Por que é tão difícil derrubar um político?

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Enquanto a população brasileira assiste impotente aos mandos e desmandos de Cunha no congresso, suas manobras pra atrapalhar tudo que pesa contra ele, alternamos sentimentos da mais pura revolta e de estupefação. Quando parece que “dessa vez vai”, o cara manda uma outra manobra e parece que sai fortalecido após cada ataque. Como pode?

“Como pode?” é uma pergunta que imagino que muitos brasileiros se fazem, cada vez com mais frequência, cada vez que o nome desse cara aparece na mídia, por que no fundo, esperam que a próxima vez que vissem seria “Cunha sofre a primeira derrota”. Mas nunca é. Como pode? O que faz desse cara tão protegido? Como pode se livrar assim de todas as acusações que pesam sobre ele? É difícil responder em termos práticos e concretos, ou seja, exatamente quem (e como) o está protegendo. Mas em termos mais gerais, não é nenhuma surpresa.

O jogo político é esse, sempre foi. Você me ajuda hoje, eu te ajudo amanhã. Sua empresa emprega meu filho, que eu ajudo a vetar aquela lei que aumenta a fiscalização do que quer que sua empresa faça. E tem muita parte dessas coisas, que sob um olhar ético são evidentemente repreensíveis, do ponto de vista legal são perfeitamente normais, como o financiamento privado de campanhas: o conflito de interesses oficializado.

A verdade dura e difícil de engolir é que Cunha é apenas a ponta do iceberg. É bom lembrar que ele foi democraticamente eleito por seus pares, colegas deputados. Ele não virou o babaca que ele é apenas quando assumiu o cargo de presidente, ele sempre foi – o histórico dele comprova isso. Quem votou nele, conhece bem. E das duas uma, ou tem rabo preso em alguma negociata ou jogo de interesses, ou meramente divide com ele posições ideológicas. Vamos ser bonzinhos e considerar que é metade em cada caso.

Outro problema é a quantidade enorme de burocracia e “regras especiais” que protegem todas as esferas do governo nesse país, regras essas que são uma vergonha internacional. Juízes são considerados intocáveis, nunca são julgados ou presos não importa a gravidade do crime. Deputados e senadores gozam de foro privilegiado e imunidade parlamentar, o que lhes garante uma “justiça especial”, ou seja, são julgados pelos seus pares. E seus pares, vamos combinar, não são flor que se cheire. Temos nesse momento um dos piores e mais conservadores congressos da história do país. Não é surpresa que que seja Cunha o seu presidente.

Quando vemos no noticiário que o prefeito fulano ou o vereador cicrano foi deposto e preso, podem ter certeza que isso nada tem a ver com o teor das acusações que pesam sobre ele. Se são provas concretas ou menos-concretas. O que vale é quantos de seus aliados no legislativo e no judiciário ainda estão com ele, e se estão dispostos a segurar o rojão. No caso de Cunha, de algo podemos ter certeza: seus tentáculos de influência vão muito longe, e seus “amigos” estão muito bem posicionados. Não é aquele papo simplista “se eu caio, cai todo mundo”. Ele estar ali, interessa a muitos, não apenas por medo de serem também acusados (afinal, gozarão de todas as benesses das proteções que já citei), mas por que muita sujeira depende que certas pessoas estejam em certos cargos.

Derrubar Cunha é uma obrigação do parlamento e do judiciário desse país, por razões primordialmente éticas. A permanência dele no cargo é uma afronta à democracia e à justiça. Não só pelas acusações (que são gravíssimas e muitas), que fosse apenas pelo seu comportamento ridículo e infantil enquanto presidente de um congresso, agindo como um dono da bola e claramente contra o interesse do país e do congresso. Mas nada disso importa, se essa mesma permanência for necessária para que certos projetos, certos esquemas e certos cargos sejam garantidos. Ética é para os fracos.

E não se enganem, se sai Cunha, entra outro. A população brasileira ficará feliz, mas o congresso não. Seu sucessor pode não ser tão competente e frio como ele, mas isso não quer dizer que será menos perigoso. Poderá ser um testa de ferro ou um mero fantoche. O jogo não muda e nem a democracia estará “salva”.

Se podemos ser otimistas e pensar que de um pulha como ele pode sair algo de bom, é que ele perdeu tanto a linha em seus mandos e desmandos que talvez daí a oposição se fortaleça e consiga apoio pra mudar algumas dessas regras que protegem políticos e torna tão difícil tirar políticos como ele de seus cargos mais rapidamente.

E o que aquela foto do ACM está fazendo nesse post? Estou cansado da cara feia do Cunha. Coloquei outro político nojento que ocupou o cargo muito mais tempo do que devia no lugar. Só pra dar uma variada e lembrar que esse problema não é nem um pouco novo.

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