A desigualdade de que ninguém fala

desigualdade econômica

Estamos sempre ouvindo falar sobre desigualdade social, e esse conceito já faz meio que parte da nossa psique, do inconsciente coletivo do brasileiro, digamos assim – até por que, somos um dos países mais desiguais do planeta. Todo mundo sente na pele o resultado dessa desigulade mesmo sem saber exatamente dar um nome a isso, ou saber as suas principais causas. Mas algo me diz que, mesmo entre os “entendidos”, esse conceito tão amplamente debatido e trazido à tona quando falamos de políticas públicas, não está contando a história inteira. E existe um motivo pra isso.

Vou fazer uma pergunta e quero que você pause e responda com a primeira coisa que vier na sua cabeça: o que você entende por desigualdade econômica? Naturalmente a desigualdade econômica é o que se percebe em qualquer sociedade, a divisão entre os muito ricos, os ricos, a classe média, os pobres e muito pobres. Até uma criança de 8 anos entende isso. Mas uma criança de 8 anos de idade ainda não sabe como se consegue dinheiro e por que algumas pessoas são mais ricas do que outras.

A medida que essa criança vai entendendo melhor o mundo, logo ela é apresentada ao conceito de salário. Primeiro ela deve ver na TV que o Neymar ganha, sei lá, um milhão de Euros por mês. Porra, isso é muito dinheiro. Por isso ele é tão rico. Mas ele não era rico antes. É de origem humilde, seu pai ganhava uma merreca, e agora com um salário desse, vive como rei. Ou seja, desigualdade econômica é basicamente desigualdade de renda. É uma indução totalmente lógica e não está errada. Mas não é a história toda.

A faxineira não deve ganhar lá muito bem, pensa a criança. Mas meu pai certamente ganha muito mais que ela, afinal tem esse apartamento, paga a minha escola, minha comida e meus brinquedos, e ainda sobra pra pagar a ela. É assim que as coisas são. Uns ganham mais que outros e ponto final. Ponto final? Antes fosse.

Essa percepção, a de que desigualdade econômica é basicamente a desiguladade de renda, é tão amplamente reconhecida, e dada como correta, que praticamente não é discutida. Raramente se vê qualquer discussão de desiguladade social que vá além da renda. Mas essa noção está bastante incompleta, e equivocada.

Antes de eu prosseguir, gostaria de deixar claro que a desigualdade em si não é necessariamente prejudicial. Vivemos num mundo extremamente complexo com pessoas em todas as categorias de necessidades e potencialidades, e garantir que todas essas pessoas tenham exatamente (até o último centavo) a mesma posição social e mesma renda, é simplesmente inviável, utópico. A desigualdade, poderia se dizer, é até necessária para que haja progresso. As pessoas estão constantemente tentando melhorar de vida, para isso se especializam, empreendem e a maré leva todos para cima juntos. Pode parecer estranho eu estar falando isso nesse blog, que é obviamente de esquerda, mas não é. É uma visão meramente racional e fria das coisas como elas são. Não adianta fingir que há um mundo possível cor-de-rosa nos aguardando, quando sabemos que o ser humano está bem longe desse nível de evolução – estamos destruindo nosso próprio planeta, seria meio ridículo pensar em um mundo plenamente equalitário. Muita merda pra resolver antes.

O que ocorre – e todos podem facilmente perceber isso – é que a desiguldade social vem atingindo níveis alarmantes mundo afora. A globalização só piorou tudo. Desigualdade extrema é sinônimo de uma sociedade em falência. Um relatório recente, aponta que os 1% mais ricos, possuem a mesma riqueza dos outros 99% somados. Isso é absolutamente surreal e precisa ser endereçado, pois é algo que já está fora de controle e a tendência é piorar. Daqui a uns anos será 0,1% igual a 99,9%. A pirâmide vai ficando com uma base mais larga, ou seja, temos mais pessoas extremamente pobres, e a classe média (a principal força produtiva), vai ficando espremida no meio e também sendo depredada e pressionada.

E o que causa isso? É o salário desses top 1%? É óbvio que não. Essas pessoas, em sua enorme maioria, sequer ganham salário, talvez nunca tenham recebido um único vencimento em toda a vida. E mesmo assim, veem suas fortunas crescendo. Como pode?

Simples: desigualdade de capital. E essa é infinitamente mais complexa que a desiguladade de renda. Pra começar, o capital, especialmente hoje em dia, é algo cada vez mais difícil de definir e controlar. Renda é renda, não tem papo. É quanto você recebe no fim do mês pelo seu trabalho – seja de um empregador, seja dos seus clientes se você for autônomo. Mas e o capital? Essa palavra que toda vez que aparece, já remete a Marx. Pois é, ele sabia das coisas quando identificou que o buraco era mais embaixo. Incluem-se aí: bens imóveis (casas, apartamentos, terrenos), investimentos, ações, participações em empresas, contas no exterior, etc, etc. A galera do top 1% retira todo seu dinheiro do fato de que tem muito dinheiro, e dinheiro faz dinheiro, sozinho, sem demandar força produtiva ou retornar algum produto ou serviço. Ahn? Como assim?

Não precisa ir longe, lá pros top1%. Eu mesmo, tendo trabalhado mais de 10 anos na mesma empresa, possuindo apartamento próprio, casado com uma mulher que também tem um salário legal, já consegui juntar uma grana boa em investimentos. Não vou dizer quanto, é irrelevante. O fato é que, esse dinheiro cresce sozinho. E o rendimento, assim como os juros, é cumulativo. Ou seja, esse meu dinheiro, parado lá, cresce, como massa de bolo, sem que eu mova uma palha pra isso. No máximo gasto algumas horas por mês pra acompanhar o rendimento e ver se posso, com alguns clicks, fazer algo pra obter resultados melhores.

Digamos que alguém tenha R$ 500.000 num investimento, seja por que juntou isso durante 20 anos trabalhando, seja por que herdou da tia que morreu. Esse dinheiro, num investimento merda, rende 1% ao mês. Ou seja, hoje é 500, mês que vem é 505 e no outro é 510,05. Cinco mil reais, limpinhos, zero esforço. Isso é muito mais que a renda da grande maioria do planeta, que rala horrores pra ganhar uma merreca no fim do mês. Qual é o capital dessa grande maioria mais pobre? Zero. Capital zero não rende nada. Na verdade, a maioria dessas pessoas possui capital negativo, pois estão constantemente adquirindo dívidas e tomando crédito. Você não junta capital se o salário nem chega ao fim do mês.

Grande novidade hein, Christian? Todo mundo sabe disso. Sabe? Então por que não cobramos dos nossos governantes que mudem isso? Por que não vamos às ruas pedir a Taxação Progressiva de grandes fortunas? Sabemos que os maiores sonegadores do Imposto de Renda são exatamente aqueles que fazem todo tipo de manobra pra esconder sua renda, e seu capital, colocando tudo no nome dos filhos e usando contas no exterior. Quem paga a conta, é quem menos tem. E por que?

Bom, é simples, e também óbvio – lá vem o Christian de novo com o óbvio – poder econômico = poder político. Em todo lugar, desde sempre. Dinheiro compra tudo; compra políticos, compra legislação, compra isenções bilionárias, e basicamente, mantém o status quo. A própria herança não é debatida, é vista como direito inalienável, quase divino. Eu mesmo fui super beneficiado por heranças mas discordo totalmente que não devam ser mais taxadas (progressivamente, lógico).

Não adianta querer combater a desiguldade social com todo tipo de programa pra melhorar a renda do trabalhador, quando ele nunca vai ter as mesmas oportunidades de alguém que já nasce com um capital inicial garantido. O capital permite a pessoa a empreender, investir, se especializar – com pouco ou nenhum risco, sem precisar tomar crédito e pagar juros exorbitantes. E o capital, como eu já mencionei, cresce sozinho (alugéis, investimentos, ações), sem dar qualquer retorno à sociedade, sem a taxação devida, criando ainda mais desigualdade de oportunidades.

Boa parte dos 1% mais ricos, são mais ricos por que já nasceram dessa forma, nunca trabalharam e nem vão trabalhar na vida, e mesmo sem mover um cílio verão suas fortunas crescerem enquanto tomam champagne na beira da piscina. Tudo por causa de um sistema que foi desenhado e manipulado para beneficiá-los: regras de herança, diversificação de capital, ausência de regulação e taxação específicas, etc. Ou muda isso, ou pode vir o Bolsa Família Delux-Plus 200 que pouca coisa vai mudar – pode melhorar, claro, especialmente pra base da pirâmide, mas a tendência mundial permanecerá a de colapso. E não tem absolutamente nada a ver com “não dar o peixe”.

Sobre o sequestro da crítica ao sistema

puppet-masterNesse último fim de semana o Rio de Janeiro foi palco para um evento de economia colaborativa, apelidada de forma espertinha de “Wik1nomia”, chamado Reboot. O slogan do evento dizia “novas soluções para uma sociedade mais humana, criativa e colaborativa”. Muito legal, né? Fui logo atraído, assim como alguns amigos meus e inclusive encontrei alguns por lá, num ambiente super moderninho e agradável.

Antes de começar essa minha análise, preciso confessar algo: sou um chato. Ranzina, crítico na maioria das vezes além da medida do saudável, até para mim mesmo. Mas após fazer essa pequena análise do significado de um simples evento, peço que vistam meus sapatos e me
digam se estou exagerando, ou realmente tenho motivo para ficar desanimado.

Como sou chato (isso já está estabelecido, mas não custa reforçar) procurei saber o mínimo possível antes de ir ao festival para não ir para lá cheio de preconceitos e nariz torto. Mas logo na porta alguma coisa me cheirou mal. O negócio estava alto-nível demais, um tanto “chique” como eu gosto de dizer – ou seja, rolou uma grana ali, e geralmente, onde tem grana tem interesses. Continuemos.

Os primeiros dez minutor foram inexpressivos com um tal “circuito” onde você vai vendado até uma sala onde passa uns vídeos – que pra mim não era nada demais, já tinha visto todos. Enfim, vamos conhecer o resto. Em uma sala, que parecia ser a principal, haviam alguns projetos artísticos, DJ e umas comidinhas honestas (orgânicos, independentes, cerveja artesanal, etc). Nessa mesma sala haviam mesas onde era possível preencher alguns formulários em que você colocava sua vida e seus projetos em perspectiva e podia também cadastrar ideias para concorrer a um prêmio de R$ 10 mil. Continuemos.

Na hora que chegamos não havia nenhuma palestra interessante agendada. Fomos conhecer o resto e aí que fica interessante. Havia uma sala onde eram exibidos, em forma de cartazes dentro de caixas, vários projetos e instituições que estimulavam o empreendedorismo, como encubadoras, financiadora de “projetos sociais” (o que quer que seja a deinição deles), etc. E lá no meio eu encontro: Easy Taxi e Bike Rio. Peralá. Pausa para reflexão. Easy Taxi? Num evento de economia colaborativa? Bike Rio? Sério? Quem será que patrocina esse evento? Pega aí o folheto. Aaaah, tá explicado: o Itaú.

Estou sendo chato? (Estou claro, enfim…) Easy Taxi configura, de alguma forma, uma iniciativa colaborativa? Pra mim é apenas um negócio. Um negócio legal, que facilita a vida das pessoas, mas um negócio de qualquer forma – que visa o lucro, e não mudar o mundo. E o Bike Rio? Ótimo também, mas alguém aqui é ingênuo de pensar que quem mais lucra com esse projeto é o próprio Itaú, com mini-outdoors sobre rodas perambulando por toda a cidade?

E aí eu dei uma passada de novo por todos os cartazes e notei que praticamente metade tinha a ver com encubadoras, capital para start-ups e muito mais a ver com “facilitamos e apoiamos o seu negócio” do que uma crítica ao mercado em si ou até de uma forma nova de produzir e consumir, que fuja do conceito de “negócio”. Afinal, se estamos falando de economia colaborativa, acho que uma premissa de que não se pode escapar é a de mudança de paradigma do modelo atual. E um banco certamente não faz parte de nada que seja colaborativo. É o completo oposto. Me senti ali numa propaganda de televisão onde vendem aquela ideia estapafúrdia de o banco está ali pra ajudar você a ter uma vida melhor, sem preocupações.

E essa premissa foi certamente burlada logo de cara. Que indpendência tem a curadoria de um evento como esse quando é um banco que tá pagando? Os palestrantes podem falar mal do capitalismo? Falar mal dos bancos? Do Itaú? Nem pensar! Um pouco limitante, não acham?

Isso quer dizer que o evento foi inútil, que as palestras (confesso que vi apenas uma) foram vazias e sem impacto? De forma alguma. Espero que muitas pessoas ali, que foram ao evento por estarem interessadas em formas diferentes de ver o mundo, tenham se inspirado – especialmente se não foram afetadas pelo filtro crítico dos patrocínios. Mas me preocupa muito o sequestro dessas iniciativas por grandes empresas, que parecem já estar de olho em tudo que rola e querem um pedacinho do bolo. Se a crítica ao status-quo não vier de baixo e permanecer embaixo, de nada adianta, pois é subvertida a transformada em negócio.

O poder midiático desses big players é enorme; vejam o que aconteceu com a sustentabilidade, que já foi totalmente transformada em business e faz as pessoas acreditarem que comprando orgânicos e reciclando lixo estão fazendo sua parte para salvar o planeta – não estão! Isso não é suficiente, nem de longe, muito de longe; mas certamente é o que as empresas querem te fazer acreditar que é. Compre os produtos certos e você está do lado certo da história. Faça o que quiser mas não pare de consumir. E agora algo parecido começa a acontecer com as reflexões sobre paradigmas econômicos? Medo.

E aí, sou apenas chato? (Sou, mas enfim, você entendeu – ou não.)

Nem esquerda, nem direita

Deixa eu começar com uma pequena pergunta. Pense nela por algum momento e depois continuamos. Você aprendeu alguma coisa sobre esquerda e direita (no contexto político da coisa) na escola? E na faculdade? Bom, a segunda pergunta já admito boa variação de resposta caso você tenha feito alguma carreira de humanas, mas fora isso, duvido muito. A primeira, quase certo de que a resposta é “não”. E no entanto, esses dois conceito são super importantes para entendermos o cenário político do nosso país e também do mundo. A mídia usa esses termos com a mesmo desprendimento como fala da chuva ou do próximo show de rock.

Lembro bem como foi que eu vim a saber do que se tratavam esse polos opostos da opinião política. Veja se parece com o seu. (naturalmente levando em consideração que você sabe do que eu estou falando – se não sabe, eu vou dar uma palhinha, mas aconselho um pouco de estudo aprofundado). Eu era adolescente quando um súbito interesse por política surgiu, mas na verdade não era bem a política em si, era mais a animação de estar participando das eleições e apoiar um partido, empunhar bandeira e gritar em público. Era a época do Collor versus Lula e eu adorava o Lula, e passei a adorar o PT também. Sinceramente, não faço a menor ideia de como e por quê.

Nessa época, direita e esquerda, ali muito bem representadas nesse embate bastante emblemático da história política brasileira, ainda não importavam muito pra mim. Eu ouvia falar aqui e ali, não sabia muito bem o que era, mas sabia que, de alguma forma, eu era esquerda. E eu gostava de ser esquerda. Por que esquerda parece “estranho”, esquerda é o canhoto, o diferente. Direita parece com “direito” ou reto, o comum, o “de sempre”. Esquerda tem gosto de rebeldia. Eu gostava disso, afinal, era adolescente. Mas a verdade é que eu não sabia porra nenhuma de direita e esquerda, e não sabia porra nenhuma de política também – e mesmo assim tava lá apoiando o Lula com outros tantos milhões de brasileiros, muitos que, juntos comigo, não entendiam porra nenhuma de nada também.

Mas aí isso tudo passou, o Collor foi eleito, depois foi derrubado, eu fui lá de cara pintada pedir pelo impeachment dele. Direita e esquerda? Pra mim ainda meras direções opostas; mão do relógio e a outra mão. Mas nesse momento eu já começava a formar na minha cabeça alguma coisa mais próxima do que são esses conceitos na política, sem nunca ter parado realmente pra estudar o assunto, ou perguntar pra alguém – um professor, minha mãe, uma tia, sei lá – por que tinha vergonha de não saber algo de que falavam tanto. Lembro que de cara, fiz associação de esquerda com anarquia, socialismo e comunismo; direita eu associei com conservadorismo e religião. Até que eu não tava tão errado. Mas numa coisa eu estava bastante errado: durante um tempo eu achei que esquerda era sinônimo de oposição, e direita era quem estava no poder – e que eles ficavam se alternando.

Mas eu não estou aqui apenas pra contar estorinha de como eu aprendi essa ou aquela coisa. Quero falar mesmo de como conceitos como esse mais atrapalham do que ajudam as pessoas a entender as coisas que realmente importam para nós no cenário político.

Então agora, vou dar aquela palhinha que mencionei no início, pra quem – como eu, ainda não estudou ou perguntou pra ninguém – não tem certeza de uma definição para esses pólos de opinião política.

De modo geral, podemos entender a esquerda como: populista, defensora dos direitos pessoais, causas sociais, e do “bem comum”. A direita como: conservadora, libertária, defensora dos direitos econômicos, do capital, da propriedade privada etc. A esquerda defende um estado forte e controlador, a direita um estado mínimo com maior liberdade ao mercado. A esquerda é comumente associada com: anarquia, socialismo, comunismo, instituições públicas, não-conformismo. A direita com: neoliberalismo, religiões, corporações, conformismo, fascismo, etc.

Claro que, para um tema tão extenso e complicado como esse, o parágrafo acima pode soar como blasfêmia para alguns esquerdistas e direitistas, por ser simplista demais ou por eu estar fazendo uma associação que não é totalmente verdadeira e que precisa ser melhor entendida historicamente e bla bla bla. Mas eu não estou inventando nada disso. E sim, é matéria de debate. Só coloquei para termos um ponto de partida no que desejo questionar.

Essa divisão de “direções políticas” surgiu na época da Revolução Francesa, há mais de 200 anos, e ainda hoje é tópico para debate e causadora de muita confusão. E para mim, o grande problema está no fato das pessoas se identificarem com essas definições arbitrárias e ao fazer isso, passar a culpar o outro lado por todos os problemas do mundo.

Eu não voto, mas isso não faz de mim um ser apolítico, muito pelo contrário. Se tivesse uma arma na minha cabeça e eu precisasse escolher, eu diria que minha gangorra cai com mais frequência pro lado esquerdo. Mas fora essa condição de vida ou morte, prefiro dizer que não sou nada. Nem esquerda, nem direita, e nem centro (o tal do “moderado”, como se as outras opções fossem “exaltadas”).

Para uma pessoa totalmente desavisada, que lê meu parágrafo da “palhinha”, talvez a esquerda seja uma escolha legal, por estar mais próxima do social, e poxa, tem nazismo ali com a direita. Não vou me associar com isso, né? Mas a verdade é que apesar de historicamente haver essas associações (de esquerda com socialismo, e direita com nazismo), a relação não é de causalidade e sim de correlação, de pessoas que pensam parecido. Ou sejam “mentes direitas” e “mentes esquerdas” envolvidas ali, e não “a esquerda pariu o socialismo” ou “a culpa do nazismo é o pensamento conservador de direita”.

O que ocorre hoje é que a direita é demonizada toda vez que aparece associada com militares, religião e partidos conservadores. E ao mesmo tempo é adorada por alguns por seu aparente progresso sensacional em modelos econômicos. Enquanto a esquerda fica parecendo aquela velha chata que só reclama, e que com a queda da União Soviética, falhou ao mostrar ao mundo que seu modelo econômico poderia funcionar.

Em quase todas as discussões políticas que participo essas coisas vem a tona: o neoliberalismo, o Estado, o livre-mercado, os impostos, o socialismo, Cuba, e o cacete a quatro. As pessoas não conseguem olhar pra frente e tem uma dificuldade enorme de reconhecer qualidades no lado oposto. Tudo é culpa da esquerda ou tudo é culpa da direita. Quando você fica preso numa dicotomia como essa, é muito difícil sair da “caixinha” que é a ideologia para olhar de fora, e ver que é tudo uma coisa só, e que cada caso é um caso. Que há pontos positivos e negativos em qualquer “plano” que se apresente. E geralmente esses pontos negativos residem no fato de que ambas correntes políticas possuem um conhecimento muito pobre da mente humana (repare que não usei o termo “natureza humana”, pois pra mim isso não existe) e do nosso comportamento em sociedade – os incentivos que nos movem e nossas falsas concepções sobre esses incentivos. A história prova isso, mas somos burros e não aprendemos com nossos próprios erros.

E pra finalizar, nada contra quem se auto-declara de esquerda ou direita (ou centro) e defende as ideias de um determinado grupo ou assunto. Eu só penso que enquanto estivemos dessa forma debatendo de maneira tão polarizada, como se só existisse duas formas de enxergar as coisas (Estado grande x Estado pequeno, regulação x liberalismo econômico), não chegaremos a lugar nenhum, pois a minha visão sobre a maioria dos temas tratados por essas pessoas, não se encaixa na esquerda na direita – as vezes é até uma amálgama dos dois – pois oferece um paradigma que sugere mudanças radicais em quase todos os pilares de cada um desses pólos, e também não é centro – por que de “moderado” não tem nada, na verdade é até bastante radical.

