Apatia Seletiva

Share

assalto-1203658 Já fazem duas semanas que o sanguinolento vídeo de um bandido levando tiros de um policial em meio a um assalto polui as timelines do Facebook, e independente das justificativas, presenciamos inúmeras celebrações do que é apenas uma demonstração gratuita de violência. Sendo bem sincero, não tive coragem de ver. Poderia ser um assassino de crianças, ver um ser humano sofrendo na minha frente é de embrulhar o estômago, e sim, não me esqueço em nenhum momento que temos ali um ser humano.

Poderíamos passar horas discutindo motivos e justificativas para tal ato, porém quem vê-se como de Direita conhece os argumentos da Esquerda, e vice-versa.

Argumentos ideológicos acabam reduzindo a questão apenas a bondade, maldade ou neutralidade presentes na natureza humana, e esquecemos de olhar que a ciência também tem muito a dizer sobre essa questão.

Repetidas vezes foi demonstrado que vivemos em um universo de causa e consequência, onde cada indivíduo é formado por um gigantesco leque de experiências que formam o caráter e a personalidade de cada um. Ignorar esse tipo mecânica sem preocupar-se com as consequências gerais é adotar um raciocínio imediatista, e nem o mais ingênuo dos eugenistas acredita que se matarmos todas as pessoas más, não haverá mais reprodução e teremos a extinção do mal.

É muito conveniente nessa hora, esquecermos que se você tivesse nascido no lugar daquela pessoa, e vivido cada mesma experiência, você seria aquela pessoa, e teria cometido aquela mesma transgressão. Você não escolheu nascer nessa família, classe social, e condições favoráveis, e o único motivo que separa você de ter sido aquele cara, foi um punhado de SORTE. Não é você ali tomando tiro por simples SORTE, não por escolha ou por mérito.

“Se dou um prato de comida para um pobre, sou generoso.
Se pergunto porque aquela pessoa passa fome, sou um maldito comunista.”

Quando é tentado ser compreensivo em relação à origem da criminalidade, a resposta imediata é o famoso “Querendo passar a mão na cabeça de bandido? Gostou, leva pra casa.”
E não é essa a mensagem em geral, de esquerda. É a preocupação à longo prazo, com o que vem depois.
A pergunta a se fazer não é “Como se livrar desse bandido ?” mas sim “Como fazemos para que pessoas não se tornem mais bandidos ?”

Não está sendo dito que deveria haver alguma forma de contenção, ou que a esses indivíduos não estão errados. Mas muito mais do que construírmos muros mais altos, termos a segurança mais apertada, e armas melhores do que a dos bandidos, não queremos ficar nessa corrida armamentista infinita, a idéia é resolver o problema. Fechar os furos ao invés de colocar baldes.

A raíz do Mal

Reduzir a questão à “matar a maldade” é nada menos do que enganação Hollywoodiana, como se a origem do mal se concentrasse em torno de invidíduos, não de um ambiente.
É mais complicado e trabalhoso do que pensamos. Existem ambientes mais propícios à maldade, e situações de conflito e violência são previsíveis quando se há desigualdade e escassez. Existe literatura extensa demonstrando como pessoas tornam-se ruins, e que tipo de experiências, abusos e condições sociais geram pessoas violentas.

O brasileiro não gosta muito de ser comparado com o Norte-Americano, mas veja bem: Pra gente é super óbvio que os EUA é o alvo predileto de terroristas pelos anos de abusos que cometeram com a população do oriente médio, onde acabaram com milhares de familias por causa de petróleo. 90% das mortes do oriente médio foram de Civis, e quando eles querem retalhar de volta, ficamos tão felizes quanto quando vemos um Touro atacar o Toureiro. Porém quando a coisa acontece por aqui, “aí é diferente.” Convenientemente esquecemos das várias décadas de abusos contra a população pobre e geralmente negra, e quando eles resolvem retalhar, aí de repente vira uma questão de “maldade humana.” Não sei quanto à vocês, mas parece um posicionamento hipócrita.

Uma vez, discutindo com um colega de trabalho, entramos nessas questões sobre desigualdade social originando violência. Apesar de extremamente apática, a posição dele foi simples e direta, quando comecei a falar sobre buscar as causas de comportamentos aberrantes:
“Eu não quero saber! Não me importo! É gente demais no mundo pra se preocupar, quero resolver o MEU problema.”

Apesar de contundente, foi uma posição honesta e corajosa. Nunca mais perdi o tempo dele e nem o meu, e a questão nunca mais foi tocada.

E tamanha sinceridade não foi esquecida. Diante de tantos debates cansativos, acredito que deveria ser essa a posição das milhares de pessoas que estão aplaudindo violência. Parar de buscar justificativas para matança, parar de tentar desumanizar os criminosos e torná-los simples gado de sacrifício, parar de distorcer a lógica e tornar o problema sem solução.

Basta ter a coragem de vestir a camisa da Apatia Seletiva contra pessoas de fora do seu círculo, e colocar seu posicionamento de maneira clara e sincera:

“Eu não ligo se são pessoas ou não. Não ligo para causas, e não quero soluções a longo prazo. Quero resolver o problema da violência ao meu redor ainda em meu tempo de vida. Não quero saber das consequências à longo prazo, e não me importo com os sacrifícios de vidas alheias feitas, desde que minha vida seja segura e de qualidade.”

Se expressar-se com essa honestidade, as chances de não ser atormentado por nenhum “Esquerdopata” são bastante altas. E pelo menos de mim prometo, nunca mais irá ouvir.

Um comentário sobre “Apatia Seletiva

  1. observamos a situação imediata e não damos atenção ao Todo. A maioria das opiniões sobre essas mortes são dadas sem muita reflexão.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *