Não existe racismo no Brasil

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E também não existe machismo, desigualdade social, desigualdade de gênero, homofobia e corrupção. Opa, peralá. Esse último aí existe sim! Aquele outro partido lá só faz roubar. Olha pras notícias. Cada dia é uma novidade. Mas é tudo “aquele outro partido lá”. O meu não. O meu é corretíssimo.

São impressionantes as tortuosas trilhas cognitivas que as pessoas percorrem para justificar suas visões deturpadas do mundo. Como ter a cara-de-pau de dizer que o Brasil (e vamos combinar, o mundo) não é racista ou homofóbico? Como olhar para os dados, os números, os fatos – e dizer que, não, que o mundo é justo com negros e gays? Que eles tem exatamente as mesmas oportunidades e exatamente o mesmo tratamento que brancos e heteros?

Quando a maioria de nós olha para coisa de 150 anos no passado, ficamos bestas ao imaginar um mundo onde pessoas de todas as classes sociais – e intelectuais – não apenas aceitavam, mas defendiam a escravidão como algo totalmente aceitável e até necessária para uma sociedade civilizada. O choque ético causado pela questão da escravidão foi tão grande, que chegou a gerar uma guerra civil nos Estados Unidos, rachando o país no meio, com o Sul (e quando você pensa no “Sul”, tem que imaginar milhões de pessoas, incluindo intelectuais, políticos, jornalistas, sociólogos, etc) defendendo que a escravidão era necessária para seu meio de vida, sua cultura, e é óbvio, para sua estabilidade econômica. O Norte venceu, naturalmente, e a escravidão foi abolida em todo o território americano. Mas isso quer dizer que a imaturidade moral que permitiu a escravidão foi extinta? De forma alguma. Os EUA são extremamente racistas, assim como nós. E lá também existe esse discurso vagabundo de que racismo “não existe”, está apenas “na cabeça das pessoas”.

Para uma pessoa, hoje em dia, considerar que racismo é uma “coisa do passado” ou “frescura”, ela precisa de um exercício interessante de distorção lógica, onde fatos e números são simplesmente ignorados, para que uma relação causal maluca se confirme em sua cabeça. Não há mais uma quantidade expressiva (aliás, nem mesmo ínfima) de intelectuais que defendam segregação. Mas isso não importa. As pessoas conseguem achar validação de seus preconceitos e nanismo ético por aí. Com as redes sociais, isso ficou ainda mais fácil.

É bom lembrar que não estamos falando de questões polêmicas que ainda dividem opiniões no mundo como legalização das drogas e aborto. Essas coisas ainda não são regra, alguns poucos países avançaram enquanto na maior parte dos outros a realidade ainda é bastante dura. Mas no caso da igualdade racial, pelo menos perante a lei, já ultrapassamos a “polêmica”. Não há sequer uma país desenvolvido no planeta, onde ainda existam leis que dêem privilégios a uma raça (i.e. cor) sobre outra.

Já que citei os EUA, vamos continuar a usá-lo como parâmetro (afinal os números por aqui não são muito diferentes). Peguem um simples fato, um dado, que não é discutível: existem, em média, 4x mais presos negros nos EUA do que brancos. Essa fato, isolado, fora de contexto, é preenchido pela sua mente com o contexto que você quer dar a ele, com o mais confortável e acessível pra você. Sua mente vai lhe dar uma explicação causal sem que você saiba – automaticamente. Pra quem acha que o mundo não é racista, a explicação será algo como “negros são inferiores”, “negros tem mais chance de serem pobres”, “negros tem maiores chances de viver em áreas de risco e se tornarem criminosos”, etc, etc. Talvez a pessoa não diga “negros são inferiores” nos seus argumentos, mas no fundo, é o que causalidade automática que a mente dela lhe ofereceu significa. Afinal, não há outra explicação para ter 4x mais negros presos do que brancos na cadeia. Deve haver algo errado com os negros para eles serem presos com tanta frequência.

E nada me vem a cabeça para “explicar” essa causalidade oferecida pela mente do que pessoas que possuem uma sensação de merecimento (ou melhor, entitlement, sobre o qual escrevi um pouco aqui) bem acima da média. São pessoas que acham que o mundo lhes deve algo, são especiais. Fazem parte de um grupo seleto, escolhido, e os outros são… os outros. Não deve ser surpresa alguma que essas mesmas pessoas defendam a famigerada meritocracia – ou em bom português “é pobre por que quer”.

Racismo não existe. Nem machismo. Nem homofobia. Quem mandou nascer negro, mulher ou gay? O mundo é dos homens brancos e heteros. Assim é, assim é que deve ser. Pare de reclamar e vá trabalhar!

A moralística do atraso

Pois bem, finalmente decidi escrever sobre esse assunto da maneira mais imparcial que consigo, afinal um mimimi sobre o tema eu já tenho. Não sei por que só as 37 anos de idade que eu cheguei a essa “conclusão”, mas o fato é que consegui identificar um abismo de entendimento entre as duas partes (os atrasados e os pontuais), especificamente quando o tema é investigado sobre uma ótica moralista. Nenhuma parte entende a outra e a vitimização é constante, o que não facilita o debate e não nos leva a evolução alguma.

Por mais que tente ser o mais imparcial possível, quando tratamos de aspectos morais é praticamente impossível ser um observador suficientemente distante e inerte; então se parecer que estou puxando a sardinha para o lado dos pontuais, bom, faz parte do desafio de dar uma de filósofo da moral utilizando como ferramenta uma mente altamente moralizada.

Antes de mais nada, acho que é interessante tentarmos olhar para o assunto de uma perspectiva totalmente objetiva, para que dessa forma possamos perceber uma coisa bem simples: horários existem para que as coisas funcionem da melhor maneira possível, e todos tiram proveito disso, atrasados e pontuais.

Imaginem um aeroporto: com sua enorme complexidade de processos, sistemas e fluxos de pessoas, funcionando como um organismo, non-stop. Se não houver, nesses processos e sistemas, uma preocupação com controle do tempo que para alguns mais relaxados poderia ser comparada a uma neurose, seria impossível manter os horários dos voos minimamente organizados. Se você levar em consideração que cada aeroporto está conectado à dezenas de outros ao redor do mundo, a complexidade desses sistemas e a preocupação com o horário necessária se torna ainda mais rígida. Mas mesmo assim, atrasos acontecem. Pode ser por causa de mau tempo, algum passageiro atrasou no embarque, ou simplesmente um pequena falha na enorme complexidade dos processos. E vamos combinar: ninguém gosta desses atrasos. Nem pontuais, nem atrasados. Se você atrasou pra sair de casa e pegar seu voo, e deu a “sorte” do voo atrasar em 1h, deu sorte, ótimo. Pontuais também gostam dessa sorte. Mas quando um voo atrasa 6h devido a uma sequencia de problemas que pode ter começado na noite anterior do outro lado do planeta, não é legal. Independente da causa (que raramente chegamos a conhecer), não é legal pra ninguém: nem pros funcionários, nem pros passageiros. O que me leva a uma simples conclusão que acredito que possa ser compartilhada por atrasados e pontuais: ninguém gosta de atraso. Ponto. Podemos concordar com isso? Ok, seguindo em frente.

Portanto, resumindo: de um ponto de vista puramente objetivo, podemos todos (atrasados e pontuais) concordar que atraso é ruim. Por indução lógica, a pontualidade (controles, eficiência de processos, sistemas a prova de falhas, punições para desvios, etc) é geralmente vista como boa e útil – para todos! O que coloquei em parênteses na pontualidade é importante ressaltar também, pois não se iludam, pontualidade não existe magicamente. Requer esforço, auto-avaliações e melhorias contínuas. Quase uma obsessão, da qual todos se beneficiam. Os trens da Europa não operam com precisão de minutos apenas por que os sistemas deles são otimizados, mas por que tudo funciona bem, e todas as pessoas envolvidas tem como o objetivo ser cada vez mais e mais pontuais e precisas. E nem sempre isso é agradável para os envolvidos. Não é exatamente divertido.

Mas (e aqui começa a parte polêmica) quando moralizamos o tema do atraso e da pontualidade, parece não haver um ponto em comum. Não existe mais o “para todos”. E não apenas na forma como a moralização do atraso é vista por cada um dos lados. O que ocorre na maioria dos casos é que um dos lados (os pontuais) ficam com toda a carga moral da questão, enquanto os atrasados tentam ver a questão sempre de forma objetiva, excluindo qualquer conotação ética. E isso é especialmente verdade quando o atraso sendo avaliado é um atraso social – ou seja, de um simples encontro entre pessoas ou grupos (um jantar, uma viagem, uma festa, uma mesa de bar, etc).

A cerca de um ano atrás eu fiz uma pergunta no Quora, indagando sobre o aspecto moral do atraso. Eu já sabia que seria uma pergunta que ia gerar reações diversas e algumas até ultra-defensivas, mas eu nunca imaginava que a polarização seria tanta. O que se pode perceber lá claramente é que os pontuais realmente acreditam que quem atrasa está errado, que não está dando o real valor ao tempo do outro, etc. E os atrasados, praticamente todos, evitaram completamente de avaliar seus comportamentos sob a ótica moral e falaram sobre responsabilidade, produtividade, etc. Não há ponto em comum. Como eu falei, os pontuais moralizam demais a questão, enquanto os atrasados moralizam de menos, quase nada.

O que falta para que seja possível conversar sobre isso objetivamente, sem mimimi, e sem cada um tentar ser a vítima é cada um ser mais honesto sobre a sua personalidade e a consequência de seus atos. Como não há tal coisa, cada lado acha que entende o outro, e por que ele é do jeito que é. Pontuais veem atrasados como pessoas enroladas e insensíveis. Atrasados veem pontuais como pessoas controladoras e chatas.

O fato é que todos sofrem. Pontualidade não é uma “virtude” legal de se ter. As desvantagens são enormes, especialmente se você deu o azar de nascer num lugar que dá pouco valor a isso (ex: Brasil). Está geralmente associada à ansiedade e pessimismo. Atrasados tendem a perceber o comportamento do pontual como facilitado pelos seus hábitos, por exemplo, de dormir e acordar cedo. Quando na verdade é o contrário: o fato de ser pontual é que o condiciona a ter seus comportamentos regrados. Pontuais, especialmente quando chateados com algum atraso, tendem a julgar o ocorrido de um ponto de vista primordialmente moral, “como pode a pessoa dar tão pouco valor ao meu tempo?”, e isso influencia seu julgamento da coisa como um todo, ignorando o fato que sua mente é tão completamente diferente da do atrasado (nesse aspecto específico) como comparar a visão de neoliberais e comunistas sobre a propriedade privada.

