“Seja Homem”

conan_throne

“Seja Homem!”

Parece ser uma terrível escolha de palavras para ser usada especialmente no que chamamos de Semana da Mulher.
Porém, é uma expressão identificável imagino eu, para todo Homem. Que moleque nunca ouviu essa expressão alguma vez na vida? “Seja homem.” E muitos indivíduos, pelo resto da vida, nunca refletem à respeito dessas duas palavras colocadas juntas.

Mas antes de refletirmos sobre o que significa ser homem, é preciso admitir. Ao recebermos ao acaso, o “privilégio” de sermos portadores do sexo masculino, existem experiências as quais nunca passaremos e sentiremos na pele sequer por alguns minutos, o que acaba nos tornando incapazes de protagonizar o importante movimento feminista.
Ainda sim, mesmo sem ser mulher é possível observar a significância desse debate do ponto de vista racional e lógico, duas características também infelizmente sequestradas e estupidamente submetidas ao papel de gênero.

Então vamos lá.
Acredito fortemente que todos nós moleques já ouvimos alguma vez, “Seja homem“, frase que geralmente precede ou uma atrocidade, ou alguma estupidez. Antes de jogar uma pedra num gato, ou antes de “chegar junto” numa menina, ou antes de quebrar uma janela. Apesar de hoje sabermos que a maioria esmagadora de papeis atribuídos a gênero são construções culturais, existe algo a se perceber: O culto ao “homem macho” é profundamente ligada à cultura da dessensibilização. À preservação de características que são essencialmente, ANTI-CIVILIZATÓRIAS.

Convenhamos, não há nada de bom em “Ser homem”, ao menos não em seu significado atual.

“Ser homem” significa ser capaz de reprimir sua empatia e tornar-se insensível para conseguir cometer atitudes invasivas, não só contra mulheres, mas contra outros homens e contra outras formas de vida. Implica em desumanizar, em objetificar e diminuir sua identificação com os indivíduos que o cercam. Ou seja, tentar ser homem é profundamente ligado com tentar ser individualista e tentar ser egoísta.

As palavras são traiçoeiras, e como nos “Ministérios” em “1984” de Orwell, chegam a ter significados opostos. Quanto mais “homem”, quanto mais “macho” você é, maior é a sua capacidade para ser de fato, DESUMANO, ou seja “menos homem” – Homem no sentido de ser humano.

Mas não pára por aí.
Alguns dirão “Ah, mas ser homem significa ser corajoso, ter bravura”, ignorando o fato de ser um tipo de cultura da estupidez e da impulsividade. É possível até ver nas caricaturas disponibilizadas pela cultura pop.
O Herói geralmente é o cara forte, e o vilão é o cara que pensa, o “gênio do mal“, como se pensar, planejar e antecipar fosse algo ruim. Dois coelhos com uma tacada só: Temos uma cultura gritando que o legal, o bacana não só é ser insensívelmente apático, mas também estupidamente impulsivo. Parece até que é a formação proposital de peões suicidas. (Opa, descobrimos o plano!)

Nesse momento, torna-se de extrema importância reforçar que não estamos afirmando essas características como ligadas à gênero. Pelo menos não como natural, mas algo artificialmente dividido entre macho e fêmea.
Mas notem com bastante atenção:
Se formos escrever um manual de instruções de “Como ser um Homem Machão“, e um manual de “Como ser Desumano e Insensível“, ambos vão coincidentemente conter as mesmas instruções.

Se nesse século 21, afirmamos estar buscando sermos mais Civilizados, mais Humanos, não faz o menor sentido a preservação do culto ao Macho, porque seu conteúdo envolve a preservação e celebração das piores características que um ser Social poderia querer preservar. É uma contradição antagônica, não tem como ser mais Macho e mais Humano ao mesmo tempo.

Então, parece não ser possível nesse momento o homem poder lutar no lugar da mulher, não seria possível protagonizar.
Porém, o grande presente que poderia ser dado à elas, é simplesmente parar de querer “Ser homem”, pelo menos até que essas palavras se renovem e assumam uma significância totalmente diferente.

No contexto atual, “Ser homem” é ser insensível, apático, e individualista, e não ter essas caraterísticas como um ser social, que quer participar de um mundo mais Civilizado, é motivo de vergonha, e não de orgulho. Então, vamos mudar isso.

Se cada um fizesse sua parte…

CiD
Se existe um mantra que ultrapassa as barreiras sociais, culturais e até nacionais, acredito que seria a famosa frase:
“Se cada um fizesse sua parte, o mundo seria um lugar melhor.”

Apesar de podermos expandir vastamente a discussão na tentativa de definir o que a “parte” de cada um, vamos evitar fazê-lo, afinal pra mim por exemplo, se alguém separa o lixo mas fica assistindo seriado ao invés de se informar de política, não está fazendo sua parte. Nesse caso, vamos considerar apenas o que é aceito pela maioria das pessoas como a parte de cada um.

Essa semana, ví alguns artigos extremamente desanimadores a respeito do futuro de nosso planeta.
Alguns deles demonstram com clareza que passamos pelo menos uns 10 anos do ponto de podermos fazer alguma coisa para revertermos os estragos feitos à natureza. Agora os danos já estão aí, não são mais especulação, e a única pauta em discussão pela comunidade científica é sobre como administrar o prejuízo.

A seguir, descobri que todos esses impactos que estamos sentindo hoje, toda a seca, crise hídrica, aquecimento, instabilidade climática, está ocorrendo em função dos estragos feitos há 30 anos atrás.
Os estragos que estamos fazendo hoje, são cerca de 200 vezes maiores que no passado, e o impacto está por vir nos próximos 30 anos, o que não é nada animador.

Estamos incontestávelmente à beira da Sexta grande Extinção em massa do planeta Terra.

Diante do enorme sentimento de impotência, brotou também uma forte sensação de injustiça, em função daquele suposto inocente ditado. Segui as mais diversas recomendações. Uso carro só uma vez por semana, tomo banhos curtos, não como carne. Não consumo muito, separo meu lixo, os dois únicos celulares que eu tive na vida, foram dados por pessoas que não queriam mais. Pratico consumo consciente e faço diversos boicotes.
Me alimento de produtos orgânicos de agricultura local, pratico exercícios regularmente, e o principal: Apesar de poder conseguir mais, eu não ALMEJO mais do que isso. A única coisa que quero da vida é saúde, paz e poder continuar aprendendo sobre o mundo até o dia que morrer.
E tenho plena consciência: nem de longe sou o mais radical desse estereótipo de pessoa.

Todos os dias, vejo pessoas ao meu redor mudar de hábitos, e mesmo assim, não conseguimos salvar o mundo.
Vamos assistir nossos oceanos acidificarem, nossas plantas secarem e morrerem, pra morrermos algumas semanas depois.

Quando começo a seguir essa linha de pensamento, o primeiro e mais óbvio argumento que ouço é um “Mas você é parte de uma minoria!

Então vamos falar das maiorias.
A maior parte deles, faz por tabela essa tal “parte”.
Não usam carro porque não tem, tomam banhos curtos porque não podem pagar a conta, não comem quase nada de carne porque não podem comprar. Enquanto optamos diminuir o consumo, eles são forçados a fazê-lo em função da falta de poder aquisitivo.

Ora, então quem diabos não está fazendo a própria parte?

E novamente, tudo se volta para o tal 1% da população, a qual é dona de 50% dos bens materiais do mundo.
Claro que não tem apenas a ver com consumo, mas com o impacto.

Esse mesmo 1% é quem detém os meios de produção. São as grandes empresas e corporações.
A opção de fabricar produtos que vão quebrar em poucos meses pra você ter que consumir de novo, é deles.
A opção de embalar coisas de plástico com mais plástico e isopor em volta, é deles.
A opção de usar metade da produção agrícola e da àgua do mundo pra alimentar gado, é deles.

Mas eles tem escolha? Não. Assim como a maioria de nós, eles foram criados em uma cultura onde o único dever deles, é maximizar os lucros independente de qualquer impacto social ou ambiental. São vítimas da MESMA cultura que faz o pobre roubar, o classe-média sonegar imposto, e o político desviar verba.

E você não pode fazer nada.
Pelo menos, não do jeito convencional. Mesmo que você exija de seus políticos ações que regulem essas empresas, sabemos que o poder político é submisso ao poder econômico.
Reclama-se da corrupção sem nunca perguntar: Mas quem corrompe? E quem corrompe é essa elite, pra que possa manter suas opções retrógradas. É dessa maneira que eles esmagam qualquer pequena iniciativa que poderia trazer alternativas.

Parafraseando o pensador Eduardo Marinho, “não é o ser humano quem está destruindo a Terra. É uma elitezinha, ZINHA.”

Aparentemente, a “parte” de cada um, é proporcional ao poder aquisitivo de cada um. E infelizmente, nosso planeta não é um sistema fechado que respeita os limites de cada propriedade privada. Logo, se essa minoria que é LITERALMENTE dona de metade do mundo já destruiu a metade que é “deles”, então estamos TODOS condenados. E possívelmente, é o que já está acontecendo.
E mesmo que você seja alguém que concorda e defende a idéia da propriedade privada, há de se concordar que não é justo 99% da humanidade estar condenada por causa de 1% que “Pode fazer o que quiser” com a parte deles.

Diante desse cenário dramático, seria fácil advogar a idéia de sair cortando a cabeça dos ricos, mas não é essa a proposta. Porém é necessário SIM algum tipo de revolução, pois através das vias convencionais acabamos ficando completamente dependentes de uma epifania moral, um momento de clareza vinda dessa elite, o que dificilmente vai acontecer. Sabemos que não dá pra contar com eles.

Enfim, não adianta em absolutamente nada se 99% do mundo donos de uma metade, utilizar “Ecobags”, tomar banhos curtos, e usar apenas transportes públicos, se os outros 1% que são donos da outra metade, não mudarem os meios de produção, e os objetivos do sistema.

Não estamos mais na beira do abismo, já caímos, mas ainda não batemos no chão.
E a maior parte da culpa, não é sua.

As chances são altas de que não é dessa vez que viraremos uma civilização de Tipo-1, desejemos mais sorte para a próxima.

Nota: Escrever um texto carregando sentimentos de frustração trás riscos à qualquer blogger, e corro o risco de desdizer muita coisa daqui. A idéia porém, não é desmotivar ninguém, mas colocar a par a situação real em que chegamos por termos seguido idéias ilusórias a respeito do “poder individual” de cada um. Não estou falando pra deixar de fazermos o que devemos fazer, mas não é só isso que pode fazer algo pelo mundo. A “nossa parte” vai além disso. Deve ser incluso nessa, puxarmos a orelha das elites.

Situação do Brasil – Por Antonio Nobre:
http://leonardoboff.wordpress.com/2014/11/01/estamos-indo-direto-para-o-matadouro-diz-antonio-nobre/

Situação do Mundo – Por Guy McPherson:

Referência ao “Tipo de Civilização” por Michio Kaku:

Referências à desigualdade no mundo: