bebê e colocar na internet, o que lhe impede? Antes havia um impedimento técnico, agora não há mais. E mais, a fotografia digital não é mais apenas um aspecto do mercado onde a tecnologia populariza e democratiza uma forma de arte (fotografia) mas ela também já ultrapassou a sua forma vintage, e hoje é quase impossível ver um fotógrafo profissional usando uma câmera que não seja digital. Claro que há, mas estão escondidos em seus estúdios e a coisa ficou muito mais restrita à arte e a formas de fotografia que a digital não é capaz de produzir.

As funções “automáticas” das digitais populares permitem que pessoas com nenhum conhecimento tirem fotos até muitos boas, mesmo que sem querer. Lembram como era antigamente, com filmes, a quantidade de fotos horríveis, fora de foco ou “queimadas” em cada rolo? A decepção de gastar tanto dinheiro pra nada? Isso acabou e não volta nunca mais. Para quem curte fotografia e entende minimamente do assunto, o “auto” das câmeras é como uma afronta. Algo similar acontece com a atividade do DJ. Uma parte (vista como fundamental para alguns) foi automatizada e isso parece “ferir” e ofender aqueles que ainda fazem isso “na mão”, o que é uma bobagem na minha opinião. É negar o progresso. Quer tocar com CDJ? Fique a vontade. Eu gostaria de saber tocar no CDJ também, mas agora é tarde, já estou totalmente inserido na cultura de DJ-digital e muitos dos meus amigos DJs tem migrado também e estão perfeitamente felizes.

Eu vejo a coisa da seguinte forma: a medida que mais e mais pessoas forem migrando para essa nova forma de tocar, e o CDJ for caindo em desuso (o que acho que ainda vai demorar bastante, visto que os novos lançamentos oferecem funções incríveis sem recorrer a um computador), todo o “bolo” da atividade de DJ tende a aprimorar. Pode parecer que acontecerá como a fotografia digital, e acho que será similar mesmo, por isso fiz a analogia. Muita gente sem nenhum conhecimento vai começar a tocar por que agora é mais fácil, existirá muito lixo por aí para separarmos, mas ao mesmo tempo, aqueles que são realmente DJs de qualidade e se dedicam, criarão novas possibilidades nunca antes imaginadas por tecnologias anteriores. Como aconteceu com a fotografia, haverá um momento em que a maioria os top DJs estarão de alguma forma inseridos na cultura dos DJs digitais, explorando novas funções e atraindo os que ficaram para trás no CDJ. Não é uma questão de melhor e pior, é uma questão de ferramenta de trabalho. Se perguntarem aos fotógrafos hoje que usam digitais, dificilmente vão te falar que migraram por que a foto fica melhor, por que não fica. Assim como a música não soa melhor quando sai de um CDJ, a música é a mesma. A experiência para o público é bastante similar também. A diferença está na facilidade com que você faz seu trabalho e as possibilidades que a ferramenta que você usa lhe permite.

Confesso que durante um bom tempo eu também não vi com bons olhos os efeitos da popularização de certas tecnologias. O mais gritante que todos podemos ver é a da fotografia, pois ela está por toda parte, nas redes sociais, em nossos emails, e na quantidade absurda de fotos que as pessoas tiram nas ruas. Para a maior parte do público leigo, os efeitos da tecnologia na atividade do DJ não vão ser sentidos da mesma forma por que isso já vem acontecendo há um bom tempo e ninguém sequer sabe, afinal o DJ fica ali escondido atrás da parafernalha e o público está se divertindo e dançando, não importa muito como ele está fazendo seu trabalho e com que ferramentas. No fim das contas, o público está errado? Eu diria que não. Afinal, sou público também na maior parte do tempo e se um DJ toca um set que me faz dançar sem parar numa viajem musical, não ligo se ele está tendo pouco ou muito trabalho. O principal – as músicas certas no momento certo, mixagens precisas, a construção do set, efeitos no momento e medida certas – ele fez bem feito, o resto é detalhe. Pena que “o detalhe” ainda vai gerar muita discussão e polêmica desnecessária ainda por um bom tempo.

zv7qrnb
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22 de January de 2013 at 10:21
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