Ignorantes, idiotas e babacas

capitalismo-e-fila

Antes de começar esse post, já aviso logo, vou ser um pouco babaca – ou talvez apenas idiota. Vocês decidem após a leitura. O fato é que pretendo aqui categorizar pessoas e isso requer algum grau de arrogância e prepotência, características predominantes na idiotice e na babaquice. Mas visto a carapuça sem maiores reservas, pois sei que pego emprestado essa posição com a licença poética que um blog me permite, e também por que eu acho que sou um cara legal (todo mundo acha né?), e isso vocês também podem decidir lendo outras coisas que escrevo aqui ou se me conhecem pessoalmente. Já aviso também, caso o único texto lido meu seja esse, e a licença poética não for ofertada de bom grado pelo leitor, é possível que a impressão fique: “esse Christian é um babaca”. Enfim, esse é o risco que vou correr. Nem Jesus agradou a todos.

Pois bem, vamos ao que interessa. Me proponho aqui a fazer algo que provavelmente que nunca vi escrito de forma sistemática. Ignorante, idiota e babaca são termos usados por todos em alguns (vários) momentos da vida quando queremos xingar alguém ou simplesmente classificar pessoas devido às suas ações e comportamentos. Nada de errado até aqui. Somos humanos, humanos julgam, o tempo todo – com palavras, adjetivos, fazem parte da linguagem e de nosso cotidiano.

Mas quero tentar entender melhor e tentar classificar direito as coisas. Pra quê? Por que sim. (viu? fui idiota).

Claro que vou me focar aqui na civilidade e respeito entre as pessoas pra tentar classificar esses três tipos de pessoas, ou melhor de atitudes, estados de espírito. E não custa salientar que nada disso é genético e ninguém está preso a uma dessas definições do nascimento à morte. Todos nós estamos sujeitos a ignorância, idiotice e babaquice por nossas vidas. O problema está em ficar preso muito tempo numa delas, ou pior, “passar de fase”, de ignorante pra idiota, e de idiota pra babaca.

Os critérios que vou utilizar na classificação são: preocupação com o outro, atenção e intenção. São esses os três ingredientes, que misturados nas devidas proporções, fazem de uma pessoa um gente boa, um imbecil ou um filho da puta. Possivelmente tudo no mesmo dia. Mas vamos voltar aos nossos três termos escolhidos a dedo pra essa análise, pra não perder o rumo.

Imaginem que todas as ações reprováveis, do ponto de vista da civilidade básica, poderia ser dividida entre: ignorância, idiotice e babaquice. Apliquem inicialmente o critério da intenção. Nesse sentido, teríamos claramente uma progressão iniciando no ignorante e terminando no babaca, pois o que ignora, sequer sabe que está fazendo algo errado, enquanto o babaca não só sabe, como o faz por prazer ou sei lá por quais motivações de sua instabilidade emocional. Ou seja, o babaca é um idiota de propósito!

Agora visualizem um gringo, desavisado, turistando por aí. É perfeitamente possível que, por desconhecer algumas das regras de conduta e costumes locais, ele cometa alguma gafe, ou se porte de maneira indevida. A isso classificamos – inicialmente – como ignorância. Uma segunda incidência do mesmo erro já fica estranho, ou um sequência de diferentes gafes também. Invocamos então o outro critério: a atenção. Se o cara vacila o tempo todo, provavelmente é um idiota. Está mais preocupado em tirar foto de tudo que se mexe do que em tentar entender e respeitar as regras de convívio do local onde se encontra.

Os dois critérios, da atenção e da intenção, são misturados com o terceiro, a preocupação com o outro, para podermos determinar uma ação como sendo mera ignorância, idiotice ou babaquice. Nem sempre nos é possível quantificar esses critérios apenas pelas atitudes de pessoas a nossa volta, mas mesmo assim estamos sempre prontos a xingá-los com o termo que achamos mais apropriado. Em outras situações, resta pouca dúvida. Vamos a alguns exemplos:

– ficar parado à esquerda em escadas rolantes – um bom exemplo que torna difícil saber se houve ignorância ou idiotice. Somos levados sempre a pensar no pior caso, especialmente quando estamos com pressa.

