Todos contra “O Sistema”
Com o recente “boom” do ativismo incentivado pelas redes sociais, é cada vez mais comum ver as pessoas expressando suas críticas ao governo, violência, intolerância, capitalismo e outras mazelas da nossa civilização. Não estou nem falando de quem fica o tempo todo falando mal da saúde pública, da corrupção e reclamando do preço da passagem de ônibus e do calor. Isso não é ativismo, é puro bitching.
Mesmo que o cyberativismo, ou “ativismo de sofá” seja visto por muitos como vazio e inútil, certamente ele ainda é muitas ordens de grandeza mais eficaz e transformador do que simplesmente reclamar. Uma das coisas que se pode perceber como diferença básica, é a presença, no discurso do ativista, de uma conexão do assunto (seja corrupção no governo ou sementes geneticamente modificadas) a algo maior, mesmo que seja uma teoria maluca da conspiração; parece que “entende” um pouco melhor como as coisas funcionam, e esse parece ser o tema da maioria das coisas que faz, fala e compartilha.
E é no ativismo que mais comumente vemos referências a termos como “o sistema”, “status quo”, ou na mais famosa acepção em inglês, “establishment”. Todos eles significam basicamente a mesma coisa, talvez com algumas pequenas diferenças, mas como o mais usado por aqui é “o sistema” é nele que vejo mais e mais pessoas o utilizando sem parecer saber muito bem do que estão falando. Ser ativista, é ser “contra o sistema”. Temos que “derrotar” o sistema, “derrubar” o sistema. Se a pessoa soubesse do que se trata um sistema, saberia que “O” sistema também é um sistema como qualquer outro, logo desejar sua derrubada não é das coisas mais inteligentes.
Todos nós somos apresentados ao conceito de sistema em algum momento de nossas vidas, mas poucos sabem que esse conceito na verdade é uma abstração para descrever conjuntos de partes interconectadas que produzem um resultado. E essa abstração pode se encaixar das mais diversas formas e a palavra sistema pode ser entendida de maneira bastante diferente pelas diversas disciplinas do conhecimento humano. Todo mundo fala em sistema nervoso ou sistema operacional (Windows, iOS, Linux), prestando pouca atenção ao papel da palavra sistema nessas coisas.
Qual é a acepção que parece ter essa palavra que os ativistas sociais usam, como se fosse “a fonte dos problemas”? Tudo de que reclamam e são contra é, de alguma forma, direta ou indiretamente, culpa do sistema. Que sistema é esse? Quem é ele? Ele pode ser uma forma de governo, a democracia, uma ditadura. Pode ser o capitalismo, sistema econômico predominante no mundo atual. Pode ser uma teoria conspiratória, como o plano que o Illuminati tem para dominar o planeta. De todas essa formas, há algo em comum na forma como alguns ativistas erram horrivelmente ao ser “contra o sistema”. Esquecem – ou preferem fingir que não sabem – que são partes integrantes e funcionais, desse sistema, qualquer que seja. Parece bastante bobo e óbvio, mas não é.
Ao se declararem contra o sistema estão simplesmente declarando que estão “fora” dele e que ser contra automaticamente lhes exime de qualquer responsabilidade sobre os resultados e produtos deste sistema. A abstração “sistema” pode ser entendida de diversas formas e em variados escopos e abrangências. Podemos entendê-lo apenas como nossa organização política e econômica ao nos declararmos simplesmente como indivíduos que trabalham para ganhar dinheiro, gastar por aí, pagar impostos e de vez em quando, fazer algumas decisões políticas. Ou podemos expandir para entender como “o sistema” o planeta inteiro, nos colocando como parte de um todo maior, em que nossa ações podem ter impacto em escala global, o que é especialmente verdadeiro na era da comunicação em tempo real. Mesmo assim, somos partes integrantes, e mais importantemente, indissociáveis, do tal “sistema” ao qual estamos declarando guerra em nosso ativismo.
Algo que parece bem óbvio, como “somos parte do problema” não é percebido no discurso quando se referem ao “sistema”. O teor é sempre separatista e raramente inclui um “mea culpa”. Eles lá, eu aqui. Eu não sou parte disso. Pelo simples fato de ter lido alguns livros, visto alguns filmes e ter formado alguns conceitos na mente, refletem, percebem conexões e abstrações e se colocam como “diferentes e separados” da massa que faz as engrenagens girarem e o mundo funcionar. Falham ao perceber que isso é uma ilusão. Não há tal separação. O “sistema” não precisa ser derrotado, derrubado ou substituído.
