Moda – o ladro negro das tendências

kim-kardashian-champagne-glass-butt-paper-magazineQuando você pensa na palavra “tendência”, o que lhe vem a cabeça, quase de imediato? Deixa eu tentar adivinhar: moda. Acertei? Acho que sim.

Essa palavra, que cada vez mais faz parte do léxico que até pouco tempo era apenas reservada aos estratos mais altos da sociedade, agora está, definitivamente, na “boca do povo” – e isso não é acidental.
Eu estava voltando de viagem, e ainda na rodovia, na entrada da minha cidade, passei por algo que me parecia como atacado de moda (onde provavelmente a maioria das lojas que atendem aos estratos mais baixos repõe seus estoques). Um grande cartaz dizia “Tendências? Aqui tem”.

Fiquei pensando com meus botões (apesar de que no momento, tenho certeza estar de camiseta), como é que pode, que pessoas que vivem com tão pouco, que precisam de tanto, possam se preocupar com o que quer que seja a tendência da moda no momento?

Alguém poderia pensar que estou agindo com enorme preconceito de classe, como se vestir-se bem e se “sentir na moda” fosse exclusividade dos mais ricos. Preconceito de classe nenhum, mas em relação a exclusividade, antes fosse. O dano seria infinitamente menor.

Se você ainda não assistiu ao documentário The True Cost, recomendo que o faça. Eu sempre tive enormes reservas com a indústria da moda, tanto pelo seu impacto negativo no inconsciente coletivo, criando padrões de beleza irreais, como, mais recentemente, por estar cada vez mais mirando mais longe, atingindo a todos, cada vez mais jovens, cada vez mais pobres. E esse documentário só serviu pra cimentar meu profundo desprezo por essa indústria por mais um motivo: o impacto negativo no sustentabilidade do planeta e no mercado global.

Uma coisa que o filme me fez parar pra pensar foi no fato de que uma coisa que mudou bastante recentemente no mundo da moda é que não temos mais os famosos desfiles de coleção, baseado em estações. Eram mega-eventos, nas capitais da moda, Milão, Paris e Nova York. Não existe mais isso por que as tais coleções simplesmente não duram mais uma estação inteira. Temos agora desfiles o ano todo e novas coleções (e “tendências”) a cada duas semanas, ou menos. E isso coloca uma pressão enorme em toda a indústria, do estilista aos funcionários extremamente mal pagos que irão fabricar as roupas – pois num mercado globalizado, o custo é o que mais importa, e se um país asiático emergente consegue fabricar as mesmas roupas e se adaptar mais rapidamente às mudanças de coleção por alguns centavos a menos por peça, por que não mudar toda a produção para lá? Uma competição nesse nível, leva a condições de trabalho inaceitáveis para a grande maioria do “mundo desenvolvido”. Não é nenhuma surpresa que 90% da “moda” do mundo seja fabricada em países pobres como Vietnam, Bangladesh e Taiwan.

E o mercado das tais “tendências” age rápido para fabricar esses novos padrões, o tempo todo. Afinal, o que são “tendências”, na moda? Basicamente, damos o poder a algumas pessoas, “formadoras de opinião”, ou simplesmente, “bonitas e estilosas” – de nos dizer como devemos nos vestir e nos comportar. Vou repetir para ficar mais claro: nós é que lhes damos esse poder. Se você já ouviu o nome Kardashian e sabe de quem se trata, isso se deve a um único motivo: a capacidade que elas tem de criar e vender tendências. E fazem isso de forma tão esperta, que faz parecer que aquilo tudo é natural, que são apenas pessoas ricas e bonitas vivendo suas vidas “com estilo” e sendo filmadas e fotografadas o tempo todo.

E agora, as tais “tendências”, atingem a quase todas as classes sociais, e miram também cada vez mais jovens, crianças, o que coloca ainda mais pressão no sistema. O monstro da obsolescência planejada pegou uma carona em um dos seus mais potentes catalizadores. Pensem na quantidade absurda de roupas que são simplesmente descartadas e jogadas no lixo por conta dessa obsessão em “estar na moda” e mudar o estilo conforme mandam os ícones da tendência, cada vez mais rápido e com motivações mais fúteis?

Mas e o tamanho do problema? É grande, é enorme. Aproximadamente 40 milhões de pessoas estão empregadas hoje em dia no mercado de roupas, que atualmente é um dos principais motores para a desigualdade. Basta estar minimamente atento ao noticiário, quase sempre que se relata mais um escândalo de trabalho análogo ao escravo ou de condições de trabalho absurdas, é de roupas ou calçados – de algum lugar na América Latina ou Ásia (nunca em Londres, Paris ou Chicago).

Como eu falei lá logo no primeiro parágrafo, nada disso é acidental. Roupas “baratas”, moda “acessível”, “tendências, aqui tem”. A causa raiz disso tudo é conhecida de todos nós, o incansável estímulo ao consumo. Precisamos consumir cada vez mais, apenas para manter a roda do capitalismo girando. Não é possível sequer “estacionar” o nível de consumo pois isso levaria todo sistema a um colapso. E tudo isso tem um custo enorme, para o planeta e para a vida de milhões de pessoas, mas nada disso você vê nas lindas lojas, estilo Forever 21, que só vendem estilo com muita luz e perfume.

A desigualdade de que ninguém fala

desigualdade econômica

Estamos sempre ouvindo falar sobre desigualdade social, e esse conceito já faz meio que parte da nossa psique, do inconsciente coletivo do brasileiro, digamos assim – até por que, somos um dos países mais desiguais do planeta. Todo mundo sente na pele o resultado dessa desigulade mesmo sem saber exatamente dar um nome a isso, ou saber as suas principais causas. Mas algo me diz que, mesmo entre os “entendidos”, esse conceito tão amplamente debatido e trazido à tona quando falamos de políticas públicas, não está contando a história inteira. E existe um motivo pra isso.

Vou fazer uma pergunta e quero que você pause e responda com a primeira coisa que vier na sua cabeça: o que você entende por desigualdade econômica? Naturalmente a desigualdade econômica é o que se percebe em qualquer sociedade, a divisão entre os muito ricos, os ricos, a classe média, os pobres e muito pobres. Até uma criança de 8 anos entende isso. Mas uma criança de 8 anos de idade ainda não sabe como se consegue dinheiro e por que algumas pessoas são mais ricas do que outras.

A medida que essa criança vai entendendo melhor o mundo, logo ela é apresentada ao conceito de salário. Primeiro ela deve ver na TV que o Neymar ganha, sei lá, um milhão de Euros por mês. Porra, isso é muito dinheiro. Por isso ele é tão rico. Mas ele não era rico antes. É de origem humilde, seu pai ganhava uma merreca, e agora com um salário desse, vive como rei. Ou seja, desigualdade econômica é basicamente desigualdade de renda. É uma indução totalmente lógica e não está errada. Mas não é a história toda.

A faxineira não deve ganhar lá muito bem, pensa a criança. Mas meu pai certamente ganha muito mais que ela, afinal tem esse apartamento, paga a minha escola, minha comida e meus brinquedos, e ainda sobra pra pagar a ela. É assim que as coisas são. Uns ganham mais que outros e ponto final. Ponto final? Antes fosse.

Essa percepção, a de que desigualdade econômica é basicamente a desiguladade de renda, é tão amplamente reconhecida, e dada como correta, que praticamente não é discutida. Raramente se vê qualquer discussão de desiguladade social que vá além da renda. Mas essa noção está bastante incompleta, e equivocada.

Antes de eu prosseguir, gostaria de deixar claro que a desigualdade em si não é necessariamente prejudicial. Vivemos num mundo extremamente complexo com pessoas em todas as categorias de necessidades e potencialidades, e garantir que todas essas pessoas tenham exatamente (até o último centavo) a mesma posição social e mesma renda, é simplesmente inviável, utópico. A desigualdade, poderia se dizer, é até necessária para que haja progresso. As pessoas estão constantemente tentando melhorar de vida, para isso se especializam, empreendem e a maré leva todos para cima juntos. Pode parecer estranho eu estar falando isso nesse blog, que é obviamente de esquerda, mas não é. É uma visão meramente racional e fria das coisas como elas são. Não adianta fingir que há um mundo possível cor-de-rosa nos aguardando, quando sabemos que o ser humano está bem longe desse nível de evolução – estamos destruindo nosso próprio planeta, seria meio ridículo pensar em um mundo plenamente equalitário. Muita merda pra resolver antes.

O que ocorre – e todos podem facilmente perceber isso – é que a desiguldade social vem atingindo níveis alarmantes mundo afora. A globalização só piorou tudo. Desigualdade extrema é sinônimo de uma sociedade em falência. Um relatório recente, aponta que os 1% mais ricos, possuem a mesma riqueza dos outros 99% somados. Isso é absolutamente surreal e precisa ser endereçado, pois é algo que já está fora de controle e a tendência é piorar. Daqui a uns anos será 0,1% igual a 99,9%. A pirâmide vai ficando com uma base mais larga, ou seja, temos mais pessoas extremamente pobres, e a classe média (a principal força produtiva), vai ficando espremida no meio e também sendo depredada e pressionada.

E o que causa isso? É o salário desses top 1%? É óbvio que não. Essas pessoas, em sua enorme maioria, sequer ganham salário, talvez nunca tenham recebido um único vencimento em toda a vida. E mesmo assim, veem suas fortunas crescendo. Como pode?

Simples: desigualdade de capital. E essa é infinitamente mais complexa que a desiguladade de renda. Pra começar, o capital, especialmente hoje em dia, é algo cada vez mais difícil de definir e controlar. Renda é renda, não tem papo. É quanto você recebe no fim do mês pelo seu trabalho – seja de um empregador, seja dos seus clientes se você for autônomo. Mas e o capital? Essa palavra que toda vez que aparece, já remete a Marx. Pois é, ele sabia das coisas quando identificou que o buraco era mais embaixo. Incluem-se aí: bens imóveis (casas, apartamentos, terrenos), investimentos, ações, participações em empresas, contas no exterior, etc, etc. A galera do top 1% retira todo seu dinheiro do fato de que tem muito dinheiro, e dinheiro faz dinheiro, sozinho, sem demandar força produtiva ou retornar algum produto ou serviço. Ahn? Como assim?

Não precisa ir longe, lá pros top1%. Eu mesmo, tendo trabalhado mais de 10 anos na mesma empresa, possuindo apartamento próprio, casado com uma mulher que também tem um salário legal, já consegui juntar uma grana boa em investimentos. Não vou dizer quanto, é irrelevante. O fato é que, esse dinheiro cresce sozinho. E o rendimento, assim como os juros, é cumulativo. Ou seja, esse meu dinheiro, parado lá, cresce, como massa de bolo, sem que eu mova uma palha pra isso. No máximo gasto algumas horas por mês pra acompanhar o rendimento e ver se posso, com alguns clicks, fazer algo pra obter resultados melhores.

Digamos que alguém tenha R$ 500.000 num investimento, seja por que juntou isso durante 20 anos trabalhando, seja por que herdou da tia que morreu. Esse dinheiro, num investimento merda, rende 1% ao mês. Ou seja, hoje é 500, mês que vem é 505 e no outro é 510,05. Cinco mil reais, limpinhos, zero esforço. Isso é muito mais que a renda da grande maioria do planeta, que rala horrores pra ganhar uma merreca no fim do mês. Qual é o capital dessa grande maioria mais pobre? Zero. Capital zero não rende nada. Na verdade, a maioria dessas pessoas possui capital negativo, pois estão constantemente adquirindo dívidas e tomando crédito. Você não junta capital se o salário nem chega ao fim do mês.

Grande novidade hein, Christian? Todo mundo sabe disso. Sabe? Então por que não cobramos dos nossos governantes que mudem isso? Por que não vamos às ruas pedir a Taxação Progressiva de grandes fortunas? Sabemos que os maiores sonegadores do Imposto de Renda são exatamente aqueles que fazem todo tipo de manobra pra esconder sua renda, e seu capital, colocando tudo no nome dos filhos e usando contas no exterior. Quem paga a conta, é quem menos tem. E por que?

Bom, é simples, e também óbvio – lá vem o Christian de novo com o óbvio – poder econômico = poder político. Em todo lugar, desde sempre. Dinheiro compra tudo; compra políticos, compra legislação, compra isenções bilionárias, e basicamente, mantém o status quo. A própria herança não é debatida, é vista como direito inalienável, quase divino. Eu mesmo fui super beneficiado por heranças mas discordo totalmente que não devam ser mais taxadas (progressivamente, lógico).

Não adianta querer combater a desiguldade social com todo tipo de programa pra melhorar a renda do trabalhador, quando ele nunca vai ter as mesmas oportunidades de alguém que já nasce com um capital inicial garantido. O capital permite a pessoa a empreender, investir, se especializar – com pouco ou nenhum risco, sem precisar tomar crédito e pagar juros exorbitantes. E o capital, como eu já mencionei, cresce sozinho (alugéis, investimentos, ações), sem dar qualquer retorno à sociedade, sem a taxação devida, criando ainda mais desigualdade de oportunidades.

Boa parte dos 1% mais ricos, são mais ricos por que já nasceram dessa forma, nunca trabalharam e nem vão trabalhar na vida, e mesmo sem mover um cílio verão suas fortunas crescerem enquanto tomam champagne na beira da piscina. Tudo por causa de um sistema que foi desenhado e manipulado para beneficiá-los: regras de herança, diversificação de capital, ausência de regulação e taxação específicas, etc. Ou muda isso, ou pode vir o Bolsa Família Delux-Plus 200 que pouca coisa vai mudar – pode melhorar, claro, especialmente pra base da pirâmide, mas a tendência mundial permanecerá a de colapso. E não tem absolutamente nada a ver com “não dar o peixe”.

Se cada um fizesse sua parte…

CiD
Se existe um mantra que ultrapassa as barreiras sociais, culturais e até nacionais, acredito que seria a famosa frase:
“Se cada um fizesse sua parte, o mundo seria um lugar melhor.”

Apesar de podermos expandir vastamente a discussão na tentativa de definir o que a “parte” de cada um, vamos evitar fazê-lo, afinal pra mim por exemplo, se alguém separa o lixo mas fica assistindo seriado ao invés de se informar de política, não está fazendo sua parte. Nesse caso, vamos considerar apenas o que é aceito pela maioria das pessoas como a parte de cada um.

Essa semana, ví alguns artigos extremamente desanimadores a respeito do futuro de nosso planeta.
Alguns deles demonstram com clareza que passamos pelo menos uns 10 anos do ponto de podermos fazer alguma coisa para revertermos os estragos feitos à natureza. Agora os danos já estão aí, não são mais especulação, e a única pauta em discussão pela comunidade científica é sobre como administrar o prejuízo.

A seguir, descobri que todos esses impactos que estamos sentindo hoje, toda a seca, crise hídrica, aquecimento, instabilidade climática, está ocorrendo em função dos estragos feitos há 30 anos atrás.
Os estragos que estamos fazendo hoje, são cerca de 200 vezes maiores que no passado, e o impacto está por vir nos próximos 30 anos, o que não é nada animador.

Estamos incontestávelmente à beira da Sexta grande Extinção em massa do planeta Terra.

Diante do enorme sentimento de impotência, brotou também uma forte sensação de injustiça, em função daquele suposto inocente ditado. Segui as mais diversas recomendações. Uso carro só uma vez por semana, tomo banhos curtos, não como carne. Não consumo muito, separo meu lixo, os dois únicos celulares que eu tive na vida, foram dados por pessoas que não queriam mais. Pratico consumo consciente e faço diversos boicotes.
Me alimento de produtos orgânicos de agricultura local, pratico exercícios regularmente, e o principal: Apesar de poder conseguir mais, eu não ALMEJO mais do que isso. A única coisa que quero da vida é saúde, paz e poder continuar aprendendo sobre o mundo até o dia que morrer.
E tenho plena consciência: nem de longe sou o mais radical desse estereótipo de pessoa.

Todos os dias, vejo pessoas ao meu redor mudar de hábitos, e mesmo assim, não conseguimos salvar o mundo.
Vamos assistir nossos oceanos acidificarem, nossas plantas secarem e morrerem, pra morrermos algumas semanas depois.

Quando começo a seguir essa linha de pensamento, o primeiro e mais óbvio argumento que ouço é um “Mas você é parte de uma minoria!

Então vamos falar das maiorias.
A maior parte deles, faz por tabela essa tal “parte”.
Não usam carro porque não tem, tomam banhos curtos porque não podem pagar a conta, não comem quase nada de carne porque não podem comprar. Enquanto optamos diminuir o consumo, eles são forçados a fazê-lo em função da falta de poder aquisitivo.

Ora, então quem diabos não está fazendo a própria parte?

E novamente, tudo se volta para o tal 1% da população, a qual é dona de 50% dos bens materiais do mundo.
Claro que não tem apenas a ver com consumo, mas com o impacto.

Esse mesmo 1% é quem detém os meios de produção. São as grandes empresas e corporações.
A opção de fabricar produtos que vão quebrar em poucos meses pra você ter que consumir de novo, é deles.
A opção de embalar coisas de plástico com mais plástico e isopor em volta, é deles.
A opção de usar metade da produção agrícola e da àgua do mundo pra alimentar gado, é deles.

Mas eles tem escolha? Não. Assim como a maioria de nós, eles foram criados em uma cultura onde o único dever deles, é maximizar os lucros independente de qualquer impacto social ou ambiental. São vítimas da MESMA cultura que faz o pobre roubar, o classe-média sonegar imposto, e o político desviar verba.

E você não pode fazer nada.
Pelo menos, não do jeito convencional. Mesmo que você exija de seus políticos ações que regulem essas empresas, sabemos que o poder político é submisso ao poder econômico.
Reclama-se da corrupção sem nunca perguntar: Mas quem corrompe? E quem corrompe é essa elite, pra que possa manter suas opções retrógradas. É dessa maneira que eles esmagam qualquer pequena iniciativa que poderia trazer alternativas.

Parafraseando o pensador Eduardo Marinho, “não é o ser humano quem está destruindo a Terra. É uma elitezinha, ZINHA.”

Aparentemente, a “parte” de cada um, é proporcional ao poder aquisitivo de cada um. E infelizmente, nosso planeta não é um sistema fechado que respeita os limites de cada propriedade privada. Logo, se essa minoria que é LITERALMENTE dona de metade do mundo já destruiu a metade que é “deles”, então estamos TODOS condenados. E possívelmente, é o que já está acontecendo.
E mesmo que você seja alguém que concorda e defende a idéia da propriedade privada, há de se concordar que não é justo 99% da humanidade estar condenada por causa de 1% que “Pode fazer o que quiser” com a parte deles.

Diante desse cenário dramático, seria fácil advogar a idéia de sair cortando a cabeça dos ricos, mas não é essa a proposta. Porém é necessário SIM algum tipo de revolução, pois através das vias convencionais acabamos ficando completamente dependentes de uma epifania moral, um momento de clareza vinda dessa elite, o que dificilmente vai acontecer. Sabemos que não dá pra contar com eles.

Enfim, não adianta em absolutamente nada se 99% do mundo donos de uma metade, utilizar “Ecobags”, tomar banhos curtos, e usar apenas transportes públicos, se os outros 1% que são donos da outra metade, não mudarem os meios de produção, e os objetivos do sistema.

Não estamos mais na beira do abismo, já caímos, mas ainda não batemos no chão.
E a maior parte da culpa, não é sua.

As chances são altas de que não é dessa vez que viraremos uma civilização de Tipo-1, desejemos mais sorte para a próxima.

Nota: Escrever um texto carregando sentimentos de frustração trás riscos à qualquer blogger, e corro o risco de desdizer muita coisa daqui. A idéia porém, não é desmotivar ninguém, mas colocar a par a situação real em que chegamos por termos seguido idéias ilusórias a respeito do “poder individual” de cada um. Não estou falando pra deixar de fazermos o que devemos fazer, mas não é só isso que pode fazer algo pelo mundo. A “nossa parte” vai além disso. Deve ser incluso nessa, puxarmos a orelha das elites.

Situação do Brasil – Por Antonio Nobre:
http://leonardoboff.wordpress.com/2014/11/01/estamos-indo-direto-para-o-matadouro-diz-antonio-nobre/

Situação do Mundo – Por Guy McPherson:

Referência ao “Tipo de Civilização” por Michio Kaku:

Referências à desigualdade no mundo:

Debatendo como Gente Grande

duty_callsAnedotas e Estatísticas

Na era internet, em especial na era das redes sociais, o número de debates acontecendo se multiplicou de maneira a ser impossível acompanhar tudo, ao mesmo tempo que os confrontos entre diferentes  escolas de pensamentos acabam sendo inevitáveis. Algumas discussões tornam-se mais agressivas, outras menos, porém um elemento é sempre presente: As anedotas. Historinhas de casos individuais utilizadas para explicar a regra geral a qual a pessoa acredita que funciona.

Em geral, anedotas são ótimas para se terminar uma discussão sem chegar a lugar nenhum. Você apresenta seus exemplos, o oponente apresenta os dele, e no final cada um volta para seu canto sem mudar de idéia e sem aprender nada com o debate, ambos com a sensação de “vitoriosos”, como se o objetivo de todo debate fosse uma competição na qual a vitória ou derrota são os únicos resultados possíveis. Quando não, “aprende” que precisa buscar mais exemplos ainda pra defender seu próprio caso, e o “derrotado” torna-se aquele que tiver que voltar às suas atividades cotidianas primeiro.

É muito comum sentir que uma discussão foi ganha ao apresentar essas histórias, afinal os argumentos utilizados ficam claros como o dia em nossas mentes, porém isso é uma peculiaridade fisiológica herdada ao longo de alguns milhares de anos. Temos uma fortíssima tendência biológica de lembrarmos das coisas que gostamos e que fazem a gente se sentir mais forte, e simplesmente esquecermos o que nos contraria. É o porquê mesmo rezando milhares de vezes e sendo atendido apenas uma vez, algumas pessoas ainda acreditam em milagres.

Mas o que há de errado na utilização de Anedotas?
Sendo elas casos de acontecimentos reais, de certa maneira eles servem pra explicar uma parte da mecânica do mundo, afinal essas coisas aconteceram de verdade!

Ambos os lados podem aceitar que os eventos apresentados são uma realidade, porém o calor da discussão combinamos com o comportamento competitivo que nos foi ensinado desde pequenos,é normal acabarmos esquecendo que uma das propostas de uma discussão é na verdade um trabalho cooperativo, onde tentamos construir um modelo, uma fórmula geral que descreva a realidade em que vivemos. E a partir do momento que estamos discutindo o mundo material, temos de colocar de lado as noções de “certo” ou “errado”, e passarmos a pensar em “mais preciso” ou “menos preciso”.

Pensando (um pouco) estatísticamente

É possível sentir o terror exalar pelos poros de alguns quando se fala em estatística, mas não é preciso se apavorar.
Para ter um pouco mais de noção de como enriquecer as discussões e ganhar “COM” ela (ao invés de ganhar “A” discussão), não é preciso saber muito de matemática, é necessário apenas um pouco de paciência pra pensar alguns minutos a mais, e mais um pouco de imaginação.

Toda vez que pensar em uma história que defende a maneira como você pensa, utilize alguns instantes a mais pra imaginar quantas vezes aquela mesma coisa foi tentada naquela mesma época, e quantas vezes deu certo, e essa frequência dessa história é que vai determinar a precisão desse modelo.

Por exemplo, no último post a respeito de Meritocracia: ( http://www.desajustado.org/2014/04/03/meritocracia-uma-fantasia/ )

Quando se discute o mérito, dois exemplos são bastante comuns: Um é o do cara que trabalhou como vendedor a vida inteira e continuou pobre, e o outro é de algum “Silvio Santos” da vida, que começou como ambulante e agora é dono de um império corporativo. As duas histórias são reais, aconteceram!

Porém, imaginem por um instante TODOS os casos de vendedores naqueles primeiros anos. Alguns se esforçaram um pouco mais, outros um pouco menos, mas podemos afirmar que de maneira geral todos se esforçaram, e que ninguém queria falhar (afinal, a vida deles dependia disso). Qual caso se repetiu mais vezes?

Não tenho um estudo em mãos, mas vamos supôr que o caso “Silvio Santos” foi 1 em 1.000.000.
Não é que o modelo “Silvio Santos” está “errado”, mas podemos dizer que ele tem 0,0001% de frequência.

Logo, imagine agora que você vê um vendedor ambulante na rua, e você resolve apostar com seu amigo a respeito do futuro daquele cara. (E vamos fingir que você tem como rastreá-lo e conferir daqui 10 anos) Em qual dos futuros você apostaria? Que o cara tornou-se um Milionário, ou que o cara continuou no mesmo lugar? Sabendo que as chances são baixas, é mais seguro apostar na segunda hipótese, não?

Agora, voltemos à nossa realidade. Se você diz acreditar na Meritocracia, estará sem perceber apostando a SUA VIDA naqueles 0,0001%. Essas são regras do jogo as quais você concorda?
Logo, poderíamos dizer que o modelo “Silvio Santos” é menos preciso que o modelo “Vagabundo porque quer“.

Surgimento de Padrões

Outra coisa a se ficar atento, é que quando não se surge um padrão na frequência da idéia apresentada, geralmente sugere-se que não há correlação entre os pontos apresentados, e portanto a precisão do modelo fica impossível de se distinguir.

Observe o gráfico fictício:
grafico_patrimonio1(gráfico fictício)
Com algo assim, poderíamos afirmar que o quanto você trabalha e estuda não influencia se você vai ficar rico ou não, portanto a correlação é pequena ou nula.

Já se tentarmos com outra variável:
grafico_patrimonio2(gráfico fictício)
Com isso, poderíamos dizer que correlação. Quanto maior o patrimônio herdado, maior as chances de você ampliá-lo. Quanto mais pobre você nasce, maiores as chances de você continuar pobre.
Haverão sempre os “Outliers” (Casos Particulares)? Sim. Porém, é possível afirmar que esse modelo descreve melhor a realidade do que o anterior.

(Estudo real sobre desigualdade social: https://www.youtube.com/watch?v=Vrea5DzIk6E )

Definição de sucesso e Gradientes

Convenhamos, casos como o do “Silvio Santos” são fáceis de se rebater através da lógica, e portanto é uma tática comum o modelo ser modificado pra algo mais abrangente. Nesse caso, os argumentos ficam mais brandos e viram “É ingenuidade achar que todos se tornarão milionários, mas conheço inúmeros casos de gente que começou de baixo e hoje está bem de vida”.

A partir de agora, o modelo de “sucesso” não é mais o parâmetro “Silvio Santos“, mas o parâmetro “Estilo de vida da Classe Média” nas esperanças que o mesmo modelo pareça mais justo ao ser distribuir, mais ou menos como algo assim:
inequality1
No caso, quem seria o “bem-sucedido” seriam todos entre os 40% e 80%.

Porém, quando olhamos em detalhes e notamos que na verdade o modelo é assim:
inequality2
Já aqui, quem seria o “bem-sucedido” seriam apenas os entre 80% e 90%.

Nota-se que continua sendo uma descrição baseada em excessões, e logo não é muito funcional utilizá-la pra descrever a realidade, ou pior ainda: Guiar sua própria vida utilizando um modelo falho.
(Observação: Esses gráficos são a respeito da desigualdade nos Estados Unidos, mas não se preocupe. No Brasil é tão ruim quanto. Fonte:  https://www.youtube.com/watch?v=QPKKQnijnsM )

Isso aqui também é uma anedota?

Seria possível dizer aqui que também estou utilizando anedotas pra atacar a meritocracia. De fato, estou utilizando sempre o mesmo exemplo (Pelo comodismo da familiaridade, é o caso mais frequente que vejo) porém acredito que o mesmo seja aplicável para outros casos.

Por exemplo, bancando o advogado do Diabo pra nivelar: Os “Esquerdopatas” agora costumam utilizar contra os “Discípulos da Rachel Sheherazade” aquele argumento do Negro que foi adotado por uma familia Francesa, e hoje é professor e palestrante super famoso e reconhecido. Para validarmos esse modelo, teríamos que pegar quantas pessoas as quais foram adotadas e tratadas como ele foi, que obtiveram um “sucesso” similar. Independente de qualquer coisa, que vai validar o argumento são os dados, não as anedotas, haverão “Outliers“, e possívelmente não será possível afirmar que “Todo Negro adotado acaba bem-sucedido“.

Por fim, não só é possível dizer que um estudo vale mais do que mil anedotas. Um estudo é a própria condensação de mil anedotas. Claro, se o estudo foi bem-feito ou não acaba dependendo da metodologia utilizada, e ainda sim devemos duvidar de tudo. Porém, analisar estudos acaba ficando pra outro dia.

Claro que, ao se deparar com alguém que ignora deliberadamente estudos e dados, fica evidente que ali não há a intenção de se enriquecer a discussão, mas sim de disseminar uma ideologia. Nesse caso, não há muito no que se insistir.

Que tipo de lógica você pode apresentar para alguém que não valoriza a lógica ?” ~ Sam Harris

Uma semente para o Terrorismo

rapazacorrentadoarvorefacebookrepEssa semana, diversos cidadãos resolveram realizar o que chamam de “Justiça” através de punições e humilhações públicas de criminosos. Até execução aconteceu.
Após conseguirem a atenção e a aprovação da apresentadora (recuso-me a chamá-la de Jornalista) Rachel Sheharazade, o tópico chamou a atenção popular e inundou as redes sociais, criando uma polarização assustadora entre os usuários.

Para alguns, a expectativa é que esses feitos tornem-se modelos de inspiração para outros “cidadãos de bem”, e que muitos mais comecem a buscar essa mesma peculiar forma de justiça popular. Rezam por uma varredura da criminalidade através desses “exemplos”.

Já outros como eu, enxergam aí os primeiros passos para uma campanha de medo e horror iniciando-se entre a população. Se você é um desses, acredito que esse tópico não seja pra você, mas sinta-se à vontade para utilizá-lo parcialmente ou integralmente, apresentando-o para aqueles que enxergam essas manifestações de barbárie e violência como de alguma maneira, justificável.

Para os “Justiceiros” e “Cidadãos de Bem”, não adianta apresentar motivos científicos e sócioeconômicos que levam uma pessoa a se comportar daquele jeito, não adianta mostrar motivos comparativos demonstrando que essa forma de justiça é restrita só à uma determinada classe de pessoas, e nem adianta demonstrar motivos comparativos demonstrando que as instituições privadas que apoiamos causam muito mais estrago do que alguém que tentou furtar um celular.

Nada disso adianta porque aqueles que pedem por sangue perderam a capacidade de ver um ser humano ali. A campanha de desumanização foi forte e funcionou. Cansei de ouvir que “aquilo não é gente”. Chega até a ser engraçado, pois por exemplo Paulo Maluf destruiu milhares de vidas indiretamente com sua gestão, mas pelo menos ele ainda é gente. O mesmo vale pro Thor Batista, George Bush, e surpreendentemente até pro Bin Laden, esses ainda eram humanos. Nunca vi aquela frase ser usada com eles.

Nada disso importa, pois conforme o pensamento dos Justos, direitos humanos são para humanos direitos, e ali não há uma pessoa que escolheu o caminho do mal. Não adianta de maneira alguma tentar detalhar e ilustrar com argumentos de qualquer profundidade. Por mais equipado que você estiver pra um debate, a condição sine qua non é que consigam enxergar uma pessoa ali, e os “Justiceiros” são completamente incapazes disso.

Porém, ainda existe um argumento estratégico para ser discutido, com o máximo de racionalidade possível.

Mesmo fazendo compras de importados e financiando descaradamente o meio de vida Norte-Americano, muitos de nossos Justiceiros adoram ver os gringos se ferrar, e mantém na ponta da língua os argumentos pra legitimar o porque eles são tão odiados ao redor do mundo.
Os nossos bem informados “Cidadãos de Bem” sabem muito bem que os EUA criou seus próprios inimigos. Quando você invade um país, se apropria dos recursos naturais, e massacra sistematicamente a população, é ÓBVIO que vai dar origem ao terrorismo. “Os gringos pediram por isso” é a frase típica.

Agora, voltemos ao nosso caso. À partir do momento que os pobres, marginalizados, inferiorizados, se identificarem com o cidadão humilhado em praça pública e feito de exemplo, o que vocês imaginam que vá acontecer? Acham que vão ficar intimidados, ou que vai dar início a uma escalada de violência? Os EUA tem o maior exército do mundo e é a nação mais rica do mundo, e os terroristas ficaram intimidados?
Só que no nosso caso, além de não ter um mar separando, os pobres e marginalizados são maioria, estão melhor preparados, e melhor posicionados.
Exatamente como os Iraquianos, a população pobre brasileira foi explorada ao limite, colocada em condições sub-humanas com uma vida cheia de restrições.
Como diria o pensador Eduardo Marinho, “olhe pro horizonte, e me diga alguma coisa que não foi construída pela mão do pobre.”
Eles construíram os shoppings, e agora seus filhos não podem nem entrar neles.

São transportados como gado num sistema de transporte precário, tem a saúde e a educação negada desde o nascimento, perdem um tempo obsceno em função da ineficiência do sistema, e ainda depois tem que ouvir de “playboyzinho” que ele só é pobre porque quer. Dizendo que eles conhecem UM cara que nasceu na favela, estudou, se formou e hoje está bem de vida, enquanto descartam a existência de outros MILHÕES de caras que fizeram a mesma coisa, e não conseguiram o mesmo resultado. Não é de subir o sangue?

Agora, imaginem nessa panela de pressão, o dia que assim como os “Justiceiros” desses últimos dias, esse mar de pobres subir as ruas pra fazer a justiça deles, do que ELES consideram justo?
Não tem outro jeito de dizer. Vocês estão fudidos. Estão plantando sementes pra começar uma guerra que VÃO perder.

Se a situação do Brasil estava ruim como dizem, sabemos que esse não é o caminho pra melhorá-la. Já vimos filmes o suficiente pra saber que controle pelo medo não funciona quando a situação é desesperadora. A humanidade já viveu em uma era a qual a “justiça popular” existia, com exemplos pendurados em praça pública, e todos aqueles cenários era PIORES do que hoje. Não faz sentido achar que se fizermos a mesma coisa dessa vez, o resultado vai ser outro.

As tensões sociais vão aumentar com certeza, e se você está aplaudindo e elogiando essas últimas ações, está pedindo pra que elas se repitam.
Pode ser que seja apenas pra sentir um certo alívio psicológico momentâneo, mas tudo indica não é porque pensou nas consequências de um futuro próximo, que seria bem negro. É uma solução muito burra pra merecer qualquer tipo de aplauso.

Então, “Cidadãos de Bem” racionais, estrategistas natos que tomam todas suas decisões conscientemente.

Quais os resultados que esperam colher à médio e longo prazo com essa abordagem?

Esperam que com a disseminação progressiva desse comportamento, de alguma maneira se erga daí uma sociedade mais justa?
Ou acham que terminaria com outro erro histórico similar à morte de 6 milhões de pessoas? Porque é assim que começa…