– furar fila: no mínimo idiota, mais provavelmente babaca

– proferir a frase “Você sabe quem está falando?”: ultra-babaca

– correr ou andar de bike na contramão em ciclovia: idiota

– estacionar carro na ciclovia: idiota treinando pra ser babaca

– não ceder o lugar aos mais necessitados em transporte público: ignorância, idiotice ou babaquice pura (o próximo parágrafo ajudará a determinar)

– trafegar pelo acostamento: babaca

Uma boa forma de identificar se uma atitude indevida foi fruto de simples ignorância é observar a reação da pessoa ao ser notificada. Se ela se sentir envergonhada e se desculpar, muito provavelmente foi ignorância, mas pode também ser um lapso de pura idiotice, ou até babaquice, se a pessoa se recusar em aceitar o erro. E aqui entra o lance do critério da atenção, que mencionei no exemplo do turista. Ninguém é obrigado a nascer sabendo as regras de civilidade de um dado local. Você as aprende com seus pais e na marra, vivendo em sociedade e descobrindo o que pode e o que não pode, muitas vezes em situações embaraçosas as quais estaremos sempre sujeitos e que precisamos saber como lidar. Se você é educado para ter atenção (ser consciente) e observar a necessidade das pessoas a sua volta (dois critérios consolidados aqui), seus episódios de quebra da civilidade ficarão sempre no reino da ignorância, e estará sempre aberto a aprender com eles. Se a preocupação com o outro estiver em baixa (devido a alguma ideologia que segregue, ou ao impacto de alguma desigualdade, por exemplo) ou a atenção não tá nas melhores (e aqui as causas são muito mais diversas: de problemas de saúde física e mental, pura distração, euforia, tumulto, medo, etc) – dificilmente as regras não escritas da sociedade terão o impacto necessário para que aquela reação de “me desculpe” sincero ocorram, gerando um comportamento idiota.

Nos exemplos acima, eu classifiquei conforme a minha visão de mundo. O ciclista na contramão por exemplo, eu acho que é visto com bastante complacência (ao menos no RJ), pois nunca vi nenhum ser repreendido. Mas não consigo classificar como pura ignorância, pois isso ia requerer uma falta de atenção tamanha (todo mundo vindo na direção dele, e todas as indicações visuais invertidas), que nem uma criança seria desculpada – pra mim já beira a idiotice. Não que a pessoa seja, de fato, um idiota, só por isso. Claro que não. Mas naquele momento, está sendo um, por pura falta de atenção. Atenção essa que, quando muito em falta, pode o levar a atitudes muito mais reprováveis.

Todos podem ser ignorantes sob vários aspectos da civilidade (menos e menos a medida que amadurecem, é claro), e alguns episódios de idiotice são desculpáveis. Babaquice nunca é, nunca. Só pra deixar isso claro, tive que escrever esse testamento. =)

O casamento inglório do merecimento com o consumo

Em inglês existe uma palavra que não tem uma tradução muito boa em português, e que faria o entendimento do título (e talvez do texto) um pouco mais fácil. A palavra é entitlement, que poderia ser traduzida como a outra que escolhi: merecimento. Mas não é exatamente isso, pois merecimento carrega um sentido de mérito, e o mérito pode ser real ou percebido. Não vou entrar na discussão da famigerada meritocracia, no sentido neoliberal da coisa, pois isso já fiz em outro texto. O fato é que o mérito nem sempre é o que parece ser, logo o real merecimento pode muito bem ser uma fantasia. E o entitlement ilustra bem isso, pois a palavra vem, claramente, de “title” (título), ou seja denota um merecimento mais no sentido de direito adquirido, algo que você merece apenas por que merece, por que seu pai mereceu, seu avô antes dele, etc. Merece por quem você é, por quem seu pai é, pela posição que você ocupa, pelo seu saldo no banco, o carro que dirige, enfim – você já entendeu, mérito passa longe.

Tem uma palavra em português pra isso? Se tiver, manda aí nos comentários que eu mudo esse primeiro parágrafo e reescrevo o texto. Pra resumir bem o que eu desejo ilustrar como merecimento, a melhor frase que me vem à cabeça é “você sabe com quem está falando?”. E eu gostaria de explorar nesse texto o quanto esse conceito, que não é nada novo, está diretamente ligado a um dos maiores cânceres que assolam nosso planeta hoje, que em comparação, é bastante novo: o consumismo.

