Seu Celular é Vegano ?

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Em meu quarto ano de Vegetarianismo (ou ovolacto-vegetarianismo, para os que quiserem depreciar o feito), resolvi me permiti um jantar peculiar. Quis me presentear com um Hamburguer tradicional.

Fomos até a hamburgueria, e quando olhei para o cardápio, não consegui. Me veio à cabeça tudo o que fiz até aquele momento. Nesses quatro anos, aconteceu de uma vez ou outra eu ter ingerido algum eventual pedaço de carne, como por exemplo quando minha cônjuge não aguenta terminar a refeição. Por não gostar NADA da idéia de disperdício, já cheguei a comer restos.

Porém, estar ali, e fazer o pedido voluntariamente e conscientemente, não consegui. E me senti melhor não tendo feito.

Naquela semana, comecei a refletir à respeito de “dar o próximo passo“, ou seja, caminhar para o Veganismo. Pouco tempo depois, fui a uma sorveteria, e uma mulher à minha frente na fila perguntou: “Esse sorvete é a opção Vegana ?“, e não sendo, foi embora.

Opção Vegana” – Essa palavra ficou ecoando na minha cabeça, e resolvi pesquisar à respeito. As duas definições mais sintéticas que consegui encontrar sobre o veganismo foram:

“O estilo de vida no qual o indivíduo busca atender suas necessidades, sem a utilização de produtos que causam sofrimento à seres vivos sencientes.”

ou

“O estilo de vida no qual o indivíduo se opõe a utilizar qualquer produto de origem animal.”

Quando observamos esses posicionamentos de maneira superficial, parece ser uma opção louvável, admirável, e de certa maneira, faz muito sentido.
Afinal, quando olhamos a história do desenvolvimento do ser humano, foi uma caminhada na ampliação da empatia.

Aprendemos a nos importar com o que acontece aos membros de nossa familia, depois de nossa tribo, depois de nossa compatibilidade ideológica, depois do mesmo país. O próximo passo seria extender essa empatia a todos os seres humanos, e depois disso, a evolução lógica seria o respeito a todos seres vivos desse planeta, no qual compartilhamos parentesco genético com cada célula existente.

Porém, depois de tentar desconstruir a opção Vegana, esse não me parece ser o caminho mais coerente para esse próximo passo da humanidade.

Onde quero chegar?
Para demonstrar meu ponto, seria necessário fazermos uma revisão ponto a ponto.

As Necessidades

Pois bem, tudo se inicia nas necessidades.
Devemos admitir que para um Homo Sapiens Sapiens existir, ele precisa consumir o mundo ao seu redor, do primeiro ao último dia de sua vida. Ao mesmo tempo, aprendemos rapidamente que não só nos seres humanos, mas em toda espécie viva a definição de “necessidade” não se restringe apenas ao consumo devido de calorias e micronutrientes para manter aquela máquina biológica operacional.

Mas antes de entrarmos na esfera da abrangência total, notaremos que só a esfera humana já é complicada o suficiente.
Como podemos definir as necessidades humanas?
Para tentar responder a essa pergunta, foi desenvolvida a chamada “pirâmide de maslow“, onde nossas necessidades são divididas entre básicas, psicológicas, e de auto-realização. (Obviamente, existe algum viés burguês ali, afinal propriedade não é necessidade, mas não desmecere boa parte do estudo)

maslow
Nessa hora, entramos em uma àrea cinza que não souberam me responder bem.
Em geral, de quais necessidades os Veganos estão falando? Das Básicas? Das Básicas e Psicológicas? De todas as necessidades?
E a questão torna-se mais complexa ainda quando nos lembramos que seres humanos diferentes tem necessidades diferentes, ao menos as psicológicas e pessoais.

O Sofrimento

Acredito que seria justo afirmar: Todo ser vivo que não tem suas necessidades atendidas, em algum nível sofre.

