A desigualdade de que ninguém fala

Share

desigualdade econômica

Estamos sempre ouvindo falar sobre desigualdade social, e esse conceito já faz meio que parte da nossa psique, do inconsciente coletivo do brasileiro, digamos assim – até por que, somos um dos países mais desiguais do planeta. Todo mundo sente na pele o resultado dessa desigulade mesmo sem saber exatamente dar um nome a isso, ou saber as suas principais causas. Mas algo me diz que, mesmo entre os “entendidos”, esse conceito tão amplamente debatido e trazido à tona quando falamos de políticas públicas, não está contando a história inteira. E existe um motivo pra isso.

Vou fazer uma pergunta e quero que você pause e responda com a primeira coisa que vier na sua cabeça: o que você entende por desigualdade econômica? Naturalmente a desigualdade econômica é o que se percebe em qualquer sociedade, a divisão entre os muito ricos, os ricos, a classe média, os pobres e muito pobres. Até uma criança de 8 anos entende isso. Mas uma criança de 8 anos de idade ainda não sabe como se consegue dinheiro e por que algumas pessoas são mais ricas do que outras.

A medida que essa criança vai entendendo melhor o mundo, logo ela é apresentada ao conceito de salário. Primeiro ela deve ver na TV que o Neymar ganha, sei lá, um milhão de Euros por mês. Porra, isso é muito dinheiro. Por isso ele é tão rico. Mas ele não era rico antes. É de origem humilde, seu pai ganhava uma merreca, e agora com um salário desse, vive como rei. Ou seja, desigualdade econômica é basicamente desigualdade de renda. É uma indução totalmente lógica e não está errada. Mas não é a história toda.

A faxineira não deve ganhar lá muito bem, pensa a criança. Mas meu pai certamente ganha muito mais que ela, afinal tem esse apartamento, paga a minha escola, minha comida e meus brinquedos, e ainda sobra pra pagar a ela. É assim que as coisas são. Uns ganham mais que outros e ponto final. Ponto final? Antes fosse.

Essa percepção, a de que desigualdade econômica é basicamente a desiguladade de renda, é tão amplamente reconhecida, e dada como correta, que praticamente não é discutida. Raramente se vê qualquer discussão de desiguladade social que vá além da renda. Mas essa noção está bastante incompleta, e equivocada.

Antes de eu prosseguir, gostaria de deixar claro que a desigualdade em si não é necessariamente prejudicial. Vivemos num mundo extremamente complexo com pessoas em todas as categorias de necessidades e potencialidades, e garantir que todas essas pessoas tenham exatamente (até o último centavo) a mesma posição social e mesma renda, é simplesmente inviável, utópico. A desigualdade, poderia se dizer, é até necessária para que haja progresso. As pessoas estão constantemente tentando melhorar de vida, para isso se especializam, empreendem e a maré leva todos para cima juntos. Pode parecer estranho eu estar falando isso nesse blog, que é obviamente de esquerda, mas não é. É uma visão meramente racional e fria das coisas como elas são. Não adianta fingir que há um mundo possível cor-de-rosa nos aguardando, quando sabemos que o ser humano está bem longe desse nível de evolução – estamos destruindo nosso próprio planeta, seria meio ridículo pensar em um mundo plenamente equalitário. Muita merda pra resolver antes.

O que ocorre – e todos podem facilmente perceber isso – é que a desiguldade social vem atingindo níveis alarmantes mundo afora. A globalização só piorou tudo. Desigualdade extrema é sinônimo de uma sociedade em falência. Um relatório recente, aponta que os 1% mais ricos, possuem a mesma riqueza dos outros 99% somados. Isso é absolutamente surreal e precisa ser endereçado, pois é algo que já está fora de controle e a tendência é piorar. Daqui a uns anos será 0,1% igual a 99,9%. A pirâmide vai ficando com uma base mais larga, ou seja, temos mais pessoas extremamente pobres, e a classe média (a principal força produtiva), vai ficando espremida no meio e também sendo depredada e pressionada.

E o que causa isso? É o salário desses top 1%? É óbvio que não. Essas pessoas, em sua enorme maioria, sequer ganham salário, talvez nunca tenham recebido um único vencimento em toda a vida. E mesmo assim, veem suas fortunas crescendo. Como pode?

Simples: desigualdade de capital. E essa é infinitamente mais complexa que a desiguladade de renda. Pra começar, o capital, especialmente hoje em dia, é algo cada vez mais difícil de definir e controlar. Renda é renda, não tem papo. É quanto você recebe no fim do mês pelo seu trabalho – seja de um empregador, seja dos seus clientes se você for autônomo. Mas e o capital? Essa palavra que toda vez que aparece, já remete a Marx. Pois é, ele sabia das coisas quando identificou que o buraco era mais embaixo. Incluem-se aí: bens imóveis (casas, apartamentos, terrenos), investimentos, ações, participações em empresas, contas no exterior, etc, etc. A galera do top 1% retira todo seu dinheiro do fato de que tem muito dinheiro, e dinheiro faz dinheiro, sozinho, sem demandar força produtiva ou retornar algum produto ou serviço. Ahn? Como assim?

