“Como passa rápido” (só que não)

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Que eu sempre fui um chato e crítico de um grande número das convenções sociais, acho que nenhum dos meus sete leitores tem dúvida. Desde muito cedo observo essas coisas que as pessoas dizem e repetem sem pensar e refletia sobre a relevência e validade das mesmas. E a verdade é óbvia ao observador um pouco mais atento: as pessoas repetem coisas, por pura “tradição” ou “obrigação social” o tempo todo, parando pouco ou quase nunca para refletir no que dizem. As pérolas variam de verdades meia-boca à completa idiotice. Você já deve estar imaginando, pelo título, do que falo nesse post, mas não vou dizer aonde no espectro que acabei de sugerir essa “verdade” se encontra. Você decide.

Falo aqui, obviamente, do mantra repetido ad nauseam, por pessoas ao relembrar da época em que os filhos eram bebês. Eu chutaria que 9 em cada 10 mulheres repetem isso o tempo todo – homens, bem menos. “O Fulaninho já está com quantos anos? Três? Como passa rápido, né?”. Não, não passa não. Mas não passa mesmo.

Todos sabemos que a percepção da passagem do tempo é algo subjetivo, influenciada por diversos fatores, e tem uma relação muito forte com como aquele tempo é gasto. Desde crianças percebemos essa diferença. Os minutos que antecedem o recreio são os mais longos do mundo, parecem horas. Mas os cinco minutinhos a mais que você pediu pra ficar na rua ou jogando videogame parece que aclereram tanto que não se passaram de alguns segundos.

Meu filho está agora com quase dois anos e eu digo com certeza absoluta que o primeiro ano foi disparado o mais longo e cansativo da minha vida. O segundo, bem menos. Removendo toda a subjetidade da percepção do tempo, temos um parâmetro numérico e objetivo, que as pessoas parecem ignorar solenemente quando proferem a famigerada frase: horas de sono.

Tirando é claro aquelas raras exceções de bebês que dormem a noite toda lindamente desde os primeiros dias e continuam assim, é esperado que você durma muito mal e muito pouco no primeiro ano de vida de qualquer bebê. As horas de sono recuperador serão drasticamente reduzidas. Fora isso, tem o fato de que bebês (tirando é claro as excessões que equivalem a ganhar na loteria) acordam lá pras da seis matina todos os dias: de segunda a segunda, inclusive feriados. Isso contribui para que seus dias passem a ser mais longos, com mais horas totais de horas despertas.

Como é que isso tudo considerado pode resultar em “passar rápido”? A resposta simples é: não pode. Mas acontece mesmo assim. Dissonância cognitiva purinha. Não faz nenhum sentido dizer que esse período crítico da criação de um bebê passe rápido. Mas mesmo assim as pessoas falam, por que a percepção delas é torta. Elas não pensam em todos esses parâmetros – que são provas cabais e factuais do contrário – quando dizem o que dizem.

Li uma vez em um estudo que pais de primeira viagem perdem, em média, 750 horas de sono no primeiro ano. Eu acho até pouco. Mas va lá, usemos esse número. Se você não tem filhos, imagine que a partir de hoje você vai perder duas horas de sono, todos os dias, pelos próximos 12 meses. Você não consideraria, de cara, que esse seria um ano cansativo e longo? Será que você diria que “passou rápido” alguns anos no futuro? Não, né?

Então por que as pessoas repetem tanto isso?

Bom, eu não sei. Mas minha teoria pessoal é que existem alguns elementos de memória seletiva em jogo. Você “decide” inconscientemente esquecer boa parte do ano perrengue, assim que as coisas começam a melhorar, os dias menos cansativos e o sono mais regular. No caso do meu filho, eu diria que lá pra um ano de idade (quando ele começou a andar e falar as primeiras palavras) houve um salto de desenvolvimento que facilitou horrores a vida. Claro que não é da noite pro dia, e você próprio já vem se transformando na jornada. Mas essas novas formas de interação, fazem muita diferença e aí você começa realmente a curtir essa ideia de criar um filho; deixa de ser basicamente correria, perrengue e noites mal dormidas. E aí realmente parece que o passado de alguns meses atrás está mais longe, como se houvesse um mecanismo em jogo pra condensar essas memórias e eliminar os detalhes.

Outra coisa que pode contribuir para esse nosso julgamento pobre da duração é algo chamado em psicologia de “Duration neglect” (algo como Negligência de duração, em tradução livre). Basicamente essa observação, comprovada por alguns experimentos (ler Daniel Kahneman, em “Rápido e Devagar”) nos diz que somos muito ruins em julgar a duração de experiências desagradáveis, prestando mais atenção ao pico (pior momento), e o fim. Em um experimento, pessoas colocavam a mão em água super gelada durante 30s. Um grupo foi dito para remover a mão imediatamente, enquanto outro, a água era esquentada aos poucos até um nível menos doloroso. A maioria dos pesquisados preferiu a experiência mais longa, mesmo ambos tendo ficado exatamente o mesmo tempo com a mão congelando de dor.

Durante o perrengue, as noites mal dormidas, as esperas na emergência, os jantares que demoram uma hora, não faz sentido algum dizer que aquilo está passando rápido. Não há nada mais insano que se possa dizer sobre esse período e essas experiências, mas mesmo assim o fazemos.

Mas depois que passa, por mais bizarro que possa parecer, nossa mente dá um jeito louco de fazer aquilo tudo menor e mais rápido do que realmente foi. As centenas de noites mal dormidas viram apenas uma memória turva do que era ir trabalhar morrendo de sono. Cansaço extremo e sono não se registram na memória tão bem. Só fica gravado o turbilhão de novidades desse que provavelmente é o ano mais transformador na vida de qualquer pessoa. E de acordo com as pesquisas em psicologia, só vamos lembrar mesmo do pico (tipo, as piores noites de todas) e do fim, sendo que o fim não é bem um fim, mas um processo de melhoria lenta e contínua que serve para te dessensibilizar, igualzinho a esquentar a água.

Eu continuo achando a frase idiota? Sim. Por que não passa rápido porra nenhuma. Estou cheio de amigos que se tornaram pais recentemente. Quero vê-los vir aqui com três, seis ou nove meses e dizer que tudo está passando tão rápido que mal podem acompanhar. Não vai rolar, garanto.

Mas aí daqui a pouco (?) estaremos todos uns cinco anos pra frente dizendo como foi rápido, nos unindo ao exército de pessoas que dizem coisas idiotas sem refletir. Pelo menos terei esse texto para me ancorar na realidade. =)

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