Ao adicionarmos essa variável, a questão se complica ainda mais.
Porque pelo menos a meu ver, considerar apenas o sofrimento causado diretamente na fabricação e utilização de um produto específico, não só é “raso”, é incoerente.

Não se trata apenas de ser cuidadoso para ver se a Soja que está consumindo não vem de uma plantação na qual foi destruída mata nativa causando sofrimento à várias outras espécies, até porque aqui a alienação é pequena e fácil de enxergar.

Antes de fazermos nossa Eco-trilha, utilizamos algum tipo de veículo que causou sofrimento de várias espécies, desde a extração da matéria prima que exigiu devastação, até os atropelamentos rodoviários (ou aéreos) que causam.

E o celular que você usa, é vegano?
A extração do petróleo e dos minerais utilizados com certeza causou sofrimento a diversas espécies, a construção da fábrica também precisou de devastação. E a construção dos aparelhos foi feita por mãos humanas em condições semi-escravas.
E pasmem: Seres-humanos em condição semi-escrava também são seres vivos que também estão sofrendo!
E o pior de tudo: Não é pra atender uma necessidade básica, mas uma necessidade psicológica.

Isso porque não consideramos o uso de àgua.
Sabemos muito bem que é necessário 15 mil litros de àgua pra fazer 1 Kg de carne.
Mas já se perguntou quantos mil litros de àgua são necessários no processo industrial de fabricação de um produto altamente tecnológico ?
E sem àgua, todo mundo sofre!

Nesse sentido, a idéia de Boicote começa a ficar cada vez mais complicada, porque fica evidente que tudo parece afetar tudo. E não deixa de ser verdade isso, tudo realmente é interligado.

A Senciência e o Reino Animal

De todo o debate vegano, esse é um do que mais causa sensibilização, porém ao mesmo tempo pelo menos pra mim, é o menos coerente.
É óbvio e respeitável que desejemos causar o mínimo sofrimento possível a todo o tipo de ser vivo, porém uma vez que chegamos à conclusão que é impossível não causarmos impacto algum, resta a opção de gerenciar a quais grupos queremos causar sofrimento ou não.

Porém até hoje, aos meus olhos, todas as opções que adotamos foram intimamente Antropocêntricas. Ou seja, colocamos o ser humano em uma espécie de pedestal de referência, e todas as qualidades similares às de um ser humanos, são as dignas de proteção.

Por que a senciência é tão importante? Porque é uma qualidade humana.
Por que a dinâmica dos seres pertencentes ao reino animal são tão importantes? Porque são os que mais possuem qualidades humanas.

Com todo o conhecimento científico que temos hoje, poderíamos fazer escolhas muito melhores. Ao observarmos a natureza, é visível que a senciênia não é tão importante assim, e pertencer ao reino animal também não.
Por que não priorizamos por exemplo, a complexidade? Ou a importância daquele ser para a biosfera? Sâo coisas que hoje podemos medir, existem inúmeras qualidades importantíssimas, e são mais coerentes do que a semelhança com as qualidades humanas.

A pegada Ecológica

Após essa análise, me parece que a quantidade de sofrimento que um ser humano causa a outras espécies tem uma correlação muito mais forte com o tamanho de sua pegada ecológica, do que com o consumo de produtos de origem animal.

Como é muito binário tentar qualificar tudo como vegano ou não-vegano, e o mundo natural não funciona assim, poderíamos pensar em veganismo como uma graduação quantificável.

E nesse sentido, acredito que muitos veganos não gostariam da idéia.
Porque um índio que come carne seria muito mais vegano do que um vegano que usa Celular, camisa de fibra de Cannabis e pega Avião.

Apesar da opção vegana em geral reduzir sua pegada ecológica, existem diversos caminhos para fazê-lo, todos importantes, respeitáveis, e que reduzem o sofrimento causado a outras espécies. Não faz sentido ressaltar um e repreender outro.

Em conclusão

A questão da moralidade sempre foi complicada para o ser humano.
Se você perguntar para alguém se ele mataria uma pessoa para salvar dez, a cada pequena mudança nas circunstâncias mudaria a resposta.
Adicionar outras espécies na questão moral torna tudo mais difícil ainda, porém é um esforço louvável, e se queremos nos tornar uma espécie cada vez mais empática e civilizada, são questões que precisam ser discutidas.

Porém, apesar de ter um enorme respeito à opção Vegana, essa não me parece a saída definitiva para esse caminho da solidariedade incremental a todas as formas de vida. Algo ser de origem animal ou não, é muito raso.

No momento, me parece que a decisão mais respeitosa e coerente a se tomar, é o maior comprometimento possível com a redução de sua pegada ecológica. Quanto menos você consome, especialmente de produtos industrializados, menor o sofrimento que você causa a outras espécies.
E o mais lindo de tudo?
Dessa vez sem discriminação. A redução da pegada ecológica diminui o sofrimento de literamente todas as formas de vida.

4 comentários sobre “Seu Celular é Vegano ?

  1. Pelo visto você não entendeu a filosofia vegana. Nós veganos tentamos diminuir ao máximo o sofrimento de todos os seres vivos, inclusive os semi-escravos. Existem muitos veganos que vão apenas até o uso de origem animal na fabricação de um produto, mas tem muitos outros como eu, que não compram nenhum produto que há informações de terem vindo de mão de obra escrava ou de uma marca que testa em animais, e procurar consumir o mínimo. Eu sempre compro roupas, tênis e acessórios de brechó ou artesanais veganos. Eu sei que parece algo tão pequeno que não fará diferença, sabemos que sempre causaremos algum impacto, mas pelo menos estamos nos esforçando, e com esse esforço, damos cada vez mais visibilidade ao movimento vegano, e abrindo a mente das pessoas, transformando o mundo mais empático.

  2. Olá Teresinha, agradeço a resposta mas talvez você também não tenha entendido parte do questionamento do artigo.
    Não sei se você pode falar em nome de todos os veganos, mas supondo por um instante que todos concordam com você nesse ponto: “Nós veganos tentamos diminuir ao máximo o sofrimento de todos os seres vivos, inclusive os semi-escravos.”

    Então com certeza algumas práticas precisam ser revisadas, porque apesar de aliviar diretamente o sofrimento de alguns seres, causam um sofrimento indireto pra números ainda maiores.

    Por exemplo, se você é vegana mas anda de avião e usa celular, o monte de vidas que você poupa na sua dieta é ínfimo perto do estrago causado pela extração, fabricação e uso do celular/avião.

    E o meu ponto é exatamente esse. O que é mais importante? Parecer mais empático evitando o sofrimento direto? Ou reduzir o sofrimento tanto direto quanto indireto em números quantitativos?

  3. Discordo de muitos pontos de seu texto e de sua conclusão central.

    Algumas partes são tão genéricas quanto ao suposto boicote vegano “raso” em sua opinião.

    Como a parte em que fala de índios como se todos fossem um bloco homogêneo e cristalino, a visão romantizada do indígena recôndito que não tem contato com o mundo “moderno” do “homem branco”.

    Outra questão é que óbviamente que o veganismo encontra vários entraves uma vez que a ideologia dominante que não muitas, se não a maioria das vezes não se põe dessa forma uma vez que está naturalizada na cultura contemporânea.
    Você nivela por baixo muitas questões. Um vegano que anda de avião ainda gera menos impactos do que um onívoro veja só.

    Os dados estão aí, a indústria agropecuária poluí mais do que todos os transportes do mundo, isso mesmo, todos inclusive avião. Veganos sensatos buscam saber da origem das coisas e claro que incluem trabalho escravo nesse boicote, não faria sentido se não.

    Você acusa de raso a questão vegana, mas acontece que a conclusão do seu texto é paradoxal, tendo em vista que uma das melhores táticas para reduzir a tal da “pegada ecológica” é justamente, mas não só, a aderência ao veganismo associada a correntes de pensamentos anti-consumistas.

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