E os tais Rolezinhos?

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shoppings-defendem-que-pais-respondam-pelos-rolezinhos.jpg.280x200_q85_cropDepois de presenciar todo o destaque que o assunto dos “Rolézinhos” ganharam na imprensa, sem ouvir quase nenhum argumento realmente racional vindo dos cidadãos abastados. Muitos se posicionam prontamente contra eles, sem perguntar o porque tudo isso começou a acontecer, e dessa maneira ficou bem claro pra mim que era reação de medo, de horror.

E por que tanto medo?
Porque a classe média já viu esse filme antes…

Já teve a sensação de seu mundo estar ficando cada vez menor? Basicamente é isso.
Como ex-cidadão da classe média, acredito poder falar com propriedade dessa perspectiva e expôr um pouco da escrotidão e hipocrisia não-assumida pelos antigos frequentadores de shopping.

Até a adolescência, antes de ocorrer o divórcio de meus pais, fiz parte da classe média-alta da comunidade paulistana, em função da riqueza proporcionada pelo meu avô.
Quando eu tinha nascido, já não se era possível pra minha “casta” frequentar o centro da cidade, porque lá tinha muita gente “meio estranha, meio feia”, e assim passei a infância sem pisar lá.
Aos finais de semana, descíamos pro litoral pra curtir a praia como família. Subitamente, as praias começaram a se enxer de gente “meio estranha” de novo, e pude finalmente ver como eram essas pessoas “meio feias”. Era gente pobre, simplesmente.
Surgiu a internet, e pelo menos ali teríamos paz, mas não. A tecnologia tornou-se barata e acessível, e a cultura periférica começou a se infiltrar por aqui também. Quem nunca ouviu reclamações sobre a “maldita inclusão digital” ou sobre a “orkutização” da internet?

À medida que fui crescendo, era bem visível o como se articulavam pra manter fora da mistura, onde pisava o pobre, o rico mudava de lugar. Como quando alguém barulhento senta do seu lado no cinema. E como já citei, chegava a ser caricato o como evitam falar a palavra P-O-B-R-E, era “sempre gente feia, gente estranha, um povão”, quem já fez parte disso sabe do que estou falando. Ao final, tiveram a brilhante de inventar os condomínios fechados. Dessa maneira, criaram um tipo de “túnel” onde o rico podia fazer a tragetória  casa->trabalho, casa->entretenimento, e o caminho de volta, sem se misturar com o resto do mundo. Se bobear, poderia instalar o vidro fumê pelo lado de dentro, pra não ver o “mundo feio” lá fora.

E assim, após um curto período de paz, começa a onda dos “Rolézinhos”. Dessa vez os filhos de pobres entram nos shoppings, transportam pra lá algo que apavora o cidadão de classe média. Não algo pior, e nem melhor, mas algo DIFERENTE.
A cultura desses jovens é completamente outra. A linguagem, o jeito de se vestir, a maneira como tratam uns aos outros. Sim, parece que é um baile funk na periferia, e você não precisa se identificar com eles e nem gostar, mas precisa reconhecer seu direito de serem como são. Se eles não tem direito, outras marchas que acontecem no país inteiro por diversos motivos, e também “perturbam a ordem e o trânsito” também não devem acontecer.

Falar que são todos bandidos vagabundos é uma generalização grosseira visivelmente impulsionada pelo medo.
Flash mobs, harlem shakes, Zombie walks, todo mundo aceitou numa boa. Isso entre coisas piores, como isso:

(Interessante que só a imprensa daqui condenou prontamente, a pequena cobertura da mídia internacional viu tudo como “Flash mobs da pobreza”)

É visível a diferença de aceitação e tolerância quando a proximidade cultural é maior, não?
Quando os dois pesos e duas medidas ficam claros, todas as expressões fazendo correlações com o Apartheid deixam de ser exageros. O preconceito contra a cultura da periferia é evidente. E sim, uma forma de cultura. Vejo constantemente tentativas de desqualificar qualquer manifestação pobre como cultura, em comentários ingênuos como “Rap e Funk não são música” e coisas do tipo. Como já falei, você não precisa gostar, basta reconhecer e respeitar.

De uma maneira ou de outra, o surgimento dos Rolézinhos aparentemente não são um caso isolado, e parecem indicar uma tendência.
Demonstra o encolhimento da possibilidade da alienação, da negação.

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Como na história do Buda, o típico cidadão de classe média ainda está preso pra dentro dos muros do castelo, alheio ao sofrimento do resto do mundo.
Porém em uma conclusão diferente, nossos “Budas” não quiseram sair, e mesmo assim a pobreza entrou pra dentro dos jardins imperiais.

Esse é o mundo real, não há como negar. Há pobreza, há sofrimento, há intimidação, ostentação, busca de status, e preenchimento com materialismo vazio, como é visto nas músicas da periferia. Tudo o que os abastados se negam a aceitar sobre eles mesmos. Deve doer bastante ver os “pomposos” admitirem a igualdade ali, que também buscam as mesmas marcas de grife e as mesmas formas de satisfação.

À medida que as barreiras ficam enfraquecidas, fica impossível empurrar a pobreza pra baixo do tapete, escondê-la dos olhos e finalmente, cupar o pobre pela própria pobreza.

A desigualdade social é uma presença terrível que precisa ser RESOLVIDA.
Até hoje, os governos de direita à esconderam e negaram sua existência, e os governos de esquerda a utilizaram pra crescer, mas ninguém quis resolver de fato.

De uma maneira ou de outra, independente de sua preferência partidária, todos agora se vêem forçados a defender políticas sociais que resolvam a desigualdade, para que possamos ter paz. Onde antes haviam vozes reclamando pra baixar os impostos de importados pra aumentar o consumo da classe média, agora precisam clamar por educação, saúde e redução da pobreza para que tenham algum espaço. Abrir mão do PS4 pra conseguir andar no shopping.

Parece não existir uma maneira de conciliar projetos que sejam ao mesmo tempo inclusivos e democráticos, e que simultaneamente empurrem a pobreza pra longe dos olhos. Se não queremos ver mistura, basta admitirmos que não queremos democracia.

Não há como fugir. Pra não se ver pobreza, é preciso contribuir pro fim da mesma, e não simplesmente culpar o pobre pela própria miséria, e esperar que ele cave seu caminho pra fora dela. Não há mais um lugar longe o suficiente onde os olhos não a vejam.

Os setores proprietários dizem que não se deve dar o peixe, mas ensinar as pessoas a pescar; mas quando destroçamos seu barco, roubamos sua vara e tiramos seus anzóis, é preciso começar dando-lhes o peixe.”Pepe Mujica

3 comentários sobre “E os tais Rolezinhos?

  1. Não vai tentar refutar ou não consegue “Thiago”?
    Não vai fazê-lo porque não há argumentos morais suficientes para apoiar essa segregação. Não há!

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