Não precisa ir longe, lá pros top1%. Eu mesmo, tendo trabalhado mais de 10 anos na mesma empresa, possuindo apartamento próprio, casado com uma mulher que também tem um salário legal, já consegui juntar uma grana boa em investimentos. Não vou dizer quanto, é irrelevante. O fato é que, esse dinheiro cresce sozinho. E o rendimento, assim como os juros, é cumulativo. Ou seja, esse meu dinheiro, parado lá, cresce, como massa de bolo, sem que eu mova uma palha pra isso. No máximo gasto algumas horas por mês pra acompanhar o rendimento e ver se posso, com alguns clicks, fazer algo pra obter resultados melhores.

Digamos que alguém tenha R$ 500.000 num investimento, seja por que juntou isso durante 20 anos trabalhando, seja por que herdou da tia que morreu. Esse dinheiro, num investimento merda, rende 1% ao mês. Ou seja, hoje é 500, mês que vem é 505 e no outro é 510,05. Cinco mil reais, limpinhos, zero esforço. Isso é muito mais que a renda da grande maioria do planeta, que rala horrores pra ganhar uma merreca no fim do mês. Qual é o capital dessa grande maioria mais pobre? Zero. Capital zero não rende nada. Na verdade, a maioria dessas pessoas possui capital negativo, pois estão constantemente adquirindo dívidas e tomando crédito. Você não junta capital se o salário nem chega ao fim do mês.

Grande novidade hein, Christian? Todo mundo sabe disso. Sabe? Então por que não cobramos dos nossos governantes que mudem isso? Por que não vamos às ruas pedir a Taxação Progressiva de grandes fortunas? Sabemos que os maiores sonegadores do Imposto de Renda são exatamente aqueles que fazem todo tipo de manobra pra esconder sua renda, e seu capital, colocando tudo no nome dos filhos e usando contas no exterior. Quem paga a conta, é quem menos tem. E por que?

Bom, é simples, e também óbvio – lá vem o Christian de novo com o óbvio – poder econômico = poder político. Em todo lugar, desde sempre. Dinheiro compra tudo; compra políticos, compra legislação, compra isenções bilionárias, e basicamente, mantém o status quo. A própria herança não é debatida, é vista como direito inalienável, quase divino. Eu mesmo fui super beneficiado por heranças mas discordo totalmente que não devam ser mais taxadas (progressivamente, lógico).

Não adianta querer combater a desiguldade social com todo tipo de programa pra melhorar a renda do trabalhador, quando ele nunca vai ter as mesmas oportunidades de alguém que já nasce com um capital inicial garantido. O capital permite a pessoa a empreender, investir, se especializar – com pouco ou nenhum risco, sem precisar tomar crédito e pagar juros exorbitantes. E o capital, como eu já mencionei, cresce sozinho (alugéis, investimentos, ações), sem dar qualquer retorno à sociedade, sem a taxação devida, criando ainda mais desigualdade de oportunidades.

Boa parte dos 1% mais ricos, são mais ricos por que já nasceram dessa forma, nunca trabalharam e nem vão trabalhar na vida, e mesmo sem mover um cílio verão suas fortunas crescerem enquanto tomam champagne na beira da piscina. Tudo por causa de um sistema que foi desenhado e manipulado para beneficiá-los: regras de herança, diversificação de capital, ausência de regulação e taxação específicas, etc. Ou muda isso, ou pode vir o Bolsa Família Delux-Plus 200 que pouca coisa vai mudar – pode melhorar, claro, especialmente pra base da pirâmide, mas a tendência mundial permanecerá a de colapso. E não tem absolutamente nada a ver com “não dar o peixe”.

Um comentário sobre “A desigualdade de que ninguém fala

  1. Mas até para geração de renda o sistema é fabricado para te fazer trabalhar às custas dos políticos e empresários que nos roubam. Pegando seu exemplo, se uma pessoa nos anos 2000 vivia com 5k reais sendo estes obtidos através de um renda fixa que rende 1% a.m. em cima de 500k reais, hoje o valor desses 5k reais é muito menor, talvez a metade, do que era em 2000.

    Se essa pessoa não trabalhou desde 2000 até agora e só viveu dessa renda, ela certamente vem reduzindo seu custo de vida para se adequar à desvalorização da moeda.

    A moeda controlada pelo Estado é completamente falha por isso alternativas como as moedas virtuais vem surgindo. A inflação escraviza a população.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *