Ensaios sobre a Corrupção

corrupAh, a corrupção. Quando ouvimos esta palavra, imediatamente nos vem à cabeça a imagem de um político enfiando dinheiro na cueca. Mas é só isso mesmo?

Corrupção é QUALQUER atitude que cause a deterioração total ou parcial do do sistema, e quando pensamos nesses termos, começamos a enxergar que a mesma está em todo lugar.


Por que corrupção causa degeneração do sistema?

Como sociedade, temos um grupo de regras estabelecidas e aceitas por uma maioria.
Quem joga nas regras, pode ser mal recompensado, ou bem recompensado se jogar bem.
Não jogar nas regras é passível de punição.

O corrupto entra na história como um oportunista, o cara que conhece as regras, porém utiliza ferramentas não aprovadas socialmente pra conseguir a sua recompensa. Note que existe esforço e risco, só não é considerado válido pelas maiorias. Um cara que planeja um assalto teve um enorme trabalho, assim como um político que elabora um esquema.

A degradação do sistema se dá pelo fato dessas ações recompensarem de maneira desmedida em relação às recompensas dadas aos que jogam por dentro das regras.
Não é que o corrupto se esforça menos, porém a sua infração deprecia o mérito individual de TODOS ao seu redor. Tira o valor do esforço de cada um.

Determinamos uma certa forma de avaliação para quantificar o mérito de cara jogador, geralmente representado através de “Fichas” (tokens). Obter essas fichas por fora da avaliação desorganiza o jogo inteiro, como se o corrupto fosse um parasita de esforço.

Isso torna-se mais fácil ainda quando essas fichas são anônimas e transferíveis.
Imagine que aconteça um assalto bem na frente da sua loja. A seguir, o bandido entra e quer comprar alguma coisa. Você aceitaria esse dinheiro? Muitos não, por ser fácil enxergar aí a origem corrupta desses tokens.
Porém a aceitação muda quando os crimes acontecem longe dos olhos, como por exemplo quando recebemos uma pequena renda em nossa poupança, vinda das dívidas de famílias miseráveis sendo exploradas por golpes de empréstimos impagáveis. Lavamos as mãos nesses casos.

Quais são as regras do jogo?

Em nossa sociedade, o que consideramos mérito não é a bondade, o autruísmo ou as boas intenções. Por mais bonitos que sejam esses valores, estes não são funcionais num mundo repleto de escasses. Já dizia o ditado que uma mão trabalhando vale mais que vinte mãos rezando. E é isso que medimos. Valorizamos as pessoas que contribuem com a sociedade através do trabalho.

Todos que fornecem à sociedade algum tipo de produto ou serviço, recebem “fichas” que representam e quantificam a contribuição do indivíduo. Para isso serve o nosso velho conhecido, o dinheiro.

Mais difícil de notar, é que a partir do momento da definição das regras, tudo o que cai pra fora desse gargalo torna-se automaticamente corrupção.
Nessa hora, a teoria econômica ortodoxa tem muito a falar sobre, apesar de nem sempre definir com clareza os pontos.
É definido que para o bom funcionamento do sistema, as trocas de “fichas” devem acontecer voluntariamente por ambas as partes, o comprador e o vendedor do produto/serviço. Qualquer coisa fora disso ou é corrupção ou é manipulação.

A corrupção de fato:

Pra enxergamos a corrupção, vamos usar um exemplo simplificado, para depois expandir para um modelo mais complexo.
Nessa caso, o velho Banco Imobiliário cai como uma luva. Tem um conjunto de regras definidas as quais todos participantes concordam, e tem fichas que quando acumuladas, servem de indicador do desempenho de cada um. Ah sim, e não tem estado pra interferir também, estaremos operando num modelo teoricamente, de livre-mercado.

Corrupção “Negativa”: Considero essas as mais fáceis de enxergar. Esse tipo é gritado pela mídia 24 horas por dia.

O espertinho (O assaltante) – Quando ninguém está olhando, Pedrinho passa a mão na grana dos outros. Ele ganhar ou não, depende das oportunidades que aparecem dele roubar, porém uma coisa é certa: O perdedor absoluto nunca vai ser ele.

O dono da Bola (O banqueiro internacional) – Juquinha é o dono do Banco Imobiliário. Se ele perder, vai ficar putinho, levantar e ir embora com o jogo inteiro, impedindo todos de brincar. Toda vez que ele começa a perder, todo mundo empresta um pouquinho pra ele. Ao contrário de Pedrinho, Juquinha ganha SEMPRE. A mesma coisa acontece com os bancos internacionais, que ameaçam quebrar a economia toda vez que não recebem pacotes de ajuda bilionários.

O Bully (O ditador estadista) – Muito simples. Sidão veio jogar com a gente, e devido à sua grande estatura, todos sabem que depois do jogo ele arrebenta na porrada todos que ganharem dele. Depois das primeiras partidas, ele não precisa mais bater em ninguém, mas “coincidentemente”, ele sempre ganha. Exceto se você tiver um primo maior que ele. Vide Oriente Médio, e todos países que são amiguinhos dos EUA.

A corrupção “Positiva”: Essa é mais difícil de enxergar, e quando diz-se positiva, não é que seja boa. É apenas socialmente aprovada, ignorada, ou até mesmo acidental!

O influente – Rafael não joga muito bem, mas é um cara muito legal. Empresta os brinquedos pra todo mundo, não é regulado. Vira e mexe, dão uma colher de chá pra ele. Não é sempre que ele ganha, mas nunca é o grande perdedor.

O herdeiro – Dessa vez, o jogo aconteceu em familia. Papai estava debulhando todo mundo, porém tinha que ir dormir cedo pra trabalhar no dia seguinte. Entregou toda a grana pra Joãozinho, que apesar de jogar mal pra caramba, obviamente ganhou de todo mundo no lugar de seu pai, só teve de dar “golpe de misericórdia.”

O fofoqueiro – Talita sabe os podres de todo mundo. O pode ter certeza que se ela não ganhar, alguma coisa vai vazar sobre quem estiver no caminho.

O político – Rafael tem uma lábia do caramba. Um especialista em prometer e enrrolar, só que é muito difícil enxergar isso, porque o jogo sempre termina antes dele ter de pagar tudo o que deve. “Se o jogo não tivesse terminado, eu teria pago” diria ele.

A avassaladora – Karen é uma gatinha, todos babam por ela. Com cada pequena bajulação e/ou colher de chá que dão pra ela, seu patrimônio aumenta e eventualmente ela ganha. O engraçado é que ela nem precisa fazer nada em favor disso, simplesmente nasceu bonitinha.

Os monopolistas – Luíz e Robson são melhores amigos, como carne e unha. Sempre que entram na jogo juntos, é um dos dois que ganham. Usam diversos códigos que só os dois entendem, e planejam as jogadas por debaixo dos panos. É como uma pessoa só jogando com duas posições de jogador, fica fácil ganhar assim.

Notem que nenhuma das “armas” utilizadas por esses fortes candidatos a ganhar o jogo, independente de serem negativas ou positivas, os fazem de fato melhores jogadores, no quesito “habilidade” no próprio jogo. De fato, em alguns casos eles mal precisam saber jogar direito. São mais aptos a ganhar, mas não em função de suas habilidades no jogo. São maus jogadores!

Aos nossos colegas Anarcocapitalistas e Liberais de Plantão: Percebam também que toda forma de corrupção “positiva” isso não tem absolutamente nada a ver com estado, ou a utilização do mesmo. As vantagens acumuladas ali serão exorbitantes, injustas, causarão danos ao funcionamento da sociedade, e um detalhe: Discretamente dentro das regras. Não há o uso de violência física ou intimidação.

Agora, um pequeno exercício de pensamento: Imaginem uma familia e/ou grupo tornando-se especialista em formas discretas de corrupção “positiva”. Eventualmente, tornarão-se imbatíveis de tão poderosas, e poderão ditar as regras do jogo. O próprio fato do Liberalismo não fazer vista grossa à acumulação de poder privado, é o que faz surgir o estado dentro de uma sociedade teoricamente livre.

Existe ainda um último exemplo que deixei por último, que torna o nosso modelo socioeconômico extremamente BIZARRO:

O coração mole – Bruno apesar de gostar de jogar, simplesmente não possui a brutalidade que o jogo exige. Não consegue ficar indiferente à tristeza de seus colegas que estão quase perdendo, e acaba a ajudá-los. Sua natureza gentil não permite, e isso faz com que ele nunca ganhe.

Porém Bruno mal sabe o mal que está fazendo à sociedade. Seus atos gentis, sua empatia faz com que os indivíduos mais inaptos continuem no jogo, quando deveriam sair. Ao ajudar os outros, preserva maus jogadores, não deixando essa simplória forma de “seleção natural” agir. Ou seja, num sistema altamente competitivo, empatia torna-se uma forma de corrupção. Mesmo que você não faça questão de ganhar, o bom funcionamento das regras exige dos jogadores um grau mínimo de brutalidade.

Quem ganha o jogo?

Estranhamente, o sociopata. Aquele indivíduo que nunca sente nada por ninguém, não tem sensibilidade ou habilidade social nenhuma, seria o ganhador desse jogo. Não porque é um bom jogador, mas porque sua falta de tato o torna imune à muitas das formas de corrupção “positiva”. Nunca vai gostar da menina, e nunca vai cair na ladainha dos outros não porque resistiu a elas, mas porque sua biologia falha não permite entendê-las.

