Trinta reais

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Villagers carry rice and other humanitarian aids off a CH-53E Super Stallion helicopter, donated by the Samaritan's Purse International Aid, coordinated by US AID, Friday Oct. 9, 2009 in Koto Tinngi, north of Padang, Indonesia. The massive relief effort following Indonesia's deadly earthquake received a boost Friday when U.S. Navy ships and helicopters arrived to distribute aid and help thousands of struggling survivors. (AP Photo/Wong Maye-E)

Quando eu era criança, mais ou menos uns 10 anos de idade, lembro-me bem da minha mãe se irritando com umas pessoas que apareciam todo fim de semana lá em casa para cobrar algo. Depois de um tempo consegui entender que se tratava de uma instituição de caridade, da qual ela já havia se desfiliado, mas que continuavam insistindo em obter as doações. Minha mãe chegou a se emputecer de verdade e deu uns esporros bem duros em alguns dos “cobradores” (não é uma boa palavra, é?) que iam lá. Depois de um tempo, desistiram. Isso tudo deixou uma impressão em mim, bem ruim, desse lance todo de caridade. Se me recordo, era a LBV. Muitos anos depois, já na era Collor, ocorreu o escândalo com a primeira dama, Rosane, no qual ela foi acusada de desvio de verbas, da LBA. Como as siglas são parecidas, eu meio que juntei tudo. E aí que a impressão da coisa toda ficou ruim mesmo.

Mas já não sou criança há bastante tempo, e hoje a expressão “caridade” não carrega nenhuma das conotações negativas de alguém que sequer sabia direito o que estava julgando com 10 anos de idade. Mas ainda assim, convenhamos, vivemos no país da corrupção, e por aqui, não confiamos muito nessas instituições. Criança Esperança? Alo? Pois é. Mundo afora é um “mercado” que movimento muitos bilhões anualmente e isso deixa muita gente com a pulga atrás da orelha – totalmente compreensível.

De uns anos pra cá, porém, eu tenho mudado um pouco de perspectiva em relação a isso, e acho que a internet tem tido um papel fundamental nessa mudança. Hoje em dia, não precisamos simplesmente depositar cegamente o dinheiro na conta de uma instituição e esperar pelo melhor. Temos um ferramental investigativo gigantesco ao nosso dispor. Basta querer e não se render a racionalismos hipócritas pra não fazer porra nenhuma. Eu tenho feito algumas doações pontuais (coisa de 10, 15 dólares) a algumas instituições nas quais realmente acredito, por exemplo: Wikipedia, The Story of Stuff, HSI, AMURT, Uniceff (na ocasião do tsunami na Indonésia), e talvez outras que não estou lembrando. Mais recentemente, tenho apoiado alguns projetos de crowdsourcing.

Mas eu ainda carregava uma certa resistência com doações recorrentes, que são as mais significativas para qualquer instituição que dependa de doações pra viver. E acho que aí nessa parte deve remeter a minha infância e imagens da minha mãe irritada. Isso somado àquela desconfiança de que o dinheiro possa estar sendo desviado e eu sendo feito de otário, uma vez por mês.

Eu não sei se tá rolando uma crise generalizada nas instituições de caridade (pelo menos aqui no Rio), mas eu tenho visto cada vez mais daquelas pessoas com coletes coloridos te abordando na rua e pedindo uma grana. Sinceramente, eu acho isso bem chato e inoportuno – mas, um mal necessário, e dos males o menor. Bem menor que deputado que rouba merenda, “mas não incomoda ninguém”. Ética seletiva é isso aí.

Enfim, de alguma forma esse enxame de pessoas no meu campo visual todos os dias (Unicef, Anistia Interncional, MSF, etc), me fez repensar um pouco essa minha resistência com a caridade recorrente. Por que não? Certamente não é uma questão financeira. Trinta reais não vão me fazer falta em um mês! Vou para um bar e em 2h gasto mais que o dobro disso sem esforço. É a corrupção? Sim, com certeza uma grande barreira.

Resolvi outro dia, por impulso, me filiar ao MSF (Médicos Sem Fronteiras) com uma doação mensal, de 30 Dilmas – antes mesmo de refletir sobre o assunto, como estou fazendo aqui agora. Sempre achei o trabalho desse pessoal fantástico e me pareceu que valia a pena. Mas e a corrupção? As vezes a gente precisa saber parar a mente cheia de preconceitos e respostas prontas pra tudo, pois ela pode ser a sua maior inimiga em realizar algo. Nesse caso a atitude é: foda-se a corrupção, é o preço que se paga. Ponto, ponto, não pense mais, se não você trava! Se você quer ajudar, você ajuda. Não tenho agora, nem nunca vou ter, um controle e garantia total sobre como o dinheiro doado vai ser usado; a chance de que algo seja desviado ou não usado exatamente como você desejaria, é grande. É um fato da vida. Dinheiro desperta o pior nas pessoas. Muita grana disponível, vão roubar, não adianta. Mas e aí? Então ninguém doa nada, e não ajuda ninguém, só por causa disso? Digamos que das minhas 30 pilas, 15 sejam desviadas (o que é uma estimativa totalmente surreal), e só metade chegue num país de África pra comprar água e remédio contra a malária. Não vale a pena? Sim, dá raiva de saber que tem gente safada, filha da puta, roubando dinheiro que deveria ajudar crianças. Mas e aí? Não doando dinheiro está ajudando exatamente como a acabar com essa corrupção? Nada, absolutamente nada!

