Como a mídia fabrica o terrorismo

Mais um ataque terrorista (aparentemente, nada confirmado ainda) e já observamos a ridiculamente exagerada cobertura da imprensa. Isso me dá um nojo tão grande que resolvi falar um pouco a respeito. Claro que não é apenas com o terrorismo que vemos esse comportamento carniceiro da grande mídia: a espetacularização é a alma do negócio. Tudo que puder ser transformado em show, e se aquilo se traduzir em audiência, tá valendo. E já tem tempo que os artífices da grande mídia aprenderam: violência e tragédias, vendem como água no deserto. É simplesmente irresistível. Mas é mesmo?

Não, não é. Só é pra redes te televisão que se alimentam disso e que precisam disso para vender seus comerciais e novelas. E é fácil identificá-las, observando a rapidez a magnitude com que tratam um evento como esse. Nada é mais importante do que parar toda a programação e mostrar um atentado que matou 70 pessoas na França. A notícia é de fato importante, é chocante, mas precisa de tanto? Precisa parar tudo e falar só nesse único assunto o dia inteiro? Não precisa. E não deveria.

O terrorismo só é terrorismo por causa disso. Eles (os “terroristas”, termo criado obviamente, pela grande mídia) fazem o que fazem por que tem a certeza que vai ter peixe mordendo a isca. Vai ter rede de televisão mundo a fora que vão se comportar como abutres diante de uma carcaça. Vão transformar aquilo num show. Vão correr pra enviar repórteres ao local, colher depoimentos, repetir as mesmas imagens milhares de vezes, convidar especialistas, discutir o assunto. Tudo numa pressa e numa eficiência impressionantes. Tudo a serviço do espetáculo.

No útlimo grande espetáculo midiático da violência, tivemos o massacre na boate LGBT na Flórida. E dessa vez, já foi possível observar, mesmo que ainda muito inspiente, uma revolta da população em relação a cobertura dos fatos. Surgiu um grito nas redes sociais, que clamava algo como “parem de falar do assassino, parem de mostrar a foto dele, falem das vítimas, mostrem fotos deles, eles são maiores e mais importantes que esse único psicopata; o lugar dele é no esquecimento, não no holofote!” Achei fantástica essa reação, pois atinge em cheio o cerne da questão.

Sem palanque, as ações desses psicopatas fanáticos não ecoariam e não teriam o efeito desejado – que é de espalhar o medo e o terror. Claro que não é só a mídia a única responsável por moldar a cultura, e incitar o ódio entre os povos através de esteriótipos ridículos. O cinema faz isso, a música, a arte em geral. Cada um de nós é responsável por alimentar ou frear essas forças que dividem em vez de somar. Mas a mídia tem um lugar especial no inferno, pois ela está todo dia, com aquele ar sério, de imparcialidade, de profissionalismo, nos vendendo distorções ideológicas e alimentando o monstro do ódio. Tudo fantasiado de “jornalismo de qualidade”.

No dia 4 de julho (apenas 11 dias atrás), um ataque terrorista matou 250 pessoas no Iraque. Quatro vezes mais que o de ontem em Nice. E como foi a cobertura? Você lembra? Parou tudo? Ficou dias inteiros falando no assunto? Tiveram cortes na programação com imagens ao vivo do local? Hmmm, acho que não. Por que será? Ah, já sei: “O Iraque é um país islâmico, ou seja, terrorista, então foda-se quem morre por lá”. Por acaso nessas mil conversas com “especialistas” no assunto, é lembrado o fato de que a violência entre Sunitas e Shiitas mata muito mais gente do que a ISIS e a Al Qaeda matam Europeus? Aaahhh, acho que não também. Afinal, deixa esses dois grupos fanáticos se matarem a vontade. O terrorismo “deles” não vende jornal. Em janeiro de 2015, o grupo radical Boko Haram matou aproximadamente 2000 (duas mil!!) pessoas na Nigéria, numa série de massacres, um deles, em uma escola, matando várias crianças. Você deve ter ouvido falar, mas, “parou tudo”? Não parou. A julgar pelo espetáculo em volta de recentes shows-violência, esse do Boko Haram mereceria um mês de programa especial em todas as emissoras. Mas não. Afinal o Boko-Haram não é tão superstar assim como a ISIS, e vidas africanas não valem tanto como uma vida européia ou americana. Em novembro do mesmo ano, o ataque em Paris, que matou pouco menos de 200, parou o mundo e até reuniu Chefes de Estado em uma marcha simbólica.

Terrorismo não é o que a mídia te diz (insistentemente) que é. Terrorismo não é “pessoas com cara de árabe matando pessoas com descendência européia”. Mas isso é martelado ad infinitum pela mídia cada vez que um maluco (ou grupo de malucos) resolve matar um monte de gente (mas só se for na Europa ou EUA, claro). Está sendo martelado na cabeça de todos nesse exato momento, enquanto o mundo acorda chocado com mais uma ação de violência radical.

Ignorar o poder que a mídia tem de fabricar esteriótipos e modelos de ordem global obsoletos é demonstrar profundo desconhecimento da natureza da mente humana. É se colocar num patamar de racionalidade e objetividade utópico. Somos todos, absolutamente todos, sujeitos a sugestão da mídia, da publicidade e de ideologias. Consumimos, achando que estamos tomando decisões puramente racionais, quando na verdade agimos por impulso – alimentado por campanhas massivas de propaganda. Discutimos conceitos que acreditamos ser “nossos” e fonte de estudo, quando na verdade pegamos emprestado (e repetimos sem crítica) do mainstream cultural, da mídia, do cinema, da arte, da sociedade.

Desligue a TV (ou pelo menos, mude de canal; acredite, ainda há jornalismo sério). A exposição prolongada a esses espetáculos de violência te dessensibiliza para os fatos, e os conceitos furados e simplistas que querem vender (que não tem um objetivo, se não o de te tornar cada vez mais ávido por consumir esses espetáculos) se insinuam na sua mente da mesma forma que o desejo de comprar “aquele carro”.

A desigualdade de que ninguém fala

desigualdade econômica

Estamos sempre ouvindo falar sobre desigualdade social, e esse conceito já faz meio que parte da nossa psique, do inconsciente coletivo do brasileiro, digamos assim – até por que, somos um dos países mais desiguais do planeta. Todo mundo sente na pele o resultado dessa desigulade mesmo sem saber exatamente dar um nome a isso, ou saber as suas principais causas. Mas algo me diz que, mesmo entre os “entendidos”, esse conceito tão amplamente debatido e trazido à tona quando falamos de políticas públicas, não está contando a história inteira. E existe um motivo pra isso.

Vou fazer uma pergunta e quero que você pause e responda com a primeira coisa que vier na sua cabeça: o que você entende por desigualdade econômica? Naturalmente a desigualdade econômica é o que se percebe em qualquer sociedade, a divisão entre os muito ricos, os ricos, a classe média, os pobres e muito pobres. Até uma criança de 8 anos entende isso. Mas uma criança de 8 anos de idade ainda não sabe como se consegue dinheiro e por que algumas pessoas são mais ricas do que outras.

A medida que essa criança vai entendendo melhor o mundo, logo ela é apresentada ao conceito de salário. Primeiro ela deve ver na TV que o Neymar ganha, sei lá, um milhão de Euros por mês. Porra, isso é muito dinheiro. Por isso ele é tão rico. Mas ele não era rico antes. É de origem humilde, seu pai ganhava uma merreca, e agora com um salário desse, vive como rei. Ou seja, desigualdade econômica é basicamente desigualdade de renda. É uma indução totalmente lógica e não está errada. Mas não é a história toda.

A faxineira não deve ganhar lá muito bem, pensa a criança. Mas meu pai certamente ganha muito mais que ela, afinal tem esse apartamento, paga a minha escola, minha comida e meus brinquedos, e ainda sobra pra pagar a ela. É assim que as coisas são. Uns ganham mais que outros e ponto final. Ponto final? Antes fosse.

Essa percepção, a de que desigualdade econômica é basicamente a desiguladade de renda, é tão amplamente reconhecida, e dada como correta, que praticamente não é discutida. Raramente se vê qualquer discussão de desiguladade social que vá além da renda. Mas essa noção está bastante incompleta, e equivocada.

Antes de eu prosseguir, gostaria de deixar claro que a desigualdade em si não é necessariamente prejudicial. Vivemos num mundo extremamente complexo com pessoas em todas as categorias de necessidades e potencialidades, e garantir que todas essas pessoas tenham exatamente (até o último centavo) a mesma posição social e mesma renda, é simplesmente inviável, utópico. A desigualdade, poderia se dizer, é até necessária para que haja progresso. As pessoas estão constantemente tentando melhorar de vida, para isso se especializam, empreendem e a maré leva todos para cima juntos. Pode parecer estranho eu estar falando isso nesse blog, que é obviamente de esquerda, mas não é. É uma visão meramente racional e fria das coisas como elas são. Não adianta fingir que há um mundo possível cor-de-rosa nos aguardando, quando sabemos que o ser humano está bem longe desse nível de evolução – estamos destruindo nosso próprio planeta, seria meio ridículo pensar em um mundo plenamente equalitário. Muita merda pra resolver antes.

O que ocorre – e todos podem facilmente perceber isso – é que a desiguldade social vem atingindo níveis alarmantes mundo afora. A globalização só piorou tudo. Desigualdade extrema é sinônimo de uma sociedade em falência. Um relatório recente, aponta que os 1% mais ricos, possuem a mesma riqueza dos outros 99% somados. Isso é absolutamente surreal e precisa ser endereçado, pois é algo que já está fora de controle e a tendência é piorar. Daqui a uns anos será 0,1% igual a 99,9%. A pirâmide vai ficando com uma base mais larga, ou seja, temos mais pessoas extremamente pobres, e a classe média (a principal força produtiva), vai ficando espremida no meio e também sendo depredada e pressionada.

E o que causa isso? É o salário desses top 1%? É óbvio que não. Essas pessoas, em sua enorme maioria, sequer ganham salário, talvez nunca tenham recebido um único vencimento em toda a vida. E mesmo assim, veem suas fortunas crescendo. Como pode?

Simples: desigualdade de capital. E essa é infinitamente mais complexa que a desiguladade de renda. Pra começar, o capital, especialmente hoje em dia, é algo cada vez mais difícil de definir e controlar. Renda é renda, não tem papo. É quanto você recebe no fim do mês pelo seu trabalho – seja de um empregador, seja dos seus clientes se você for autônomo. Mas e o capital? Essa palavra que toda vez que aparece, já remete a Marx. Pois é, ele sabia das coisas quando identificou que o buraco era mais embaixo. Incluem-se aí: bens imóveis (casas, apartamentos, terrenos), investimentos, ações, participações em empresas, contas no exterior, etc, etc. A galera do top 1% retira todo seu dinheiro do fato de que tem muito dinheiro, e dinheiro faz dinheiro, sozinho, sem demandar força produtiva ou retornar algum produto ou serviço. Ahn? Como assim?

Não precisa ir longe, lá pros top1%. Eu mesmo, tendo trabalhado mais de 10 anos na mesma empresa, possuindo apartamento próprio, casado com uma mulher que também tem um salário legal, já consegui juntar uma grana boa em investimentos. Não vou dizer quanto, é irrelevante. O fato é que, esse dinheiro cresce sozinho. E o rendimento, assim como os juros, é cumulativo. Ou seja, esse meu dinheiro, parado lá, cresce, como massa de bolo, sem que eu mova uma palha pra isso. No máximo gasto algumas horas por mês pra acompanhar o rendimento e ver se posso, com alguns clicks, fazer algo pra obter resultados melhores.

Digamos que alguém tenha R$ 500.000 num investimento, seja por que juntou isso durante 20 anos trabalhando, seja por que herdou da tia que morreu. Esse dinheiro, num investimento merda, rende 1% ao mês. Ou seja, hoje é 500, mês que vem é 505 e no outro é 510,05. Cinco mil reais, limpinhos, zero esforço. Isso é muito mais que a renda da grande maioria do planeta, que rala horrores pra ganhar uma merreca no fim do mês. Qual é o capital dessa grande maioria mais pobre? Zero. Capital zero não rende nada. Na verdade, a maioria dessas pessoas possui capital negativo, pois estão constantemente adquirindo dívidas e tomando crédito. Você não junta capital se o salário nem chega ao fim do mês.

Grande novidade hein, Christian? Todo mundo sabe disso. Sabe? Então por que não cobramos dos nossos governantes que mudem isso? Por que não vamos às ruas pedir a Taxação Progressiva de grandes fortunas? Sabemos que os maiores sonegadores do Imposto de Renda são exatamente aqueles que fazem todo tipo de manobra pra esconder sua renda, e seu capital, colocando tudo no nome dos filhos e usando contas no exterior. Quem paga a conta, é quem menos tem. E por que?

Bom, é simples, e também óbvio – lá vem o Christian de novo com o óbvio – poder econômico = poder político. Em todo lugar, desde sempre. Dinheiro compra tudo; compra políticos, compra legislação, compra isenções bilionárias, e basicamente, mantém o status quo. A própria herança não é debatida, é vista como direito inalienável, quase divino. Eu mesmo fui super beneficiado por heranças mas discordo totalmente que não devam ser mais taxadas (progressivamente, lógico).

Não adianta querer combater a desiguldade social com todo tipo de programa pra melhorar a renda do trabalhador, quando ele nunca vai ter as mesmas oportunidades de alguém que já nasce com um capital inicial garantido. O capital permite a pessoa a empreender, investir, se especializar – com pouco ou nenhum risco, sem precisar tomar crédito e pagar juros exorbitantes. E o capital, como eu já mencionei, cresce sozinho (alugéis, investimentos, ações), sem dar qualquer retorno à sociedade, sem a taxação devida, criando ainda mais desigualdade de oportunidades.

Boa parte dos 1% mais ricos, são mais ricos por que já nasceram dessa forma, nunca trabalharam e nem vão trabalhar na vida, e mesmo sem mover um cílio verão suas fortunas crescerem enquanto tomam champagne na beira da piscina. Tudo por causa de um sistema que foi desenhado e manipulado para beneficiá-los: regras de herança, diversificação de capital, ausência de regulação e taxação específicas, etc. Ou muda isso, ou pode vir o Bolsa Família Delux-Plus 200 que pouca coisa vai mudar – pode melhorar, claro, especialmente pra base da pirâmide, mas a tendência mundial permanecerá a de colapso. E não tem absolutamente nada a ver com “não dar o peixe”.

Por que o machismo é tão difícil de combater

A resposta curta e simples é: atinge homens também. A resposta “completa” virá ao longo do post. Não, não estou querendo com esse texto dar uma desculpa esfarrapada para a falha desse que vos escreve em combater esse mal. Apenas dar uma visão o “lado de cá” da história, pois há opressão também entre os opressores.

O machismo é prevalente por que ele é ao mesmo tempo increvelmente escancarado e violento – como no caso de estupros e abusos contra mulheres e LGBTS – e sutil e sorrateiro, quando se insinua e molda comportamentos e conceitos de homens (e mulheres!) em formação. Quando o menino faz manha, tanto a mãe como o pai dizem “menino não chora”, “deixa de ser fresco”. Quando o menino já está maiorzinho e não demonstra interesse em futebol ou esportes coletivos, ou tem medo de se machucar, os pais ficam frustrados – não está sendo o “homem padrão” que a sociedade espera.

Se dentro de casa é isso que a criança recebe, é isso que ela vai reproduzir quando iniciar sua socialização com amigos na escola e na rua. Como bem sabemos, não somos todos iguais, uns são mais feios, outros mais bonitos, uns maiores, outros menores. Tão logo isso fique claro (o que não é difícil, coisa de segundos em qualquer grupo), rapidamente, o Macho Alfa surge para deixar bem definidos os papéis. Aqui manda o maior, o mais bonito tem “direito” a tudo e todas. Os fracos “seguem” (i.e. obedecem) os fortes, os feios se limitam a ser zoados para sempre e engolir o choro. Se contentam com as sobras.

Se “menino não chora”, e ele apanha na escola e chora, ele então não é menino? É o que? Se ele não gosta de futebol, como pai e tios, será que ele nunca vai ser homem como o pai? Vai ser o que, então? O que é essa coisa de ser homem? Complicado. Se certas coisas são esperadas de um menino para ser homem e muitas delas fogem do seu controle, como compensar? Sendo mais violento, talvez? Tratando mal as meninas? Ou simplesmente não fazer nada, se fechar em si, e sofrer calado a inadequação. Conversar com o pai, nem pensar!

Não é novidade pra ninguém que o machismo não está apenas em casa e nas escolas – e mesmo que se fosse só nesses dois, já seria problema o suficiente, dada a importância formativa dos mesmos. Está em todos os lugares, na mídia, nas empresas, na rua, na arte, etc. Ele é auto-reforçado a cada vez que aparece se não é imediatamente identificado pelo que é e combatido. Como assim?

Digamos que um homem, vamos chamar ele de Rui, acaba de entrar numa empresa nova, e está tentando se enturmar. O colocam num grupo de Whatsapp (vamos deixar o exemplo bem moderno), e logo começa a receber fotos e vídeos de putaria. Ele deveria falar algo? Que ele é contra esse tipo de coisa? Imagina o estigma. Vai ser taxado de viado logo de cara. “Ser taxado de viado”, inclusive, parece ser o cúmulo da desonra e já é em si uma forma insidiosa de como o machismo molda nossas percepções de gênero.

Pra facilitar o entrosamento Rui agradece e manda algumas outras putarias de volta. De repente um dia, ele recebe umas fotos que parecem ser de uma menina de 14 anos no máximo. Opa, aí já é demais! Fala algo? Não fala nada? O chefe dele foi quem mandou. E aí? Rui fica quieto. Em outro dia, recebe aquelas fotos que “vazaram” da estagiária do andar de cima, confirmando o perfil do facebook dela e tudo. Rui fica quieto, mas não repassa as fotos, não acha legal essas coisas.

Creio que a maioria acharia difícil imaginar que Rui figure entre grande maioria ou a minoria dos homens. Mas não é difícil imaginar que ele seja a média. E a média se cala. E quem cala, como mamãe ensinou, consente. E assim o machismo prospera. Ele prospera no silêncio.

Não repassar as fotos da estagiária é o mínimo. Se calar diante de demonstrações risíveis de machimo (como alguém sugerindo, por qualquer ângulo, que a culpa da estuprada é da roupa que ela usou) é aquém do mínimo, e infelizmente, muitos de nós nos encontramos nessa categoria – a categoria que não fala nada. E dessa forma, não há diálogo, o assunto sequer é discutido. É o elefante na sala. Precisamos falar sobre o elefante.

Me lembro de uma vez, eu estava em uma reunião com pessoas de diversas áreas da empresa, de todas as idades, homens e mulheres, umas 15 pessoas. Até que dado momento, um homem, na casa dos 60 anos, de linguajar meio xulo e comportamento um tanto ogro, começa a descrever um cenário do projeto em questão e solta a seguinte pérola “e quando a minha quenga acessar o sistema […]”. Ahn? Quenga? Todos ficaram calados. E uma mulher, que não consegui identificar, perguntou baixinho, pra si mesma (sem querer iniciar um enfrentamento): “quenga?” estupefata (como o resto de nós) por ele ter usado essa palavra. O constrangimento no ar era quase sólido. De repente ele continua “Ué, não pode falar quenga? Estou falando da minha mulher, é carinhoso, sempre a chamei assim.”. Outra pessoa quebra o gelo com outro assunto, a reunião continuou e o cara calou a boca por alguns minutos percebendo a idiotice, mas certamente saiu da reunião certo de estar cercado de moralistas afrescalhados. Imaginem a educação que esse cara dá pro filho. Imaginem essa mulher, que aceita ser chamada de “quenga”, o machismo que ela ajuda a propagar. E o silência que ficou naquela sala, o silêncio mais significativo que existe. É o silêncio que diz tudo.

Não existe racismo no Brasil

segregation

E também não existe machismo, desigualdade social, desigualdade de gênero, homofobia e corrupção. Opa, peralá. Esse último aí existe sim! Aquele outro partido lá só faz roubar. Olha pras notícias. Cada dia é uma novidade. Mas é tudo “aquele outro partido lá”. O meu não. O meu é corretíssimo.

São impressionantes as tortuosas trilhas cognitivas que as pessoas percorrem para justificar suas visões deturpadas do mundo. Como ter a cara-de-pau de dizer que o Brasil (e vamos combinar, o mundo) não é racista ou homofóbico? Como olhar para os dados, os números, os fatos – e dizer que, não, que o mundo é justo com negros e gays? Que eles tem exatamente as mesmas oportunidades e exatamente o mesmo tratamento que brancos e heteros?

Quando a maioria de nós olha para coisa de 150 anos no passado, ficamos bestas ao imaginar um mundo onde pessoas de todas as classes sociais – e intelectuais – não apenas aceitavam, mas defendiam a escravidão como algo totalmente aceitável e até necessária para uma sociedade civilizada. O choque ético causado pela questão da escravidão foi tão grande, que chegou a gerar uma guerra civil nos Estados Unidos, rachando o país no meio, com o Sul (e quando você pensa no “Sul”, tem que imaginar milhões de pessoas, incluindo intelectuais, políticos, jornalistas, sociólogos, etc) defendendo que a escravidão era necessária para seu meio de vida, sua cultura, e é óbvio, para sua estabilidade econômica. O Norte venceu, naturalmente, e a escravidão foi abolida em todo o território americano. Mas isso quer dizer que a imaturidade moral que permitiu a escravidão foi extinta? De forma alguma. Os EUA são extremamente racistas, assim como nós. E lá também existe esse discurso vagabundo de que racismo “não existe”, está apenas “na cabeça das pessoas”.

Para uma pessoa, hoje em dia, considerar que racismo é uma “coisa do passado” ou “frescura”, ela precisa de um exercício interessante de distorção lógica, onde fatos e números são simplesmente ignorados, para que uma relação causal maluca se confirme em sua cabeça. Não há mais uma quantidade expressiva (aliás, nem mesmo ínfima) de intelectuais que defendam segregação. Mas isso não importa. As pessoas conseguem achar validação de seus preconceitos e nanismo ético por aí. Com as redes sociais, isso ficou ainda mais fácil.

É bom lembrar que não estamos falando de questões polêmicas que ainda dividem opiniões no mundo como legalização das drogas e aborto. Essas coisas ainda não são regra, alguns poucos países avançaram enquanto na maior parte dos outros a realidade ainda é bastante dura. Mas no caso da igualdade racial, pelo menos perante a lei, já ultrapassamos a “polêmica”. Não há sequer uma país desenvolvido no planeta, onde ainda existam leis que dêem privilégios a uma raça (i.e. cor) sobre outra.

Já que citei os EUA, vamos continuar a usá-lo como parâmetro (afinal os números por aqui não são muito diferentes). Peguem um simples fato, um dado, que não é discutível: existem, em média, 4x mais presos negros nos EUA do que brancos. Essa fato, isolado, fora de contexto, é preenchido pela sua mente com o contexto que você quer dar a ele, com o mais confortável e acessível pra você. Sua mente vai lhe dar uma explicação causal sem que você saiba – automaticamente. Pra quem acha que o mundo não é racista, a explicação será algo como “negros são inferiores”, “negros tem mais chance de serem pobres”, “negros tem maiores chances de viver em áreas de risco e se tornarem criminosos”, etc, etc. Talvez a pessoa não diga “negros são inferiores” nos seus argumentos, mas no fundo, é o que causalidade automática que a mente dela lhe ofereceu significa. Afinal, não há outra explicação para ter 4x mais negros presos do que brancos na cadeia. Deve haver algo errado com os negros para eles serem presos com tanta frequência.

E nada me vem a cabeça para “explicar” essa causalidade oferecida pela mente do que pessoas que possuem uma sensação de merecimento (ou melhor, entitlement, sobre o qual escrevi um pouco aqui) bem acima da média. São pessoas que acham que o mundo lhes deve algo, são especiais. Fazem parte de um grupo seleto, escolhido, e os outros são… os outros. Não deve ser surpresa alguma que essas mesmas pessoas defendam a famigerada meritocracia – ou em bom português “é pobre por que quer”.

Racismo não existe. Nem machismo. Nem homofobia. Quem mandou nascer negro, mulher ou gay? O mundo é dos homens brancos e heteros. Assim é, assim é que deve ser. Pare de reclamar e vá trabalhar!

A moralística do atraso

Pois bem, finalmente decidi escrever sobre esse assunto da maneira mais imparcial que consigo, afinal um mimimi sobre o tema eu já tenho. Não sei por que só as 37 anos de idade que eu cheguei a essa “conclusão”, mas o fato é que consegui identificar um abismo de entendimento entre as duas partes (os atrasados e os pontuais), especificamente quando o tema é investigado sobre uma ótica moralista. Nenhuma parte entende a outra e a vitimização é constante, o que não facilita o debate e não nos leva a evolução alguma.

Por mais que tente ser o mais imparcial possível, quando tratamos de aspectos morais é praticamente impossível ser um observador suficientemente distante e inerte; então se parecer que estou puxando a sardinha para o lado dos pontuais, bom, faz parte do desafio de dar uma de filósofo da moral utilizando como ferramenta uma mente altamente moralizada.

Antes de mais nada, acho que é interessante tentarmos olhar para o assunto de uma perspectiva totalmente objetiva, para que dessa forma possamos perceber uma coisa bem simples: horários existem para que as coisas funcionem da melhor maneira possível, e todos tiram proveito disso, atrasados e pontuais.

Imaginem um aeroporto: com sua enorme complexidade de processos, sistemas e fluxos de pessoas, funcionando como um organismo, non-stop. Se não houver, nesses processos e sistemas, uma preocupação com controle do tempo que para alguns mais relaxados poderia ser comparada a uma neurose, seria impossível manter os horários dos voos minimamente organizados. Se você levar em consideração que cada aeroporto está conectado à dezenas de outros ao redor do mundo, a complexidade desses sistemas e a preocupação com o horário necessária se torna ainda mais rígida. Mas mesmo assim, atrasos acontecem. Pode ser por causa de mau tempo, algum passageiro atrasou no embarque, ou simplesmente um pequena falha na enorme complexidade dos processos. E vamos combinar: ninguém gosta desses atrasos. Nem pontuais, nem atrasados. Se você atrasou pra sair de casa e pegar seu voo, e deu a “sorte” do voo atrasar em 1h, deu sorte, ótimo. Pontuais também gostam dessa sorte. Mas quando um voo atrasa 6h devido a uma sequencia de problemas que pode ter começado na noite anterior do outro lado do planeta, não é legal. Independente da causa (que raramente chegamos a conhecer), não é legal pra ninguém: nem pros funcionários, nem pros passageiros. O que me leva a uma simples conclusão que acredito que possa ser compartilhada por atrasados e pontuais: ninguém gosta de atraso. Ponto. Podemos concordar com isso? Ok, seguindo em frente.

Portanto, resumindo: de um ponto de vista puramente objetivo, podemos todos (atrasados e pontuais) concordar que atraso é ruim. Por indução lógica, a pontualidade (controles, eficiência de processos, sistemas a prova de falhas, punições para desvios, etc) é geralmente vista como boa e útil – para todos! O que coloquei em parênteses na pontualidade é importante ressaltar também, pois não se iludam, pontualidade não existe magicamente. Requer esforço, auto-avaliações e melhorias contínuas. Quase uma obsessão, da qual todos se beneficiam. Os trens da Europa não operam com precisão de minutos apenas por que os sistemas deles são otimizados, mas por que tudo funciona bem, e todas as pessoas envolvidas tem como o objetivo ser cada vez mais e mais pontuais e precisas. E nem sempre isso é agradável para os envolvidos. Não é exatamente divertido.

Mas (e aqui começa a parte polêmica) quando moralizamos o tema do atraso e da pontualidade, parece não haver um ponto em comum. Não existe mais o “para todos”. E não apenas na forma como a moralização do atraso é vista por cada um dos lados. O que ocorre na maioria dos casos é que um dos lados (os pontuais) ficam com toda a carga moral da questão, enquanto os atrasados tentam ver a questão sempre de forma objetiva, excluindo qualquer conotação ética. E isso é especialmente verdade quando o atraso sendo avaliado é um atraso social – ou seja, de um simples encontro entre pessoas ou grupos (um jantar, uma viagem, uma festa, uma mesa de bar, etc).

A cerca de um ano atrás eu fiz uma pergunta no Quora, indagando sobre o aspecto moral do atraso. Eu já sabia que seria uma pergunta que ia gerar reações diversas e algumas até ultra-defensivas, mas eu nunca imaginava que a polarização seria tanta. O que se pode perceber lá claramente é que os pontuais realmente acreditam que quem atrasa está errado, que não está dando o real valor ao tempo do outro, etc. E os atrasados, praticamente todos, evitaram completamente de avaliar seus comportamentos sob a ótica moral e falaram sobre responsabilidade, produtividade, etc. Não há ponto em comum. Como eu falei, os pontuais moralizam demais a questão, enquanto os atrasados moralizam de menos, quase nada.

O que falta para que seja possível conversar sobre isso objetivamente, sem mimimi, e sem cada um tentar ser a vítima é cada um ser mais honesto sobre a sua personalidade e a consequência de seus atos. Como não há tal coisa, cada lado acha que entende o outro, e por que ele é do jeito que é. Pontuais veem atrasados como pessoas enroladas e insensíveis. Atrasados veem pontuais como pessoas controladoras e chatas.

O fato é que todos sofrem. Pontualidade não é uma “virtude” legal de se ter. As desvantagens são enormes, especialmente se você deu o azar de nascer num lugar que dá pouco valor a isso (ex: Brasil). Está geralmente associada à ansiedade e pessimismo. Atrasados tendem a perceber o comportamento do pontual como facilitado pelos seus hábitos, por exemplo, de dormir e acordar cedo. Quando na verdade é o contrário: o fato de ser pontual é que o condiciona a ter seus comportamentos regrados. Pontuais, especialmente quando chateados com algum atraso, tendem a julgar o ocorrido de um ponto de vista primordialmente moral, “como pode a pessoa dar tão pouco valor ao meu tempo?”, e isso influencia seu julgamento da coisa como um todo, ignorando o fato que sua mente é tão completamente diferente da do atrasado (nesse aspecto específico) como comparar a visão de neoliberais e comunistas sobre a propriedade privada.

Pra piorar, o lado “prejudicado” da história quase sempre são os pontuais, logo eles serão quase sempre também os únicos a falar e reclamar disso. A única vez que li um texto realmente legal e bastante honesto (e engraçado) sobre um atrasado, e do que faz ele ser atrasado foi nesse blog. Se você for um atrasado e concordar com ele, comenta aí e vamos debater.

Mas existe algo além disso. E mais outros “algos” também que me fogem. O comportamento de grupo (herd mentality), a que somos todos sujeitos, de maneiras que nem percebemos, dificulta uma real aproximação maior entre os indivíduos de cada um dos grupos para que essas sutilezas venham à tona. Preferimos nos fazer de vítimas e culpar o outro, buscando validação dos nossos comportamentos no grupo a que pertencemos. Em cada sociedade a proporção entre os grupos é diferente, mas cada grupo é sempre grande o suficiente para ser possível buscar tal validação e conforto sobre seu posicionamento.

Para terminar, precisamos voltar um pouco ao aspecto objetivo da coisa. E já esclarecemos o fato de que atraso é ruim, certo? Então sob a ótica puramente objetiva da consequência das ações de cada um, o pontual, por mais que ele tenha lá suas questões internas e chatices, está “certo” na maioria das vezes quando o horário é a questão. Em sociedades atrasadas como a nossa, chegar atrasado é até esperado. Ninguém chega no exato horário combinado, e como ninguém quer ser o primeiro a chegar, colocam mais 30 minutos na mistura. Com isso, a cultura do atraso se fortalece e com ela a legitimação do atrasado – qualquer possibilidade de moralizar seu próprio comportamento vai pro ralo.

Precisamos equilibrar essa balança da carga moral do assunto “atraso”. É peso demais para alguns poucos pontuais carregarem.