“Motorista, pode abrir aqui, por favor?”

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Passageiro descendo fora do ponto

Um pedido tão simples, uma frase tão corriqueira, porém com grande significado. Quem costuma andar de ônibus já deve tê-la ouvido uma centena de vezes – e até tê-la proferido algumas tantas também. Mas o que tem demais nesse pedido?

Um assunto que me causa grande curiosidade e é constantemente objeto das minhas reflexões é a civilidade e o comportamento das pessoas, especialmente no conturbado meio urbano. O transporte público é um dos melhores laboratórios que existe para tais observações. Na ida e volta do trabalho geralmente as pessoas estão cansadas, com pressa e por causa disso, estão mais sujeitas a “furar um pouco” as regras do bom convívio, seja de forma inconsciente ou nem tanto.

Já não é de hoje que é vedado ao motorista parar fora do ponto. Há fiscais em alguns pontos, e tais fiscais podem relatar o desvio de conduta e o motorista ser punido – sem contar na perda de eficiência operacional como um todo, afinal, quanto mais paradas o ônibus faz, mais ele demora para completar a viagem. Mesmo assim, em algumas situações, com o ônibus parado em um sinal ou engarrafamento, se torna a oportunidade ideal para que um pedido de “posso descer aqui” seja atendido sem maiores problemas. Esse tipo de conduta de parar fora dos pontos é naturalmente muito mais comum em locais sem fiscalização.

Acontece que de uns dois ou três anos para cá, vem sido implantado no Rio de Janeiro o sistema BRS (Bus Rapid System), que cria faixas exclusivas para ônibus e separa as linhas em categorias (1, 2 e 3) fazendo com que os ônibus não parem mais em cada ponto existente, mas apenas no pré-definidos. Um sistema evidentemente mais eficiente, que beneficia a todos – mas obviamente recebeu críticas dos usuários de carros que agora tem menos espaço para circular (um outro exemplo da visão limitada de que trato nesse texto). O pedestre terá que andar coisa de dois ou três minutos a mais para chegar ao ponto correto, para que o sistema com um todo, e seus usuários, tenham um ganho de dez a quinze minutos no total do trajeto do ônibus (estou chutando aqui, mas só para base de comparação) – sem contar na viagem mais agradável, com menos paradas.

Mas o tal do “pode abrir aqui, por favor?” prevalece, sem indicativos de que vai diminuir, mesmo já tendo passado um bom tempo para que toda a população se acostume ao novo sistema. Não só o pedido se mantém constante, como a reação à resposta negativa do motorista é a da mais pura revolta, caras feias e as vezes até xingamentos. É possível perceber aqui o quanto o cidadão está realmente preocupado com o bem comum, quando um incremento na qualidade de vida de todos cause um incômodo, ínfimo que seja, em sua vida.

A famigerada frase, que pode soar a tantos como totalmente inofensiva – “não custa nada” – é uma demonstração de egocentrismo agudo (seja oriundo de uma cabeça muito ocupada com problemas e dificuldades ou pura ignorância), um pedido “bobinho” para que o motorista fure as regras do sistema para atender a um pedido pessoal, que ajudaria bastante naquele momento a quem está com pressa. Se não, só no próximo ponto, o correto. Mas o correto é longe e “não custa nada abrir”, não é?. Não é. Custa sim. Se a pessoa for capaz de escapar do loop mental que a prende nas próprias necessidade individuais e pensar um pouco no coletivo e no funcionamento do transporte público como um todo, vai ver que pequenas coisas assim – multiplicadas por cada pessoa que pede, em cada cada ônibus – fazem uma grande diferença no total. Tanto que em países “civilizados”, tal pedido sequer é cogitado, ninguém nem pensa em pedir para parar fora do ponto. É algo impensável, digno de vergonha. Aqui, ao contrário, é a norma, e o motorista se vê obrigado a ser “o chato” quando responde negativamente, as vezes precisando ser duro e ríspido, apenas cumprindo as regras e fazendo seu trabalho.

Civilidade, em última análise, não é nada mais que isso. É ser capaz de escapar do seu mundinho particular, da sua pressa, do seu atraso, do seu incômodo, e pensar no todo. É estar constantemente atento a este todo (não precisa ser neurótico, como alguns devem pensar, para comodamente se afastarem da ideia), pois onde circulam milhares de pessoas, o espaço que seu corpo ocupa pode estar incomodando alguém ou atrapalhando a movimentação de pessoas e veículos. Você não está com pressa sozinho, seus problemas não são mais especiais – todo mundo quer chegar em casa/no trabalho logo, e para isso o sistema tem que ser o mais eficiente possível, dependendo da colaboração de cada um. Parece tão óbvio, mas não é. No momento que alguém fala “posso descer aqui?” e faz cara feia ao tomar um “não” do motorista, tudo isso que parece óbvio se torna obviamente o contrário na cabeça daquela pessoa. Como podemos atingir civilidade e respeito ao próximo dessa forma? Difícil, muito difícil.

2 comentários sobre ““Motorista, pode abrir aqui, por favor?”

  1. Nunca achei nada de errado neste velho costume (mas nao havia a faixa exclusiva)mas desde que vim na Europa, isso nao existe aqui nao (nao posso comentar da Europa inteiro, cabe dizer).
    Ninguem pede e se pedir e mal visto.
    E pela propria seguranca do passageiro e questao de ordem.
    Ja ai eu lembro que se ele n faz o “favor”, nego fica puto. As pessoas tem que parar com este tal de jeitinho e seguir regras que sao eficientes e uteis, como essa.

    Quer que pare no local desejado? Va de taxi!

    Parabens pelo texto!

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