Proibir para educar

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mona-lisaAntes de mais nada, confesso que não sou fã das proibições. Na maioria dos casos, são dadas como soluções bastante mal pensadas para problemas simples, e em alguns casos geram resultados piores do que em sua ausência – especialmente quando os problemas são mais complexos e é difícil prever os resultados.

Temos como exemplo clássico a proibição sobre uso de substâncias, com consequências trágicas como no caso da Lei Seca americana e mais recentemente, da falida e desastrosa Guerra às Drogas.

Outro exemplo simples de uma proibição que simplesmente não serve pra nada é a de “escutar som alto em transporte público” que recentemente foi transformada em Lei. É uma resposta nula do legislativo a um problema básico de civilidade – que das duas uma: ou são auto-regulados pela sociedade ou endereçados pela educação (seja ela informal ou formal).

Não que eu tenha uma ideia melhor ou alternativas, mas proibir aquilo que não se tem como coibir na origem e/ou punir no ato, é inútil e muitas vezes nocivo.

Agora, há uma proibição que me faria muito gosto se fosse implementada: a de tirar fotos em museus e exposições de arte. Quem costuma visitar museus ou foi recentemente a uma aguardada (e popular) exposição e teve que enfrentar o enxame de câmeras, smarthpones e tablets, sabe o quanto é irritante. As pessoas estão mais preocupadas em tirar fotos das obras do que de fato observá-las e participar da experiência da contemplação da arte. Fotos que muito provavelmente nem vão ver depois, ou só verão uma vez ao mostrar para amigos e parentes que estiveram lá “naquela exposição legal de um cara que não lembro o nome”.

Fala-se muito em incentivar e facilitar o acesso a cultura, para que essa coisa abstrata, mutante e subjetiva, de alguma forma que ninguém realmente entende, contribuisse para formação de uma sociedade mais justa e feliz. Vamos simplesmente distribuir “cultura” (seja lá o que isso for) geralmente na forma de arte, e a sociedade inteira se beneficiará. Aí eu pergunto: como, exatamente?

Serve de alguma coisa levar dezenas de milhares de pessoas à uma exposição para que fiquem tirando selfies e fotos das obras? Algumas chegam ao cúmulo de sequer observar as obras com os próprios olhos e se direcionar a cada uma diretamente com a câmera, numa corrida insana para fotografar tudo que é possível, de todos os ângulos. Podemos realmente considerar isso uma “experiência cultural” construtiva? Digna de leis de incentivo e de meias entradas?

Portanto fica aqui meu voto para a proibição total de fotos em exposições – e com devida punição, pois não adianta apenas proibir e ficar pedindo baixinho, por favor, para respeitarem. Tirou foto uma vez, aviso, na segunda, rua. Não por que apenas incomoda – e muito – a todos aqueles que estão ali para ver com os próprios olhos e tentando focar mais no momento do que os da geração selfie que está ali já pensando em como vão publicar no instagram em algumas horas. Mas também por que isso poderia ajudar as pessoas a entender melhor como funciona a apreciação de uma obra artística – até para ver se elas realmente querem aquilo.

Uma proibição similar já existe e todos respeitam sem problemas: a de encostar nas obras. Na maioria das exposições e museus sequer há um aviso desta proibição, mas a mesma já se encontra bem firme no inconsciente coletivo e não vejo ninguém reclamando. Ninguém encosta e fica tudo ótimo.

Poderiam comparar o problema do enxame de câmeras com o exemplo que citei acima, do alto volume em público. Sim, a faltava de civilidade pode ser identificada como uma das causas, mas há uma diferença básica. No caso das fotos em exposições, é bastante simples fazer valer a regra. Há sempre monitores e seguranças em qualquer exposição que se preze. Não demoraria até que todos entendessem que não pode e nem mais levariam câmeras à museus ou tiraram seus celulares do bolso com o intuito de clicar.

O que falta para proibirem as fotos? Qual a desvantagem ou consequência negativa? Todos sairiam ganhando, penso eu.Mesmo os viciados em clicar que se sentiriam tolidos em um primeiro momento, depois perceberiam que há mais na experiência artística do que apenas ver o objeto, independente do formato ou tamanho. Afinal, se fosse pra ver o objeto, mesmo que à distância por foto, para que se deram ao trabalho de ir à exposição? Mais fácil ver as fotos (muito melhores do que poderiam tirar) na internet ou num livro. E se estão indo à uma exposição apenas para constar, tirar umas selfies e fotografar tudo que é exposto, há algo de profundamente torto nessa “experiência cultural” que tanto querem incentivar. O estímulo é para a apreciação das formas de arte, para reflexão e contemplação ou para aparecer no facebook e entupir smartphones com milhares de fotos idênticas?

3 comentários sobre “Proibir para educar

  1. Quanto à proibição…
    o proibicionismo é uma resposta quase imediata que fornecemos aos fenômenos que nos tolhem. sendo assim, não sei se a melhor coisa é proibir, ainda mais com as sanções sugeridas de advertência e expulsão. Talvez uma recomendação para desligarem os celulares, como fazem no cinema. A percepção de que as fotografias incomodam os demais frequentadores pode nascer não necessariamente a partir da proibição. Conscientizar é um caminho árduo, mais difícil, mas também mais indicado..

    Quanto ao fenômeno em si…
    Cara, nunca entendi e tenho muito receio dessa tendência.. Ultimamente parece que as experiências só se concretizam se divulgadas nas redes sociais, ou no mínimo transpostas em outras mídias. Digo receio por se tratar de algo novo, de repente acabamos maximizando as consequências negativas..
    Mas tem um ponto que é quase “indiscutível”, por não parecer nenhum exagero.. e é justamente o que você relatou.. a ideia de deixar de viver algo inteiramente para no lugar disso viver e registrar, ou talvez só registrar, não entra na minha cabeça.. E como disse um humorista americano, você nunca vai perder seu tempo vendo uma foto ou um vídeo de um evento que você abriu mão de apreciar na primeira vez que esteve la pq estava gravando ou fotografando hahahahaha
    Parece ficção científica, mas o que não está na internet não existe.. isso é louco demais

    1. Sim, quanto à proibição, ela geralmente é uma resposta mal dada a uma questão mal analisada. Mas nesse caso eu não vejo alternativa. Infelizmente “conscientizar e educar”, num país como o nosso, é o mesmo que esperar a volta do Messias. Sugerir isso como solução é o mesmo que assumir que não há solução alguma e que seremos obrigados simplesmente a engolir.

      O fenômeno é realmente muito estranho, e não é só aqui. No exterior é igualzinho, com hordas de turistas de todo o mundo tirando fotos de tudo que é quadro e escultura e não gastando 10s olhando de verdade coisa alguma. No Inhotim (em MG) é proibido tirar fotos em todas as galerias, e funciona muito bem. Não há incômodo, as pessoas respeitam, e quem desrespeita, basta um aviso para que guardem a câmera. Quando você entra num local onde ninguém está com uma câmera na mão, você já fica receoso e entra no comportamento de grupo. Por que não podemos esperar isso para todas as exposições e museus? É querer muito?

  2. Texto muito oportuno!
    É a nossa vida de facebook (e eu nela aqui agora), de selfie…
    Há um certo discurso, talvez conservador, que busca naturalizar estes processos de ‘evolução’ da humanidade, da tecnologia, compreendendo todas estas transformações como algo inevitável e benéfico para o conjunto da humanidade.
    Tenho dúvidas.
    Hoje tudo deve ser fotografado, registrado, postado, socializado.
    Por que, de fato, vamos a determinados lugares?
    Sem dúvida nenhuma que a relação que estabelecemos com os produtos culturais à nossa volta é completamente diversa quando o que a motiva não é o estabelecimento da relação em si, mas a possibilidade (e desejo) de publicizá-la, transformando em evento algo que poderia simplesmente fazer parte de nossa subjetivação. Um viva a Walter Benjamin.

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