Para além da Meritocracia
Meritocracia (do latim meritu, mérito e cracia, poder) é um sistema de organização que considera o mérito a razão para se atingir determinada posição. Qual o benefício de se atingir posições mais altas? O acesso a recursos, serviços e em alguns casos, até o direito à vida.
Quando pensamos bem, é possível notar qualquer forma de distribuição de benefícios é essencialmente meritocrática. Um “Bully” que consegue tudo através do uso da força possui o mérito de ter mais músculos, e a “Gostosona” que faz todos pagarem tudo pra ela tem o mérito de possuir o padrão de beleza da época. Enfim, existe uma diversidade de qualidades pra se avaliar um indivíduo.
Mas e no Capitalismo?
Em teoria, seria a capacidade de produtividade de cada um. Na prática, é a capacidade de acumulação de capital.
Observemos o exemplo simplificado:
Imaginem que temos três fazendeiros compentindo por fatias de mercado em uma ilha. (E para simplificar, vamos imaginar que o dinheiro em circulação é indestrutível e sem juros).
Mês-1
Fazendeiro A: Produção:4 Capital:4
Fazendeiro B: Produção:5 Capital:5
Fazendeiro C: Produção:6 Capital:6
Mês-2
Fazendeiro A: Produção:3 Capital:3
Fazendeiro B: Produção:5 Capital:5
Fazendeiro C: Produção:6 Capital:7
Mês-3
Fazendeiro A: Produção:3 Capital:2
Fazendeiro B: Produção:6 Capital:6
Fazendeiro C: Produção:7 Capital:7
O que aconteceu aqui?
Nesse momento, os Anarco-Capitalistas, Neoliberais entre outros tem a respostas na ponta da língua: É o exemplo clássico do “Gafanhoto e a Formiga”. O Fazendeiro “C” trabalhou mais que os outros enquanto o Fazendeiro “A” era o mais preguiçoso, produziu menos e portanto recebeu menos. O que estamos vendo é a Meritocracia em ação!
Será mesmo?
Capitalismo brutal, indiferente, intolerante e inflexível
É muito simplista supôr que a baixa produtividade de alguém se deve apenas à sua falta de força de vontade. Um sujeito preguiçoso obviamente produz menos que os outros e por isso deveria ser menos recompensado, mas existem dezenas de fatores afetando o mundo!
Observem:
• Se cair uma tempestade e destruir a plantação, o indivíduo vai ser tão punido financeiramente quanto se fosse alguém preguiçoso;
• Se ele tiver o azar de ficar doente ou se machucar naquele mês, também será punido como se fosse alguém preguiçoso;
• Se ele simplesmente nasceu uma pessoa mais burra, mais destraída ou mais ingênua, vai ser tão punido quanto uma pessoa preguiçosa e improdutiva.
Nesses casos, a pessoa não foi responsável por NENHUM desses fatores, porém estará tão condenada quanto uma pessoa que deixa de contribuir para a sociedade intencionalmente!
E o grande problema é que a coisa não para por aí:
• Se a pessoa deixar de trabalhar pra ajudar alguém, diminuirá a produtividade e será punida como o preguiçoso;
• Se ele for coração-mole e distribuir uma parte da produção de graça, será tão punido financeiramente quanto o preguiçoso;
• Se ele se solidarizar com o vizinho que teve mais azar naquela safra, não só vai ser penalizado com menos capital, estará colaborando com um concorrente que poderá criar mais dificuldades a longo prazo;
• E o pior: Se ele for sincero e honesto, e admitir que os produtos do vizinho estão mais saborosos naquela safra, também será punido.
Ou seja, autruísmo, honestidade, sinceridade, colaboração e empatia tornam-se qualidades negativas nesse sistema, passíveis de condená-lo a falência diante do peso da livre concorrência.
Mas o pior é visto aqui:
• Se o Fazendeiro C nunca se importar com ninguém, e não compartilhar com ninguém, será muito bem sucedido;
• Se o indivíduo nunca fizer nada sem botar um preço, será muito bem recompensado;
• Se o indivíduo for insensível às dificuldades alheias, poderá investir mais na própria produtividade e será ainda mais bem sucedido;
• Se ele esconder as próprias falhas, não explicar a procedência ou qualidade, e for desonesto em linhas gerais, será tão recompensado quanto alguém produtivo e honesto. (Desde que não for pego)
E com esse sistema de incentivo, a longo prazo estaremos criando indivíduos cujas qualidades mais desejáveis serão a apatia, o individualismo, a indiferença, a intolerância e a insinceridade.