Do adolescente que há uns vinte anos se enamorou pela esquerda até hoje, posso dizer que realmente a direita nunca me apeteceu de forma alguma, mas eu compreendo perfeitamente como alguns amigos e familiares, especialmente devido ao contexto que estão inseridas, podem achar as ideias válidas e defendê-las. Mas hoje eu não consigo mais me encaixar dessa forma, e não tanto por discordar daquilo que a direita defende e mais pelo simples fato de que essa polarização gera mais dificuldade de entendimento e discórdia do que uma elevação e possibilidade de quebra de paradigmas (que é o que realmente precisamos).

Vale a pena Protestar pelo quê ?

Com o levantar desta onda de protestos que vem acontecendo atualmente no Brasil, foi possível ver a enorme diversidade de problemas que nos afeta.
Os cidadãos não eram uma multidão sem causa, de fato existiam causas até demais.

Foram diversas marchas pela revogação do aumento de 20 centavos, e o atender dessa exigência foi uma grande vitória. Foi possível ver que pressão popular funciona, representação direta tem seu valor.

Os objetivos do Movimento Passe Livre devem continuar seguindo seu cronograma, porém é inevitável perguntarmos: Pelo quê vale a pena protestar?
Por tudo, claro. Porém, em função da pluralidade, é preciso escolhermos prioridades, para não ficarmos como um Cachorro quando se jogam bolas demais para ele pegar. Ele não sabe pra onde correr primeiro.

Fora isso, precisamos parar pra pensar se o que vemos como problema, é realmente um problema, ou se é um reflexo de outro problema maior. E se sim, não vale a pena então lutarmos pra resolver esse problema maior?

Então, vamos refletir um pouco, nos aprofundar e ver até onde podemos ir!
E assim, ao escolhermos por qual problema lutar, quais soluções temos como alternativa? Podemos criar uma nova?

Protestar3

Nota: Algumas explicações aqui foram consideravelmente simplificadas, porém com o maior esforço possível para que fosse mantida a essência da idéia.
Para quem quer aprofundar-se, alguns materiais de referência:

– (Livro) The Spirit Level: Why Equality is Better for Everyone – Richard Wilkinson
– (Livro) Violence: Reflections on a National Epidemic – James Gilligan
– (Artigo) Whitehall Study II
– (Video) Money as Debt
– (Video) Zeitgeist – Addendum
– (Video) Crises do Capitalismo – Sérgio Lessa

A propina da boa ação

À medida que o final do ano vem se aproximando, é possível sentir de longe o espírito da caridade e fraternidade florescendo nas pessoas. Milhares já preparam-se para fazer doações direcionadas a todo tipo de instituição, colocando em dia as boas-ações do ano e expiando qualquer tipo de culpa que possa ter surgido nos últimos tempos.

E é isso aí. Basta uma ligação de telefone, um número a mais na fatura do cartão, uma nota a menos do bolso, e tudo resolvido.
Nunca foi tão fácil ser uma boa pessoa.
“Fiz minha parte” (Ah, como adoramos essa frase) e agora posso voltar à minha vida normal. O mundo seria melhor se todos fizessem sua parte. (Como eu, implícito.)

Bom, ao contrário do que parece, não estou aqui para criticar Caridade, até porque, não sou contra.
“O que? Mas você não percebe que ao praticar caridade, você cria uma relação de dependência que mantém os indivíduos naquela mesma situação? Estará criando pessoas mal-acostumadas!” – Muitos dirão. E concordo com cada palavra. Porém, é válido dizer também que nesse caso, a posição contrária não gera o resultado contrário! Colocar a pessoa em uma situação de necessidade ainda maior, não vai inspirá-la a por exemplo ir procurar um trabalho. Essa tinha sido a primeira opção ANTES de começar a depender de caridade. O que talvez aconteça, será o aumento do desespero e possívelmente o uso de instrumentos como a violência.

Mas note o seguinte: Tanto a atitude de ajudar quanto a de não ajudar, por elas mesmas não melhoram a situação do indivíduo. Nesse caso, eu PARTICULARMENTE prefiro tentar satisfazer algumas necessidades imediatas.
Então qual o problema de ficar doando dinheiro pra zilhões de instituições no final do ano?

Não importa se você é a Sirleide que doou 10 reais pro criança-esperança, ou se você é um jogador de futebol que doou milhões ao centro de esportivo da favela, o grande problema é aquela falsa sensação de alívio e missão cumprida depois do gesto. O famoso “Fiz minha parte, posso voltar pra minha vida” como já disse acima.
Sinto muito lhes informar, mas geralmente o problema é as nossas vidas.

Não adianta você fazer doações para uma instituição de reflorestamento, se você anda com uma pickup que mais parece um caminhão de tanto que consome e polui. (Detalhe: Pra andar você sozinho nela)

Não adianta você fazer doações para instituições que protegem o futuro de nossas crianças, se você continua babando naquela moda fashion feita por pessoas sub-empregadas recebendo uma miséria.

Não adianta comprar a camiseta do dia da àgua, mas dar um churrasco no mesmo dia sendo que pecuária é uma das maiores fontes de consumo de àgua potável.

Não adianta doar pra instiuições contra o câncer, mas comprar os produtos de petroquímicas monstruosas.

Tem certeza que sabe o que está fazendo? Porque dá a impressão que está simplesmente tentando pagar pra não mudar de postura e hábitos.
É como se nossas ações fossem 30Kg jogados nas costas de alguém, e a caridade fosse como amarrar alguns balõezinhos de festa pra “aliviar o peso”.
Pode até ser que alivie em alguma coisa, mas o ideal seria pararmos de jogar o peso nas costas dos outros. Claro, se o seu objetivo for ser mais civilizado e mais empático.

Então, se você tem algum objetivo em ser uma pessoa melhor mas estava fazendo tudo isso, sinto muito por cortar seu barato, mas não tem jeito. Não tem como você comprar sua saída desse problema, e não tem pra quem pagar pra assumir essa responsabilidade por você. A melhor coisa que você pode fazer pra ajudar as pessoas que diz estar querendo ajudar, é informar-se sobre o impacto que nossas atitudes tem. Em especial, nossos hábitos de consumo.

Eu costumo seguir um pensamento simples: Dinheiro é incentivo. TUDO pelo que pagamos, estamos incentivando a aparecer MAIS daquilo.
Tendo isso em mente, faço quatro perguntas:
– Necessidade – O mundo precisa de mais produtos iguais a esse?
– Qualidade – Eu concordo com o preço e qualidade desse produto/serviço?
– Impacto Social – Eu concordo com o impacto que a produção desse produto tem na sociedade? Os empregos são justos e os funcionários são bem pagos e felizes?
– Impacto Ambiental – Eu concordo com o impacto ambiental da produção desse produto/serviço?

E se algum desses quesitos não for atendido, faço o máximo possível pra não consumir esse produto/serviço.
Dessa maneira, fica mais difícil você se posicionar por engano em algum desses tópicos.
Fica mais fácil de ver que consumirmos 10 milhões de “iPads Sustentáveis” é tão ruim ou até pior que consumirmos 1 milhão de “iPads Não-Sustentáveis”. E fica evidente que consumir menos é mais importante que consumir mais das coisas “certas”.
Não que você não deva ter seu iPad. Mas tenha em mente que quando comprá-lo, estará dizendo: “Eu concordo com toda a poluição gerada na produção, e concordo que tem pessoas que merecem trabalhar 16 horas por dia recebendo $2 Dólares. Eu ter MEU gadget é mais importante que tudo isso.”

Concordando comigo ou não, pensar de maneira clara assim evita desgaste e hipocrisia. Se você sabe o que está fazendo e não se importa, e se posicionou com clareza que tudo que deseja vem em primeiro lugar, não tem porque pessoas como eu ficarem enxendo sua paciência, e essas conversas terminam mais rápido.

Em conclusão: Caridade é irrisória perto das consequências de nossas ações cotidianas quando olhadas a longo prazo. Isso nos leva a dois pensamentos não muito animadores para alguns.

O primeiro é ter de admitir que não importa o quanto você vai vir a ganhar, se você possui os mesmos desejos de consumo predominantes na atualidade, não há caridade que vá apagar o impacto dos seus hábitos.

E o segundo é admitir que aquele “Ecochato” que anda de bicicleta, pega ônibus e não tem o menor tesão em comprar um iPhone5, está fazendo mais pelo mundo do que aquele cara que doa 700 reais todo mês pra instituições de caridade, mas manda de 4×4 e mora em condomínio fechado.

Enquanto alguns tentam mudar de postura pra tentar mudar o mundo, e outros tentam pagar o mundo pra não ter que mudar de postura…