Toalhas de hotel e o aquecimento global

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De quanto em quanto tempo você lava as toalhas na sua casa? Uma vez por semana? Duas vezes por semana se você for bem neurótico com limpeza ou tiver muita gente em casa e a máquina de lavar tá sempre trabalhando? Já ouviu aquela pergunta pegadinha “se você está limpo quando sai do banho, para que precisa lavar a toalha”? Claro que é apenas uma pegadinha (do mesmo naipe de “se o Pato Donalds não usa calça, por que enrola uma toalha quando sai do banho?”), mas que faz até um certo sentido – obviamente é preciso lavar a toalha de tempos em tempos por que o ciclo de ficar molhando e secando toda hora vai acumulando a sujeira que está no ar e também pode gerar um cheiro ruim.

Mas e as toalhas de hotel? Você alguma vez na vida já parou pra pensar nisso? Talvez nunca tenha parado pra pensar antes de todo o hype do aquecimento global ou problemas com abastecimento de água, mas se você viajou recentemente deve ter visto pelo menos em algum hotel aqueles avisos que eles colocam, dizendo que estão “preocupados com o meio-ambiente”, querem “economizar água” e por isso só lavam as toalhas diariamente se o hóspede assim desejar, deixando as jogadas no chão ou na banheira, ou coisa assim. Se penduradas, deixam-as lá para serem usadas de novo, dessa forma economizando água. Que nobre gesto, não?

Pra mim nunca fez o menor sentido ter a necessidade de uma nova toalha a cada dia num quarto de hotel – não vou ser hipócrita, quando estou viajando, também gosto de um certo luxo, mas isso não é luxo, é idiotice purinha, do tipo que os antigos nobres da antiguidade deveriam exigir. Que puta frescura. Então, pra mim, esse tal aviso não teve qualquer efeito sobre meu comportamento. Eu saio do banho e penduro as toalhas, é automático, tanto em casa como no hotel. Eu tenho até uma certa dificuldade em imaginar que tipo de pessoa sai do banho e joga a toalha no chão pra que coloquem no dia seguinte uma novinha e passada.

Mas por que eu tô aqui falando de toalhas de hotel e o que isso tem a ver com o aquecimento global? Bom, primeiro por que essa tentativa dos hotéis claramente tem seu embasamento em uma tentativa de, ao mesmo tempo, economizar (mesmo que bem pouquinho) as quantidades absurdas de água que gastam todos os dias com lavanderia e ainda ganhar alguns pontos de “consciência verde” com os hóspedes. Mas mais importante que isso, por que revela em que ponto estamos, enquanto sociedade consumidora, nos posicionando frente aos problemas do planeta e no uso consciente da água. E esse posicionamento basicamente é: nenhum. Somos como crianças vendo um problema sério acontecer esperando pra ver o que nossos pais farão para resolvê-lo e quando virão nos buscar para nos levar embora e tomar um sorvete.

Dos hotéis que reparei que tem essa iniciativa, arrisco dizer que apenas metade realmente cumpre o que está no aviso. A maioria sequer treina as camareiras direito, e as toalhas são trocadas todos os dias. E mesmo nos que tem, qual a proporção das pessoas vocês acham que leem o aviso e mudam de comportamento? Especialmente estando em um hotel, que é sinônimo de terceirizar todos os problemas “de casa” já que estamos pagando. Quanto menos tiver que pensar e fazer, melhor.

Portanto, peço que passem a observar esse pequeno fenômeno nos próximos hotéis que visitarem. Enquanto a abordagem for essa de “se o hóspede puder deixar de ser ridiculamente fresco, quase um Luis XIV, o hotel se compromete a tentar economizar um pouquinho de água” – podem apostar que o problema do aquecimento global ainda é visto como algo que “um dia vai acontecer” e “eles [sei lá quem] vão resolver”. Quando a chapa estiver realmente quente, rapidinho os avisos vão mudar para “neste hotel lavamos as toalhas de três em três dias, se quiser uma nova diariamente a taxa será de X dinheiros” o que, ainda vai revelar o aspecto de consumo da coisa, pois certamente vai ter gente que vai pagar o extra – mas pelo menos, agora o problema não será mais um coisa que “está em dúvida”, mas uma realidade da qual ninguém pode mais escapar (mesmo que ainda alguns possam evitar, ou melhor, “adiar” pagando um pequeno extra).

“Motorista, pode abrir aqui, por favor?”

Passageiro descendo fora do ponto

Um pedido tão simples, uma frase tão corriqueira, porém com grande significado. Quem costuma andar de ônibus já deve tê-la ouvido uma centena de vezes – e até tê-la proferido algumas tantas também. Mas o que tem demais nesse pedido?

Um assunto que me causa grande curiosidade e é constantemente objeto das minhas reflexões é a civilidade e o comportamento das pessoas, especialmente no conturbado meio urbano. O transporte público é um dos melhores laboratórios que existe para tais observações. Na ida e volta do trabalho geralmente as pessoas estão cansadas, com pressa e por causa disso, estão mais sujeitas a “furar um pouco” as regras do bom convívio, seja de forma inconsciente ou nem tanto.

Já não é de hoje que é vedado ao motorista parar fora do ponto. Há fiscais em alguns pontos, e tais fiscais podem relatar o desvio de conduta e o motorista ser punido – sem contar na perda de eficiência operacional como um todo, afinal, quanto mais paradas o ônibus faz, mais ele demora para completar a viagem. Mesmo assim, em algumas situações, com o ônibus parado em um sinal ou engarrafamento, se torna a oportunidade ideal para que um pedido de “posso descer aqui” seja atendido sem maiores problemas. Esse tipo de conduta de parar fora dos pontos é naturalmente muito mais comum em locais sem fiscalização.

Acontece que de uns dois ou três anos para cá, vem sido implantado no Rio de Janeiro o sistema BRS (Bus Rapid System), que cria faixas exclusivas para ônibus e separa as linhas em categorias (1, 2 e 3) fazendo com que os ônibus não parem mais em cada ponto existente, mas apenas no pré-definidos. Um sistema evidentemente mais eficiente, que beneficia a todos – mas obviamente recebeu críticas dos usuários de carros que agora tem menos espaço para circular (um outro exemplo da visão limitada de que trato nesse texto). O pedestre terá que andar coisa de dois ou três minutos a mais para chegar ao ponto correto, para que o sistema com um todo, e seus usuários, tenham um ganho de dez a quinze minutos no total do trajeto do ônibus (estou chutando aqui, mas só para base de comparação) – sem contar na viagem mais agradável, com menos paradas.

Mas o tal do “pode abrir aqui, por favor?” prevalece, sem indicativos de que vai diminuir, mesmo já tendo passado um bom tempo para que toda a população se acostume ao novo sistema. Não só o pedido se mantém constante, como a reação à resposta negativa do motorista é a da mais pura revolta, caras feias e as vezes até xingamentos. É possível perceber aqui o quanto o cidadão está realmente preocupado com o bem comum, quando um incremento na qualidade de vida de todos cause um incômodo, ínfimo que seja, em sua vida.

A famigerada frase, que pode soar a tantos como totalmente inofensiva – “não custa nada” – é uma demonstração de egocentrismo agudo (seja oriundo de uma cabeça muito ocupada com problemas e dificuldades ou pura ignorância), um pedido “bobinho” para que o motorista fure as regras do sistema para atender a um pedido pessoal, que ajudaria bastante naquele momento a quem está com pressa. Se não, só no próximo ponto, o correto. Mas o correto é longe e “não custa nada abrir”, não é?. Não é. Custa sim. Se a pessoa for capaz de escapar do loop mental que a prende nas próprias necessidade individuais e pensar um pouco no coletivo e no funcionamento do transporte público como um todo, vai ver que pequenas coisas assim – multiplicadas por cada pessoa que pede, em cada cada ônibus – fazem uma grande diferença no total. Tanto que em países “civilizados”, tal pedido sequer é cogitado, ninguém nem pensa em pedir para parar fora do ponto. É algo impensável, digno de vergonha. Aqui, ao contrário, é a norma, e o motorista se vê obrigado a ser “o chato” quando responde negativamente, as vezes precisando ser duro e ríspido, apenas cumprindo as regras e fazendo seu trabalho.

Civilidade, em última análise, não é nada mais que isso. É ser capaz de escapar do seu mundinho particular, da sua pressa, do seu atraso, do seu incômodo, e pensar no todo. É estar constantemente atento a este todo (não precisa ser neurótico, como alguns devem pensar, para comodamente se afastarem da ideia), pois onde circulam milhares de pessoas, o espaço que seu corpo ocupa pode estar incomodando alguém ou atrapalhando a movimentação de pessoas e veículos. Você não está com pressa sozinho, seus problemas não são mais especiais – todo mundo quer chegar em casa/no trabalho logo, e para isso o sistema tem que ser o mais eficiente possível, dependendo da colaboração de cada um. Parece tão óbvio, mas não é. No momento que alguém fala “posso descer aqui?” e faz cara feia ao tomar um “não” do motorista, tudo isso que parece óbvio se torna obviamente o contrário na cabeça daquela pessoa. Como podemos atingir civilidade e respeito ao próximo dessa forma? Difícil, muito difícil.

A desigualdade no caminho da civilidade

Um assunto que está sempre na boca das pessoas, mas raramente encontra um debate sério e aprofundado é o da civilidade. Quão frequente em nossos papos no trabalho, com família e amigos, o tópico é o comportamento “das pessoas” em tal lugar, evento ou situação: ninguém dá o lugar a idosos no ônibus; pessoas furam fila no show; tumulto desnecessário e pessoas se empurrando no check-in do aeroporto, etc, etc. Estamos sempre insatisfeitos e falando de pequenas demonstrações (ou da falta) de civilidade, mas nunca da civilidade como um todo, e das razões para termos tantos problemas com a mesma.

Desde que começamos, mais ou menos por volta da adolescência, a enfrentar o mundo sozinhos, sem a companhia constante de nossos pais, nos deparamos com diversas situações que nos obrigam a estar atentos às regras de conduta em cada contexto, afim de tornar o convívio em sociedade mais agradável e eficiente para todos. Essa atenção ao contexto varia muito de pessoa pra pessoa, dependendo de um sem número de variáveis, educação, história de vida, etc – e essa variação cria os atritos que tanto vemos todos os dias à nossa volta.

Antes de seguir com essa reflexão, uma pequena pausa para definir melhor do que estamos falando, e vou pegar emprestado aqui a definição do Wikipedia, que achei muito boa.

Civilidade é o respeito pelas normas de convívio entre os membros duma sociedade. Não confundir com civismo que tem que ver com o respeito pela sociedade organizada, pelas instituições e pelas leis.

Podemos tentar concluir que, quanto mais as pessoas respeitam as regras de convívio, mais civilizada uma sociedade é. Quando dizemos que uma pessoa “é civilizada” é por que ela se importa com essas regras de convívio e está sempre atenta a elas – especialmente por que tais regras mudam bastante dependendo do local e situação em que se encontra; a civilidade está na pessoa e não no local ou no evento. Uma pessoa civilizada estará atenta às regras de convívio tanto no lugar onde nasceu e viveu a vida inteira, como na China, no Irã, num show de rock ou em uma missa. Reparem que usei bastante a palavra “atenção”, no meu entendimento a atenção, o “estar consciente” do contexto e das necessidade do outro, é o cerne da civilidade.

É bastante difícil refletir sobre o aspecto abstrato e mais amplo da civilidade se você tem apenas uma referência para tal. Ou seja, se você conhece apenas um conjunto de regras, a do lugar onde você nasceu e viveu. Se você nunca saiu desse lugar e nunca viu pessoas se portando de outra forma, como vai saber que é possível? Ver na TV e ler em livros não é o suficiente, você precisa vivenciar e observar para fazer comparações e tentar entender as diferenças, os estímulos e desafios. Não estou dizendo que é impossível, apenas mais difícil.

Vamos pegar um exemplo para ilustrar isso que acabei de dizer: a questão do posicionamento das pessoas em escadas ou esteiras rolantes. É bem evidente para qualquer pessoa que use o Metrô com alguma frequência que por aqui a regra (na verdade, a falta dela) é: fique parado ou ande na posição que quiser, independente de qualquer coisa. Mas quem já esteve na Europa, EUA ou qualquer outro lugar com um conjunto de regras de convívio (civilidade) um pouco mais avançadas que a nossa, observou que, por lá, na mesma situação, as pessoas só ficam paradas à direita, deixando a esquerda livre para quem está com mais pressa e quer andar ou subir a escada. Você não precisa ter ido à Europa para entender que isso é mais eficiente e melhor pra todos, basta você parar, observar, refletir um pouco e você perceberá isso. Mas indo lá e vendo funcionando é como um choque de realidade que encurta bastante o caminho da reflexão necessária. Essa reflexão, é o pulo do gato, é o que falta no inconsciente coletivo em um local onde as pessoas simplesmente não conseguem (ou não querem? falarei sobre isso adiante) entender algo tão simples de fazer, que melhora a vida de todos em um determinado contexto.

O que nos faz fundamentalmente diferentes dos cidadãos que fazem o correto (no exemplo acima) sem sequer pensar a respeito? Somos mais burros e não entendemos? Somos mais idiotas e egoístas e não fazemos de propósito? Bastante simplista pensar dessa forma, simplesmente associar a coisa toda ao “nosso jeito” – “povo ignorante, sem educação, não tem jeito mesmo”, perdi a conta de quantas vezes ouvi isso. E sabemos bem que a coisa toda não tem como ser reduzida simplesmente à nossa educação, tanto a formal (escola) quanto a dada pelos pais, pois vemos o comportamento indevido mesmo entre as classes mais altas e teoricamente mais bem educadas da população. Tem que ser algo a mais. O que, então?

Para não ficar parecendo que estou aqui apenas babando ovo de europeu, como se fossem o último biscoito do pacote em termos de educação e civilidade, não é nada disso. Mas é a melhor referência que temos, pelo menos para mim, das viagens que fiz até esse momento – e que não foram poucas. Em primeiro lugar, seria extremamente leviano e até idiota falar da Europa como uma unidade onde as pessoas e culturas são basicamente as mesmas (ou mesmo similares) quando o assunto é civilidade. Nada poderia estar mais longe da realidade. Mas a título de argumentação, falamos em Europa como uma abstração para os países mais “famosos” da Europa Ocidental (França, Inglaterra, Alemanha, Holanda, etc). Em segundo lugar, pois certamente há aspectos do comportamento deles que não são lá muito agradáveis, como por exemplo a arrogância dos franceses com turistas (e não adianta me dizerem que isso é papo, pois experimentei mais de uma vez na minha última viagem para lá – é bem real!). E em último lugar, mas não menos importante, por que é muito complicado comparar a civilidade de um lugar com outro em termos práticos e eleger qual é a “melhor”. Que peso teria, por exemplo, a xenofobia, nesse cálculo? A xenofobia deveria entrar no cálculo? Ao meu ver, não necessariamente, pois é um fenômeno social distinto e igualmente amplo, mas ela possui alguns aspectos que impactam diretamente o comportamento das pessoas em convívio.

A civilidade pode ser observada, no entanto, sob outra ótica, que não o bem-estar de cada pessoa envolvida em uma interação social, mas sim na eficiência e pleno funcionamento e organização de um local, evento ou situação. Isso é bastante fácil de observar, por exemplo, no trânsito, onde é bastante comum observar pessoas agindo de forma egoísta se preocupando muito pouco em agir com civilidade: fecham cruzamentos, andam pela pista da esquerda em baixa velocidade, etc – além de serem atitudes mal-educadas ou simplesmente desatentas, afetam diretamente a eficência do trânsito como um todo. Se todos tivessem maior consiência (como a tem, por exemplo, na escada rolante) e agissem com maior civilidade, o trânsito seria um lugar muito menos estressante e seria muito mais fluido – possivelmente até mais rápido.

O que faz, então, que haja sociedades onde as pessoas (e seus governos) se preocupem com essas coisas e outras nem tanto? Quais são as coisas que estimulam incrementos na civilidade e quais são os obstáculos? Essa não é uma pergunta fácil de responder, mas mesmo assim eu vou tentar, por que eu sou metido a besta. :)

Como estou aqui, fazendo um exercício, tentando entender a civilidade como essa “coisa abstrata” que surge espontaneamente em uma sociedade – e que não adianta empurrar goela abaixo das pessoas com cartilhas, placas e sinais – eu arriscaria a dizer, que um dos grandes obstáculos que temos por aqui é a grande desigualdade social. Nosso país é um dos mais desiguais do planeta, está na posição 116 de uma lista de 126 países. Essa desigualdade cria um atrito entre as pessoas, que varia do muito sutil ao totalmente explícito. Mesmo quando muito sutil, as pessoas menos favorecidas, até sem perceber agiriam de forma “não civilizada” no intuito a devolver à sociedade o abandono que sofrem, na forma de uma desobediência às regras impostas – até mesmo quando tais regras os beneficiariam caso todos a seguissem. Os mais favorecidos devolvem na mesma moeda, se considerando merecedores de tratamento especial, agem com arrogância e desrespeito, especialmente quando interagem com as classes mais baixas (quem nunca presenciou uma cena patética dessa?).

Isso é um chute no escuro para tentar explicar algo extremamente complexo, certamente não a única ou até talvez nem a principal causa, mas pode ser um bom ponto de partida. Se você tentar projetar a teoria em locais com menos desigualdade (e maior civilidade), funciona também, pois as pessoas se consideraram mais iguais entre si, ao dividirem um espaço público, se portarão da forma como gostariam que os outros se portassem, pois confiam que o outro vai “entender” e agir reciprocamente sem dificuldade – visto que a maioria teve acesso à basicamente os mesmos benefícios de estudo, educação e segurança, o inconsciente coletivo sofre menos interferência dos atritos oriundos da desigualdade.

Para que fique claro, e evitar comentários desnecessários, não tem nada a ver com “pobre é burro, não sabe se comportar”. Eu não sugeri uma relação direta entre civilidade e posição social. Tem a ver com a desiguldade e como ela é percebida. E ela afeta a todos, não apenas a base e o topo da pirâmide, pois a estratificação – ou “luta de classes” – em si é um aspecto muito vivo em sociedades desiguais como a nossa. As comparações, preconceitos e atritos estão em toda parte, em tudo que fazemos – inclusive, como sugere minha teoria (e que certamente não é nova, reconheço), na forma como nos comportamos.