Pra piorar, o lado “prejudicado” da história quase sempre são os pontuais, logo eles serão quase sempre também os únicos a falar e reclamar disso. A única vez que li um texto realmente legal e bastante honesto (e engraçado) sobre um atrasado, e do que faz ele ser atrasado foi nesse blog. Se você for um atrasado e concordar com ele, comenta aí e vamos debater.

Mas existe algo além disso. E mais outros “algos” também que me fogem. O comportamento de grupo (herd mentality), a que somos todos sujeitos, de maneiras que nem percebemos, dificulta uma real aproximação maior entre os indivíduos de cada um dos grupos para que essas sutilezas venham à tona. Preferimos nos fazer de vítimas e culpar o outro, buscando validação dos nossos comportamentos no grupo a que pertencemos. Em cada sociedade a proporção entre os grupos é diferente, mas cada grupo é sempre grande o suficiente para ser possível buscar tal validação e conforto sobre seu posicionamento.

Para terminar, precisamos voltar um pouco ao aspecto objetivo da coisa. E já esclarecemos o fato de que atraso é ruim, certo? Então sob a ótica puramente objetiva da consequência das ações de cada um, o pontual, por mais que ele tenha lá suas questões internas e chatices, está “certo” na maioria das vezes quando o horário é a questão. Em sociedades atrasadas como a nossa, chegar atrasado é até esperado. Ninguém chega no exato horário combinado, e como ninguém quer ser o primeiro a chegar, colocam mais 30 minutos na mistura. Com isso, a cultura do atraso se fortalece e com ela a legitimação do atrasado – qualquer possibilidade de moralizar seu próprio comportamento vai pro ralo.

Precisamos equilibrar essa balança da carga moral do assunto “atraso”. É peso demais para alguns poucos pontuais carregarem.

Uma confortável certeza tribal

Era um domingo de sol, mas eu estava longe da praia. Entre uma cerveja e outra ia conversando com a minha avó, senhora que completará 85 anos no próximo 25 de Janeiro. Trocar ideia com ela costuma ser interessante porque há um humor sagaz em seus relatos, a temperar as microviagens no tempo que dão conta das diferenças entre a vida na primeira década do século XXI e nas outras décadas que a antecederam.

Em uma dessas histórias ela pontuou ser uma menina rebelde para os padrões da época, verdadeira contestadora de convenções sociais. Contara o furor que causou no seio familiar quando repentinamente decidiu raspar os pelos da perna. O namoro com meu avô quase se encerrou ali, ao passo que meu (descompensado) bisavô afirmou ser aquela prática coisa de mulher da vida, de prostituta.

moralA grande curiosidade nessa história é que 70 anos depois do episódio a polêmica da penugem ainda vigora, mas com um detalhe diferente: sim, pelos ainda representam um padrão estético. Sim, é possível fazer um uso político dos pelos de seu corpo. O detalhe? Agora a transgressão é ter pelos, atacando a hegemonia estética da beleza dos depilados, que tratam com desfaçatez os peludos, como se estes fossem seres da Idade da Pedra.

Pormenorizando: a massa manteve-se irredutivelmente convicta a respeito da maneira com que os pelos deveriam estar sobre o corpo, relegando hostilidade e crítica aos que fogem do padrão. Só que antes se ridicularizava os que optavam pela moda depilada, e setenta anos mais tarde a pilhéria se destinou aos que deixam seus pelos naturais num certo volume.

Ou seja: antes eram flamenguistas que não toleravam vascaínos. Depois como quem não quer nada a sociedade tornou-se vascaína, e não satisfeita em virar a casaca, passou a odiar o flamenguista, sua posição pretérita.

 

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Já essa semana lembrei de algumas aulas de história do Ensino Médio,  as quais denunciavam que a Igreja tinha uma interpretação desfavorável aos portadores de deficiência durante a Idade Média: suas deformações eram tidas como uma evidência do demônio, de maneira que a regra era ceifar a vida destes exemplares do mal; um verdadeiro controle de qualidade da espécie travestido da moral religiosa.

Tive a recordação dos tempos de escola a partir de um documentário na TV que em certo trecho abordava o caso dos fetos anencefálicos. Ao que consta há um bebê que nasceu com vida e mantém-se assim há quase um ano, a despeito de suas ínfimas perspectivas de desenvolvimento corporal e das recomendações médicas, em virtude da anencefalia. Esse bebê, inclusive, possuía uma grave deformação em seu crânio.

Talvez não tenha ficado claro o elo entre o filme e as aulas. É que o documentário destacado era contra o aborto em qualquer nível, tendo sido mencionado no debate da TV por pessoas conservadoras, detentoras – e propagadoras – de certa moral religiosa.

Não tive paz com a seguinte noção: esses que utilizaram a imagem de um bebê deficiente para hoje defender o seu direito a vida seriam os primeiros a respaldar o assassinato do mesmo há cerca de 300 anos atrás, caso fossem possuidores do mesmo tipo de moral que os caracteriza atualmente. Não uma moral distinta. A mesma moral.

 

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Os insights vem sem forma; tentar dar a eles uma coerência, relacionando-os do jeito exato como se apresentam pra mim, é um desafio.

Os exemplos da depilação e dos bebês com deformidade/deficiência me fazem refletir e questionar bastante quanto aos temas Moral e Convicção.

Em princípio, o que me impressiona é a intolerância às escolhas morais alheias, ao indivíduo ou grupo que não terá a simpatia de outrem simplesmente por ter valorado alguns aspectos da vida pessoal ou em sociedade de maneira distinta dos demais.

certo ou erradoAcredito que essa intolerância seja possível somente se houver o componente da convicção nas escolhas morais de quem se põe a julgar o resto. Se eu escolho azul e você escolhe vermelho, acho que fica claro que devemos nos respeitar apesar da diferença de preferência. Mas se considero o azul melhor, o vermelho pior e que essa distinção é clara e uniforme a todos, vejo a formação de um cenário fértil para a discórdia e impróprio para conciliação, hábito tão caro e decisivo para vivermos bem no arranjo coletivo.

Quando falo em convicção aqui me refiro justamente à reunião desses três fatores: eu estou certo, os outros estão errados e meu modelo é o melhor para todos. Repare que estes três componentes estão numa ordem de dificuldade de realização; se é árduo chegar à conclusão que estou certo sobre determinada escolha, é ainda mais árduo concluir que os outros estão errados. Contudo, é preciso se esforçar incomensuravelmente para chegar, por via da razão, ao ponto mais crucial dos debates morais: a minha escolha é a melhor para todos.

Sinta como é quase impossível chegar racionalmente a essa conclusão, qualquer que seja o assunto. São inúmeras as escolhas morais que não sobrevivem no tempo, conforme descrito acima. Elas morrem junto com aqueles que tanto a alimentam. Agora, como entender que as gerações se renovam, porém sem deixar de reproduzir uma série de conflitos morais, decretando a primazia de uma forma de ser e viver em detrimento de outra? Porque não aprendemos com o passado?

 

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Ao procurar respostas sobre essa controvérsia encontrei diversas fontes citando o mesmo estudo, que coincidentemente ou não foi capaz de oferecer uma visão convincente para os inesgotáveis dilemas morais que nos cercam.

O psicólogo Joshua Greene, que comanda o Laboratório de Cognição Moral de Harvard, publicou em 2013 o livro Moral Tribes (“Tribos Morais”, tradução livre haha). Apesar de ainda não ter lido a obra, já me deparei tantas vezes com as ideias centrais do autor ao longo das pesquisas que não vejo mal em apresentá-las sinteticamente, de acordo com a resenha feita por bons sites (destaco aqui e aqui).  Vamos lá.

– O livro pretende abordar a moral através da interseção entre a filosofia, a psicologia e as neurociências. De pronto ele ilustra que o cérebro sofre processos neurais distintos para cada situação do Problema de Trolley, um clássico dilema moral que transcrevo abaixo:

  “Imagine que se encontra numa estação ferroviária e, subitamente, repara que um vagão está descontrolado, com cinco pessoas lá dentro, as quais irão certamente morrer a não ser que você puxe uma determinada alavanca que desvie o vagão em causa para uma outra linha, na qual se encontra outra pessoa a qual, se a alavanca for puxada, irá, por seu turno, morrer. O que faria? Puxaria a alavanca?

 Agora imagine um outro cenário e suponha que pode evitar as cinco mortes não puxando uma alavanca, mas empurrando um homem muito gordo para a linha em causa, na qual o seu corpo volumoso irá travar a velocidade do vagão descontrolado, salvando as cinco pessoas, mas e obviamente, condenando o homem gordo à morte. Empurraria o homem”?

moral tribePois bem. As pesquisas mostram que a maioria das pessoas desviaria o trem na primeira ocasião, mas não empurraria o homem para a morte na segunda ocasião. Ainda, revelam que no primeiro cenário a parte do cérebro ativada relaciona-se à atividade racional, enquanto no segundo exemplo o cérebro fez-se mais intenso na parte atrelada à atividade emocional.

E o que explica isso?

  “Para Greene, a diferença nas respostas aos dois dilemas pode ser explicada pela seleção natural. Durante milhares de anos da nossa evolução, os seres humanos que matavam outros friamente atraíam violência para si próprios: eram logo mortos pelo grupo, gerando menos descendentes. Já aqueles que conseguiam se segurar conquistavam amigos e proteção, transmitindo seus genes para o futuro. Assim, ao longo dos milênios, criamos instintos sociais que nos refreiam na hora de matar alguém. Acontece que, na maior parte do tempo da nossa evolução, vivemos em cavernas e com lanças na mão, e não operando máquinas, botões ou alavancas. Isso faz com que nossos instintos sociais não relacionem o ato de apertar um botão ou puxar uma alavanca com o de jogar alguém para a morte – é por esse motivo que, para Joshua Greene, tanta gente mudaria a alavanca na situação anterior, mas não executaria o homem neste segundo dilema. “Os instintos sociais refletem o ambiente nos quais eles evoluíram, não o ambiente moderno”, afirma o cientista”.

– Greene elenca outros exemplos de como a fatores emocionais são capazes de influenciar nas escolhas morais. O nome do livro (Tribos Morais) assim se explica:

 “Ele defende que os nossos cérebros foram concebidos para a vida tribal, para conviver com um grupo selecionado de pessoas (Nós) e para lutar contra todos os outros (Eles). Todavia, a vida moderna obrigou as diferentes tribos do mundo a partilharem um espaço comum crescentemente exíguo, criando conflitos de interesse e confrontos em torno de sistemas de valores distintos, em conjunto com oportunidades sem precedentes. À medida que o mundo fica menor para tanta gente – afinal somos já mais de sete bilhões de humanos – as linhas morais que nos dividem tornam-se mais evidentes e, em simultâneo, mais confusas. E é por isso que lutamos por tudo e por nada, seja por causa dos impostos ou do aquecimento global, o que nos obriga a questionar se será possível, um dia, partilharmos um consenso ou um denominador comum universal”.

– Retrata o funcionamento cerebral da seguinte maneira:

 “O autor compara o cérebro humano a uma câmara digital “dual mode”, com características automáticas (“retrato”, “paisagem”, etc.), mas que também funciona em “modo manual”. As definições “aponta e dispara” são as nossas emoções, programas automatizados e eficientes, aprimorados pela evolução, pela cultura e pela experiência pessoal. Já o “modo manual” do nosso cérebro consiste na sua capacidade de raciocinar de forma consciente, o que faz com que o nosso pensamento seja flexível.  

 Greene defende assim que as nossas emoções nos transformam em animais sociais, substituindo o “Eu” pelo “Nós”, mas que também nos podem transformar em animais tribais, o que resulta no “Nós” contra “Eles”. Adicionalmente, as nossas emoções tribais obrigam-nos a lutar, por vezes com bombas, outras vezes com palavras e, muitas vezes ainda em confrontos de vida ou de morte”.

 – Em síntese, temos que:

 “o diagnóstico de Greene é, fundamentalmente, darwiniano: os impulsos e inclinações que moldam o discurso moral constituem legados da seleção natural e estão enraizados nos nossos genes. Especificamente, muitos deles continuam a estar presentes em nós devido ao fato de terem ajudado os nossos antepassados a perceber os benefícios da cooperação. E, como resultado, as pessoas “safam-se” muito bem a viverem em conjunto umas com as outras e a apoiar as regras éticas básicas que mantêm as sociedades “na ordem”.

 

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Encontrei certo conforto no diagnóstico de Greene. Francamente estava desistindo de ingressar em debates onde as óticas morais são versadas. Na grande parte das ocasiões em que isso acontecia, a triste sequência vinha à tona: roupagem racional nas propostas antecedendo uma defesa passional, descontrolada e desarrazoada dos pontos de vista.

Encontro isso em larga escala PRINCIPALMENTE nos debates Esquerda vs. Direita. O que mais acontece é um dos lados se promover como se tivesse o monopólio das virtudes, condenando o pensar do adversário desde a essência. Daí mesmo se extrai uma incoerência: porque raios alguém se dispõe a debater com quem tem as ideias as quais reputa condenáveis em essência?

obrigado por fumarNão vejo interesse de troca, vejo tentativas desesperadas de convencimento, mas como uma espécie de aviso da própria supremacia. Como se fosse possível determinar a priori que o capitalismo é bom e o socialismo é ruim, ou vice-versa. Insano.

Greene propõe que um debate moral saudável se pauta por medição das consequências das escolhas existentes. Fugir do maniqueísmo de bom e ruim e partir pra análise de causas e efeitos. O cientista acredita que nesse segundo domínio, a razão seria menos importunada pela emoção, alcançando acordos morais mais razoáveis.

Nada garante a eficiência desse pensamento, apesar de sua convincência. Afinal, quem é emocional não é um método moral ou outro, mas sim o homem.

Mas a fundamental descoberta, a meu ver, toca à origem da convicção. Aquela grande dificuldade relatada acima, de concluir que a sua verdade não só é a melhor pra si como deve ser imposta aos demais, é atingida a todo momento em debates, supostamente pela via racional.

Contudo, Greene vem pra chutar o balde: tais convicções morais, que se pretendem absolutas/hegemônicas, tem sua origem em um primitivo senso de grupo do ser humano, na vontade de pertencer, de se identificar e de excluir o elemento estranho, sendo muito pouco pautada na força das ideias em si consideradas.

 

 

A ética e a meia-entrada

1-687-300x250e Ir ao cinema tem sido um extenuante exercício mental. Devo esclarecer, contudo, que tal situação não se dá por causa dos filmes que assisto.

Tudo começa quando a bilheteria se aproxima. Após notificar a atendente que comprarei a entrada em seu valor integral vem o grande momento: gastar um valor infinitamente maior que o justo por não ter disposição em falsificar uma identificação que me faça pagar meia-entrada.

Esse dilema tem muitos aspectos interessantes, sendo importante dissecá-los cuidadosamente visando conservar a riqueza de detalhes que o envolve.

O Brasil é um país especial, de toda sorte de culturas e belezas. Mas tem coisas, a exemplo da jabuticaba, que são exclusivas das terras tupiniquins.

A meia-entrada é um direito assegurado a algumas categorias de consumidores, sendo prevista em vários atos legislativos, da esfera federal, estadual e municipal. Afora alguns grupos específicos, grosso modo esse benefício está consagrado para estudantes do ensino básico até o ensino superior, de instituições públicas e privadas, bem como aos idosos, considerados assim aqueles com mais de sessenta anos. O objetivo claramente é de facilitar o acesso à cultura desses grupos que em tese possuem menor renda.

Essa análise levará em conta principalmente o direito à meia-entrada dos estudantes, pois é através dela que se operam as distorções atuais do sistema.

Até 2001, a UNE (União Nacional dos Estudantes) possuía o monopólio da confecção de carteirinhas de estudante. Como todo monopólio, esse atendia mais às ambições econômicas da instituição do que ao interesse social. Objetivando desconcentrar esse poder, o governo de então editou uma Medida Provisória que facultou a emissão desse comprovante a qualquer associação, agremiação estudantil ou estabelecimento de ensino brasileiro.

Não sei em que medida essa inovação impactou na questão da meia-entrada. Monopólios realmente não combinam com eficiência, isso está fora de debate. Porém, uma nova realidade nascia: algumas pessoas, interessadas em usufruir da economia que a meia-entrada proporcionava, passaram a se valer de comprovantes falsos de vinculação a instituições de ensino. De outro lado, certas organizações estudantis deliberadamente iniciaram a comercialização de carteiras de estudante a partir do pagamento de uma taxa, confeccionando um documento legítimo para aqueles que não possuem de fato o direito à meia-entrada.

Essa malandragem, que é crime para todos os efeitos, não foi coibida pelas casas de espetáculo e produtoras culturais, em tese as principais interessadas em denunciar as falcatruas – afinal, a brincadeira resulta em inevitável prejuízo financeiro. Acredito que parte disso seja por termos uma cultura forte de tolerância a esse tipo de comportamento, por mais danoso que ele seja socialmente. A opção mais acessível é aceitar o prejuízo coletivo no lugar de repudiar as práticas nocivas, e isso vai desde o vizinho barulhento, passa pelo cara que fura a fila e inclui o que escuta som alto no ônibus.

As empresas do segmento, reproduzindo essa lógica do homem cordial (conceito notório na obra de Sérgio Buarque de Hollanda), não foram combativas. No entanto, pensemos que se não existe almoço grátis na lógica da economia de mercado, com muito menos razão haveria anuência para um “almoço meia-entrada”.

Detectado o fenômeno, os valores dos produtos e serviços culturais foram subindo gradativamente, com vistas a permitir o retorno financeiro projetado pelo empresariado.

Ambição? Ganância? Ora, dispensemos a inocência. Quem assume o risco de empreender não vai abrir mão do resultado do seu esforço. De fato, exigir que as empresas se contrapusessem aos clientes, levantando suspeitas quanto à sua idoneidade, seria algo bem delicado. Pra exemplificar o tamanho do problema, reproduzo uma crítica do jornalista esportivo Rica Perrone, atentando para o descarado excesso de meias-entradas em uma partida de futebol em um Estádio em Brasília: “Impressionado como estudam em Brasilia. Das arquibancadas, 2 mil vendidas inteiras. 25 mil para meia-entrada”.

Decerto, ninguém é obrigado a se indispor com 90% de seus clientes em nome de um ideal de justiça. Até porque se a violação ao direito ocorre de forma tão generalizada não há maneira de o Estado desconhecer a mazela. Nessa linha, se esse mesmo Estado compactua com a ilegalidade através de sua omissão, deveria o empresário assumir esse papel?

E foi assim que em um ingresso hipotético de cinema, que poderia custar catorze reais a inteira e sete reais a meia-entrada, deu espaço para um valor de inteira de vinte reais, para que a meia-entrada no patamar de dez não representasse uma fonte de prejuízos. Mas não parou por aí.

Esse método ganhou força tal que na maior parte dos produtos e serviços culturais ofertados o ingresso no valor integral representa um preço completamente fora de mercado, sendo dado em contrapartida um “libera-geral” às meias-entradas. Na cidade do Rio de Janeiro é comum você poder comprar um ingresso meia-entrada sem fazer qualquer prova de que é estudante. Ninguém vai lhe pedir isso. Já que não podem / não querem coibir esse hábito, colocaram a meia-entrada no patamar da entrada inteira, e esta, por seu turno, em um patamar exorbitante, completamente fora de cogitação. Ou seja, deixou de existir, na prática, a meia-entrada.

Esse quadro alarmante não é exatamente uma novidade. Mas a exposição se fez necessária, pois a partir de agora entra a parte espinhosa relativa ao impasse.

O Direito nem sempre está de acordo com a justiça. Em um breve retrospecto da cultura jurídica é possível perceber que por inúmeras vezes os sistemas legais serviram pra legitimar atrocidades e impor restrições imbecis em uma determinada escala de gravidade.

Assim, a vida em sociedade recomenda a obediência às normas em vigência, morais e jurídicas, mas pelo acúmulo histórico havido até o momento não se pode cogitar um atendimento irrestrito aos preceitos estabelecidos. É mais seguro seguir um imperativo depois de refletir sobre o mesmo, e ver se ele está alinhado com a sua bússola ética interna.

meia entradaUma das máximas mais valiosas do convívio em comunidade é que “o seu direito acaba onde começa o do outro”. Esse pensamento é por óbvio relevante, e pra analisar a problemática da meia-entrada vou dividi-lo em duas abordagens, quais sejam, a formal e a material.

Formalmente, ao fazer uma carteirinha de estudante falsa você causa danos ao empresário, que suportará um prejuízo econômico ante a sua esperteza; traz danos também à coletividade, pois estimula a insegurança ao propagar o uso de documentos falsos. Por tais razões não se deveria reproduzir esse equívoco.

De pronto é possível notar a insuficiência da leitura formal do quadro existente. Em virtude disso é preciso se debruçar no viés material (ou prático) do tema. Primeiramente, quanto aos empreendedores, a verdade é que não mais suportam prejuízos através da disseminação das meias-entradas. Sagazmente recalcularam os custos de seus produtos e, sem qualquer embargo do governo ou de alguma instituição independente, projetaram a meia-entrada a um patamar que deveria ser o do ingresso integral, assegurando sua margem de lucro com êxito.

Em uma segunda análise, a insegurança trazida pelo uso de documentos falsos, nesse assunto específico, é algo amplamente difundido e aceito. O ato, apesar de definido legalmente como crime, conta com uma reprovabilidade mínima no seio da sociedade, despertando um senso de repreensão ridículo, como dito anteriormente, que foi incapaz de mover o Estado, as empresas e os cidadãos brasileiros no combate a esse ilícito.

Assim a situação aparenta ser um conjunto caótico em relativo equilíbrio, mas tem alguns percalços complicados.

Minha preocupação maior é com o cidadão que dedica atenção ao campo da ética. Este é o grande prejudicado, sem sombra de dúvidas, pois ao rejeitar um arranjo que conta com falsificadores (cidadãos), omissões (governamentais, quanto à fiscalização) e preservação de interesses econômicos (lucro será mantido, tanto faz o que aconteça), ele vai pagar um valor injusto pelo ingresso – o grande prêmio recebido por ser correto.

Minha dúvida se forma quanto à manutenção desse status. É muito errado dedicar a quem é correto as opções de a) pagar caríssimo ou b)deixar de fazer programas culturais. Isso é insustentável.

Certamente que ao fazer uma carteira falsa, o ser ético assume o risco de ostentar uma condenação criminal, o que é improvável, mas não impossível. No entanto, talvez não deveríamos dar tanto foco à violação das normas jurídicas nesse caso específico.

Nunca haverá uma lei impondo que devemos beber água uma vez ao ano, porque é nítida a impossibilidade de desatender a esse comando. A lei existe para regular matéria em que há controvérsia, e ela só virá a ser aplicada caso haja violação do conteúdo prescrito. A razão de ser da lei é a violação a ela cometida; o pleno e total respeito ao conteúdo nela recomendado a tornaria dispensável.

Dentro dessa ordem, vale destacar que no mecanismo da confecção de leis, a quase totalidade do fim de certas proibições e do surgimento de certas possibilidades nasce da realidade concreta, para só depois ser absorvida pelo direito. União estável homoafetiva, a questão das drogas, etc. O direito lê as mudanças sociais e positiva novas normas para corresponder aos novos anseios, e não o contrário.

A compreensão do surgimento das novas leis é importante, pois no momento anterior à absorção pelo sistema, tais comportamentos (uso de drogas, união estável homoafetiva, por exemplo) eram marginalizados, ou até mesmo ilegais. Não haveria mudança na legislação se não existissem pessoas dispostas a arcar com o rótulo de “fora-da-lei”, criando assim a demanda responsável pela transformação.

O modelo da meia-entrada está fadado ao insucesso e deve ser revisto. A moralização de agora em diante resultaria num número maior de pessoas pagando o valor integral do ingresso. Não se cogita que as empresas, com a procura estabilizada aos seus produtos, irão diminuir o valor do ingresso para lucrar menos. Em tese poderíamos falar que a concorrência levaria a uma redução, mas em tempos de grandes conglomerados que dominam a maioria dos setores da economia, um cartel pela manutenção do patamar dos preços é a saída mais provável.

Certamente há ética em manter-se resistente a tal panorama e não falsificar nenhum documento pra conseguir a meia-entrada; porém, o ponto não é esse.

Meu interesse é por aqueles que, em vista de tantos equívocos generalizados, da ausência de prejuízo direto a qualquer das partes (sociedade, empresa, Estado) e da presença do prejuízo direto ao próprio bolso, resolve ceder e fazer uma carteira falsa. É possível dizer que falta ética nesse comportamento? Afinal, é errado burlar um sistema fracassado?

 

Algumas palavras sobre o especismo

peixePegando carona no meu último texto, senti a necessidade de elaborar um pouco mais o assunto, pois, dado o meu histórico na questão da ética animal, sempre tem mais espaço. Mas não vou elaborar muito o caso dos beagles e nem especificamente de testes em animais, prefiro abordar o tema de forma mais abstrata.

Talvez a maioria de vocês sequer tenha se deparado com o conceito de especismo e como ele é importante na forma como vivemos em sociedade.

Tenho mania de, nos meus textos, usar definição de dicionário ou da Wikipedia, mas dessa vez não vou fazer isso. Nesse caso não é preciso. Dá pra ter uma ideia boa do que especismo significa e se você tem alguma dúvida mas não quer abrir outra aba e pesquisar no Google, só pra confirmar, quero que pense em racismo. Pensou? Agora pense em animais, diferentes espécies e como tratamos cada uma delas.

