Os tais três primeiros meses (da paternidade)

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Um bebê chorando

Meu filho faz sete meses daqui há alguns dias. Já tem algum tempo que pretendo escrever esse post, mesmo sabendo que iguais a ele devem haver trocentos por aí – mas eu não acompanho nenhhum “blog de mãe” então não li nenhum, nem antes do parto nem em nenhum momento depois. Fiquei enrolando por que precisava ter certeza de que a tal “fase crítica” da paternidade já estava no passado e eu poderia olhá-la de longe, com uma perspectiva mais ampla. Acho que já deu. Se demorar muito mais, vou esquecer. É o que falam por aí que acontece.

Uma das coisas que você mais ouve de pais de bebês é que “passa muito rápido”. Sempre que ouvi isso, achei uma enorme bobagem pois entendo muito bem por que a gente percebe o tempo de maneiras diferentes, dependendo do nosso estado mental: os minutos antes do recreio são os mais longos do mundo, enquanto aqueles “só mais 5” que você passa brincando com seus amigos parece que duraram meros segundos. Enquanto estávamos, eu e minha mulher, passando pela fase crítica dos três primeiros meses, nunca esse conceito de “passa rápido” me pareceu mais estapafúrdio: as madrugadas com meu filho berrando de dor no meu colo duravam eternidades. E elas se repetiam; dia sim, dia também. Eu, como bom ansioso que sou, ficava torcendo pra esse marco dos três meses chegar logo – essa também era uma coisa que todos falavam: calma, depois de três meses melhora muito. Nisso escolhi acreditar religiosamente.

Pois bem, vamos ao que interessa. Meu objetivo aqui não é assustar ninguém querendo ter filhos, minimizar o perrengue ou tirar onde que eu “passei por essa” fase da vida. É um relato e nada mais. Eu tenho certeza que daqui há alguns anos virei aqui ler isso de novo, para lembrar de como era. É tanto para mim como para meus parcos leitores.

Por que é que são 3 meses? Não sei. Não esperem aqui dados sobre a biologia dos bebês e seu desenvolvimento. Não entendo nada disso (tirando é claro a sabedoria popular de facebook). Acho que é uma coisa mais de senso comum, por que de fato (talvez eu estivesse sob sugestão, vai saber), a coisa dá uma bela melhorada por volta desse período.

E o que rola nesses três meses que o tornam tão estressante e cansativo? Vamos lá.

Primeiro vem o óbvio que é o soco no estômago que é o parto. No meu caso (ou melhor, no caso da minha mulher) foi parto normal e foi bem forte a experiência. Nunca havia visto minha mulher sofrer tanto e isso deixa marcas. Os primeiros momentos da vida do bebê te colocam contra a parede de uma maneira como nada antes na vida se compara. Seu despreparo é total e isso gera muita ansiedade. Lembro que das 48h que passamos na maternidade eu devo ter dormido umas 5h no máximo. Ficamos podres. E aí você vai pra casa com aquela mini-coisa frágil e mole que sequer sabe se mexer sozinha direito. Você fica tonto sem saber o que fazer.

O bebê até os três meses não interage. Isso é foda. Ele não consegue fixar o olhar, ele não te reconhece. Ele só mama, dorme e chora. Não existe outro estado possível. Ele não brinca, não sorri e não consegue fazer nada. Fica só lá parado, com olhar sério, mirando fixo o vazio. É muito complicado você desenvolver um real sentimento por aquela coisinha, mesmo ele sendo seu filho e ter sido tão esperado. Sendo bem duro e sincero aqui, aquela coisa que você se apaixona loucamente no momento que ele nasce é pura balela. É um processo, lento e nesses três primeiros meses de perrengue frenético, eu diria que o sentimento ainda é bem fraquinho. Mas ele existe, é sutil, mas está lá. Afinal só mesmo um amor que você nem entende direito é capaz de te dar essa força pra aguentar tanta barra.

Além do fato do bebê ser extremamente indefeso e molinho, os pais estão sob um estresse muito grande. Especialmente a mãe que passa por transformações biológicas tremendas e ainda sob efeito de uma cacetada de hormônios. O bebê nessa fase é totalmente imprevisível e pode começar a berrar do nada, deixando os pais num estado de alerta constante. Além disso, como o desenvolvimento é acelerado, a cada semana ele muda. Então você desenvolve uma técnica “supimpa” pra acalmá-lo e fazê-lo dormir e fica se achando o tal. Do nada para de funcionar, sem aviso. Se vira pra inventar outra e começar tudo de novo. A amamentação, que também é muito vendida como algo lindo e sublime que te conecta ao bebê pode ser uma fonte de stress e ainda mais preocupação. Não vou entrar em detalhes, mas no nosso caso, não foi nada fácil.

Eu sou uma pessoa metódica e adoro rotina. O bebê vem pra detonar tudo que é método, processo e rotina. A casa fica uma bagunça, os horários viram todos de cabeça pra baixo, e até pra comer fica complicado. Não preciso nem falar que o conceito de “tempo livre” vira coisa do passado. As coisas que você fazia pra relaxar e “passar o tempo”, esquece, agora o tempo que você tem “livre” é pra arrumar a casa e descansar – quando der.

E algo que nem preciso mencionar são as madrugadas insones, acordar de 3h em 3h pra amamentar, fora crises de cólica e e gases – que no nosso caso duraram mais de um mês, todo os dias. Punk!

E como que melhora? Não é exatamente uma coisa ou outra que de repente “puf”, some como mágica e a vida melhora. É um conjunto de coisas que aos pouquinhos vão se estabelecendo, junto com o desenvolvimento do bebê. E o conjunto dessas coisas, de fato, atinge um ponto de inflexão por volta dos três meses.

Primeiro que a partir dos dois meses, o bebê começa a sorrir, ou seja interagir. Te olha no olho e te reconhece. De repente ele começa e querer brincar e você se vê capaz de divertir ele – por volta dessa período, o sentimento passa a ficar mais forte cada vez mais rápido. O bebê começa a ficar “durinho”, ou seja, você já consegue começar a carregá-lo sem tanto medo da cabeça dele cair pra tras violentamente. A casa já tem uma rotina. Mesmo que ainda meio bagunçada e ainda pior antes do nascimento, já dá pra confiar em alguns horários. Ele passa a dormir cada vez mais, especialmente de madrugada. Passa de 3h, pra 4h pra 5h e de repente está dormindo 8h. Claro que isso varia muito de bebê pra bebê, tem uns que não dormem bem nunca, mas em compensação tem outros que não tem sequer uma crise de gases na vida. As dificuldades variam.

Os pais também já estão bem mais calmos, o bebê fica mais previsível e as mudanças já não ocorrem na velocidade da luz. O choro já não desespera tanto, aquela sensação do “e agora?” já não é tão rotineira. Tudo que você teve que aprender na marra, agora você já está craque então aquilo não te causa mais ansiedade: trocar fralda e dar banho viraram algo tão corriqueiro como escovar os dentes. Mas algo que “falam bastante” (pois é, nunca na vida, esse “falam” teve tanto peso na minha vida) é que apesar desses três meses do capeta serem inevitáveis, não quer dizer que ao final deles, tudo fica suave. Os desafios agora são outros e a cada nova fase vamos aprendendo e nos virando. E agora que o “pior” (será?) passou, olha que coisa, já estamos pensando no próximo. =)

4 comentários sobre “Os tais três primeiros meses (da paternidade)

  1. Muito bom Mizi!
    É tudo assim mesmo e lá na frente vc realmente só vai lembrar de coisas boas!
    Aproveitem bastante porque passa rápido como aqueles 5 minutos a mais de brincadeira do recreio!
    Abraço

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