Sobre Ser Selvagem, Ter Coragem e Não Guardar Rancor

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Quando eu era criança, minha tia Arminda morava em Piratininga, praia linda praqueles lados ali de Niterói. Não sei como está agora, mas naquele tempo era mesmo um pedacinho de paraíso. Com a minha tia moravam vários cães, alguns de raça outros não. Não sei ao certo o número, mas passava de 10 com certeza.

Eu passei muitas férias lá. E amava. Fiz amizade com a galera da rua, aquela coisa toda. Era mesmo aquele período da vida que você não tem preocupação com nada e tem dias infinitos de praia, bicicleta, pique tá, salada mista.. rs! E, ainda por cima, dentre todos aqueles cães, tinha o Rex, o pastor alemão da minha tia.

Por que especificamente o Rex? Porque ele era visivelmente diferente dos demais. Primeiramente ele era mais forte e mais ágil que os outros. Só que, o mais impressionante, era que ele olhava com uma profundidade superior, parecendo estar lendo a sua alma. Aprendia rápido. Deixava que a gente agarrasse ele, apertasse mesmo. Era meigo e carinhoso. Com a gente. Se algum estranho encostava no portão ele já fazia aquela cara de bolado e intimidava geral.

Como não se apaixonar por um cão assim? E eu passei uma parte importante do meu desenvolvimento junto à este cão. Literalmente, crescemos juntos. Mas é triste que o tempo dele seja tão mais rápido assim que o nosso e eu sofri quando ele se foi. Ficou aquela vontade eterna de poder conviver com outro cão com características semelhantes. Claro, semelhantes, porque cada cão tem personalidade própria e isso é com certeza o que mais cativa o ser humano.

Só que eu nunca pude nem ao menos cogitar a possibilidade de conviver com um cão deste porte nos apartamentos que morara até então. Quando casei, mudei para um local com tamanho apropriado, mas o mais importante mesmo é ter hoje um estilo de vida que me permita o comprometimento de ter um cão deste porte. Eu não sou uma criança que quer um au au, não quero colocar fotinhos legais de pastor alemão no meu Instagram. E eu levo a criação do Logan muito à sério, quem me conhece sabe.

Antes de mais nada, procurei incansavelmente um canil de confiança. Em uma primeira fase na internet, depois em grupos de criadores, depois visitando diversos canis, até chegar ao canil onde conheci a mãe e o pai do Logan. Em Teresópolis (lá é meio que um polo de criação de cães); Instalações perfeitas, ambiente totalmente acolhedor onde os cães visivelmente adoravam viver. Muitíssimo bem treinados, fiquei bem impressionado. Só fiquei triste quando ele me disse que, segundo o ciclo de cruzas que ele permitia à cadela dele ter, ela só teria filhotes agora depois de mais de um ano da data que estávamos. Eu teria que esperar. Mas a causa era nobre e achei muito legal que ele agisse assim. Esperei.

Voltei lá um ano e meio depois, assim que permitido visitar, quando o Logan tinha apenas 21 dias. Todos os filhotes muito bem tratados, em um ambiente totalmente asseado. A mãe lindona, forte, amamentava 14 filhotes. Eu seria o primeiro a escolher. Segui o conselho do Milan e não fui no mais extrovertido. Observei outro mais calmo. Lindo. Era o Logan, nunca vou esquecer. Depois de mais 40 dias, voltei lá para finalmente trazer o Logan para nossa casa.

Antes disso, eu já estava estudando à vera. Livros de adestramento e, principalmente, psicologia canina, que eu ainda não estava ligado como é importante e, mais que isso, fascinante. Ele aprendeu tudo com uma velocidade incrível e, o mais viagem, algumas coisas ele aprendeu sozinho. Não, na verdade o mais viagem mesmo é o tanto de coisa que ele com apenas dois anos e meio já me ensinou sobre a vida. Nós temos uma parceria transcendental, de vidas passadas, sei lá.

Percorremos milhares de quilômetros juntos, caminhando ou de bicicleta, somando uma hora e meia de treino todos os dias. Every fucking day. Fazemos jardinagem, limpamos a piscina, vamos ao Parcão, Quinta da Boa Vista, Leblon, Joatinga, São Paulo, Paraty, Trindade, São José, Lumiar.. é impossível imaginar minha vida sem ele. Nossa vida, no caso.

Porque no começo a Xanda era contra. “Por que não um cão menor Newton? Precisa ser um Pastor Alemão?”. E no primeiro dia ela se apaixonou e se envolveu de maneira absoluta. Sem o engajamento dela, as coisas não dariam tão certo como deram. E ontem, ela ficou até meia noite preparando a “comida natural” do Logan. Ela mesma estudou tudo sobre alimentação natural canina, estava cortando e pesando todo o conjunto para congelarmos. É o último movimento para o Logan ter o que estamos chamando de vida perfeita para um cão.

Nessas andanças em matilha conheço muitas outras pessoas que convivem com cães em suas casas. Nem todos são gente boa, mas muitos são. Impressiona perceber que a maioria não tem a menor noção de comportamento canino e, na maioria das vezes sem querer, faz o cão sofrer de ansiedade de alguma maneira. Muitas dessas pessoas adotaram cães, alguns já em situação degradante. E eu estimo muito isso. De alguma maneira, eles são mesmo heróis por esta atitude.

Agora, não é por isso que alguns podem pensar que tem o direito de acusar publicamente criadores e treinadores de cães de raça de serem culpados pelos maus-tratos feitos a cães em canis que nada mais são do que verdadeiros pardieiros. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. É quase como pedir que mais nenhuma mulher engravide porque já há crianças demais no mundo. Há canis e canis, e é papel do criador/comprador estudar e procurar quais canis possuem boas práticas de manejo, não comprar no Mercado Livre ou em algum fundo de quintal.

Muitos que têm essa posição radical não gostariam (e nem entenderiam), caso eu dissesse que dormir na mesma cama ou deixar que suba no sofá não é muito bom para a cabeça do cãozinho deles. Deixar comida à vontade ou dar sua própria comida a ele também não. Será que essas pessoas fazem tão bem aos seu cães quanto pensam? Realmente estudaram? Este estudo sim é sinônimo de amor. Muitas atitudes que a maioria pensa serem boas para os cães, na verdade são boas para si mesmas, com decisões tomadas por achismos, sem perceber o egoísmo dessa posição.

É sempre aquela velha história: por que é tão difícil olhar para si mesmo primeiro, antes de apontar o dedo aos outros? Será que a maioria das pessoas que acusaram criadores de cães de raça de serem na verdade assassinos de cães são pessoas éticas e de caráter tão irretocável para julgar outros através de uma comparação esdrúxula, que coloca todos os criadores que compraram seus cães no mesmo bolo?

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