“Seja Homem”

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“Seja Homem!”

Parece ser uma terrível escolha de palavras para ser usada especialmente no que chamamos de Semana da Mulher.
Porém, é uma expressão identificável imagino eu, para todo Homem. Que moleque nunca ouviu essa expressão alguma vez na vida? “Seja homem.” E muitos indivíduos, pelo resto da vida, nunca refletem à respeito dessas duas palavras colocadas juntas.

Mas antes de refletirmos sobre o que significa ser homem, é preciso admitir. Ao recebermos ao acaso, o “privilégio” de sermos portadores do sexo masculino, existem experiências as quais nunca passaremos e sentiremos na pele sequer por alguns minutos, o que acaba nos tornando incapazes de protagonizar o importante movimento feminista.
Ainda sim, mesmo sem ser mulher é possível observar a significância desse debate do ponto de vista racional e lógico, duas características também infelizmente sequestradas e estupidamente submetidas ao papel de gênero.

Então vamos lá.
Acredito fortemente que todos nós moleques já ouvimos alguma vez, “Seja homem“, frase que geralmente precede ou uma atrocidade, ou alguma estupidez. Antes de jogar uma pedra num gato, ou antes de “chegar junto” numa menina, ou antes de quebrar uma janela. Apesar de hoje sabermos que a maioria esmagadora de papeis atribuídos a gênero são construções culturais, existe algo a se perceber: O culto ao “homem macho” é profundamente ligada à cultura da dessensibilização. À preservação de características que são essencialmente, ANTI-CIVILIZATÓRIAS.

Convenhamos, não há nada de bom em “Ser homem”, ao menos não em seu significado atual.

“Ser homem” significa ser capaz de reprimir sua empatia e tornar-se insensível para conseguir cometer atitudes invasivas, não só contra mulheres, mas contra outros homens e contra outras formas de vida. Implica em desumanizar, em objetificar e diminuir sua identificação com os indivíduos que o cercam. Ou seja, tentar ser homem é profundamente ligado com tentar ser individualista e tentar ser egoísta.

As palavras são traiçoeiras, e como nos “Ministérios” em “1984” de Orwell, chegam a ter significados opostos. Quanto mais “homem”, quanto mais “macho” você é, maior é a sua capacidade para ser de fato, DESUMANO, ou seja “menos homem” – Homem no sentido de ser humano.

Mas não pára por aí.
Alguns dirão “Ah, mas ser homem significa ser corajoso, ter bravura”, ignorando o fato de ser um tipo de cultura da estupidez e da impulsividade. É possível até ver nas caricaturas disponibilizadas pela cultura pop.
O Herói geralmente é o cara forte, e o vilão é o cara que pensa, o “gênio do mal“, como se pensar, planejar e antecipar fosse algo ruim. Dois coelhos com uma tacada só: Temos uma cultura gritando que o legal, o bacana não só é ser insensívelmente apático, mas também estupidamente impulsivo. Parece até que é a formação proposital de peões suicidas. (Opa, descobrimos o plano!)

Nesse momento, torna-se de extrema importância reforçar que não estamos afirmando essas características como ligadas à gênero. Pelo menos não como natural, mas algo artificialmente dividido entre macho e fêmea.
Mas notem com bastante atenção:
Se formos escrever um manual de instruções de “Como ser um Homem Machão“, e um manual de “Como ser Desumano e Insensível“, ambos vão coincidentemente conter as mesmas instruções.

Se nesse século 21, afirmamos estar buscando sermos mais Civilizados, mais Humanos, não faz o menor sentido a preservação do culto ao Macho, porque seu conteúdo envolve a preservação e celebração das piores características que um ser Social poderia querer preservar. É uma contradição antagônica, não tem como ser mais Macho e mais Humano ao mesmo tempo.

Então, parece não ser possível nesse momento o homem poder lutar no lugar da mulher, não seria possível protagonizar.
Porém, o grande presente que poderia ser dado à elas, é simplesmente parar de querer “Ser homem”, pelo menos até que essas palavras se renovem e assumam uma significância totalmente diferente.

No contexto atual, “Ser homem” é ser insensível, apático, e individualista, e não ter essas caraterísticas como um ser social, que quer participar de um mundo mais Civilizado, é motivo de vergonha, e não de orgulho. Então, vamos mudar isso.

Ignorantes, idiotas e babacas

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Antes de começar esse post, já aviso logo, vou ser um pouco babaca – ou talvez apenas idiota. Vocês decidem após a leitura. O fato é que pretendo aqui categorizar pessoas e isso requer algum grau de arrogância e prepotência, características predominantes na idiotice e na babaquice. Mas visto a carapuça sem maiores reservas, pois sei que pego emprestado essa posição com a licença poética que um blog me permite, e também por que eu acho que sou um cara legal (todo mundo acha né?), e isso vocês também podem decidir lendo outras coisas que escrevo aqui ou se me conhecem pessoalmente. Já aviso também, caso o único texto lido meu seja esse, e a licença poética não for ofertada de bom grado pelo leitor, é possível que a impressão fique: “esse Christian é um babaca”. Enfim, esse é o risco que vou correr. Nem Jesus agradou a todos.

Pois bem, vamos ao que interessa. Me proponho aqui a fazer algo que provavelmente que nunca vi escrito de forma sistemática. Ignorante, idiota e babaca são termos usados por todos em alguns (vários) momentos da vida quando queremos xingar alguém ou simplesmente classificar pessoas devido às suas ações e comportamentos. Nada de errado até aqui. Somos humanos, humanos julgam, o tempo todo – com palavras, adjetivos, fazem parte da linguagem e de nosso cotidiano.

Mas quero tentar entender melhor e tentar classificar direito as coisas. Pra quê? Por que sim. (viu? fui idiota).

Claro que vou me focar aqui na civilidade e respeito entre as pessoas pra tentar classificar esses três tipos de pessoas, ou melhor de atitudes, estados de espírito. E não custa salientar que nada disso é genético e ninguém está preso a uma dessas definições do nascimento à morte. Todos nós estamos sujeitos a ignorância, idiotice e babaquice por nossas vidas. O problema está em ficar preso muito tempo numa delas, ou pior, “passar de fase”, de ignorante pra idiota, e de idiota pra babaca.

Os critérios que vou utilizar na classificação são: preocupação com o outro, atenção e intenção. São esses os três ingredientes, que misturados nas devidas proporções, fazem de uma pessoa um gente boa, um imbecil ou um filho da puta. Possivelmente tudo no mesmo dia. Mas vamos voltar aos nossos três termos escolhidos a dedo pra essa análise, pra não perder o rumo.

Imaginem que todas as ações reprováveis, do ponto de vista da civilidade básica, poderia ser dividida entre: ignorância, idiotice e babaquice. Apliquem inicialmente o critério da intenção. Nesse sentido, teríamos claramente uma progressão iniciando no ignorante e terminando no babaca, pois o que ignora, sequer sabe que está fazendo algo errado, enquanto o babaca não só sabe, como o faz por prazer ou sei lá por quais motivações de sua instabilidade emocional. Ou seja, o babaca é um idiota de propósito!

Agora visualizem um gringo, desavisado, turistando por aí. É perfeitamente possível que, por desconhecer algumas das regras de conduta e costumes locais, ele cometa alguma gafe, ou se porte de maneira indevida. A isso classificamos – inicialmente – como ignorância. Uma segunda incidência do mesmo erro já fica estranho, ou um sequência de diferentes gafes também. Invocamos então o outro critério: a atenção. Se o cara vacila o tempo todo, provavelmente é um idiota. Está mais preocupado em tirar foto de tudo que se mexe do que em tentar entender e respeitar as regras de convívio do local onde se encontra.

Os dois critérios, da atenção e da intenção, são misturados com o terceiro, a preocupação com o outro, para podermos determinar uma ação como sendo mera ignorância, idiotice ou babaquice. Nem sempre nos é possível quantificar esses critérios apenas pelas atitudes de pessoas a nossa volta, mas mesmo assim estamos sempre prontos a xingá-los com o termo que achamos mais apropriado. Em outras situações, resta pouca dúvida. Vamos a alguns exemplos:

– ficar parado à esquerda em escadas rolantes – um bom exemplo que torna difícil saber se houve ignorância ou idiotice. Somos levados sempre a pensar no pior caso, especialmente quando estamos com pressa.

– furar fila: no mínimo idiota, mais provavelmente babaca

– proferir a frase “Você sabe quem está falando?”: ultra-babaca

– correr ou andar de bike na contramão em ciclovia: idiota

– estacionar carro na ciclovia: idiota treinando pra ser babaca

– não ceder o lugar aos mais necessitados em transporte público: ignorância, idiotice ou babaquice pura (o próximo parágrafo ajudará a determinar)

– trafegar pelo acostamento: babaca

Uma boa forma de identificar se uma atitude indevida foi fruto de simples ignorância é observar a reação da pessoa ao ser notificada. Se ela se sentir envergonhada e se desculpar, muito provavelmente foi ignorância, mas pode também ser um lapso de pura idiotice, ou até babaquice, se a pessoa se recusar em aceitar o erro. E aqui entra o lance do critério da atenção, que mencionei no exemplo do turista. Ninguém é obrigado a nascer sabendo as regras de civilidade de um dado local. Você as aprende com seus pais e na marra, vivendo em sociedade e descobrindo o que pode e o que não pode, muitas vezes em situações embaraçosas as quais estaremos sempre sujeitos e que precisamos saber como lidar. Se você é educado para ter atenção (ser consciente) e observar a necessidade das pessoas a sua volta (dois critérios consolidados aqui), seus episódios de quebra da civilidade ficarão sempre no reino da ignorância, e estará sempre aberto a aprender com eles. Se a preocupação com o outro estiver em baixa (devido a alguma ideologia que segregue, ou ao impacto de alguma desigualdade, por exemplo) ou a atenção não tá nas melhores (e aqui as causas são muito mais diversas: de problemas de saúde física e mental, pura distração, euforia, tumulto, medo, etc) – dificilmente as regras não escritas da sociedade terão o impacto necessário para que aquela reação de “me desculpe” sincero ocorram, gerando um comportamento idiota.

Nos exemplos acima, eu classifiquei conforme a minha visão de mundo. O ciclista na contramão por exemplo, eu acho que é visto com bastante complacência (ao menos no RJ), pois nunca vi nenhum ser repreendido. Mas não consigo classificar como pura ignorância, pois isso ia requerer uma falta de atenção tamanha (todo mundo vindo na direção dele, e todas as indicações visuais invertidas), que nem uma criança seria desculpada – pra mim já beira a idiotice. Não que a pessoa seja, de fato, um idiota, só por isso. Claro que não. Mas naquele momento, está sendo um, por pura falta de atenção. Atenção essa que, quando muito em falta, pode o levar a atitudes muito mais reprováveis.

Todos podem ser ignorantes sob vários aspectos da civilidade (menos e menos a medida que amadurecem, é claro), e alguns episódios de idiotice são desculpáveis. Babaquice nunca é, nunca. Só pra deixar isso claro, tive que escrever esse testamento. =)

“Motorista, pode abrir aqui, por favor?”

Passageiro descendo fora do ponto

Um pedido tão simples, uma frase tão corriqueira, porém com grande significado. Quem costuma andar de ônibus já deve tê-la ouvido uma centena de vezes – e até tê-la proferido algumas tantas também. Mas o que tem demais nesse pedido?

Um assunto que me causa grande curiosidade e é constantemente objeto das minhas reflexões é a civilidade e o comportamento das pessoas, especialmente no conturbado meio urbano. O transporte público é um dos melhores laboratórios que existe para tais observações. Na ida e volta do trabalho geralmente as pessoas estão cansadas, com pressa e por causa disso, estão mais sujeitas a “furar um pouco” as regras do bom convívio, seja de forma inconsciente ou nem tanto.

Já não é de hoje que é vedado ao motorista parar fora do ponto. Há fiscais em alguns pontos, e tais fiscais podem relatar o desvio de conduta e o motorista ser punido – sem contar na perda de eficiência operacional como um todo, afinal, quanto mais paradas o ônibus faz, mais ele demora para completar a viagem. Mesmo assim, em algumas situações, com o ônibus parado em um sinal ou engarrafamento, se torna a oportunidade ideal para que um pedido de “posso descer aqui” seja atendido sem maiores problemas. Esse tipo de conduta de parar fora dos pontos é naturalmente muito mais comum em locais sem fiscalização.

Acontece que de uns dois ou três anos para cá, vem sido implantado no Rio de Janeiro o sistema BRS (Bus Rapid System), que cria faixas exclusivas para ônibus e separa as linhas em categorias (1, 2 e 3) fazendo com que os ônibus não parem mais em cada ponto existente, mas apenas no pré-definidos. Um sistema evidentemente mais eficiente, que beneficia a todos – mas obviamente recebeu críticas dos usuários de carros que agora tem menos espaço para circular (um outro exemplo da visão limitada de que trato nesse texto). O pedestre terá que andar coisa de dois ou três minutos a mais para chegar ao ponto correto, para que o sistema com um todo, e seus usuários, tenham um ganho de dez a quinze minutos no total do trajeto do ônibus (estou chutando aqui, mas só para base de comparação) – sem contar na viagem mais agradável, com menos paradas.

Mas o tal do “pode abrir aqui, por favor?” prevalece, sem indicativos de que vai diminuir, mesmo já tendo passado um bom tempo para que toda a população se acostume ao novo sistema. Não só o pedido se mantém constante, como a reação à resposta negativa do motorista é a da mais pura revolta, caras feias e as vezes até xingamentos. É possível perceber aqui o quanto o cidadão está realmente preocupado com o bem comum, quando um incremento na qualidade de vida de todos cause um incômodo, ínfimo que seja, em sua vida.

A famigerada frase, que pode soar a tantos como totalmente inofensiva – “não custa nada” – é uma demonstração de egocentrismo agudo (seja oriundo de uma cabeça muito ocupada com problemas e dificuldades ou pura ignorância), um pedido “bobinho” para que o motorista fure as regras do sistema para atender a um pedido pessoal, que ajudaria bastante naquele momento a quem está com pressa. Se não, só no próximo ponto, o correto. Mas o correto é longe e “não custa nada abrir”, não é?. Não é. Custa sim. Se a pessoa for capaz de escapar do loop mental que a prende nas próprias necessidade individuais e pensar um pouco no coletivo e no funcionamento do transporte público como um todo, vai ver que pequenas coisas assim – multiplicadas por cada pessoa que pede, em cada cada ônibus – fazem uma grande diferença no total. Tanto que em países “civilizados”, tal pedido sequer é cogitado, ninguém nem pensa em pedir para parar fora do ponto. É algo impensável, digno de vergonha. Aqui, ao contrário, é a norma, e o motorista se vê obrigado a ser “o chato” quando responde negativamente, as vezes precisando ser duro e ríspido, apenas cumprindo as regras e fazendo seu trabalho.

Civilidade, em última análise, não é nada mais que isso. É ser capaz de escapar do seu mundinho particular, da sua pressa, do seu atraso, do seu incômodo, e pensar no todo. É estar constantemente atento a este todo (não precisa ser neurótico, como alguns devem pensar, para comodamente se afastarem da ideia), pois onde circulam milhares de pessoas, o espaço que seu corpo ocupa pode estar incomodando alguém ou atrapalhando a movimentação de pessoas e veículos. Você não está com pressa sozinho, seus problemas não são mais especiais – todo mundo quer chegar em casa/no trabalho logo, e para isso o sistema tem que ser o mais eficiente possível, dependendo da colaboração de cada um. Parece tão óbvio, mas não é. No momento que alguém fala “posso descer aqui?” e faz cara feia ao tomar um “não” do motorista, tudo isso que parece óbvio se torna obviamente o contrário na cabeça daquela pessoa. Como podemos atingir civilidade e respeito ao próximo dessa forma? Difícil, muito difícil.

Proibir para educar

mona-lisaAntes de mais nada, confesso que não sou fã das proibições. Na maioria dos casos, são dadas como soluções bastante mal pensadas para problemas simples, e em alguns casos geram resultados piores do que em sua ausência – especialmente quando os problemas são mais complexos e é difícil prever os resultados.

Temos como exemplo clássico a proibição sobre uso de substâncias, com consequências trágicas como no caso da Lei Seca americana e mais recentemente, da falida e desastrosa Guerra às Drogas.

Outro exemplo simples de uma proibição que simplesmente não serve pra nada é a de “escutar som alto em transporte público” que recentemente foi transformada em Lei. É uma resposta nula do legislativo a um problema básico de civilidade – que das duas uma: ou são auto-regulados pela sociedade ou endereçados pela educação (seja ela informal ou formal).

Não que eu tenha uma ideia melhor ou alternativas, mas proibir aquilo que não se tem como coibir na origem e/ou punir no ato, é inútil e muitas vezes nocivo.

