Vivendo sem Partido ?

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Uma das pautas que tem surgido com bastante vocalidade com a ascensão desde governo provisório, é a ideia da “Escola Sem Partidos”, onde a proposta seria proibir e punir discussões sobre posicionamentos partidários ou ideologicos em escolas.

Ter uma forma de ensino neutra, imparcial, é um conceito bastante sedutor.
Apresentar a informação como se vinda da fonte, seria o ideal. E mesmo se admitirmos que é algo impossível, ficar permanentemente buscando essa direção, seria algo pelo que valeria a pena lutar.

E para viabilizar esse tipo de proposta, acredito que a primeira coisa a fazermos seria avaliar o quão perto ou longe estamos desse ideal da neutralidade. Antes de sermos neutros na educação… É possível ser neutro em alguma coisa?

Se gastarmos dois minutos pensando, acredito que todo mundo chega à conclusão que não.
Toda ação é política. Toda ação vai favorecer um posicionamento A ou B, independente da vontade da pessoa. O que define seu posicionamento político não é o que você declara, são suas ações e escolhas.

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Vamos à um exemplo: O simples ato de comprar um produto A ou B.
Sabendo que o produto A é mais caro, ainda sim você poderia justificar sua compra ao dizer que na produção de A, o trabalhador é menos explorado, os salários são mais justos e o impacto ambiental é menor, enquanto que “B” apesar de mais barato, usa mão-de-obra semi escravizada e causa um enorme dano ao meio-ambiente.

Agora, note o seguinte: Mesmo que você não pense em tudo isso ao comprar alguma coisa, mesmo que sua escolha seja completamente alienada, mesmo que seja uma decisão baseada na ignorância, você ainda sim vai dar suporte à forma de produção A ou B. Se nada disso passa pela sua cabeça quando você compra algo, ainda sim, SUAS AÇÕES estão fazendo uma declaração. Ou a que você não se importa com a maneira que aquilo é produzido, desde que seja bom e barato, ou que você não tem dinheiro pra fazer outra escolha.

É disso que estamos falando ao dizer que TODA ação é política, independente de você ser consciente do processo ou não, e independente do que você declara sobre seu posicionamento político

Enfim, você pode SIM ser “apartidário” no sentido de não defender e nem sentir-se representado por nenhum partido político, porém suas ações cotidianas e suas repercussões, jamais serão.

Imagine uma situação em que você vai instalar um aplicativo em seu computador ou celular. Quando você vai instalar um programa, sempre existe um conjunto de configurações Padronizadas, o tal do “Default Settings”, ou configurações de Fábrica.
Se você abrir essas configurações, irá encontrar uma série de opções ligadas ou desligadas, independente da sua escolha. Mesmo que você não ligue, e nunca tenha aberto as configurações, as opções estão lá atuando. Não existe posição “neutra” nos botões.

Se você enxergar o cérebro humano como um grande computador, e a formação de um indivíduo como a instalação de um aplicativo, acaba sendo a mesma coisa. Porém, a “Configuração de Fábrica” é a ideologia dominante. É o conjunto de valores apresentados FORA DA ESCOLA, pela família, pela Televisão, pela vida cotidiana. Esses valores, acredito que todos conhecemos intimamente.

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Voltando à questão da escola.

Se as escolas de hoje forem semelhantes à escola onde me formei (tomando muito cuidado para não cometer a falácia da evidência anedótica aqui), o que teríamos hoje é a discussão de temas. Quando estudei geopolítica, me falaram de capitalismo tanto quanto de socialismo.

Ouvi sobre Adam Smith tanto quanto de Marx. E mesmo que meu professor de história falasse com mais entusiasmo sobre Marxismo, nas outras 12 horas do meu dia fora da escola, tudo ao meu redor era capitalismo, eu sabia de todos valores. (Confissões: Na minha juventude, fui SUPER Coxinha)

Para quem não quer que exista a discussão de ideologias, QUALQUER COISA vai servir de desculpas. Professor falar com mais entusiasmo sobre o tema A ou B. Gastar mais tempo no tema A ou B. Usar uma camisa A ou B. Como falamos antes, toda ação é política.

E a proposta de “Escolas sem Partido” é essencialmente sobre isso.
Sobre não haver discussão, não haver debate. É deixar o indivíduo “apenas” sob a influência das outras 12 horas de cultura dominante padronizada.
É basicamente, fazer com que você nunca abra a sua “Tela de Configurações” para se customizar. É aliás, você nem saber que é possível alterar essas configurações.

Se não há a discussão da diversidade de posicionamentos, o que sobra não é a neutralidade.
O que sobra, é a instalação de fábrica.
O que sobra, é a ideologia dominante.

E qual a ideologia dominante?
Bom, basta notar que o discurso sempre presente na proposta do apartidarismo, é combater a esquerda. Livrar nossas crianças da esquerda, do marxismo, do comunismo.

É interessante como sob ótica dos “Neutros”, todo mundo que é comunista é por doutrinação, e todo mundo que é capitalista, é por opção.

Isso quer dizer que existe realmente essa ótica Dualista de mundo?
Não. Se você abrir suas caixa de “Configurações”, o que só vai acontecer se houver a discussão, descobrirá que é possível uma infinidade de opções, que darão origem a um gradiente de posicionamentos, e não apenas extrema esquerda ou direita.

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Em conclusão, não querer que haja discussão sobre ideologias na escola, não tem nada a ver com neutralidade. Tem a ver com aquela velha polêmica que vemos durante a infância toda: Quem está ganhando o jogo nunca quer discutir sobre a justiça das regras.

O dono do aplicativo tem MUITO à ganhar quando ninguém vê escrito em letras pequenas, que junto com a instalação padrão, você vai instalar aquele monte de coisas no seu browser.

Nota Furiosa:
Não ensinarem sobre a escola Austríaca não é prova nenhuma que há doutrinação Marxista na escola. De acordo com os estudos do Projeto Open Syllabus que levanta os livros mais significativas nas universidades que falam inglês, tem Marx, tem Adam Smith, tem de tudo, mas não tem escola Austríaca.

Isso poderia nos levar a duas conclusões:
– As universidades dos países anglo-saxões são fortemente comunistas, doutrinadas pelo MEC;
– Escola Austríaca não tem representatividade, e Ayn Rand e Mises são dois bostas.


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