Uma das racionalizações mais comuns que travam as pessoas em contribuir com uma instituição de caridade, é que é “melhor fazer o bem ali na esquina”. Encontre alguma instituição perto da sua casa e vá lá, você mesmo, levar arroz e feijão. Ótimo, faça isso! Mas o que no final acaba acontencendo? Você vai uma vez, vai duas. E depois não vai mais. E também não dá dinheiro por que não quer sustentar safado – o que é uma justificativa totalmente oquei. E aí você volta pra estaca zero de não ajudar ninguém, nunca. E depois você para completamente de pensar no assunto, o que é o pior.

Tô aqui fazendo propaganda da MSF? Se você acha isso, não leu o texto direito. Releia. Como eu falei, nada me garante que daqui a 6 meses eu descubra um escândalo bizarro envolvendo eles e me decepcione o suficiente e pare de doar. Mas escrevo esse texto aqui pra tentar fixar na minha cabeça que não dá pra tomar um (ou alguns) péssimo(s) exemplo(s) como justificativa pra parar de ajudar. É muito fácil cairmos nessa armadilha. Certamente não vale R$ 30, e pra quem não tem acesso a água limpa nunca, os R$ 15 que sobram depois da minha grana ser filtrada pela roubalheira, fazem toda a diferença do mundo.

Não, esse não é um texto definitivo pró-caridade e eu também não passei por uma epifania de altruismo. São 30 pratas só, não sou nenhum filantropo. Existem centenas de pontos que não foram discutidos aqui, e que podem gerar opiniões totalmente diversas, todas válidas, e possivelmente opostas a essa que acabei de expor. Nem todo mundo que não doa nada é automaticamente um babaca egoísta. E nem que doa automaticamente é uma ótima e generosa pessoa. Nada disso. Nada disso mesmo. Mas instituições de caridade são necessárias. E se você se sente inclinado a ajudar mas tem uma pulguinha atrás da orelha, como eu tive por muitos e muitos anos, talvez esse texto te faça repensar. E aí já são mais R$ 15. =)

7 comentários sobre “Trinta reais

  1. Sou Doador do MSF, mais se estou sendo vitima de charlatões eu não sei, mais a desconfiança é constante, pois nos tempos em que estamos vivendo, não da mais para acreditar nem em nós mesmos imagine confiar em uma instituição gigantesca como esta.
    Em fim, como viver é um risco, ser Doador também é um risco.

    1. Ola.bom dialogo.e realmente preciso ajudar.a muitas pessoas no mundo abençoadas com agrecividade,saude e inteligência.mas a varias que nao.sao totalmente dependentes.estenda a mao doe um pouco do que te sobra.com certeza vai fazer a diferença.

  2. Bom dia. Hoje, 22 de abril de 2018, sei lá porquê fiquei deveras interessada em ler algo sobre Médicos Sem Fronteira, precisando de incentivo para finalmente me decidir ajudar. Ai achei o seu texto, foi a gota d’água, lá vou eu fazer minha doação. Realmente fica difícil saber quanto será passado para ajudar as pessoas, porém, se esse pouco já ajudar será ótimo. Vou dar voto de confiança, afinal, acreditar é preciso.

  3. De pessoas como vocês é que não precisamos neste mundo… porque não investigam de verdade? Sabem como?
    Falou um cara que não sabe o esta a favor das guerras e o capitalismo.
    Sabem que msf é como um batalhão medico dos mercenários financiados pelo Ocidente … sabem que realizam abortos em países onde não é legal.. sabem que ensinam aos médicos como burlar as leis caso fossem pegos..
    Sabem que mentem com informes médicos sem eles estar no local..
    Sabem que eles acusam os governos “terroristas” de ataques com tóxicos ao povo só para Ocidente entrar no país com guerra e roubar os recursos deles..
    Sabem quem é o fundador da msf… a carreira dessa pessoa .. o que essa pessoa fez em Bósnia e Kosovo…
    Sabem porra nenhuma..

    1. Realmente não sabia nada disso.
      São acusações bem graves.
      Se você realmente quer ajudar, e não apenas esbravejar, gostaria de compartilhar algumas fontes?

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