Agora, há uma proibição que me faria muito gosto se fosse implementada: a de tirar fotos em museus e exposições de arte. Quem costuma visitar museus ou foi recentemente a uma aguardada (e popular) exposição e teve que enfrentar o enxame de câmeras, smarthpones e tablets, sabe o quanto é irritante. As pessoas estão mais preocupadas em tirar fotos das obras do que de fato observá-las e participar da experiência da contemplação da arte. Fotos que muito provavelmente nem vão ver depois, ou só verão uma vez ao mostrar para amigos e parentes que estiveram lá “naquela exposição legal de um cara que não lembro o nome”.

Fala-se muito em incentivar e facilitar o acesso a cultura, para que essa coisa abstrata, mutante e subjetiva, de alguma forma que ninguém realmente entende, contribuisse para formação de uma sociedade mais justa e feliz. Vamos simplesmente distribuir “cultura” (seja lá o que isso for) geralmente na forma de arte, e a sociedade inteira se beneficiará. Aí eu pergunto: como, exatamente?

Serve de alguma coisa levar dezenas de milhares de pessoas à uma exposição para que fiquem tirando selfies e fotos das obras? Algumas chegam ao cúmulo de sequer observar as obras com os próprios olhos e se direcionar a cada uma diretamente com a câmera, numa corrida insana para fotografar tudo que é possível, de todos os ângulos. Podemos realmente considerar isso uma “experiência cultural” construtiva? Digna de leis de incentivo e de meias entradas?

Portanto fica aqui meu voto para a proibição total de fotos em exposições – e com devida punição, pois não adianta apenas proibir e ficar pedindo baixinho, por favor, para respeitarem. Tirou foto uma vez, aviso, na segunda, rua. Não por que apenas incomoda – e muito – a todos aqueles que estão ali para ver com os próprios olhos e tentando focar mais no momento do que os da geração selfie que está ali já pensando em como vão publicar no instagram em algumas horas. Mas também por que isso poderia ajudar as pessoas a entender melhor como funciona a apreciação de uma obra artística – até para ver se elas realmente querem aquilo.

Uma proibição similar já existe e todos respeitam sem problemas: a de encostar nas obras. Na maioria das exposições e museus sequer há um aviso desta proibição, mas a mesma já se encontra bem firme no inconsciente coletivo e não vejo ninguém reclamando. Ninguém encosta e fica tudo ótimo.

Poderiam comparar o problema do enxame de câmeras com o exemplo que citei acima, do alto volume em público. Sim, a faltava de civilidade pode ser identificada como uma das causas, mas há uma diferença básica. No caso das fotos em exposições, é bastante simples fazer valer a regra. Há sempre monitores e seguranças em qualquer exposição que se preze. Não demoraria até que todos entendessem que não pode e nem mais levariam câmeras à museus ou tiraram seus celulares do bolso com o intuito de clicar.

O que falta para proibirem as fotos? Qual a desvantagem ou consequência negativa? Todos sairiam ganhando, penso eu.Mesmo os viciados em clicar que se sentiriam tolidos em um primeiro momento, depois perceberiam que há mais na experiência artística do que apenas ver o objeto, independente do formato ou tamanho. Afinal, se fosse pra ver o objeto, mesmo que à distância por foto, para que se deram ao trabalho de ir à exposição? Mais fácil ver as fotos (muito melhores do que poderiam tirar) na internet ou num livro. E se estão indo à uma exposição apenas para constar, tirar umas selfies e fotografar tudo que é exposto, há algo de profundamente torto nessa “experiência cultural” que tanto querem incentivar. O estímulo é para a apreciação das formas de arte, para reflexão e contemplação ou para aparecer no facebook e entupir smartphones com milhares de fotos idênticas?

A desigualdade no caminho da civilidade

Um assunto que está sempre na boca das pessoas, mas raramente encontra um debate sério e aprofundado é o da civilidade. Quão frequente em nossos papos no trabalho, com família e amigos, o tópico é o comportamento “das pessoas” em tal lugar, evento ou situação: ninguém dá o lugar a idosos no ônibus; pessoas furam fila no show; tumulto desnecessário e pessoas se empurrando no check-in do aeroporto, etc, etc. Estamos sempre insatisfeitos e falando de pequenas demonstrações (ou da falta) de civilidade, mas nunca da civilidade como um todo, e das razões para termos tantos problemas com a mesma.

Desde que começamos, mais ou menos por volta da adolescência, a enfrentar o mundo sozinhos, sem a companhia constante de nossos pais, nos deparamos com diversas situações que nos obrigam a estar atentos às regras de conduta em cada contexto, afim de tornar o convívio em sociedade mais agradável e eficiente para todos. Essa atenção ao contexto varia muito de pessoa pra pessoa, dependendo de um sem número de variáveis, educação, história de vida, etc – e essa variação cria os atritos que tanto vemos todos os dias à nossa volta.

Antes de seguir com essa reflexão, uma pequena pausa para definir melhor do que estamos falando, e vou pegar emprestado aqui a definição do Wikipedia, que achei muito boa.

Civilidade é o respeito pelas normas de convívio entre os membros duma sociedade. Não confundir com civismo que tem que ver com o respeito pela sociedade organizada, pelas instituições e pelas leis.

Podemos tentar concluir que, quanto mais as pessoas respeitam as regras de convívio, mais civilizada uma sociedade é. Quando dizemos que uma pessoa “é civilizada” é por que ela se importa com essas regras de convívio e está sempre atenta a elas – especialmente por que tais regras mudam bastante dependendo do local e situação em que se encontra; a civilidade está na pessoa e não no local ou no evento. Uma pessoa civilizada estará atenta às regras de convívio tanto no lugar onde nasceu e viveu a vida inteira, como na China, no Irã, num show de rock ou em uma missa. Reparem que usei bastante a palavra “atenção”, no meu entendimento a atenção, o “estar consciente” do contexto e das necessidade do outro, é o cerne da civilidade.

É bastante difícil refletir sobre o aspecto abstrato e mais amplo da civilidade se você tem apenas uma referência para tal. Ou seja, se você conhece apenas um conjunto de regras, a do lugar onde você nasceu e viveu. Se você nunca saiu desse lugar e nunca viu pessoas se portando de outra forma, como vai saber que é possível? Ver na TV e ler em livros não é o suficiente, você precisa vivenciar e observar para fazer comparações e tentar entender as diferenças, os estímulos e desafios. Não estou dizendo que é impossível, apenas mais difícil.

Vamos pegar um exemplo para ilustrar isso que acabei de dizer: a questão do posicionamento das pessoas em escadas ou esteiras rolantes. É bem evidente para qualquer pessoa que use o Metrô com alguma frequência que por aqui a regra (na verdade, a falta dela) é: fique parado ou ande na posição que quiser, independente de qualquer coisa. Mas quem já esteve na Europa, EUA ou qualquer outro lugar com um conjunto de regras de convívio (civilidade) um pouco mais avançadas que a nossa, observou que, por lá, na mesma situação, as pessoas só ficam paradas à direita, deixando a esquerda livre para quem está com mais pressa e quer andar ou subir a escada. Você não precisa ter ido à Europa para entender que isso é mais eficiente e melhor pra todos, basta você parar, observar, refletir um pouco e você perceberá isso. Mas indo lá e vendo funcionando é como um choque de realidade que encurta bastante o caminho da reflexão necessária. Essa reflexão, é o pulo do gato, é o que falta no inconsciente coletivo em um local onde as pessoas simplesmente não conseguem (ou não querem? falarei sobre isso adiante) entender algo tão simples de fazer, que melhora a vida de todos em um determinado contexto.

O que nos faz fundamentalmente diferentes dos cidadãos que fazem o correto (no exemplo acima) sem sequer pensar a respeito? Somos mais burros e não entendemos? Somos mais idiotas e egoístas e não fazemos de propósito? Bastante simplista pensar dessa forma, simplesmente associar a coisa toda ao “nosso jeito” – “povo ignorante, sem educação, não tem jeito mesmo”, perdi a conta de quantas vezes ouvi isso. E sabemos bem que a coisa toda não tem como ser reduzida simplesmente à nossa educação, tanto a formal (escola) quanto a dada pelos pais, pois vemos o comportamento indevido mesmo entre as classes mais altas e teoricamente mais bem educadas da população. Tem que ser algo a mais. O que, então?