E por fim, imaginem os efeitos a longo prazo. Pensem em um mundo onde as pessoas mais gentis e de coração mole são punidas e extintas, enquanto os sobreviventes são os sociopatas.
Para os que defendem um mundo governado pelo “livre-mercado” e pelas “democracias de mercado”, provavelmente esse é um cenário de mundo ideal, de humanos desumanos.

Conclusão

Não podemos afirmar também que colocar um estado controlando tudo resolveria toda a situação. É tão nocivo quanto. O problema está no sistema monetário em sí, o qual exige competição infinita, independente da presença de estado ou não. E com competição brutal crescendo ao infinito, corrupção torna-se o modus operandi do jogo, onde famosas “trocas com as duas partes concordando” representam na verdade uma parcela muito pequena das operações.

A maior parte dos seres humanos toma decisões constantemente sob a influência de hormônios, de feromônios, são afetados por emoções, medo, impulso. São manipulados pelo ambiente e coagidos pelos sentimentos. Acreditar que ninguém é manipulável, suscetível a coerção e pensar que todas as trocas ocorrendo são com os dois lados concordando sim, é que é utopia.

“Um homem vai ao consultório, e diz:
– Doutor, meu irmão pensa que é uma galinha!
– Dê esse remédio, e em duas semanas ele estará curado. – Diz o doutor.
– Não, doutor, você não entende. Estamos precisando dos ovos.”

Você é corrupto, eu sou corrupto, somos acidentalmente corruptos pelo simples fato de sermos humanos.
Corrompemos quando nos importamos.

Corrupção é o próprio sistema, e se ele só funciona quando seus participantes não se comportam como seres humanos, então é o sistema errado a se utilizar.

A fé e o sistema monetário

Não é de hoje que a fé religiosa divide o mundo, tanto ideológica como geograficamente.  Desde que as igrejas começaram a surgir como poderosas instituições e se embrenharam nos dizeres do Estado, muitas guerras e divisões de territórios tiveram motivos religiosos e isso dura até hoje, talvez com menos força na maioria dos lugares (especialmente onde a igreja católica tinha o domínio), mas muito presente ainda em outras partes do globo.

Me arrisco a dizer, no entanto, que existe um outro tipo de fé que não distingue geografia, raça, cor ou credo e que de certa forma unifica a todos nós – mas não no sentido positivo do conceito de unificação. E essa é a fé no sistema monetário, ou seja em tudo aquilo que tem a ver com o fluxo de dinheiro em nossa sociedade.

Antes de prosseguir, gostaria apenas esclarecer o significado da palavra para que ninguém ache que exista algum sentido espiritual ou metafísico na reflexão a seguir.

Do Wikipedia:
 (do Latim fides, fidelidade e do Grego pistia[1] ) é a firme opinião de que algo é verdade, sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, pela absoluta confiança que depositamos nesta idéia ou fonte de transmissão.

Com o exposto acima estabelecido, podemos começar a refletir sobre nossa relação com o sistema monetário, e perceber que é uma relação baseada na mais completa ignorância e confiança, o que poderia ser traduzido em fé cega.

O dinheiro é uma parte importantíssima de nossas vidas. Passamos boa parte de nosso tempo nos preocupando com ele: como conseguir ganhar mais, como gastar o que tenho da melhor maneira possível, quanto devo gastar com minha saúde, quanto gastar com minha moradia, será que não paguei muito caro naquela camiseta?

Praticamente todos os aspectos de nossa vida em sociedade estão atrelados direta ou indiretamente ao fluxo de dinheiro. E mesmo assim, ninguém entende direito o que é esse negócio chamado “dinheiro”. Por que ele existe? Como ele é criado? De onde vem? Para onde vai? Dinheiro tem fim?

A ignorância em respeito ao nosso sistema monetário (ou seja, baseado em moeda – dinheiro) tem a ver com a extrema (e intencional?) complexidade desse sistema e o baixíssimo nível de instrução da grande maioria da população planetária. Mesmo se quiséssemos, seria virtualmente impossível explicar a todos como funciona o sistema monetário de maneira que o entendessem com um mínimo de profundidade a ponto de questionar sua eficácia. E isso é, naturalmente, muito cômodo para os que estão em posição privilegiada de acesso à recurso e informações, pois a vantagem em obter mais e mais dinheiro é evidente.

Por isso gosto de comparar a relação das pessoas e o sistema monetário com a fé, ou seja a confiança completa de que esse sistema é sólido, é correto e faz sentido. Ninguém sabe como funciona, mas sabe que “está lá, em algum lugar” e “tem pessoas competentes trabalhando para mantê-lo funcionando”.

Podemos afirmar que, de fato, ele existe (ou seja, “está lá”), mas basta olhar com um pouco mais de cuidado para perceber que ele está longe de ser ideal, sólido, correto, ou fazer sentido. E essa ação –  de olhar com mais cuidado – quase ninguém faz. Ninguém questiona. Ninguém para e se pergunta: “como o dinheiro é criado?”, “O que acontece quando deposito meu dinheiro no banco?”. Será que as pessoas sabem que o dinheiro é criado a partir da dívida e que essa dívida cresce mais rapidamente que o dinheiro disponível para pagá-la devido aos juros?

Podemos até fazer comparações na relação das pessoas com os “representantes” do sistema monetário e as religiões. Apesar de não tão bem definida como a maioria das religiões, que herdaram organizaão hierárquica das instituições militares, existe uma estrutura vertical de poder no sistema monetário. Acreditamos no que dizem os ministros, presidentes de bancos centrais, FMI e afins, da mesma forma que fiéis absorvem ensinamentos dos sacerdotes. Se ele falou, deve estar certo. Para explicar as crises, aparece um sem-número de economistas, cada um com uma explicação, que na opinião de cada um deles é a melhor de todas. Alguns entendem metade do que dizem, outros não entendem nada mas acham (e fingem) que entendem e a grande maioria sequer se importa em ouvir pois já sabe que ele vão falar grego (ou latim – como nas primeiras missas, onde ninguém entendia mesmo!).

Os bancos são como templos. Depositamos lá nosso dinheiro sem ter a mínima ideia do que é feito com ele. Confiamos todo o produto de nosso trabalho à essas instituições, que estão entre as mais poderosas do planeta, ignorando totalmente que ao entrar lá, nosso dinheiro é usado para que o banco crie mais dívidas e produza mais dinheiro (e lucro) para si. Isso eles não mostram nas propagandas com famílias felizes. Todo início de mês é como uma data religiosa e vemos a procissão de assalariados e pensionistas enfrentando filas para retirar seu dinheiro e pagar suas contas.

As crises vem e vão, países quebram, dívidas externas levam nações inteiras a falência e a grande massa sempre (com a ajuda de nossos analistas-sacerdotes, sempre com respostas na ponta da língua) segue acreditando que existem causas políticas, ou “naturais” do mercado para isso. Acreditar (ou ser levado a crer) que existam tais “fenômenos naturais” do capitalismo não é muito diferente que associar uma chuva ou um trovão à fúria de um deus do Olimpo.

A ciência foi capaz, após duras penas, de por um fim nesse tipo de ignorância. O problema é que o sistema financeiro e o capitalismo estão longe de serem sistemas criados com base no método científico e é por isso que precisam da “confiança” e da fé para se sustentar.

A questão do merecimento

Costuma-se dizer que Futebol, Política e Religião não se discute, o que é uma mentira deslavada. Basta ir num bar e ver sobre o que é a maioria dos debates.
Claro, é o que aparece sempre na mídia, como não vamos falar sobre isso?

Porém, longe dos holofotes existe uma lista oculta de itens, que estão enraizados na gente, e não são discutidos. Estes são os valores.
Quanto mais eles parecem naturais, menos falamos sobre eles. E um dos que passa batido até pelas mentes mais lúcidas é a idéia de merecimento e justiça.

Por que discutir sobre mérito?
Porque essa noção interfere completamente na nossa maneira de ver o mundo, e se olhamos o mundo sob uma lente distorcida, corremos o risco de tomar péssimas decisões.
Mas vamos lá…

Mérito: s.m. Aquilo que faz uma pessoa digna de elogio, de recompensa, merecimento.

Legal, a idéia é simples e clara. Quem tem mérito, merece. Mas merece o que?
Após observar um pouco, eu pessoalmente acho que é acesso à recursos. É fácil de se ver até no mundo natural, o macaco mais forte do bando tem mais direito à comida. Ele “merece” aquela comida por ser o mais forte.
Porém não é qualquer tipo de recurso, mas sim os recursos mais ESCASSOS.

Note que nem os macacos, nem nós, ficamos perdendo tempo em decidir quem merece mais ar. Tem o suficiente até pra quem não merece!
Se existe uma melancia só, precisamos decidir se eu ou você merecemos. Se tiver uma pra cada um, a gente não discute. Se tiver mais de duas, a gente nem pensa a respeito, deixa de ser uma preocupação.

Resumindo, o sistema de mérito é uma convenção social, onde escolhemos um critério, e esse é usado para decidir a distribuição de recursos escassos. Não se aplica em todos os casos, em especial no caso de recursos abundantes.

O dinheiro e o mérito

Não conheço muito da história do surgimento do dinheiro, mas arrisco imaginar que surgiu da idéia do merecimento.
Uma vez que você ganha dinheiro, seja por esforço ou por criatividade, demonstra que você teve um desempenho melhor do que os outros, e portanto merece mais. Nessas condições, faz perfeito sentido o dinheiro ter virado um símbolo moderno do mérito. Pelo menos à princípio.

Imaginem uma fazenda. Nela você tem 100 pessoas trabalhando, porém a capacidade de produção sustenta somente 70 pessoas.
Com isso, precisávamos bolar um jeito de ver quem vai comer e quem vai ficar sem. Nesse momento o dinheiro entra como ótimo meio (senão o meio mais justo) pra decidir quem tem acesso à comida, e quem não. Se a fazenda produzisse pra 100 ou mais pessoas, não faz o menor sentido decidir quem merece.
Perceba como essa idéia só faz sentido na escasses, e como a falta de recursos era uma realidade até 1800, a idéia funcionou MUITO bem.

“E assim o homem criou o dinheiro, e viu que era bom.”
E o esforço humano foi materializado através de um símbolo, o dinheiro.

Porém todo esse mecanismo era apenas um conjunto de regras, uma convenção social que todo mundo simplesmente aceitou. E como toda regra, em caso de sobrevivência elas são quebradas.

A primeira coisa que descobrimos, é que podemos contornar a regra e pegar diretamente o que precisamos. Ou seja, roubar.
Porém pra isso, precisamos escolher como alvo diretamente o que queremos. Logo, descobrimos que era muito mais conveniente você roubar o dinheiro, o símbolo.
Não só você pode trocar por qualquer coisa, mas o vendedor (que confia nas regras do sistema) vai pressupor que aquele dinheiro está na sua mão por mérito, e ele pode aceitar sem nem questionar.

Depois, vem uma manipulação das regras mais bizarra ainda, e essa a gente mesmo usa até hoje. Faz algum sentido a gente poder transferir mérito?
O esforço é pessoal! Logo, um cara que ganha uma herança não mereceu coisa nenhuma ali, ele simplesmente ganhou.
Fora isso, você já nasceria ferrado. Como bebê, sua capacidade de contribuir com a sociedade é zero. Imagine se os seus pais ficassem marcando tudo que você deve desde que nasceu, até você começar a trabalhar.

E por fim, começamos a querer usar de um pouco de malandragem pra “merecer” um pouco mais. Aí entra a subjetividade da idéia, como ela não é algo muito bem definido, faz parte do seu trabalho convencer quem está pagando, que seu trabalho vale mais  do que o trabalho dos outros, mesmo que não seja verdade…

Por último, entra outro problema muito grande. O dinheiro acaba não funcionando como uma medida de importância a longo prazo.
Um cara que trabalhou a vida toda de motorista, “merece” se aposentar e ter uma feliz. Mas e se um cara que foi pisado a vida toda, no último dia de vida descobre a cura pro câncer? Não tinha como a gente adiantar o “merecimento” dele.

Pois é, a princípio a idéia era legal. Mas a partir do momento que entram esses problemas, o dinheiro claramente deixa de ser um símbolo de mérito. Porém, como é muito difícil de regular isso, a gente ignora os malefícios e deixa a coisa funcionar assim mesmo. O resultado é o mundo que temos hoje, quanto mais indiferente e lazarento você for, mais possibilidades de ser rico, você tem.
Num mundo justo de verdade, um médico ou um pesquisador deveria receber tanto ou mais do que um político ou um jogador de futebol. Só demonstra o quanto esse sistema não funciona.

O impacto social

Mesmo com as regras sendo facilmente manipuláveis, a idéia do mérito entra como instrumento principal de distribuição de recursos na sociedade humana, e junto com ele acabamos dando origem a um problema sem precedentes. As classes sociais.

A partir do momento que fulano merece mais do que ciclano, automaticamente ele torna-se mais importante.
A princípio ele pode até ser mais produtivo e merecer mais, mas não leva muito tempo até a subjetividade corromper o propósito. De onde vem a legitimidade de um Rei? Da certeza que o trabalho dele mesmo sendo menor do que os peões trabalhando na lavoura, é mais importante. Note que antes da sociedade de classes, antes da revolução agrária, nem se dava importante pra credibilidade. Ninguém assinava pintura rupestre ou fazia patente de ferramenta. Eram contribuições pra toda sociedade.

Ou seja, existe um vínculo muito forte entre a idéia de mérito e a sociedade de classes.

