Ninguém nasce bandido – nem deputado

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meritEm tempos de Bolsonaro, onde as frases “tá com pena, leva pra casa”, “bandido bom é bandido morto” e “ninguém nasce bandido” são cada vez mais comuns – e mais aceitas – em rodas de conversa e nos noticiários, vale a pena aproveitar o gancho pra tentar entender a falha lógica desses argumentos, especialmente quando temos um contraponto bastante oportuno nesse caso. Tudo no final remete a um mesmo conceito incrivelmente falho que não é suportado pela ciência e muito menos pela realidade: que somos nós os únicos responsáveis por aquilo que nos tornamos. A velha balela do mérito, da opção, e de que “ninguém nasce bandido”… escolhe ser, pelo visto.

Que ninguém nasce bandido, é óbvio. É uma coisa incrivelmente estúpida de se afirmar, ainda mais quando usada na tentavia de provar algo igualmente fantasioso como a meritocracia. A ideia de que a genética tem tamanho poder sobre o nosso destino, e que já dentro do útero estamos determinados na vida a nos tornamos gênios, idiotas, bandidos ou santos é tão simplista e ultrapassada como dizer que somos produtos do meio, que “O homem é bom” como dizia Rousseau, que somos todos naturalmente gentis, e é o meio que nos estraga.

Hoje (aliás, já tem tempo – mas Bolsonaros e amigos não estudam, né? Não da pra esperar muito) as ciências sociais, os estudos mais profundos da neurociência e comportamento tem chegado cada vez mais a conclusão de que não é nem uma coisa, nem outra, mas uma combinação de ambas, não sabendo ao certo quanto de cada. Exemplos clássicos disso são incontáveis relatos de filhos adotivos que mesmo tendo recebido a melhor das criações em uma família estável, apresentam distúrbios de comportamento e chegam a ser violentos com seus pais de criação. Não faltam também relatos de gêmeos criados separadamente e que se tornam pessoas incrivelmente diferentes – ou, mais surpreendente ainda, incrivelmente parecidos apesar de toda a sorte de experiências diametralmente opostas.

O que se deseja argumentar aqui é que uma frase como essa – ninguém nasce bandido – jogada assim numa argumentação sobre direitos humanos, é incrivelmente vazia e só tem um objetivo: jogar toda a culpa de um ato violento no indivíduo. E ao fazer isso, eximir completamente a sociedade e o Estado (composto também de pessoas) de qualquer responsabilidade. Ter nascido na favela, em meio a zonas de conflito, onde o Estado não chega, não tem qualquer efeito sobre a decisão de um indivíduo de se tornar um criminoso. Claro.

Mas porque eu estou falando do Bolsonaro, e o que deputados tem a ver com isso? Bom, é simples. Por que quem defende essa coisa da meritocracia, precisa defendê-la a qualquer custo, pois toda sua filosofia de vida se baseia nisso, é uma via de mão dupla. Se um bandido é bandido apenas porque quer, e sua situação miserável é culpa sua, aqueles que vencem na vida, e se tornam deputados, também, pela mesma regra, são os únicos responsáveis por isso. A socidade não os ajudou em nada, muito menos o Estado. Ahã.

Vejamos. Bolsonaro é deputado federal, o mais votado no RJ. Seus filhos são: um verador, um deputado estadual e um federal. Devemos mesmo acreditar que o patriarca teve zero influência tanto na decisão de seus pimpolhos de seguirem seus passos, como em garantir suas devidas eleições? O quão cínico você precisa ser para fingir que acredita nisso?

Vamos colocar as coisas em perspectiva. Nasce Ricardo, no Complexo do Alemão. O pai é pedreiro e a mãe faxineira. Será que eles vão “botar pilha” pro filho se candidatar a Deputado? No Leblon, nasce Eduardo, filho do Bolsonaro Master. Estuda em escola particular e desde sempre escuta histórias do pai sobre ser político e querer transformar o Brasil num local livre de gays e feministas. Qual a chance do Eduardo assaltar um banco e do Ricardo sequer ter a chance de uma campanha política? Vamos ser honestos. A chance existe pra ambos os casos. Nem todo bandido é pobre e negro. Nem todo deputado é bem nascido e filho de político. Mas… e vamos lá, honestos, ok? É uma chance pequena, bem pequena – e não é achismo, são fatos, dados, estatísticas, disponíveis pra quem quiser ver. E aí que os meritocracia-fan-boys piram. Na cabeça deles, todos, absolutamente todos, tem a mesma chance. Se todos tem a mesma chance, e a família feliz do Bolsonaro que está toda sorrisos encaminhados como políticos, os pretos e pobres nascidos na favela poderiam estar lá também. É só querer, estudar, trabalhar “duro”, tudo está ao alcance. O fato de que onde moram não tem hospital, posto de saúde, que a escola vive em greve e não tem professor, que volta e meia não pode ir pra casa por causa de tiroteio – isso é tudo frescura, são “obstáculos” que todos precisam enfrentar. Os Bolsoninhos tiveram obstáculos também, né? Claro, ninguém tem a vida garantida.

É só uma coincidência que comunidades onde o Estado não chega são dominadas por traficantes e milícias, e que a grande maioria dos criminosos que estampam as páginas de jornal saem dessas comunidades, e que a maioria é preto e, obviamente, pobre. É coincidência também que o Paladino do Machismo tenha uma família inteira de Mini-Mes.

Todo mundo escolheu sozinho, sem influências, a carreira política, uma puta coincidência, e todo mundo correu atrás do zero, sem nenhuma ajuda do pai. Inclusive todos decidiram estudar em escola pública, trabalhar desde os 14 pra pagar o cursinho e garantir vagas em universidade públicas, e recorreram somente ao SUS quando precisavam de assistência médica. Ah, e quando fizeram merda (afinal todo adolescente faz merda) tomaram tapa de policial, dormiram na delegacia, e nunca ligaram pro papi pra pedir ajuda.

Ia ser legal se toda essa última parte fosse (ao menos um pouquinho) verdade né? Ia acabar com meu argumento. Pena que não é.

3 comentários sobre “Ninguém nasce bandido – nem deputado

  1. Concordo com seu ponto de vista. A vida é realmente mais “vivivel” quando se tem uma posição social de relevância, o que certamente influência na vida e criação das próximas gerações, porem, no sistema capitalista é possível crescer e conquistar seu espaço de maneira, muitas vezes, digna. Infelizmente acontece que o egoismo humano toma conta do ser, e esses deputados se acostumam a achar que tais atos de egocentrismo são normais.

  2. Há verdade nos dois lados.O mundo nunca foi bonzinho para os menos favorecidos, oprimidos e escravizados.Mas sempre existiram pessoas que apesar das dificuldades, venceram o mundo e mostraram que não é porque nasceram pobres que vão morrer pobres e que só vamos melhorar de vida se o governo nos der a oportunidade. É verdade que podemos criar nossas oportunidades.A maioria das pessoas que só melhoram de vida porque pegam uma carona na ascensão de amigos políticos, esses são os verdadeiros miseráveis.

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