O preço que se paga é o ódio

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Quando eu era adolescente, fui apresentado pela primeira vez, não sei exatamente quando, ao conceito-frase “There is no free lunch” (não há almoço grátis). Na ocasião, absorvi apenas uma pequena parte do que esse simples conceito representa, que seria o de que as coisas na vida que parecem ser grátis, realmente não o são. Então quando eu via alguma coisa escrito “Grátis” na banca de jornal ou no mercado, eu lembrava dessa frase e imaginava o que haveria por trás dessa palavra mágica. Claro, o “almoço grátis” se refere a prática comum no mundo corporativo de empresas chamarem executivos de outras empresas para um “almoço de negócios”, pagando toda a conta obviamente, onde vão discutir formas de alavancar seus produtos e serviços. Para os convidados parece uma ótima, comer de graça, sem compromisso. Mas enganam-se. Um dia o valor daquele almoço lhe será cobrado em dobro, seja em forma de um favor, seja em forma de um contato, ou de uma “ajudinha” pra fechar um contrato.

Hoje em dia, na internet, vivemos a ilusão que tudo parece de graça. Claro, há muitos serviços pagos, mas é perfeitamente possível usar os gratuitos, que são excelentes, e se virar muito bem.

Há alguns anos, fiz uma reflexão similar sobre o custo da TV aberta (não achei aqui no blog, snif). Analogamente, a mesma chega sem custo em nossos lares, oferecendo conteúdo sem que precisemos mexer no bolso. O custo, evidentemente, está na tonelada de anúncios a que você é submetido. Mas as pessoas, mesmo assim, ainda creem que estão fazendo um bom negócio, pois não percebem como aqueles anúncios a afetam. Na verdade, sentem-se completamente imunes ao jogo do consumo e vivem na ilusão de que suas decisões na hora de comprar são totalmente conscientes, racionais e livres de qualquer estímulo midiático. Ahã.

Mas existe um jogo novo na praça. Bom, não é exatamente novo, essa coisa que engoliu o mundo chamada da “rede social” já está por aí há cerca de 10 anos. O facebook foi criado em 2008. Ainda assim, acho que dá pra chamarmos de novidade pois a forma como o facebook (e outras redes) foi se inserindo em nossas vidas de forma a se entremear em praticamente todos os apectos dela, ainda está a todo vapor. É raro encontrar pessoas que não acessem frequentemente, praticamente a mesma proporção dos que não bebem.

E assim como tudo na vida, o facebook não é um almoço grátis. O Google também não é, nem o Twitter ou o Instagram. Assim como a TV aberta, esses serviços tem em seu modelo de receita basicamente estar sempre aumentando seu número de usuários, mantendo-o os conectados o máximo de tempo possível – para? Acertou, oferecer anúncios, cada vez mais personalizados e imperceptíveis.

Mas no caso das redes sociais, há ainda um outro preço a pagar, ainda mais difícil de identificar como custo efetivamente. Se os anúncios são facilmente desprezados e considerados ínfimos incômodos em relação ao serviço oferecido, esse outro “custo” passa ainda mais batido. Estou falando do ódio. Sim, o ódio.

Não é nova essa reflexão, já alguns anos alguns especialistas começaram a notar o crescimento exponencial de redes de ódio na internet, pessoas que se organizam em grupos, em sites e redes sociais para espalhar mensagens de ódios à minorias e outros grupos socialmente marginalizados. É inegável o efeito que as redes sociais tiveram em facilitar a criação desses grupos e o anonimato dos mesmos. Mas não é só nesses grupos fechados que está o problema. O real custo está no dia-a-dia, dos debates que ocorrem nas redes sociais sobre os mais diversos e polêmicos assuntos.

Claro, nem todos, aliás, eu diria só a minoria, usa o facebook e outros sites para discutir assuntos sérios como política, economia, questões éticas e eventos de interesse público. Mas são uma minoria bastante verbal (estou incluido nela, é claro) que incomoda bastante os que estão ali apenas a passeio para compartilhar selfies e fotos de comida. E cada vez mais eu percebo como os assuntos iniciados no facebook viram assuntos fora dele, sendo que o foco é sempre na forma e não no conteúdo. Percebo as pessoas cada vez mais chocadas em como é fácil – e corriqueiro – que pessoas, amigos e conhecidos, que são bons de papo no tête-a-tête, mas quando estão atrás do teclado, parece que debatem sem camisa, suando, com uma faca entre os dentes.

E isso não é de hoje, tanto que já tem uns dois anos que eu transformei meu facebook em um centro de notícias. Não há publicações de pessoas no meu feed, e isso me isola desses debates desnecessariamente acolaroados, que 99 em 100 vezes, não levam a absolutamente nada. É uma forma de me manter minimamente em contato, sem pagar esse preço do ódio. Esse eu me recuso a pagar. Já me senti bastante afetado por ele e certamente me identificaria com esse texto caso o tivesse lido dois anos atrás. Na época, o custo era pago a vista, com débito automático.

Que o trânsito nos transforma todos em babacas irritados, acho que todos já sabem, mas infelizmente pra evitá-lo, só saindo da cidade. Já a rede social, é um vício a ser combatido (e acreditem ou não, é bem mais fácil se identificar com sentimentos ruins como raiva e ódio do que se imagina), igual o da TV, que refleti a alguns anos atrás.

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