Cachorros fofinhos e a hipocrisia nossa de cada dia

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nng_imagesFicar comovido ao ver na sua timeline foto de cachorros fofinhos recém-resgatados de um instituto de pesquisas não é nada de mais – nem de menos. É empatia básica que faz parte das estruturas mais básicas do seu cérebro, você nem mesmo sabe por que acha coisas fofinhas merecedoras de acolhimento e ajuda. Compartilhar uma campanha para ajudá-los a receber um novo lar depois que supostamente sofreram abusos e maus tratos no tal instituto, já demonstra em parte um comportamento crescente nas redes sociais, que é o de participar de campanhas sem se dar ao mínimo de trabalho de entender a questão envolvida. Agora, defender sua posição dessa sua “atitude de ajudar, compartilhando”, alegando pena dos bichos, beira a mais pura hipocrisia.

Seja sincero consigo mesmo ao responder essas perguntas, caso você tenha sido um dos que compartilhou a campanha, ou caso não tenha sido, tente projetá-las na atitude de quem você viu compartilhando. O quanto você sabe sobre testes com animais? Muito, pouco, quase nada? Você tem alguma posição formada sobre o assunto, diferenciando por exemplo, testes para produção de cosméticos e testes para produzir medicamentos? Ou você nunca realmente parou pra pensar no assunto? Já pesquisou alguma coisa? Sabe como funciona?

Não precisa parar de ler o texto agora e assitir ao vídeo abaixo, mas ele é de extrema valia se você quiser se aprofundar nas questões acima.
http://www.youtube.com/watch?v=vWy_hziZYL8

Se houve real sinceridade nas respostas (ou um bom conhecimento do comportamento de seus amigos ao “chutar” as deles), acredito que a grande maioria fez o que tem se tornado comportamento padrão na maioria das campanhas de internet: compartilhou por impulso. Cachorros fofinhos + testes (ou seja, sofrimento) + ativistas de proteção a animais envolvidos = com certeza é uma coisa boa, que demonstra valores morais sólidos, vamos ajudar, vou compartilhar. Quem nunca foi pego nessa armadilha, jogue a primeira pedra. (obs: nenhuma pedra vista até o momento, e eu também não joguei nenhuma)

Não está sob análise aqui minha posição sobre testes em animais, mas para que fique claro, minha posição é: não sei direito, é muito complicado. Sim, essa é uma posição válida, que deveria ser mais explorada, o simples e honesto “não sei”. E por isso mesmo não compartilhei nada, nem vou compartilhar e nem vou elaborar muito sobre isso – talvez em um outro texto, num outro momento. A questão envolve dilemas morais de dar nó na cabeça de qualquer um que pretende gastar mais do que as 10 calorias necessárias para clicar em “Compartilhar” e escrever um texto emotivo clamando por ajuda.

Agora vamos falar da hipocrisia. Reconheço que ao colocar essa palavra no título do post, já garante que vem bomba de polêmica por aí. É uma ofensa gravíssima, que raramente vemos ser usada em conversas, debates e até mesmo em discussões acaloradas onde as coisas estão quase nas vias de fato. É mais comum ver a palavra em debates escritos, ou dita “pelas costas” ao falar dos outros. Chamar uma pessoa de hipócrita na cara dela é quase como acusá-la de matricídio.

Pois bem, mesmo assim, não acredito estar usando essa palavra exageradamente. Fazer parte da viralização de uma campanha para resgatar beagles de um instituto de pesquisa muito provavelmente envolve doses consideráveis de hipocrisia. E explicarei por quê.

Testes em animais não são novidade. A não ser que uma pessoa tenha chegado ao planeta na semana passada, ela sabe muito bem que remédios e cosméticos são testados em animais, no mundo todo, o tempo todo. E se essa pessoa acha que animais se refere a “apenas ratinhos” então ela precisa parar um pouco de ver novela e acordar pra vida. Independente disso, essa pessoa consome todo tipo de remédios e cosméticos independente se os mesmos foram testados ou não em animais, e se no processo esse animais sofreram ou não algum tipo de abuso ou maus tratos. A isso damos o nome de “ignorância seletiva” – não quero nem saber de onde isso veio, ou como foi produzido, o que importa é que faz bem pra minha pele. Coisa muito similar ocorre com patê de foie gras e vitela. Grande parte (aqui não vou nem usar maioria) das pessoas sabe bem do sofrimento inimaginável causado no animal para que esse produtos cheguem a seus pratos, mas não se vê campanhas para diminuir seu consumo e muito menos para abolir tais práticas cruéis. (até houve uma recente em São Paulo para proibir o patê – que eu achei particularmente bem inútil, pois não tocava no X da questão)

Comparativamente, se formos colocar o consumo de carne com consumo de remédios e cosméticos com base na “ignorância seletiva”, o primeiro fica muito pior na figura. O dilema moral que mencionei no caso dos animais em testes é devido ao fato de que sem os animais, o teste de remédios ficaria seriamente prejudicado, demoraria e custaria muito mais, causando morte e sofrimento a humanos doentes. É uma questão filosófica muito complicada que remonta às origens da nossa civilização, onde foi forjado (e que persiste profundamente em quase todas as culturas) de que o destino do ser humano é progredir, dominar o planeta, custe o que custar, doa a quem doer. Isso também rende bastante debate, e talvez será elaborado em outro post. Mas no caso do consumo de vitela, qual a desculpa? Não há dilema algum. É hedonismo purinho, totalmente dispensável. Tanta carne disponível – que já é, em grande parte, fruto de sofrimento a seres senscientes, tão inteligenes e sensíveis como cachorros – para que forçar o bezerro a ter uma vida curta e mizerável apenas para uma carne levemente mais macia e saborosa? Não faz tanta diferença assim no seu prato, mas faz toda a diferença do mundo na vida de um outro ser vivo, preso e amarrado num cubículo, provavelmente a centenas ou milhares de quilômetros de distância.

É fácil ignorar, não é?

Da mesma forma que é fácil ignorar os animais usados em teste na próxima vez que for comprar um cosmético qualquer. Alguém vai querer saber se aquela empresa testa em animais? Que tipo de animais? Quais são os processos? Não, né? Então não me venha de papinho que morre de pena dos bichinhos, por que no fundo, não querem nem saber – e não apenas ignoram o fato de que há animais, nesse momento, sendo usado em testes, mas ignoram todo o resto, não sabem nem como funciona e não vão querer saber, mesmo depois da viralização dos beagles, que na semana que vem todo mundo já esqueceu. Melhor ser como alguns carnívoros inveterados que conheço: come carne, adora carne e foda-se os bichos. Diferenças empáticas gritantes comigo, mas pelo menos não correm o risco de passarem por hipócritas diante de todos.

Finalizo com uma frase célebre do Paul McCartney: “Se os abatedouros tivessem paredes de vidro, todos seriam vegetarianos”.

2 comentários sobre “Cachorros fofinhos e a hipocrisia nossa de cada dia

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