O nosso foco

Tendo consciência disso, onde devemos botar nossos esforços? Em melhorar os critérios para o mérito, ou em eliminar a NECESSIDADE do mérito?
Com a tecnologia de hoje, temos a capacidade de produzir abundância pra TODOS. Até pra quem em teoria, não merece.
Afinal, o mimado vagabundo não merece nada por não produzir nada, mas as criancinha passando fome na Àfrica também não produz nada.

Existe uma séria de coisas hoje que não deveriam depender mais do que consideramos merecimento. Alimentação, Moradia, Saúde e Educação.
Chegamos em um ponto tão distorcido, que a idéia de merecimento deixa de ser justa.

Então ficam as perguntas…
Você acha que devemos matar a abundância pra manter a idéia do merecimento, ou devemos matar o merecimento pra produzirmos abundância?
Você conseguiria abrir mão dos seus méritos, para que todos passem a ser merecedores?

Que mal há na bolsa de valores?

Desde o primeiro contato que tive com instituições bancárias e comecei a administrar minhas finanças – acho que lá pros 14 anos quando minha mãe abriu pra mim algo como uma “conta teen”, ou qualquer nome idiota desses – me familiarizei com o conceito de caderneta de poupança e investimentos. Claro que não entendia muito para que serviam ou como funcionavam, mas me interessei, pelo simples fato daquilo me parecer “estranho”. Ao pedir explicações, simplesmente me diziam que poupança tinha alguma coisa a ver com inflação. Investimento já era algo mais complicado e envolvia risco. De qualquer forma, adolescentes tem outras coisas para se preocupar, e a conta só foi criada pois na época eu já ganhava um dinheirinho dando aulas e não queria guardar tudo em casa. Queria me sentir adulto tendo cartão de banco e minha mãe cedeu a minhas vontades.

A vida foi passando e cada vez mais o dinheiro se tornou uma preocupação maior em minha vida e foco de muitas conversas com parentes e amigos. Todo mundo quer ganhar mais dinheiro – sempre! Inevitavelmente, em algum momento da minha vida, o assunto “investimento” e mercado de ações surgiu como uma possibilidade de ganhar mais dinheiro, para completar o meu sempre insuficiente salário. Algumas pessoas comentam que ganharam, outras que perderam, algumas gostam, outras não. O fato é que o mercado de ações está lá, 24h por dia, movimentando boa parte do dinheiro do mundo, independente se você quer fazer parte dele, ou não. E mais importante, independente se você faz qualquer idéia de como ele funciona, e se você concorda com ele ou não.

Da mesma forma que aos 14 anos achei “estranho” o fato de o dinheiro “crescer” ao ser colocado em certo lugar (um investimento ou poupança), mais tarde percebi que esse estranhamento não era de todo infundado. Ao entender melhor como o mercado de ações funcionava, percebi que existia algo fundamentalmente errado com o sistema financeiro em si. As bolsas de valores operam basicamente com especulação, uma sinônimo chique para “achismo”, e basicamente pega dinheiro, aposta aqui e ali, para fazer mais dinheiro. Pessoas se tornam ricas nesse jogo, muitas pessoas, muitas empresas, é um jogo lucrativo, oh yes!

Mas – e esse é um enorme “mas” – há algo estranho no reino da Dinamarca. Esse papo de usar dinheiro para fazer mais dinheiro é o cúmulo do absurdo quando se leva em consideração a real economia do planeta. Por economia, não entenda apenas a circulação de moeda, mas todas as trocas de moeda por produtos, produtos por serviços, serviços por serviços, forças produtivas, etc. Cada vez mais o dinheiro – e especialmente o dinheiro que circula nas bolsas, que sequer existe fisicamente – se distancia da real economia do planeta, das coisas reais, dos produtos, serviços e pessoas. O dinheiro existe de si para si, em um loop louco de crescimento exponencial infinito. Sabemos bem que os recursos do planeta são finitos, como podemos não estranhar que o dinheiro (e as dívidas) não parem de crescer?

As bolsa de valores em si, não é o coração do problema, mas é o fígado. Na verdade é apenas mais um sintoma desse sistema financeiro esquizofrênico que governa nossas vidas. Milionários que são ainda mais milionários simplesmente por que pegam suas fortunas e as deixam aos cuidados de grandes empresas do mercado financeiro, que de posse de muita grana (dos seus muitos e ricos clientes), fazem grandes apostas e acumulam grandes lucros. Que mal há nisso, você diria? Cada um faz o que quiser com seu dinheiro, e se isso produzir mais dinheiro, que bom.

O problema todo é que esse dinheiro “extra”, esse “ganho” não está relacionado a nada de concreto. Nenhum produto, nenhum serviço, nenhum emprego. Um novo hospital, estádio de futebol, um prédio, financiamento de novas pesquisas – nada disso! É dinheiro, sendo usado para criar mais dinheiro, sem que nada positivo tenha sido gerado para a sociedade. Nada, absolutamente nada. Só gente rica ficando mais rica, corporações ficando mais poderosas.

Na verdade, é pior do que nada. Antes fosse um mero “nada”. Como vimos na recente crise de 2008, e na que está vindo por aí, conforme apontam os especialistas, o mercado financeiro tem se tornado cada vez mais desregulado e as operações na bolsa perderam totalmente o controle e o contato com a realidade. Chegou ao cúmulo no ponto em que créditos imobiliários sabidamente falidos foram classificados como AAA (super-ultra-top), depois comprados por investidores que “apostaram” neles, e ao mesmo tempo em que apostavam contra, em conflito direto de interesse com seus clientes em ambas as pontas (os proprietários de imóveis e os acionistas). Tirando o fato que isso demonstra a total falta de escrúpulo “desse pessoal”, a brincadeira gerou uma bolha que culminou na quebra de mega-bancos e uma crise financeira mundial, onde empresas faliram, pessoas perderam suas casas e milhões ficaram desempregadas. Tudo isso obra de “big players” em seus escritórios em Wall Street, que passam dias inteiros tentando descobrir como fazer mais dinheiro em cima do dinheiro que existe.

O que há de errado com as bolsas de valores? Nada não, esquece que eu comentei.

***

Antes que alguém comente e deixando a hipocrisia de lado, sim, eu tenho uma grana guardada e ela não está no meu colchão. Está em um fundo de baixo risco, rendendo um pouco. Faço isso apenas para que meu dinheiro não perca valor para a inflação. Sei que o dinheiro que eu “ganho” vem do mercado de ações que acabei de maldizer. Não sou contra ninguém que aplique seu dinheiro em ações, mas é importante que entendam exatamente com o que estão contribuindo, e por que existe um movimento mundial de ocupações de rua insiprado pelo Occupy Wall Street.

A falácia do sucesso profissional ao alcance de todos

Cresce a cada dia a quantidade de capas de revista e programas de televisão com o tema “é possível ficar rico – veja essas histórias de sucesso”.

Hoje de manhã vi na banca mais um exemplo dessa absurda mentira que tentam nos vender insistentemente. O título era “Ganhei meu primeiro milhão na internet” e trazia a foto de uma jovem, razoavelmente bonita, como ícone do empreendedorismo. Reparem na força e hipocrisia da palavra primeiro nesse título. Agora já não basta mais ganhar um milhão de reais, isso já não pode ser considerada uma meta digna em nossa sociedade excessivamente monetarizada. O primeiro milhão é apenas o primeiro degrau na escalada para ser tornar bem-sucedido (sic) e subir ao topo da pirâmide dos privilegiados. Se alcançou o primeiro milhão, por que parar? Agora é partir para 10, 50, 500 milhões de reais. Aí sim você pode ser considerado alguém que realmente “chegou lá”.

Falar sobre a busca esquizofrênica das pessoas que formam nossa sociedade por cada vez mais dinheiro, para gastar em itens fúteis que servem apenas para demonstrar status e poder, seria, no mínimo, lugar comum.

Meu objetivo aqui é endereçar a questão da falácia do que chamam de empreendedorismo. Ouvi muito essa palavra na faculdade – tinha até uma disciplina com esse nome. A idéia basicamente é que se você for uma pessoa que “faz por onde”, “segue seus sonhos”, um dia, você chega lá. Se você traça um objetivo (i.e.: ganhar um milhão de reais), planeja, executa, controla, tudo nos conformes, é certo de que você, um dia, vai conseguir – afinal, o mundo está cheio de oportunidades para todos. É o tal American Dream de que tanto falam no cinema.

Pior cego não é aquele que não quer ver. É o que enfia as mãos nos próprios olhos, e agora que está cego, devido a sua própria estupidez, quer cegar os outros com falácias desse tipo. Uma pessoa que acredita de verdade que a oportunidade está disponível para todos, e que contando histórias de pessoas que ganharam um milhão de reais, vai estar de alguma forma, contribuindo para que mais pessoas atinjam seus objetivos, não pode estar mais desconectado da realidade em que vivemos. O mundo não é justo, não é baseado em recompensa por mérito e as pessoas que ganham um milhão de reais não são superiores à todas as outras que tentaram e não conseguiram.

O que tentam nos vender é que você precisa estudar, precisa trabalhar mais horas, precisa ter paixão naquilo que faz, fazer MBA, pHD e o escambal – perseguir o seu sonho até atingí-lo. Persista, você vai conseguir. Se você acredita nisso, então acredita também em destino – ou, por falta de termo melhor, bullshit. Acredita também que sua personalidade está toda escrita em seus genes e que o ambiente em que vive tem e os eventos dos quais participa tem pouquíssima influência no seu caráter. Se você lê os artigos dessas revistas “sérias” e fica todo empolgado a tentar virar milionário, então você acredita também que é só seguir o caminho trilhado (e também as “dicas”) que seu futuro está garantido.