O direito divino (A terra da minha fazenda é melhor porque mereci, fui abençoado)
Fica muito visível nesse ponto: Temos um sistema BRUTAL que não tolera nenhum erro, nenhum desvio, e nenhuma falha, seja ela intencional ou acidental. Nenhuma qualidade humana senão a capacidade de produção, é considerada. Erros não serão perdoados.
Mas em que mundo um sistema tão brutal e inflexível se tornaria a melhor solução?
E novamente os Capitalistas tem a resposta na ponta da língua e em côro dizem: “O nosso mundo. Basta olhar pra natureza, é a sobrevivência do mais apto em ação. Lá eles usam a força, aqui usamos a inteligência!”
Como entusiasta em biologia (e em teoria de jogos), posso afirmar que estão errados. Na natureza encontramos diversas situações onde temos “jogos de soma não-zero”, ou seja: Situações onde ambas as partes podem se beneficiar se cooperarem a longo prazo.
Já no Capitalismo, encontramos uma predominância de “jogos de soma zero”, ou seja, quando uma pessoa só ganha se a outra perder.
Porém quanto a necessidade eu não discordo. Se vivermos em um mundo onde a escassez é generalizada, onde se tem tão poucos recursos que é preciso arranjar uma forma de decidir quem vive e quem morre, um sistema meritocrático é necessário.
Não importa se foi por azar ou por preguiça, se a pessoa produziu pouco, ao final do dia vai faltar pra todo mundo e é preciso decidir quem vai ficar sem.
Ou seja, é um ótimo sistema para um mundo um mundo dominado pela escassez, primitivo e selvagem.
Mas e em um mundo abundante, onde há o suficiente para todos?
Tamanha brutalidade e inflexibilidade é necessária?
Em um mundo onde existe abundância para suprir as necessidades de cada indivíduo (não importando o quão diferente sejam), não é necessário decidir quem merece o quê. Não importa se a pessoa é preguiçosa, azarada ou incapaz, não nos importamos se ela merece respirar. Não vai faltar ar pra você. Existem dezenas de fatores que comprometem a produtividade, e considerar tudo isso como se fosse incapacidade do indivíduo, evocando apenas a sobrevivência do mais produtivo, é muito próximo de advocar uma forma de eugenia.
Tentar avaliar o suposto “merecimento” de cada indivíduo em um mundo de abundância gera situações aberrantes, como uma pessoa roubar um celular de $100 e ser presa por 4 anos ao custo de $6000 por mês.
A abundância torna a meritocracia desnecessária, assim como não precisamos mais de rodinhas depois que aprendemos a nos equilibrarmos na bicicleta.
Mesmo que haja o suficiente pra todos, quem não trabalha não merece viver?
E se existir abundância mas não existir trabalho?
Em conclusão, assim como qualquer teoria, não existe uma proposta universalmente melhor do que outra. A eficiência de cada uma depende da realidade ao seu redor.
E sistemas meritocráticos só são a melhor forma de gestão quando estamos diante de escassez. Poderíamos até afirmar que a escassez é uma condição “sine qua non” pra mecanismos de troca.
Podemos adotar ideologias muito mais elevadas, que valorizam o autruísmo e a cooperação.
E para alguém demonstrar que a meritocracia é uma necessidade, das duas, uma:
Ou vai ter de demonstrar que a escassez generalizada é uma realidade em pleno século 21, ou vai ter de demonstrar que as necessidades humanas são infinitas.
O que convenhamos, vai ser bem complicado em um mundo onde produzimos 12 vezes mais comida do que a humanidade precisa, possuímos mais casas vazias do que pessoas sem-teto, e fabricamos mais celulares do que a quantidade de pessoas. E onde cada vez mais pessoas estão abrindo mão de conforto e status em nome da preservação, e onde a ciência demonstra que ganância e egoísmo são constructos sociais e não parte da natureza humana.