Para não ficar parecendo que estou aqui apenas babando ovo de europeu, como se fossem o último biscoito do pacote em termos de educação e civilidade, não é nada disso. Mas é a melhor referência que temos, pelo menos para mim, das viagens que fiz até esse momento – e que não foram poucas. Em primeiro lugar, seria extremamente leviano e até idiota falar da Europa como uma unidade onde as pessoas e culturas são basicamente as mesmas (ou mesmo similares) quando o assunto é civilidade. Nada poderia estar mais longe da realidade. Mas a título de argumentação, falamos em Europa como uma abstração para os países mais “famosos” da Europa Ocidental (França, Inglaterra, Alemanha, Holanda, etc). Em segundo lugar, pois certamente há aspectos do comportamento deles que não são lá muito agradáveis, como por exemplo a arrogância dos franceses com turistas (e não adianta me dizerem que isso é papo, pois experimentei mais de uma vez na minha última viagem para lá – é bem real!). E em último lugar, mas não menos importante, por que é muito complicado comparar a civilidade de um lugar com outro em termos práticos e eleger qual é a “melhor”. Que peso teria, por exemplo, a xenofobia, nesse cálculo? A xenofobia deveria entrar no cálculo? Ao meu ver, não necessariamente, pois é um fenômeno social distinto e igualmente amplo, mas ela possui alguns aspectos que impactam diretamente o comportamento das pessoas em convívio.

A civilidade pode ser observada, no entanto, sob outra ótica, que não o bem-estar de cada pessoa envolvida em uma interação social, mas sim na eficiência e pleno funcionamento e organização de um local, evento ou situação. Isso é bastante fácil de observar, por exemplo, no trânsito, onde é bastante comum observar pessoas agindo de forma egoísta se preocupando muito pouco em agir com civilidade: fecham cruzamentos, andam pela pista da esquerda em baixa velocidade, etc – além de serem atitudes mal-educadas ou simplesmente desatentas, afetam diretamente a eficência do trânsito como um todo. Se todos tivessem maior consiência (como a tem, por exemplo, na escada rolante) e agissem com maior civilidade, o trânsito seria um lugar muito menos estressante e seria muito mais fluido – possivelmente até mais rápido.

O que faz, então, que haja sociedades onde as pessoas (e seus governos) se preocupem com essas coisas e outras nem tanto? Quais são as coisas que estimulam incrementos na civilidade e quais são os obstáculos? Essa não é uma pergunta fácil de responder, mas mesmo assim eu vou tentar, por que eu sou metido a besta. :)

Como estou aqui, fazendo um exercício, tentando entender a civilidade como essa “coisa abstrata” que surge espontaneamente em uma sociedade – e que não adianta empurrar goela abaixo das pessoas com cartilhas, placas e sinais – eu arriscaria a dizer, que um dos grandes obstáculos que temos por aqui é a grande desigualdade social. Nosso país é um dos mais desiguais do planeta, está na posição 116 de uma lista de 126 países. Essa desigualdade cria um atrito entre as pessoas, que varia do muito sutil ao totalmente explícito. Mesmo quando muito sutil, as pessoas menos favorecidas, até sem perceber agiriam de forma “não civilizada” no intuito a devolver à sociedade o abandono que sofrem, na forma de uma desobediência às regras impostas – até mesmo quando tais regras os beneficiariam caso todos a seguissem. Os mais favorecidos devolvem na mesma moeda, se considerando merecedores de tratamento especial, agem com arrogância e desrespeito, especialmente quando interagem com as classes mais baixas (quem nunca presenciou uma cena patética dessa?).

Isso é um chute no escuro para tentar explicar algo extremamente complexo, certamente não a única ou até talvez nem a principal causa, mas pode ser um bom ponto de partida. Se você tentar projetar a teoria em locais com menos desigualdade (e maior civilidade), funciona também, pois as pessoas se consideraram mais iguais entre si, ao dividirem um espaço público, se portarão da forma como gostariam que os outros se portassem, pois confiam que o outro vai “entender” e agir reciprocamente sem dificuldade – visto que a maioria teve acesso à basicamente os mesmos benefícios de estudo, educação e segurança, o inconsciente coletivo sofre menos interferência dos atritos oriundos da desigualdade.

Para que fique claro, e evitar comentários desnecessários, não tem nada a ver com “pobre é burro, não sabe se comportar”. Eu não sugeri uma relação direta entre civilidade e posição social. Tem a ver com a desiguldade e como ela é percebida. E ela afeta a todos, não apenas a base e o topo da pirâmide, pois a estratificação – ou “luta de classes” – em si é um aspecto muito vivo em sociedades desiguais como a nossa. As comparações, preconceitos e atritos estão em toda parte, em tudo que fazemos – inclusive, como sugere minha teoria (e que certamente não é nova, reconheço), na forma como nos comportamos.