O especismo tem sua raiz nas origens da civilização, ou seja, como é ensinado na maioria dos livros de história, na Revolução Neolítica, quando deixamos de ser nômades caçadores divididos em pequenas tribos e passamos cultivar alimentos, e nos organizar em cidades. Não é de surpreender – e para tal, evidências não faltam – de que isso causou um isolamento do homem com seu meio, e a espécie humana deixou de ser parte da natureza para ser “dona” da mesma, moldando-a às suas necessidades, construindo cidades, desviando rios, derrubando montanhas – e mais recentemente, poluindos os mares, o ar e esquentando o planeta.

Nossa relação com os animais não poderia, portanto, ter tomado outra direção que não a do crescente isolamento e sentimento de “posse e domínio”, ou seja, animais não são mais nossos iguais na natureza, agora eles são nossos para “usar” como transporte, comida, vestimenta, diversão e qualquer outro uso que consigamos imaginar. E para que isso funcione bem, precisamos entender que eles são totalmente irracionais, não sofrem e não se importam com o que fizemos com eles. Não estou com isso querendo dizer que os humanos pré-neolóticos já não caçavam e usavam peles, é óbvio que faziam, mas não havia real competição de uma espécie (nossa) com o restante, o que nos leva a crer que havia um respeito maior e uma conexão mais profunda com cada ser dos quais nos alimentávamos e usávamos para outros fins.

O que temos hoje é um especismo bastante complexo, que foi sendo moldado através dos séculos, mas sempre tendo em mente que os animais estão aqui, em última análise, para servir a espécie humana. Se uma espécie não serve pra nada, e não incomoda, deixamos ela pra lá. Se não serve, mas incomoda, exterminamos. E se serve, usamos – e abusamos. E como usamos diz muito sobre quem somos.

Vamos voltar aqui ao episódio recente dos beagles. Eu não sou contra testes em animais. Eu também não sou contra matar um animal para comer nem para obter couro. Eu sou especista também, todo mundo é, não trato um gambá da mesma forma como trato um papagaio ou um porquinho-da-índia. Mas independente disso, eu procuro ser consciente do meu especismo e mais ainda, consciente de como esse especismo gera sofrimento desnecessário nos animais.

A maioria das pessoas não é, de forma alguma, consciente de seu especismo. Simplesmente consideram que vacas, porcos e galinhas são naturalmente “feitas” para se tornarem comida, e gatos e cachorros foram “feitos” para serem nossos companheiros e viver em nossas casas. Então quando aparece um caso de pesquisa científica sendo feita com beagles, isso de certa forma parece “errado” no especismo coletivo. Errado por que? Se fosse um cachorro-do-mato poderia?

O maior problema atualmente, na minha opinião, está quando a coisa se mistura com a lógica do mercado. E isso pode ser observado inclusive em um dos episódios mais imorais da nossa história recente: o tráfico de escravos. Foram misturar o racismo com a necessidade de mão-de-obra barata e “sem história” (ou seja, não uma pessoa, mas uma máquina de trabalhar sem alma) e tivemos um próspero mercado baseado em todo tipo de racionalização para que aquele monte de negros transportados pra lá e pra cá não fossem considerados pessoas e usados como bem entender.

Com animais, e o especismo, não é diferente. Quando digo que não tenho nada contra comer carne em si, as pessoas demoram a entender como é que eu poderia ter me tornado vegetariano. Eu sempre explico mas raramente cai a ficha. O problema na verdade, é como a coisa toda é feita, devido às pressões do mercado e do consumo que só cresce. Para atender às necessidades de cadeias de fastfood, restaurantes, congelados e toda uma infinidade de produtos, não há como uma pessoa minimamente inteligente achar que isso tudo é possível com vacas pastando calmamente nos campos e que um dia são abatidas de forma rápida e indolor. Nada poderia estar mais longe da realidade.

A medida que a demanda cresce, a corda aperta para o lado do conforto do (e do respeito ao) animal. Claro que isso ocorre de diferentes formas dependendo país, das leis, agências reguladoras, etc. Eu não vou perder meu tempo pela enésima vez para citar condições de vida dos animais nas fábricas-fazenda ao redor do mundo. Abundam vídeos e documentários excelentes (e muito perturbadores!) sobre isso. E da mesma forma que essa questão existe no caso de animais para alimentação, também ocorre com animais para diversão (circos), para roupas (couro, peles) e animais para testes científicos. Eu não sou contra os testes, repito, mas sou contra qualquer sofrimento desnecessário e qualquer mau-trato que esses animais possam receber em suas vidas, que muito provavelmente se darão através de pressões de mercado; para o rápido lançamento de um remédio (mais lucro!), ou corrupção na obtenção de licenças para testes sem passar pelos devidos controles de Comissões de Bioética, etc.

Portanto, o especismo nosso de cada dia, diz muito mais sobre nós do que gostamos de admitir. Ninguém é obrigado a ser vegan ou budista, mas não faz mal ser consciente das coisas como elas são e procurar se tornar mais consciente das próprias racionalizações quando compara o tratamento de um bicho e outro. Hoje em dia quase todo mundo é contra peles e circos com animais, inclusive eu e vocês que leem isso agora, sem se dar conta de “como” transformamos esse aspecto do nosso especismo – mas pense que até não muito tempo atrás, teríamos aceitado e repetido as milhares de racionalizações (ou melhor, “desculpas esfarrapadas”)  até que os fatos viessem à tona e a verdade ficasse cada vez mais difícil de ignorar.