A moralística do atraso

Pois bem, finalmente decidi escrever sobre esse assunto da maneira mais imparcial que consigo, afinal um mimimi sobre o tema eu já tenho. Não sei por que só as 37 anos de idade que eu cheguei a essa “conclusão”, mas o fato é que consegui identificar um abismo de entendimento entre as duas partes (os atrasados e os pontuais), especificamente quando o tema é investigado sobre uma ótica moralista. Nenhuma parte entende a outra e a vitimização é constante, o que não facilita o debate e não nos leva a evolução alguma.

Por mais que tente ser o mais imparcial possível, quando tratamos de aspectos morais é praticamente impossível ser um observador suficientemente distante e inerte; então se parecer que estou puxando a sardinha para o lado dos pontuais, bom, faz parte do desafio de dar uma de filósofo da moral utilizando como ferramenta uma mente altamente moralizada.

Antes de mais nada, acho que é interessante tentarmos olhar para o assunto de uma perspectiva totalmente objetiva, para que dessa forma possamos perceber uma coisa bem simples: horários existem para que as coisas funcionem da melhor maneira possível, e todos tiram proveito disso, atrasados e pontuais.

Imaginem um aeroporto: com sua enorme complexidade de processos, sistemas e fluxos de pessoas, funcionando como um organismo, non-stop. Se não houver, nesses processos e sistemas, uma preocupação com controle do tempo que para alguns mais relaxados poderia ser comparada a uma neurose, seria impossível manter os horários dos voos minimamente organizados. Se você levar em consideração que cada aeroporto está conectado à dezenas de outros ao redor do mundo, a complexidade desses sistemas e a preocupação com o horário necessária se torna ainda mais rígida. Mas mesmo assim, atrasos acontecem. Pode ser por causa de mau tempo, algum passageiro atrasou no embarque, ou simplesmente um pequena falha na enorme complexidade dos processos. E vamos combinar: ninguém gosta desses atrasos. Nem pontuais, nem atrasados. Se você atrasou pra sair de casa e pegar seu voo, e deu a “sorte” do voo atrasar em 1h, deu sorte, ótimo. Pontuais também gostam dessa sorte. Mas quando um voo atrasa 6h devido a uma sequencia de problemas que pode ter começado na noite anterior do outro lado do planeta, não é legal. Independente da causa (que raramente chegamos a conhecer), não é legal pra ninguém: nem pros funcionários, nem pros passageiros. O que me leva a uma simples conclusão que acredito que possa ser compartilhada por atrasados e pontuais: ninguém gosta de atraso. Ponto. Podemos concordar com isso? Ok, seguindo em frente.

Portanto, resumindo: de um ponto de vista puramente objetivo, podemos todos (atrasados e pontuais) concordar que atraso é ruim. Por indução lógica, a pontualidade (controles, eficiência de processos, sistemas a prova de falhas, punições para desvios, etc) é geralmente vista como boa e útil – para todos! O que coloquei em parênteses na pontualidade é importante ressaltar também, pois não se iludam, pontualidade não existe magicamente. Requer esforço, auto-avaliações e melhorias contínuas. Quase uma obsessão, da qual todos se beneficiam. Os trens da Europa não operam com precisão de minutos apenas por que os sistemas deles são otimizados, mas por que tudo funciona bem, e todas as pessoas envolvidas tem como o objetivo ser cada vez mais e mais pontuais e precisas. E nem sempre isso é agradável para os envolvidos. Não é exatamente divertido.

Mas (e aqui começa a parte polêmica) quando moralizamos o tema do atraso e da pontualidade, parece não haver um ponto em comum. Não existe mais o “para todos”. E não apenas na forma como a moralização do atraso é vista por cada um dos lados. O que ocorre na maioria dos casos é que um dos lados (os pontuais) ficam com toda a carga moral da questão, enquanto os atrasados tentam ver a questão sempre de forma objetiva, excluindo qualquer conotação ética. E isso é especialmente verdade quando o atraso sendo avaliado é um atraso social – ou seja, de um simples encontro entre pessoas ou grupos (um jantar, uma viagem, uma festa, uma mesa de bar, etc).

A cerca de um ano atrás eu fiz uma pergunta no Quora, indagando sobre o aspecto moral do atraso. Eu já sabia que seria uma pergunta que ia gerar reações diversas e algumas até ultra-defensivas, mas eu nunca imaginava que a polarização seria tanta. O que se pode perceber lá claramente é que os pontuais realmente acreditam que quem atrasa está errado, que não está dando o real valor ao tempo do outro, etc. E os atrasados, praticamente todos, evitaram completamente de avaliar seus comportamentos sob a ótica moral e falaram sobre responsabilidade, produtividade, etc. Não há ponto em comum. Como eu falei, os pontuais moralizam demais a questão, enquanto os atrasados moralizam de menos, quase nada.

O que falta para que seja possível conversar sobre isso objetivamente, sem mimimi, e sem cada um tentar ser a vítima é cada um ser mais honesto sobre a sua personalidade e a consequência de seus atos. Como não há tal coisa, cada lado acha que entende o outro, e por que ele é do jeito que é. Pontuais veem atrasados como pessoas enroladas e insensíveis. Atrasados veem pontuais como pessoas controladoras e chatas.

O fato é que todos sofrem. Pontualidade não é uma “virtude” legal de se ter. As desvantagens são enormes, especialmente se você deu o azar de nascer num lugar que dá pouco valor a isso (ex: Brasil). Está geralmente associada à ansiedade e pessimismo. Atrasados tendem a perceber o comportamento do pontual como facilitado pelos seus hábitos, por exemplo, de dormir e acordar cedo. Quando na verdade é o contrário: o fato de ser pontual é que o condiciona a ter seus comportamentos regrados. Pontuais, especialmente quando chateados com algum atraso, tendem a julgar o ocorrido de um ponto de vista primordialmente moral, “como pode a pessoa dar tão pouco valor ao meu tempo?”, e isso influencia seu julgamento da coisa como um todo, ignorando o fato que sua mente é tão completamente diferente da do atrasado (nesse aspecto específico) como comparar a visão de neoliberais e comunistas sobre a propriedade privada.

Pra piorar, o lado “prejudicado” da história quase sempre são os pontuais, logo eles serão quase sempre também os únicos a falar e reclamar disso. A única vez que li um texto realmente legal e bastante honesto (e engraçado) sobre um atrasado, e do que faz ele ser atrasado foi nesse blog. Se você for um atrasado e concordar com ele, comenta aí e vamos debater.

Mas existe algo além disso. E mais outros “algos” também que me fogem. O comportamento de grupo (herd mentality), a que somos todos sujeitos, de maneiras que nem percebemos, dificulta uma real aproximação maior entre os indivíduos de cada um dos grupos para que essas sutilezas venham à tona. Preferimos nos fazer de vítimas e culpar o outro, buscando validação dos nossos comportamentos no grupo a que pertencemos. Em cada sociedade a proporção entre os grupos é diferente, mas cada grupo é sempre grande o suficiente para ser possível buscar tal validação e conforto sobre seu posicionamento.

Para terminar, precisamos voltar um pouco ao aspecto objetivo da coisa. E já esclarecemos o fato de que atraso é ruim, certo? Então sob a ótica puramente objetiva da consequência das ações de cada um, o pontual, por mais que ele tenha lá suas questões internas e chatices, está “certo” na maioria das vezes quando o horário é a questão. Em sociedades atrasadas como a nossa, chegar atrasado é até esperado. Ninguém chega no exato horário combinado, e como ninguém quer ser o primeiro a chegar, colocam mais 30 minutos na mistura. Com isso, a cultura do atraso se fortalece e com ela a legitimação do atrasado – qualquer possibilidade de moralizar seu próprio comportamento vai pro ralo.

Precisamos equilibrar essa balança da carga moral do assunto “atraso”. É peso demais para alguns poucos pontuais carregarem.

Por que é tão difícil derrubar um político?

acm

Enquanto a população brasileira assiste impotente aos mandos e desmandos de Cunha no congresso, suas manobras pra atrapalhar tudo que pesa contra ele, alternamos sentimentos da mais pura revolta e de estupefação. Quando parece que “dessa vez vai”, o cara manda uma outra manobra e parece que sai fortalecido após cada ataque. Como pode?

“Como pode?” é uma pergunta que imagino que muitos brasileiros se fazem, cada vez com mais frequência, cada vez que o nome desse cara aparece na mídia, por que no fundo, esperam que a próxima vez que vissem seria “Cunha sofre a primeira derrota”. Mas nunca é. Como pode? O que faz desse cara tão protegido? Como pode se livrar assim de todas as acusações que pesam sobre ele? É difícil responder em termos práticos e concretos, ou seja, exatamente quem (e como) o está protegendo. Mas em termos mais gerais, não é nenhuma surpresa.

O jogo político é esse, sempre foi. Você me ajuda hoje, eu te ajudo amanhã. Sua empresa emprega meu filho, que eu ajudo a vetar aquela lei que aumenta a fiscalização do que quer que sua empresa faça. E tem muita parte dessas coisas, que sob um olhar ético são evidentemente repreensíveis, do ponto de vista legal são perfeitamente normais, como o financiamento privado de campanhas: o conflito de interesses oficializado.

A verdade dura e difícil de engolir é que Cunha é apenas a ponta do iceberg. É bom lembrar que ele foi democraticamente eleito por seus pares, colegas deputados. Ele não virou o babaca que ele é apenas quando assumiu o cargo de presidente, ele sempre foi – o histórico dele comprova isso. Quem votou nele, conhece bem. E das duas uma, ou tem rabo preso em alguma negociata ou jogo de interesses, ou meramente divide com ele posições ideológicas. Vamos ser bonzinhos e considerar que é metade em cada caso.

Outro problema é a quantidade enorme de burocracia e “regras especiais” que protegem todas as esferas do governo nesse país, regras essas que são uma vergonha internacional. Juízes são considerados intocáveis, nunca são julgados ou presos não importa a gravidade do crime. Deputados e senadores gozam de foro privilegiado e imunidade parlamentar, o que lhes garante uma “justiça especial”, ou seja, são julgados pelos seus pares. E seus pares, vamos combinar, não são flor que se cheire. Temos nesse momento um dos piores e mais conservadores congressos da história do país. Não é surpresa que que seja Cunha o seu presidente.

Quando vemos no noticiário que o prefeito fulano ou o vereador cicrano foi deposto e preso, podem ter certeza que isso nada tem a ver com o teor das acusações que pesam sobre ele. Se são provas concretas ou menos-concretas. O que vale é quantos de seus aliados no legislativo e no judiciário ainda estão com ele, e se estão dispostos a segurar o rojão. No caso de Cunha, de algo podemos ter certeza: seus tentáculos de influência vão muito longe, e seus “amigos” estão muito bem posicionados. Não é aquele papo simplista “se eu caio, cai todo mundo”. Ele estar ali, interessa a muitos, não apenas por medo de serem também acusados (afinal, gozarão de todas as benesses das proteções que já citei), mas por que muita sujeira depende que certas pessoas estejam em certos cargos.

Derrubar Cunha é uma obrigação do parlamento e do judiciário desse país, por razões primordialmente éticas. A permanência dele no cargo é uma afronta à democracia e à justiça. Não só pelas acusações (que são gravíssimas e muitas), que fosse apenas pelo seu comportamento ridículo e infantil enquanto presidente de um congresso, agindo como um dono da bola e claramente contra o interesse do país e do congresso. Mas nada disso importa, se essa mesma permanência for necessária para que certos projetos, certos esquemas e certos cargos sejam garantidos. Ética é para os fracos.

E não se enganem, se sai Cunha, entra outro. A população brasileira ficará feliz, mas o congresso não. Seu sucessor pode não ser tão competente e frio como ele, mas isso não quer dizer que será menos perigoso. Poderá ser um testa de ferro ou um mero fantoche. O jogo não muda e nem a democracia estará “salva”.

Se podemos ser otimistas e pensar que de um pulha como ele pode sair algo de bom, é que ele perdeu tanto a linha em seus mandos e desmandos que talvez daí a oposição se fortaleça e consiga apoio pra mudar algumas dessas regras que protegem políticos e torna tão difícil tirar políticos como ele de seus cargos mais rapidamente.

E o que aquela foto do ACM está fazendo nesse post? Estou cansado da cara feia do Cunha. Coloquei outro político nojento que ocupou o cargo muito mais tempo do que devia no lugar. Só pra dar uma variada e lembrar que esse problema não é nem um pouco novo.