29 de January de 2013 at 10:51

29 de January de 2013 at 11:58Thomás
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Belo post, Rodrigo !
A parte em que você cita como a economia recompensa por atitudes egoístas e pune por atitudes altruístas me lembrou um outro exemplo, o do mercado financeiro. Devido à natureza “indireta” das consequências dos movimentos dos mercados financeiros, aqui a economia se mostra ainda mais bandida pois a responsabilidade pessoal das atitudes dos acionistas está escondida atrás de instituições envolvidas por um esquema matemático. Dado o poder do setor financeiro sobre a economia e principalmente sobre os governos, as tentivas de regulação do esquema são rapidamente eliminadas, dando espaço para os oligopólios e consequentemente a extrema concentração de riqueza.
29 de January de 2013 at 12:10rodrigo
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Se ainda não assistiu, você “tem” que assistir o “Yes Man fix the World”, tem uma hora que eles demonstram exatamente isso. Elaboram um Hoax onde uma corporação resolvia assumir a responsabilidade pelos danos causados no ambiente, e adivinhe: As ações caem!
31 de January de 2013 at 12:03Pedro
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Ótimo texto! Adorei mesmo!
Continue escrevendo!
31 de January de 2013 at 13:08Bianca
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Grata por ter me deparado com esta matéria! Sendo o capitalismo o assunto, quero contribuir com outros conceitos de capital:
Aqui deixo uma matéria q introduz um livro “O Capitalismo Natural” q abarca a limitação do capitalismo financeiro, perante a desconsideração do capital humano, o capital natural, e o manufaturado
http://olugardolixo.wordpress.com/2012/04/02/livro-de-paul-hawken-capitalismo-natural-criando-a-proxima-revolucao-industrial/
E aqui o Leonardo Boff discorrendo sobre o capital espiritual
http://olugardolixo.wordpress.com/2012/10/15/prosperidade-com-ou-sem-crescimento-leonardo-boff/
Parabens pelo site!
31 de January de 2013 at 16:29Jefferson
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A solução é uma sociedade como a proposta pelo Projeto Venus.
Com o potencial das nossas ciência e tecnologias, além de podermos gerar abundância global de bens e serviços, eliminando automaticamente todas as consequências da escassez, que são os nossos piores e custosos problemas sociais, poderíamos sim fazer isso funcionar praticamente sem trabalho humano, que é, inclusive, contraproducente. Só precisaríamos de bastante trabalho humano inicialmente, durante o desenvolvimento da cibernetização.
Esta possibilidade é bem óbvia até, mas muitas pessoas não enxergam, devido a má educação e ao condicionamento mental cultural que somos submetidos, e tentam criticar usando falácias como a da “natureza humana”, fazendo associações indevidas com comunismo, anarquismo, totalitarismo, etc, ou apenas duvidam afirmando que ter tudo do melhor pra todo mundo e, ainda, sem precisarmos trabalhar pra isso, só pode ser utopia…
É triste… Pelo menos já existe o Movimento Zeitgeist, que vem trabalhando na conscientização destas possibilidades.
31 de January de 2013 at 18:25Fábio
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Ótimo artigo, Rodrigo, parabéns e continue nos brindando com abordagens como essa.
5 de February de 2013 at 22:25Vitor
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Fala Rodrigo,
Então como eu já tinha te dito lá no facebook, acho que a questão não é mostrar que as necessidades humanas sejam infinitas ou finitas ou que a abundância acaba com a necessidade de meritocracia.
Talvez a escassez eduque mais do que a abundância através de um pensamento meritocrático do que é bom e do que é ruim, em termos de comportamento humano. Ou seja, uma criança mimada que tem tudo não vai tomar responsabilidade sobre seus atos tão cedo, se não for repreendida pelos seus pais. Assim como ela não vai saber o que é bom se não receber elogios e carinho.
Acho que o problema está na mentalidade competitiva e na falsa meritocracia que existe hoje. Penso que em abundância (relativa às necessidades básicas do ser humano, dentro do conceito de necessidades de Maslow), o real significado da palavra meritocracia viria a tona.
Vai aqui o vídeo que postei lá no facebook, sobre isso:
https://www.youtube.com/watch?NR=1&feature=endscreen&v=kJu5BWsa1_0
Abraço,