A coisa de uns 15 anos atrás, logo depois que saí da faculdade e consegui um emprego razoavelmente bem pago (muito bem pago para padrões brasileiros), eu escrevi um texto com um título bem idiota “O dinheiro, o poder e o foda-se”. Pois bem, naquela época eu já farejava algo de errado com essa coisa de ter mais dinheiro do que realmente é necessário para viver e as consequências desastrosas que isso poderia ter em nossas escolhas. Mas não soube muito bem elaborar meus pensamentos – sendo totalmente sincero, naquela época eu escrevia muito mal, espero ter melhorado.

O consumo não é algo novo. Existe desde que inventaram o dinheiro ou até antes disso. Mas nunca foi um real problema. O consumismo, ao contrário, é um fenômeno relativamente recente (pós-Revolução Industrial) pois é totalmente fabricado e meticulosamente planejado. De repente me caiu a ficha de onde a porcaria do merecimento cai como uma luva para se tornar um feedback positivo no processo e ajudar a colocar um ismo nefasto no consumo.

O consumismo pode ser resumido em uma única brilhante frase, do Tyler Durden, em Clube da Luta: “compramos coisas que não precisamos, com dinheiro que não temos, para impressionar pessoas das quais não gostamos”.

Acho que não preciso perder meu tempo aqui falando em como o consumismo é uma maluquice que não se sustenta, mas que mesmo assim, tem um apelo tão grande em todos nós, mesmo os que se consideram “livres” dele ou esclarecidos o suficiente para termos auto-controle. Tolinhos. Somos todos vítimas. Quem nunca se viu numa situação de compra por impulso, de compra por causa de marca, de status, de comprar mais do que precisa, de gastar muito mais do que o necessário, etc.

E é aí que os dois pontos (o consumismo e o entitlement) se encaixam, por que é exatamente isso o que eles, os artífices do mercado global, desejam. Associar trabalho, dinheiro, merecimento e consumo. Incutir nas mentes de todas as pessoas que essas coisas são tão naturalmente conectadas como prótons e elétrons. Que não tem nada de artificial e orquestrado na dinâmica do consumismo ao associar a compra de produtos com o quanto você trabalha, quanto dinheiro você tem, e o quanto você “merece” aquelas coisas.

Mas vamos descer um pouco da nave espacial e pousar um pouco em terra firme aqui: você não merece porra nenhuma! Só por que você trabalhou algumas horas a mais durante um mês e ganhou uma graninha extra você “merece” comprar aquela roupa ridiculamente cara que você sabe que não vale um décimo, ou comprar um telefone novo quando o atual tá perfeito e você sequer sabe o que vai fazer com o antigo? Não, você não merece. Suas escolhas tem impacto no planeta e em vidas que são exploradas, e o seu entitlment é usado como cortina de fumaça pra esconder esses “detalhes”. Você não merece porra nenhuma, repito, muito menos ainda você “tem o direito” (pra mudar um pouquinho) de parar o seu carro na rua só por que você tem dinheiro suficiente pra pagar a multa quinhentas vezes.

Mas tudo a nossa volta, todo o marketing, boa parte do pensamento ocidental (especialmente da direita, muito influenciado também por algumas religiões), centenas de livros e teorias econômicas vão te fazer acreditar que sim, que você merece – que você é especial no grande jogo do capitalismo. Você venceu! E aí você vai lá se acha “merecedor” dos espólios, das explorações, das inovações, seja lá quanto custem (para o planeta). E quanto mais você tem, mais gasta, mais precisa ganhar dinheiro, pra merecer ainda mais, e de repente o privilégio passa a ser não mais uma coisa distante, que você leu e viu em filmes – até o dia que você se transforma naquele babaca que diz “sabe com quem você tá falando”?

E todo mundo odeia aquele babaca. Acho que até ele se odeia um pouquinho, é muito insegurança numa pessoa pra ele chegar nesse nível de ter que apelar pro papai quando a coisa esquenta. Repetindo, essa coisa do entitlement e do privilégio são tão antigas quanto o acúmulo de sacos de grãos. Uns tem, outros não. Não é que “sempre foi assim” (não foi, estude um pouquinho) – mas a coisa é velha, mais velha que a própria história. Agora o consumismo não é tão antigo e estabelecido assim, e já se apropriou do conceito de merecimento pra se justificar, se reinventar e crescer – e pelo visto funciona bem, né?

Quem nunca justificou um surto consumista com “eu mereço”?