Pode parecer clichê usar aquela frase do Ghandi que todos conhecem, adoram partilhar, mas ninguém consegue botar em prática: Seja a mudança que você quer ver no mundo. Por que é bem isso. Não mude o mundo, o mundo não vai se adaptar a você. Para mudar o mundo (ops, o sistema), entenda, primeiramente que você é tão parte dele como ditadores genocidas ou políticos corruptos. Você não vai mudá-los, mas você pode mudar a si mesmo, e estimular transformações ao seu redor. A mudança esperada em todo “O Sistema”, se um dia ocorrer, será em direção a uma maior sinergia entre suas partes para que funcione melhor, sem desperdícios, desequilíbrios e erros. Algo que conseguimos facilmente desejar e verificar no Windows do nosso computador, mas falhamos quando aumentamos a abstração para toda a civilização planetária.
22 de February de 2013 at 11:53

22 de February de 2013 at 13:52Lila
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Perfeito!!!
22 de February de 2013 at 14:08Miguel
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Não sei quem você é ou realmente o que faz no seu dia a dia, mas percebo que infelizmente você está um tanto quanto mal informado sobre o assunto para comentar com essa propriedade e não consegue ter o discernimento de perceber que o assunto o qual você está tratando é a “ignorância” e não o ativismo.
Quando me refiro a ignorância quero deixar claro que é o fato de um ser desconhecer um assunto, e isso acontece dentro do ativismo, politica, jornalismo, ciência, filosofia e dentre as demais esferas da sociedade.
Sua opinião aqui é largada e sem real fundamentalização, pois você precisa considerar o que seria realmente um ativismo serio, e o que seria, entre outras palavras, uma revolta ou baderna.
Ativistas sérios e de aceitável nível de conhecimento compreende sim as estruturas fundamentais de um sistema e sabem quando estão ou não inseridos no contexto.
Mais uma vez ignorantes em todos os assuntos sempre vão existir e infelizmente você caiu na armadilha, pois está falando da fatia ignorante de um segmento e associando isso ao mesmo, como por exemplo eu poderia fazer uma matéria sobre jornalistas que se acham capazes de pesquisar pouco e discorrer sobre quaisquer assuntos, eu poderia explicar aqui faculdades e falta de faculdades para exercer esse trabalho, mostrar erros e dizer que nesse segmento a grande maioria comete diversos erros e distorcem a percepção da realidade, e de uma certa forma denegrir ou ofuscar a imagem desse movimento em uma matéria sem sentido.
Porém a questão não é a atitude de alguns jornalistas em si, mas sim a ignorância em que alguns insistem em viver, como diversas pessoas em diversos segmentos.
Abraços
22 de February de 2013 at 14:28Christian
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Oi, parece que você se sentiu pessoalmente ofendido por algumas coisas que falei. Mal informado eu posso te garantir que não estou. Se você der uma navegada aí pelo blog vai achar post sobre uma infinidade de assuntos, a maioria críticas a sociedade, e não duvido que, se você também tiver um espírito de crítica a sociedade (ou não teria chegado ao meu blog) vai concordar com pelo menos alguma parte.
Mas você se sentiu ofendido por que apontei para falha de ativistas. Será que é por isso? Parece que é.
Estou nessa há cerca de cinco anos, dois dos quais vivi intensamente, e já foram muitas e muitas decepções para chegar aonde cheguei e fazer essa reflexão e desabafo. Pois se trata disso, nada mais.
É bom ler críticas, é bom ver que tem “muitos de nós” fazendo merda, para não repetirmos os erros. Precisamos nos educar sempre e estar atentos aquilo que nos impede de crescer e atingir nossos objetivos. Vejo muitos ativistas abraçando causas como ideologia e as vezes até idolatria, e ficando cegos para outras coisas que estão mais próximas, mais simples e são tão ou mais importantes.
Uma pena que não consegui me fazer entender melhor. Minha tentativa é sempre passar minhas idéias sem ofender ninguém, mas entendo o quanto isso é difícil. Melhorando sempre.
22 de February de 2013 at 14:55Miguel
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Hahahah Christian fantástico, desculpa se extravasei a emoção, o fato é que o texto exprime um lado do ativismo que se refere a ativistas mal informados, e não vejo como isso pode impulsionar a causa, a minha visão é que se fosse voltado a dizer para os ativistas não caírem nessa “armadilha” seria melhor do que dizer que eles fazem isso, que lutam contra um sistema o qual eles nem sabem que estão inseridos por que não sabem analisar sistemas.
Vejo pelo site que estamos juntos nessa, e sei que o que você disse aqui é verdade, porém somente vejo essa verdade associada a quem não está preparado ou informado sobre a causa rsrsr.
Duvido muito que você não saiba analisar sistemas, não saiba que você é parte do problema e da solução e de que temos que sofrer a reforma interna, e você é um ativista assim como eu (pelo menos até onde sei, pois não te conheço a fundo rsrsrs) e se instruiu para não cair nessa armadilha.
O ponto não é a falha no ativismo é a fala no ser em não procurar se instruir e isso serve para qualquer segmento.
Desculpe o jeito rude do comentário anterior, não leve para o pessoal, mas se temos um objetivo acredito que a forma do texto pode influenciar, e hoje já temos muitos textos criticando fortemente os ativistas contra os que impulsionam.
Estamos juntos nessa, por um mundo melhor, por amor, por evolução, ciência e aperfeiçoamento do ser.
Abraços, a gente ainda se encontra em alguma reunião, parabéns por todo o trabalho e boa sorte para nós. =]
22 de February de 2013 at 16:25Christian
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Ótimo, já nos entendemos. Quando as vibrações estão próximas e os objetivos finais são similares, dificilmente um desentendimento inicial perdura por mais de alguns argumentos.
São só abordagens diferentes na crítica, uns podem ser mais polidos ou positivistas e outros mais direto ao ponto, podendo parecer duros. Um meio termo é desejável, mas dificilmente alcançável.
Outro dia mesmo li um artigo muito bem escrito que basicamente colocava por terra muitos dos conceitos que nós ativistas temos como certo e, de certa forma, até tirava um pouco do estímulo. Mas tudo por que era a mais pura verdade. É difícil ler essas coisas. As vezes machuca, e depende muito do momento que se está vivendo, se você ainda está numa curva para cima, muito empolgado, ou em uma para baixo, já um pouco cansado (como acredito ser o meu caso).
Enfim, estamos juntos e todo esforço e troca de idéias é válida. Um abraço.
22 de February de 2013 at 14:21Miguel
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Sorry man, mas entendo que a forma do texto atrapalha mais o ativismo do que o ajuda!
22 de February de 2013 at 16:23Carlos Eduardo
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Parabéns, Miguel! Seu comentário tocou num ponto que acho de grande importância. Colocação perfeita!
22 de February de 2013 at 17:00Bruno Rosa // TaRuGo
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Christian, coloca ai o link pro texto que comentou:
“Outro dia mesmo li um artigo muito bem escrito que basicamente colocava por terra muitos dos conceitos que nós ativistas temos como certo…”
25 de February de 2013 at 9:14Christian
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Opa, sem problemas, segue o link:
http://www.cedap.assis.unesp.br/cantolibertario/textos/0004.html
22 de February de 2013 at 19:44Lila
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Muito bom, parabéns ao Miguel e ao Christian, isso é sabedoria!
22 de February de 2013 at 21:14Gustavo Guedes
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Boa noite. Certeza temos de que exista, e muitos; ativistas tendo problemas em interpretar os sistemas ao qual analisam e/ou se opuseram, seja ele qual for, como foi citado no texto, isto se dá por várias circunstâncias e experiências nas quais cada indivíduo se sujeitará durante sua vida, incluindo seu nível cultural e capacidade de discernir os fatos, também pela forma como tal sistema vá se consolidando ou até mesmo se modificando. São muitos os que fundamentam argumentos a partir de suas reflexões pessoais do que propriamente de uma ampla visão de mundo, interpessoal, imparcial; geralmente apegam-se bruscamente à dada ideologia, culminando numa análise egocêntrica e pouco altruísta em alguns casos. Concordo com sua análise e em ter sinalizado para este fato; porem, existindo ativistas com “esta” ou “aquela” característica é válido, mas não primordial no contexto do julgo. Quanto ao sistema globalizado em que estamos inseridos e ao qual sou contra (me vejo inserido e inclusive contribuindo indiretamente e diretamente com o mesmo, consciente disto), creio que devemos analisá-lo de todos os ângulos, por dentro e de fora quando possível, vislumbrando-o com cautela, sendo assim, do meu ponto de vista, ir contra um sistema e suas ramificações não necessariamente prediz que o mesmo tenha que sucumbir em sua totalidade, mas sim se adequar para que se torne mais sustentável e justo, ou mais complexo se não o for, ou até mesmo simplificá-lo se isto for positivo no âmbito geral, paradoxal. Eu por exemplo analiso tudo que obtenho de forma bastante imparcial, cético; é uma forma de me defender do conhecimento obtido em primeiro contato, deste modo posso sustentar minhas convicções, mas sem apelar para a parcialidade e preconceitos. O objetivo é evoluirmos e assim evoluirmos o sistema, não destruí-lo, até porque o termo “destruir” muitas vezes é ilustrativo.