Vamos imaginar uma dessas histórias, qualquer uma. Quando o fulano era moleque, os sinais começaram a aparecer: era esperto, começou a ganhar uma graninha com 12 anos, dando aula de inglês pros amiguinhos da escola. Aos 17 já tinha montado um curso na garagem de casa e aos 19 conseguiu comprar um carro com o que economizou. Não é o perfil do empreendedor? Esse ai vai ganhar um milhão antes dos 35, mole mole. Quantos meninos “espertos” cresceram para se tornar barrigudos alcóolatras? Milhões. E quantos viraram diretores de empresa? Alguns.

A ciência já provou que nossos genes não são instruções irrevogáveis na construção de nossos corpos e personalidades. Nosso ambiente, nossa família, classe social, cultura, etnia, grupo de amigos, sequência de eventos aleatórios (sorte?), tudo isso misturado, faz de nós o que somos. Nada disso separado explica quem você é hoje. Da mesma forma, você pode ser um businessman nato, de primeira linha, um cara safo, que logo cedo se virou sozinho, mas nada disso, nem somado a artigos lidos em revistas com jovens loiras milionárias na capa, vai te garantir o primeiro milhão – ou até, qualquer milhão.

Em todas essas histórias de êxito profissional, do criador do Facebook, ao Ronaldinho Gaúcho, as pessoas geralmente se esquecem de incluir um detalhe sem importância: a sorte. Por sorte, quero dizer, acaso. Pois as pessoas, especialmente aquelas que acreditam em destino (sic), elevam o conceito de sorte a algum tipo de determinismo, o que é, na falta de termo mais elegante, simplesmente estúpido. Sorte é a aleatoriedade das relações do ser humano com o universo em ação. Antes de existir vida humana, não exista sorte, pois tudo era aleatório e nenhum evento era classificado como sorte ou azar, melhor ou pior. A soma dos resultados de todos esses eventos é o que possibilitou você estar aqui, hoje, lendo esse post no meu blog.

“No snowflake ever falls in the wrong place” (ditado Zen)

Em todas (ou quase todas) essas histórias, existe um elemento de sorte, que pode parecer ínfimo, até insignificante, mas que sem ele, o desfecho podia ser cento-e-oitenta-graus diferente. As vezes você esbarra com alguém no hall do elevador, a pessoa se lembra de você e te liga – pronto, uma oportunidade de negócio surge, nascem uma dúzia de milionários. Um olheiro do time de futebol da cidade mais próxima está de passagem por um fim-de-mundo qualquer, quando seu pneu fura e ele acaba indo ver os meninos jogando no campo próximo – descobre-se o novo gênio da bola. E isso estou falando em termos daqueles que viram sucessos internacionais, capas de revista, mas você pode observar isso aí do seu lado, seu gerente, seu diretor. Pare e reflita sobre isso. Você acha que todos os gerentes e diretores estão em seus cargos por mérito? São os melhores funcionários possíveis dentro da companhia a ocupar suas posições? A resposta é evidente e uníssona: óbvio que não. Eles chegaram lá por um conjunto de fatores e eventos, os quais alguns são de seu controle (e mérito) e outros pura e simplesmente, não são (sorte).

O que isso tudo significa? Que devemos todos abandonar nossos sonhos pois sem sorte não adianta de nada se esforçar? Pelo contrário. Um evento aleatório só se transforma em fortuito se você está no lugar certo, na hora certa e disposto a arriscar e fazer acontecer. Para isso você tem que se fazer presente, trabalhar e estar preparado. Ter a coragem de mergulhar de cabeça quando a oportunidade se apresentar. Sempre ter em mente, porém, que a chance pode simplesmente nunca acontecer e que é possível (e até provável) que você rale a vida toda sem nunca “chegar lá” mesmo tendo plena fé de que você merecia. Como eu já disse, mérito tem apenas um pouco a ver com a coisa toda.

E, por favor, não leia revistas que colocam jovens empreendedores na capa, pois nenhum deles vai te ajudar a ganhar um milhão de reais. Eu duvido que qualquer um deles o tenha feito lendo um artigo e fazendo o que o outro fez e seguindo as ignóbeis “dicas”. Nossas vidas são únicas e cada pessoa tem uma história completamente distinta – não se pode colocar padrões e regras no caminho do êxito, pois isso depende de um conjunto de um número incalculável de variáveis, que os próprios ganhadores de milhão desconhecem – mesmo que finjam conhecer, e tentar te provar isso com capas de revista.