O casamento inglório do merecimento com o consumo

Share

Em inglês existe uma palavra que não tem uma tradução muito boa em português, e que faria o entendimento do título (e talvez do texto) um pouco mais fácil. A palavra é entitlement, que poderia ser traduzida como a outra que escolhi: merecimento. Mas não é exatamente isso, pois merecimento carrega um sentido de mérito, e o mérito pode ser real ou percebido. Não vou entrar na discussão da famigerada meritocracia, no sentido neoliberal da coisa, pois isso já fiz em outro texto. O fato é que o mérito nem sempre é o que parece ser, logo o real merecimento pode muito bem ser uma fantasia. E o entitlement ilustra bem isso, pois a palavra vem, claramente, de “title” (título), ou seja denota um merecimento mais no sentido de direito adquirido, algo que você merece apenas por que merece, por que seu pai mereceu, seu avô antes dele, etc. Merece por quem você é, por quem seu pai é, pela posição que você ocupa, pelo seu saldo no banco, o carro que dirige, enfim – você já entendeu, mérito passa longe.

Tem uma palavra em português pra isso? Se tiver, manda aí nos comentários que eu mudo esse primeiro parágrafo e reescrevo o texto. Pra resumir bem o que eu desejo ilustrar como merecimento, a melhor frase que me vem à cabeça é “você sabe com quem está falando?”. E eu gostaria de explorar nesse texto o quanto esse conceito, que não é nada novo, está diretamente ligado a um dos maiores cânceres que assolam nosso planeta hoje, que em comparação, é bastante novo: o consumismo.

A coisa de uns 15 anos atrás, logo depois que saí da faculdade e consegui um emprego razoavelmente bem pago (muito bem pago para padrões brasileiros), eu escrevi um texto com um título bem idiota “O dinheiro, o poder e o foda-se”. Pois bem, naquela época eu já farejava algo de errado com essa coisa de ter mais dinheiro do que realmente é necessário para viver e as consequências desastrosas que isso poderia ter em nossas escolhas. Mas não soube muito bem elaborar meus pensamentos – sendo totalmente sincero, naquela época eu escrevia muito mal, espero ter melhorado.

O consumo não é algo novo. Existe desde que inventaram o dinheiro ou até antes disso. Mas nunca foi um real problema. O consumismo, ao contrário, é um fenômeno relativamente recente (pós-Revolução Industrial) pois é totalmente fabricado e meticulosamente planejado. De repente me caiu a ficha de onde a porcaria do merecimento cai como uma luva para se tornar um feedback positivo no processo e ajudar a colocar um ismo nefasto no consumo.

O consumismo pode ser resumido em uma única brilhante frase, do Tyler Durden, em Clube da Luta: “compramos coisas que não precisamos, com dinheiro que não temos, para impressionar pessoas das quais não gostamos”.

Acho que não preciso perder meu tempo aqui falando em como o consumismo é uma maluquice que não se sustenta, mas que mesmo assim, tem um apelo tão grande em todos nós, mesmo os que se consideram “livres” dele ou esclarecidos o suficiente para termos auto-controle. Tolinhos. Somos todos vítimas. Quem nunca se viu numa situação de compra por impulso, de compra por causa de marca, de status, de comprar mais do que precisa, de gastar muito mais do que o necessário, etc.

E é aí que os dois pontos (o consumismo e o entitlement) se encaixam, por que é exatamente isso o que eles, os artífices do mercado global, desejam. Associar trabalho, dinheiro, merecimento e consumo. Incutir nas mentes de todas as pessoas que essas coisas são tão naturalmente conectadas como prótons e elétrons. Que não tem nada de artificial e orquestrado na dinâmica do consumismo ao associar a compra de produtos com o quanto você trabalha, quanto dinheiro você tem, e o quanto você “merece” aquelas coisas.

Mas vamos descer um pouco da nave espacial e pousar um pouco em terra firme aqui: você não merece porra nenhuma! Só por que você trabalhou algumas horas a mais durante um mês e ganhou uma graninha extra você “merece” comprar aquela roupa ridiculamente cara que você sabe que não vale um décimo, ou comprar um telefone novo quando o atual tá perfeito e você sequer sabe o que vai fazer com o antigo? Não, você não merece. Suas escolhas tem impacto no planeta e em vidas que são exploradas, e o seu entitlment é usado como cortina de fumaça pra esconder esses “detalhes”. Você não merece porra nenhuma, repito, muito menos ainda você “tem o direito” (pra mudar um pouquinho) de parar o seu carro na rua só por que você tem dinheiro suficiente pra pagar a multa quinhentas vezes.

Mas tudo a nossa volta, todo o marketing, boa parte do pensamento ocidental (especialmente da direita, muito influenciado também por algumas religiões), centenas de livros e teorias econômicas vão te fazer acreditar que sim, que você merece – que você é especial no grande jogo do capitalismo. Você venceu! E aí você vai lá se acha “merecedor” dos espólios, das explorações, das inovações, seja lá quanto custem (para o planeta). E quanto mais você tem, mais gasta, mais precisa ganhar dinheiro, pra merecer ainda mais, e de repente o privilégio passa a ser não mais uma coisa distante, que você leu e viu em filmes – até o dia que você se transforma naquele babaca que diz “sabe com quem você tá falando”?

E todo mundo odeia aquele babaca. Acho que até ele se odeia um pouquinho, é muito insegurança numa pessoa pra ele chegar nesse nível de ter que apelar pro papai quando a coisa esquenta. Repetindo, essa coisa do entitlement e do privilégio são tão antigas quanto o acúmulo de sacos de grãos. Uns tem, outros não. Não é que “sempre foi assim” (não foi, estude um pouquinho) – mas a coisa é velha, mais velha que a própria história. Agora o consumismo não é tão antigo e estabelecido assim, e já se apropriou do conceito de merecimento pra se justificar, se reinventar e crescer – e pelo visto funciona bem, né?

Quem nunca justificou um surto consumista com “eu mereço”?

2 comentários sobre “O casamento inglório do merecimento com o consumo

  1. Acho que a pergunta que todos nós devemos fazer vai além do “Eu mereço isso?”, a pergunta crucial é “Eu preciso disso?”. Entendo o que vc quis dizer no texto, sim, todos nós já comemos num restaurante caro ou compramos uma roupa que não precisávamos tanto com essa justificativa “Eu mereço!”. Mas no fundo, devemos realmente mergulhar na questão se precisamos e, deste ponto, só teremos dois desfechos possíveis: se sim, significa que nossa vida está de certa forma vazia e precisa ser preenchida por algum objeto novo e provavelmete supérfluo; se não, o que importa merecer ou não?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *