A desigualdade de que ninguém fala

desigualdade econômica

Estamos sempre ouvindo falar sobre desigualdade social, e esse conceito já faz meio que parte da nossa psique, do inconsciente coletivo do brasileiro, digamos assim – até por que, somos um dos países mais desiguais do planeta. Todo mundo sente na pele o resultado dessa desigulade mesmo sem saber exatamente dar um nome a isso, ou saber as suas principais causas. Mas algo me diz que, mesmo entre os “entendidos”, esse conceito tão amplamente debatido e trazido à tona quando falamos de políticas públicas, não está contando a história inteira. E existe um motivo pra isso.

Vou fazer uma pergunta e quero que você pause e responda com a primeira coisa que vier na sua cabeça: o que você entende por desigualdade econômica? Naturalmente a desigualdade econômica é o que se percebe em qualquer sociedade, a divisão entre os muito ricos, os ricos, a classe média, os pobres e muito pobres. Até uma criança de 8 anos entende isso. Mas uma criança de 8 anos de idade ainda não sabe como se consegue dinheiro e por que algumas pessoas são mais ricas do que outras.

A medida que essa criança vai entendendo melhor o mundo, logo ela é apresentada ao conceito de salário. Primeiro ela deve ver na TV que o Neymar ganha, sei lá, um milhão de Euros por mês. Porra, isso é muito dinheiro. Por isso ele é tão rico. Mas ele não era rico antes. É de origem humilde, seu pai ganhava uma merreca, e agora com um salário desse, vive como rei. Ou seja, desigualdade econômica é basicamente desigualdade de renda. É uma indução totalmente lógica e não está errada. Mas não é a história toda.

A faxineira não deve ganhar lá muito bem, pensa a criança. Mas meu pai certamente ganha muito mais que ela, afinal tem esse apartamento, paga a minha escola, minha comida e meus brinquedos, e ainda sobra pra pagar a ela. É assim que as coisas são. Uns ganham mais que outros e ponto final. Ponto final? Antes fosse.

Essa percepção, a de que desigualdade econômica é basicamente a desiguladade de renda, é tão amplamente reconhecida, e dada como correta, que praticamente não é discutida. Raramente se vê qualquer discussão de desiguladade social que vá além da renda. Mas essa noção está bastante incompleta, e equivocada.

Antes de eu prosseguir, gostaria de deixar claro que a desigualdade em si não é necessariamente prejudicial. Vivemos num mundo extremamente complexo com pessoas em todas as categorias de necessidades e potencialidades, e garantir que todas essas pessoas tenham exatamente (até o último centavo) a mesma posição social e mesma renda, é simplesmente inviável, utópico. A desigualdade, poderia se dizer, é até necessária para que haja progresso. As pessoas estão constantemente tentando melhorar de vida, para isso se especializam, empreendem e a maré leva todos para cima juntos. Pode parecer estranho eu estar falando isso nesse blog, que é obviamente de esquerda, mas não é. É uma visão meramente racional e fria das coisas como elas são. Não adianta fingir que há um mundo possível cor-de-rosa nos aguardando, quando sabemos que o ser humano está bem longe desse nível de evolução – estamos destruindo nosso próprio planeta, seria meio ridículo pensar em um mundo plenamente equalitário. Muita merda pra resolver antes.

O que ocorre – e todos podem facilmente perceber isso – é que a desiguldade social vem atingindo níveis alarmantes mundo afora. A globalização só piorou tudo. Desigualdade extrema é sinônimo de uma sociedade em falência. Um relatório recente, aponta que os 1% mais ricos, possuem a mesma riqueza dos outros 99% somados. Isso é absolutamente surreal e precisa ser endereçado, pois é algo que já está fora de controle e a tendência é piorar. Daqui a uns anos será 0,1% igual a 99,9%. A pirâmide vai ficando com uma base mais larga, ou seja, temos mais pessoas extremamente pobres, e a classe média (a principal força produtiva), vai ficando espremida no meio e também sendo depredada e pressionada.

E o que causa isso? É o salário desses top 1%? É óbvio que não. Essas pessoas, em sua enorme maioria, sequer ganham salário, talvez nunca tenham recebido um único vencimento em toda a vida. E mesmo assim, veem suas fortunas crescendo. Como pode?

Simples: desigualdade de capital. E essa é infinitamente mais complexa que a desiguladade de renda. Pra começar, o capital, especialmente hoje em dia, é algo cada vez mais difícil de definir e controlar. Renda é renda, não tem papo. É quanto você recebe no fim do mês pelo seu trabalho – seja de um empregador, seja dos seus clientes se você for autônomo. Mas e o capital? Essa palavra que toda vez que aparece, já remete a Marx. Pois é, ele sabia das coisas quando identificou que o buraco era mais embaixo. Incluem-se aí: bens imóveis (casas, apartamentos, terrenos), investimentos, ações, participações em empresas, contas no exterior, etc, etc. A galera do top 1% retira todo seu dinheiro do fato de que tem muito dinheiro, e dinheiro faz dinheiro, sozinho, sem demandar força produtiva ou retornar algum produto ou serviço. Ahn? Como assim?

Não precisa ir longe, lá pros top1%. Eu mesmo, tendo trabalhado mais de 10 anos na mesma empresa, possuindo apartamento próprio, casado com uma mulher que também tem um salário legal, já consegui juntar uma grana boa em investimentos. Não vou dizer quanto, é irrelevante. O fato é que, esse dinheiro cresce sozinho. E o rendimento, assim como os juros, é cumulativo. Ou seja, esse meu dinheiro, parado lá, cresce, como massa de bolo, sem que eu mova uma palha pra isso. No máximo gasto algumas horas por mês pra acompanhar o rendimento e ver se posso, com alguns clicks, fazer algo pra obter resultados melhores.

Digamos que alguém tenha R$ 500.000 num investimento, seja por que juntou isso durante 20 anos trabalhando, seja por que herdou da tia que morreu. Esse dinheiro, num investimento merda, rende 1% ao mês. Ou seja, hoje é 500, mês que vem é 505 e no outro é 510,05. Cinco mil reais, limpinhos, zero esforço. Isso é muito mais que a renda da grande maioria do planeta, que rala horrores pra ganhar uma merreca no fim do mês. Qual é o capital dessa grande maioria mais pobre? Zero. Capital zero não rende nada. Na verdade, a maioria dessas pessoas possui capital negativo, pois estão constantemente adquirindo dívidas e tomando crédito. Você não junta capital se o salário nem chega ao fim do mês.

Grande novidade hein, Christian? Todo mundo sabe disso. Sabe? Então por que não cobramos dos nossos governantes que mudem isso? Por que não vamos às ruas pedir a Taxação Progressiva de grandes fortunas? Sabemos que os maiores sonegadores do Imposto de Renda são exatamente aqueles que fazem todo tipo de manobra pra esconder sua renda, e seu capital, colocando tudo no nome dos filhos e usando contas no exterior. Quem paga a conta, é quem menos tem. E por que?

Bom, é simples, e também óbvio – lá vem o Christian de novo com o óbvio – poder econômico = poder político. Em todo lugar, desde sempre. Dinheiro compra tudo; compra políticos, compra legislação, compra isenções bilionárias, e basicamente, mantém o status quo. A própria herança não é debatida, é vista como direito inalienável, quase divino. Eu mesmo fui super beneficiado por heranças mas discordo totalmente que não devam ser mais taxadas (progressivamente, lógico).

Não adianta querer combater a desiguldade social com todo tipo de programa pra melhorar a renda do trabalhador, quando ele nunca vai ter as mesmas oportunidades de alguém que já nasce com um capital inicial garantido. O capital permite a pessoa a empreender, investir, se especializar – com pouco ou nenhum risco, sem precisar tomar crédito e pagar juros exorbitantes. E o capital, como eu já mencionei, cresce sozinho (alugéis, investimentos, ações), sem dar qualquer retorno à sociedade, sem a taxação devida, criando ainda mais desigualdade de oportunidades.

Boa parte dos 1% mais ricos, são mais ricos por que já nasceram dessa forma, nunca trabalharam e nem vão trabalhar na vida, e mesmo sem mover um cílio verão suas fortunas crescerem enquanto tomam champagne na beira da piscina. Tudo por causa de um sistema que foi desenhado e manipulado para beneficiá-los: regras de herança, diversificação de capital, ausência de regulação e taxação específicas, etc. Ou muda isso, ou pode vir o Bolsa Família Delux-Plus 200 que pouca coisa vai mudar – pode melhorar, claro, especialmente pra base da pirâmide, mas a tendência mundial permanecerá a de colapso. E não tem absolutamente nada a ver com “não dar o peixe”.

Vale a pena Protestar pelo quê ?

Com o levantar desta onda de protestos que vem acontecendo atualmente no Brasil, foi possível ver a enorme diversidade de problemas que nos afeta.
Os cidadãos não eram uma multidão sem causa, de fato existiam causas até demais.

Foram diversas marchas pela revogação do aumento de 20 centavos, e o atender dessa exigência foi uma grande vitória. Foi possível ver que pressão popular funciona, representação direta tem seu valor.

Os objetivos do Movimento Passe Livre devem continuar seguindo seu cronograma, porém é inevitável perguntarmos: Pelo quê vale a pena protestar?
Por tudo, claro. Porém, em função da pluralidade, é preciso escolhermos prioridades, para não ficarmos como um Cachorro quando se jogam bolas demais para ele pegar. Ele não sabe pra onde correr primeiro.

Fora isso, precisamos parar pra pensar se o que vemos como problema, é realmente um problema, ou se é um reflexo de outro problema maior. E se sim, não vale a pena então lutarmos pra resolver esse problema maior?

Então, vamos refletir um pouco, nos aprofundar e ver até onde podemos ir!
E assim, ao escolhermos por qual problema lutar, quais soluções temos como alternativa? Podemos criar uma nova?

Protestar3

Nota: Algumas explicações aqui foram consideravelmente simplificadas, porém com o maior esforço possível para que fosse mantida a essência da idéia.
Para quem quer aprofundar-se, alguns materiais de referência:

– (Livro) The Spirit Level: Why Equality is Better for Everyone – Richard Wilkinson
– (Livro) Violence: Reflections on a National Epidemic – James Gilligan
– (Artigo) Whitehall Study II
– (Video) Money as Debt
– (Video) Zeitgeist – Addendum
– (Video) Crises do Capitalismo – Sérgio Lessa

Ensaios sobre a Corrupção

corrupAh, a corrupção. Quando ouvimos esta palavra, imediatamente nos vem à cabeça a imagem de um político enfiando dinheiro na cueca. Mas é só isso mesmo?

Corrupção é QUALQUER atitude que cause a deterioração total ou parcial do do sistema, e quando pensamos nesses termos, começamos a enxergar que a mesma está em todo lugar.


Por que corrupção causa degeneração do sistema?

Como sociedade, temos um grupo de regras estabelecidas e aceitas por uma maioria.
Quem joga nas regras, pode ser mal recompensado, ou bem recompensado se jogar bem.
Não jogar nas regras é passível de punição.

O corrupto entra na história como um oportunista, o cara que conhece as regras, porém utiliza ferramentas não aprovadas socialmente pra conseguir a sua recompensa. Note que existe esforço e risco, só não é considerado válido pelas maiorias. Um cara que planeja um assalto teve um enorme trabalho, assim como um político que elabora um esquema.

A degradação do sistema se dá pelo fato dessas ações recompensarem de maneira desmedida em relação às recompensas dadas aos que jogam por dentro das regras.
Não é que o corrupto se esforça menos, porém a sua infração deprecia o mérito individual de TODOS ao seu redor. Tira o valor do esforço de cada um.

Determinamos uma certa forma de avaliação para quantificar o mérito de cara jogador, geralmente representado através de “Fichas” (tokens). Obter essas fichas por fora da avaliação desorganiza o jogo inteiro, como se o corrupto fosse um parasita de esforço.

Isso torna-se mais fácil ainda quando essas fichas são anônimas e transferíveis.
Imagine que aconteça um assalto bem na frente da sua loja. A seguir, o bandido entra e quer comprar alguma coisa. Você aceitaria esse dinheiro? Muitos não, por ser fácil enxergar aí a origem corrupta desses tokens.
Porém a aceitação muda quando os crimes acontecem longe dos olhos, como por exemplo quando recebemos uma pequena renda em nossa poupança, vinda das dívidas de famílias miseráveis sendo exploradas por golpes de empréstimos impagáveis. Lavamos as mãos nesses casos.

Quais são as regras do jogo?

Em nossa sociedade, o que consideramos mérito não é a bondade, o autruísmo ou as boas intenções. Por mais bonitos que sejam esses valores, estes não são funcionais num mundo repleto de escasses. Já dizia o ditado que uma mão trabalhando vale mais que vinte mãos rezando. E é isso que medimos. Valorizamos as pessoas que contribuem com a sociedade através do trabalho.

Todos que fornecem à sociedade algum tipo de produto ou serviço, recebem “fichas” que representam e quantificam a contribuição do indivíduo. Para isso serve o nosso velho conhecido, o dinheiro.

Mais difícil de notar, é que a partir do momento da definição das regras, tudo o que cai pra fora desse gargalo torna-se automaticamente corrupção.
Nessa hora, a teoria econômica ortodoxa tem muito a falar sobre, apesar de nem sempre definir com clareza os pontos.
É definido que para o bom funcionamento do sistema, as trocas de “fichas” devem acontecer voluntariamente por ambas as partes, o comprador e o vendedor do produto/serviço. Qualquer coisa fora disso ou é corrupção ou é manipulação.

A corrupção de fato:

Pra enxergamos a corrupção, vamos usar um exemplo simplificado, para depois expandir para um modelo mais complexo.
Nessa caso, o velho Banco Imobiliário cai como uma luva. Tem um conjunto de regras definidas as quais todos participantes concordam, e tem fichas que quando acumuladas, servem de indicador do desempenho de cada um. Ah sim, e não tem estado pra interferir também, estaremos operando num modelo teoricamente, de livre-mercado.

Corrupção “Negativa”: Considero essas as mais fáceis de enxergar. Esse tipo é gritado pela mídia 24 horas por dia.

O espertinho (O assaltante) – Quando ninguém está olhando, Pedrinho passa a mão na grana dos outros. Ele ganhar ou não, depende das oportunidades que aparecem dele roubar, porém uma coisa é certa: O perdedor absoluto nunca vai ser ele.

O dono da Bola (O banqueiro internacional) – Juquinha é o dono do Banco Imobiliário. Se ele perder, vai ficar putinho, levantar e ir embora com o jogo inteiro, impedindo todos de brincar. Toda vez que ele começa a perder, todo mundo empresta um pouquinho pra ele. Ao contrário de Pedrinho, Juquinha ganha SEMPRE. A mesma coisa acontece com os bancos internacionais, que ameaçam quebrar a economia toda vez que não recebem pacotes de ajuda bilionários.

O Bully (O ditador estadista) – Muito simples. Sidão veio jogar com a gente, e devido à sua grande estatura, todos sabem que depois do jogo ele arrebenta na porrada todos que ganharem dele. Depois das primeiras partidas, ele não precisa mais bater em ninguém, mas “coincidentemente”, ele sempre ganha. Exceto se você tiver um primo maior que ele. Vide Oriente Médio, e todos países que são amiguinhos dos EUA.

A corrupção “Positiva”: Essa é mais difícil de enxergar, e quando diz-se positiva, não é que seja boa. É apenas socialmente aprovada, ignorada, ou até mesmo acidental!

O influente – Rafael não joga muito bem, mas é um cara muito legal. Empresta os brinquedos pra todo mundo, não é regulado. Vira e mexe, dão uma colher de chá pra ele. Não é sempre que ele ganha, mas nunca é o grande perdedor.

O herdeiro – Dessa vez, o jogo aconteceu em familia. Papai estava debulhando todo mundo, porém tinha que ir dormir cedo pra trabalhar no dia seguinte. Entregou toda a grana pra Joãozinho, que apesar de jogar mal pra caramba, obviamente ganhou de todo mundo no lugar de seu pai, só teve de dar “golpe de misericórdia.”

O fofoqueiro – Talita sabe os podres de todo mundo. O pode ter certeza que se ela não ganhar, alguma coisa vai vazar sobre quem estiver no caminho.

O político – Rafael tem uma lábia do caramba. Um especialista em prometer e enrrolar, só que é muito difícil enxergar isso, porque o jogo sempre termina antes dele ter de pagar tudo o que deve. “Se o jogo não tivesse terminado, eu teria pago” diria ele.

A avassaladora – Karen é uma gatinha, todos babam por ela. Com cada pequena bajulação e/ou colher de chá que dão pra ela, seu patrimônio aumenta e eventualmente ela ganha. O engraçado é que ela nem precisa fazer nada em favor disso, simplesmente nasceu bonitinha.

Os monopolistas – Luíz e Robson são melhores amigos, como carne e unha. Sempre que entram na jogo juntos, é um dos dois que ganham. Usam diversos códigos que só os dois entendem, e planejam as jogadas por debaixo dos panos. É como uma pessoa só jogando com duas posições de jogador, fica fácil ganhar assim.

Notem que nenhuma das “armas” utilizadas por esses fortes candidatos a ganhar o jogo, independente de serem negativas ou positivas, os fazem de fato melhores jogadores, no quesito “habilidade” no próprio jogo. De fato, em alguns casos eles mal precisam saber jogar direito. São mais aptos a ganhar, mas não em função de suas habilidades no jogo. São maus jogadores!

Aos nossos colegas Anarcocapitalistas e Liberais de Plantão: Percebam também que toda forma de corrupção “positiva” isso não tem absolutamente nada a ver com estado, ou a utilização do mesmo. As vantagens acumuladas ali serão exorbitantes, injustas, causarão danos ao funcionamento da sociedade, e um detalhe: Discretamente dentro das regras. Não há o uso de violência física ou intimidação.

Agora, um pequeno exercício de pensamento: Imaginem uma familia e/ou grupo tornando-se especialista em formas discretas de corrupção “positiva”. Eventualmente, tornarão-se imbatíveis de tão poderosas, e poderão ditar as regras do jogo. O próprio fato do Liberalismo não fazer vista grossa à acumulação de poder privado, é o que faz surgir o estado dentro de uma sociedade teoricamente livre.

Existe ainda um último exemplo que deixei por último, que torna o nosso modelo socioeconômico extremamente BIZARRO:

O coração mole – Bruno apesar de gostar de jogar, simplesmente não possui a brutalidade que o jogo exige. Não consegue ficar indiferente à tristeza de seus colegas que estão quase perdendo, e acaba a ajudá-los. Sua natureza gentil não permite, e isso faz com que ele nunca ganhe.

Porém Bruno mal sabe o mal que está fazendo à sociedade. Seus atos gentis, sua empatia faz com que os indivíduos mais inaptos continuem no jogo, quando deveriam sair. Ao ajudar os outros, preserva maus jogadores, não deixando essa simplória forma de “seleção natural” agir. Ou seja, num sistema altamente competitivo, empatia torna-se uma forma de corrupção. Mesmo que você não faça questão de ganhar, o bom funcionamento das regras exige dos jogadores um grau mínimo de brutalidade.

Quem ganha o jogo?

Estranhamente, o sociopata. Aquele indivíduo que nunca sente nada por ninguém, não tem sensibilidade ou habilidade social nenhuma, seria o ganhador desse jogo. Não porque é um bom jogador, mas porque sua falta de tato o torna imune à muitas das formas de corrupção “positiva”. Nunca vai gostar da menina, e nunca vai cair na ladainha dos outros não porque resistiu a elas, mas porque sua biologia falha não permite entendê-las.

E por fim, imaginem os efeitos a longo prazo. Pensem em um mundo onde as pessoas mais gentis e de coração mole são punidas e extintas, enquanto os sobreviventes são os sociopatas.
Para os que defendem um mundo governado pelo “livre-mercado” e pelas “democracias de mercado”, provavelmente esse é um cenário de mundo ideal, de humanos desumanos.

Conclusão

Não podemos afirmar também que colocar um estado controlando tudo resolveria toda a situação. É tão nocivo quanto. O problema está no sistema monetário em sí, o qual exige competição infinita, independente da presença de estado ou não. E com competição brutal crescendo ao infinito, corrupção torna-se o modus operandi do jogo, onde famosas “trocas com as duas partes concordando” representam na verdade uma parcela muito pequena das operações.

A maior parte dos seres humanos toma decisões constantemente sob a influência de hormônios, de feromônios, são afetados por emoções, medo, impulso. São manipulados pelo ambiente e coagidos pelos sentimentos. Acreditar que ninguém é manipulável, suscetível a coerção e pensar que todas as trocas ocorrendo são com os dois lados concordando sim, é que é utopia.

“Um homem vai ao consultório, e diz:
– Doutor, meu irmão pensa que é uma galinha!
– Dê esse remédio, e em duas semanas ele estará curado. – Diz o doutor.
– Não, doutor, você não entende. Estamos precisando dos ovos.”

Você é corrupto, eu sou corrupto, somos acidentalmente corruptos pelo simples fato de sermos humanos.
Corrompemos quando nos importamos.

Corrupção é o próprio sistema, e se ele só funciona quando seus participantes não se comportam como seres humanos, então é o sistema errado a se utilizar.

Para além da Meritocracia

Meritocracia (do latim meritu, mérito e cracia, poder) é um sistema de organização que considera o mérito a razão para se atingir determinada posição. Qual o benefício de se atingir posições mais altas? O acesso a recursos, serviços e em alguns casos, até o direito à vida.

Quando pensamos bem, é possível notar qualquer forma de distribuição de benefícios é essencialmente meritocrática. Um “Bully” que consegue tudo através do uso da força possui o mérito de ter mais músculos, e a “Gostosona” que faz todos pagarem tudo pra ela tem o mérito de possuir o padrão de beleza da época. Enfim, existe uma diversidade de qualidades pra se avaliar um indivíduo.

Mas e no Capitalismo?
Em teoria, seria a capacidade de produtividade de cada um. Na prática, é a capacidade de acumulação de capital.

Observemos o exemplo simplificado:
Imaginem que temos três fazendeiros compentindo por fatias de mercado em  uma ilha. (E para simplificar, vamos imaginar que o dinheiro em circulação é indestrutível e sem juros).

Mês-1
Fazendeiro A: Produção:4 Capital:4
Fazendeiro B: Produção:5 Capital:5
Fazendeiro C: Produção:6 Capital:6

Mês-2
Fazendeiro A: Produção:3 Capital:3
Fazendeiro B: Produção:5 Capital:5
Fazendeiro C: Produção:6 Capital:7

Mês-3
Fazendeiro A: Produção:3 Capital:2
Fazendeiro B: Produção:6 Capital:6
Fazendeiro C: Produção:7 Capital:7

O que aconteceu aqui?
Nesse momento, os Anarco-Capitalistas, Neoliberais entre outros tem a respostas na ponta da língua: É o exemplo clássico do “Gafanhoto e a Formiga”. O Fazendeiro “C” trabalhou mais que os outros enquanto o Fazendeiro “A” era o mais preguiçoso, produziu menos e portanto recebeu menos. O que estamos vendo é a Meritocracia em ação!

Será mesmo?

Capitalismo brutal, indiferente, intolerante e inflexível

É muito simplista supôr que a baixa produtividade de alguém se deve apenas à sua falta de força de vontade. Um sujeito preguiçoso obviamente produz menos que os outros e por isso deveria ser menos recompensado, mas existem dezenas de fatores afetando o mundo!

Observem:
• Se cair uma tempestade e destruir a plantação, o indivíduo vai ser tão punido financeiramente quanto se fosse alguém preguiçoso;
• Se ele tiver o azar de ficar doente ou se machucar naquele mês, também será punido como se fosse alguém preguiçoso;
• Se ele simplesmente nasceu uma pessoa mais burra, mais destraída ou mais ingênua, vai ser tão punido quanto uma pessoa preguiçosa e improdutiva.

Nesses casos, a pessoa não foi responsável por NENHUM desses fatores, porém estará tão condenada quanto uma pessoa que deixa de contribuir para a sociedade intencionalmente!

E o grande problema é que a coisa não para por aí:
• Se a pessoa deixar de trabalhar pra ajudar alguém, diminuirá a produtividade e será punida como o preguiçoso;
• Se ele for coração-mole e distribuir uma parte da produção de graça, será tão punido financeiramente quanto o preguiçoso;
• Se ele se solidarizar com o vizinho que teve mais azar naquela safra, não só vai ser penalizado com menos capital, estará colaborando com um concorrente que poderá criar mais dificuldades a longo prazo;
• E o pior: Se ele for sincero e honesto, e admitir que os produtos do vizinho estão mais saborosos naquela safra, também será punido.

Ou seja, autruísmo, honestidade, sinceridade, colaboração e empatia tornam-se qualidades negativas nesse sistema, passíveis de condená-lo a falência diante do peso da livre concorrência.

Mas o pior é visto aqui:
• Se o Fazendeiro C nunca se importar com ninguém, e não compartilhar com ninguém, será muito bem sucedido;
• Se o indivíduo nunca fizer nada sem botar um preço, será muito bem recompensado;
• Se o indivíduo for insensível às dificuldades alheias, poderá investir mais na própria produtividade e será ainda mais bem sucedido;
• Se ele esconder as próprias falhas, não explicar a procedência ou qualidade, e for desonesto em linhas gerais, será tão recompensado quanto alguém produtivo e honesto. (Desde que não for pego)

E com esse sistema de incentivo, a longo prazo estaremos criando indivíduos cujas qualidades mais desejáveis serão a apatia, o individualismo, a indiferença, a intolerância e a insinceridade.

O direito divino (A terra da minha fazenda é melhor porque mereci, fui abençoado)

Fica muito visível nesse ponto: Temos um sistema BRUTAL que não tolera nenhum erro, nenhum desvio, e nenhuma falha, seja ela intencional ou acidental. Nenhuma qualidade humana senão a capacidade de produção, é considerada. Erros não serão perdoados.

Mas em que mundo um sistema tão brutal e inflexível se tornaria a melhor solução?
E novamente os Capitalistas tem a resposta na ponta da língua e em côro dizem: “O nosso mundo. Basta olhar pra natureza, é a sobrevivência do mais apto em ação. Lá eles usam a força, aqui usamos a inteligência!”

Como entusiasta em biologia (e em teoria de jogos), posso afirmar que estão errados. Na natureza encontramos diversas situações onde temos “jogos de soma não-zero”, ou seja: Situações onde ambas as partes podem se beneficiar se cooperarem a longo prazo.
Já no Capitalismo, encontramos uma predominância de “jogos de soma zero”, ou seja, quando uma pessoa só ganha se a outra perder.

Porém quanto a necessidade eu não discordo. Se vivermos em um mundo onde a escassez é generalizada, onde se tem tão poucos recursos que é preciso arranjar uma forma de decidir quem vive e quem morre, um sistema meritocrático é necessário.
Não importa se foi por azar ou por preguiça, se a pessoa produziu pouco, ao final do dia vai faltar pra todo mundo e é preciso decidir quem vai ficar sem.

Ou seja, é um ótimo sistema para um mundo um mundo dominado pela escassez, primitivo e selvagem.

Mas e em um mundo abundante, onde há o suficiente para todos?
Tamanha brutalidade e inflexibilidade é necessária?

Em um mundo onde existe abundância para suprir as necessidades de cada indivíduo (não importando o quão diferente sejam), não é necessário decidir quem merece o quê. Não importa se a pessoa é preguiçosa,  azarada ou incapaz, não nos importamos se ela merece respirar. Não vai faltar ar pra você. Existem dezenas de fatores que comprometem a produtividade, e considerar tudo isso como se fosse incapacidade do indivíduo, evocando apenas a sobrevivência do mais produtivo, é muito próximo de advocar uma forma de eugenia.

Tentar avaliar o suposto “merecimento” de cada indivíduo em um mundo de abundância gera situações aberrantes, como uma pessoa roubar um celular de $100 e ser presa por 4 anos ao custo de $6000 por mês.

A abundância torna a meritocracia desnecessária, assim como não precisamos mais de rodinhas depois que aprendemos a nos equilibrarmos na bicicleta.

Mesmo que haja o suficiente pra todos, quem não trabalha não merece viver?
E se existir abundância mas não existir trabalho?

Em conclusão, assim como qualquer teoria, não existe uma proposta universalmente melhor do que outra. A eficiência de cada uma depende da realidade ao seu redor.

E sistemas meritocráticos só são a melhor forma de gestão quando estamos diante de escassez. Poderíamos até afirmar que a escassez é uma condição “sine qua non” pra mecanismos de troca.

Podemos adotar ideologias muito mais elevadas, que valorizam o autruísmo e a cooperação.
E para alguém demonstrar que a meritocracia é uma necessidade, das duas, uma:
Ou vai ter de demonstrar que a escassez generalizada é uma realidade em pleno século 21, ou vai ter de demonstrar que as necessidades humanas são infinitas.

O que convenhamos, vai ser bem complicado em um mundo onde produzimos 12 vezes mais comida do que a humanidade precisa, possuímos mais casas vazias do que pessoas sem-teto, e fabricamos mais celulares do que a quantidade de pessoas. E onde cada vez mais pessoas estão abrindo mão de conforto e status em nome da preservação, e onde a ciência demonstra que ganância e egoísmo são constructos sociais e não parte da natureza humana.

Rede de Intrigas (Network-1976)

Bom, já faz um tempo razoável que não escrevo nada.
A vida cotidiana tem roubado cada vez mais de meu tempo e disposição, como se tudo estivesse arquitetado para eu não gastar tempo “pensando nessas besteiras”.
Ao mesmo tempo, quando não escrevo parece que fica uma pedra enegrecida guardada lá dentro, me forçando a dar um jeito de fazer isso com mais frequência.

Pra recomeçar de leve, vou fazer um pseudo-review. Por que pseudo? Talvez porque eu vá gastar mais tempo falando dos efeitos dele em mim, do que propriamente o conteúdo.

O filme em questão é o conhecido “Network” (1976) traduzido como “Rede de Intrigas” (Não confundir com Lies&Illusions-2009), ganhador de 4 Oscars. Bastante famoso na cultura underground, todo mundo que tem o hábito de ver documentários de internet já viu alguma vez trechos desse filme.

A princípio, o “Plot” é simples: O âncora de Televisão Howard Beale (Peter Finch), prestes a ser demitido, por não ter mais nada na vida anuncia no meio do noticiário que cometerá suicídio em rede nacional. A partir daí, começa a revelar os podres que a mídia menos gosta de falar, os dela mesma. Obviamente tentam contê-lo, porém Diana Christensen (Faye Dunaway), uma das cabeças mídia, impressionada pelos altos índices de audiência decide mantê-lo no ar.

Durante a tragetória, o Sr. Beale se transforma no profeta indignado das massas, e vê-se forçado a confrontar forças muito maiores do que imaginava…

O clima de crise apresentado é completamente depressivo, e é demonstrado com clareza a habilidade da mídia em conseguir entalar e vender qualquer idéia, inclusive as indignadas e revolucionárias. O que torna o quadro mais desesperador é ver que após 36 anos, a situação não melhorou, ou pior: O sistema se aperfeiçoou e evoluiu suas ferramentas diante das circunstâncias.

Enfim, se você está “Puto da vida e não aguenta mais” recomendo fortemente ver esse filme de cabo a rabo.

O impacto:

Algo que me ajuda a ser mais tolerante com filmes é sempre que possível me encaixar no contexto histórico e cultural que o filme foi produzido.
E através de “Network” ficou claro pra mim como o final da década de 70 e o metade da década de 80 foi o último suspiro para a contra-cultura dentro da indústria Hollywoodiana.
Era possível ainda ver uma certa diversidade de idéias naquela época.

Após a queda do Muro de Berlim, o cinema Norte-Americano tornou-se uma enorme indústria de propaganda, e no confronto entre Democracia e Socialismo, nós infelizmente ficamos presos pro lado dos perdedores.
Como assim perdedores ?!? A democracia venceu!

Sim, e nós perdemos.
Certa vez, ouvi dizer que na China socialista é proibido passar qualquer filme de viagem no tempo ou realidade alternativa. Justamente para extinguir qualquer idéia de que é possível viver de um jeito diferente. Agora, me diga você de que maneira o “lado de cá” é diferente?

Desde 1989, toda a televisão virou uma demonstração de como a Democracia é linda, maravilhosa e indestrutível. De como o livre-mercado e o neoliberalismo nos trouxe tudo o que é de bom, e que todos os problemas e anomalias que vemos no dia-a-dia, estão nas pessoas de natureza podre, e não na própria raíz do sistema.

Se estivéssemos do lado “vencedor”, poderíamos presenciar uma diversidade ideológica, e não a troca de uma ideologia por outra.

E aí é que bate o desespero.
Aprendemos a associar nossos gostos com o emocional, e nossas escolhas com o racional. Assim, questionamos constantemente a origem de nossas escolhas, mas nunca a de nossos gostos. Aceitamos como parte integral, imutável e incontrolável de nossos seres. Só tem um problema… Nossas escolhas estão profundamente ligadas com o emocional. Nossas escolhas são mais conduzidas por gostos do que por racionalização.

Então, se você nunca se perguntou o porque você “gosta” de certas idéias e repudia outras antes mesmo de pensar a respeito, o momento seria esse. Possívelmente, descobrirá que vai de revisar sua vida toda, e descobrirá sob a optica de quem exatamente, você estava enxergando.
Quando você estiver tentando encaixar os seus “inocentes” desenhos que assistia quando criança, num contexto histórico-cultural, e começar a se perguntar “Meu Deus, que merda fizeram comigo?”, descobrirá que V de Vingança foi um filme light diante da sua própria história.

Acho que é isso. Primeiro assista, depois pergunte pra ONDE foi esse tipo de conteúdo hoje em dia, o COMO ele é olhado pela sociedade, e se pergunte se você quer MAIS desse tipo de idéias circulando.