A coerência exigida não é a mesma oferecida

Sofremos de uma falha grave como seres sociais. Essa falha tem sua origem, entre outras coisas, na mente descontínua, sobre a qual falei um pouco nesse post. Resumindo bastante, a mente descontínua é uma estratégia evolutiva do nosso cérebro em realizar julgamentos rápidos criando padrões arbitrários, ignorando nuances e alternativas. Tal estratégia é de suma importância, pois tais julgamentos são necessários para que consigamos viver em sociedade com eficiência. Na grande maioria das vezes, não teremos posse de todas as informações possíveis para “decidir” se confiamos ou não em uma pessoa ou fazer a avaliação de risco em uma situação – é tudo bastante automático, e obra da mente descontínua.

Mas se é necessário – e é bastante fácil verificar como esse mecanismo é indispensável – como pode ser ao mesmo tempo uma falha? Por que (e aí eu recomendo que você leia o texto se quiser um pouco mais de aprofundamento) abusamos dessa estratégia e deixamos que esse “modo automático” tome conta de nossas vidas e nossa forma de pensar, mesmo depois que já estarmos devidamente informados para tomar decisões e realizar julgamentos sem a necessidade de arbitrariedades e aproximações.

Um exemplo bastante simples de verificar isso é a polarização política esquerda x direita. Quando você identifica uma pessoa como sendo de qualquer uma dessas ideologias, julga automaticamente saber tudo sobre ela. E a partir daí começa a esperar certas atitudes, comportamentos e ideias. Caso alguma dessas falhe em atender as suas expectativas, isso será imediatamente associado a uma falta de coerência daquela pessoa. Se é de esquerda, como ter um iPod? Se é de direita, como pode ser beneficiário de bolsa de estudos financiada pelo governo? Que hipócrita!

Vemos esse tipo de julgamento todos os dias e eles dificultam muito qualquer tipo de discussão saudável sobre qualquer assunto. Operando baseados apenas na mente descontínua, no modo automático, assumimos que as pessoas são um pacote fechado, um conjunto fixo de idéias e atitudes. Falhamos gravemente em não entender que cada ser humano é um universo de indivualidade. Se qualquer pessoa te disser exatamente como ela passou a acreditar em alguma coisa ou ser adepta de uma ideologia, ela estará mentindo. O conjunto de experiências e informações absorvidas que a levaram até aquilo é tão grande que ninguém, nem mesmo a própria pessoa, é capaz de reconhecer de forma linear e organizada.

Como podem, então, pedir coerência? Somos todos confusos. Somos múltiplos. Somos basicamente incoerentes, com nós mesmos, com os outros, com a vida. Somos falhos e fragmentados. Ninguém é uma unidade perfeita de pensamentos e atitiudes o tempo todo, a vida toda. Não estou aqui, no entanto, dando carta branca para a hipocrisia. São outros quinhentos. Falar uma coisa e fazer outra é uma falha moral e nada tem a ver com a mente descontínua, e não se trata apenas de falta de coerência. É muito pior. Das duas uma: ou você é maluco, ou é um cretino.

Com a Copa chegando, mais uma vez começam a pipocar os efeitos negativos dessa cobrança de coerência onde uma coerência não pode existir. Se você é contra a Copa, não pode ver os jogos e torcer pelo Brasil. O que uma coisa tem que ver com a outra? Quanto raciocínio foi gasto para falar uma besteira desse tamanho? Muito pouco, creio eu.
Até as análises que li sobre esse fenômenos foram bastante bobas, tratando apenas do aspecto político da coisa. Uma tristeza que as pessoas mergulhem tão raso na complexidade do ser humano.

O fato de que as coisas estão interligadas, interconectadas e tenham fortes correlações não obrigam ninguém a gostar de futebol e samba só por que nasceu no Brasil. Ser contra a Copa não é ser anti-Brasil, anti-futebol, e ser a favor da Copa não é um atestado de ignorância política.

Eu sou contra a Copa. Sou anti-FIFA e deploro a pequena elite política responsável por tanto desmando e roubalheira. Mas vai ter Copa, e eu vou ver o jogo amanhã. Vou tomar cerveja com os meus amigos e espero poder gritar GOL!, do Brasil, mais de uma vez, e torço por uma vitória. Isso não faz de mim um hipócrita. Incoerente? Talvez um pouquinho, mas quem não é?

As armadilhas da ideologia

ideologySe houve um efeito colateral bastante inusitado (para a maioria, pelo menos, talvez não para alguns mais antenados) das manifestações de junho passado, foi o recente fortalecimento do discurso de direita. Não que isso chegue a ser preocupante em escala eleitoral, mas é nítido que mais e mais pessoas agora perderam toda a timidez de se mostrar adeptos dessa linha de pensamento ou ideologia. Isso poderia ser uma coisa muito positiva (se fosse gerar mais debate), mas infelizmente, não é o que se percebe.

Para não acharem (e garanto que alguns acharão, lerão só o primeiro parágrafo e já correrão pra comentar) que esse texto tem alguma coisa a ver com criticar o discurso de direita, não se trata disso, pois o anterior e já vociferado aos montes, de esquerda, é idêntico. Não se vê debate de ideias, não se vê ninguém buscando um meio termo e soluções conjuntas. O que se vê é só um apego incondicional à ideologia – seja ela qual for, sempre demonstra incrivel eficiência em acumular defensores, atrapalhar o debate e distorcer a realidade.

O “problema da ideologia” não é de hoje, muito pelo contário, é tão velho como a inteligência e consciência humanas. Aderir a uma ideologia é tão humano como se apaixonar. E da mesma forma que, após repetidos períodos de intenso sofrimento trazidos por essas paixões, estamos sempre nos deixando apaixonar de novo – só para sofrer tudo de novo. A diferença é que a ideologia é uma amante mais promíscua e não rejeita ninguém.

Ideologias se apresentam de muitas formas, umas mais brandas e flexíveis e outras mais duras e dogmáticas, mas invariavalmente são formas de ver o mundo (e se comportar nele) baseadas em um conjunto de ideias fixas: Deus criou o universo, a terra é plana, a posição dos astros determina quem somos, comer carne é errado, a culpa é do Estado, o Estado é a solução, o homem é naturalmente bom, o homem é naturalmente mal, etc.

O fato inegável é que, durante nossas vidas, vamos nos afiliar a um sem número de ideologias sem sequer notar isso. A maioria de nós, em algum momento, já foi apresentado a alguma nova forma de ver o mundo e, sem muitas evidências daquilo, as vezes meramente por pressão ou afinidade de grupo, passou a se comportar de forma diferente e até defender aquelas ideias com unhas e dentes. Quem nunca?

A armadilha está em não se dar conta de como nossas mentes “gostam” de se agarrar à conjuntos pré-estabelecidos e aparentemente logica e belamente arrumudos de ideias, que dão sentido à coisas que nos incomodam e geram dúvida. Apesar de não gostarmos de assumir isso, nossa mente está sempre disposta a desligar o senso crítico o suficiente para adotar uma ideologia como na canção do Cazuza “eu quero uma pra viver”.

Voltando a eterna briga de esquerda e direita, o que me levou a escrever esse texto, foi exatamente ver alguns amigos, inclusive alguns que considero bastante inteligentes “sairem do armário” como defensores da direita, e demonstrarem o quão totalmente imersos estão com esta corrente política – senso crítico em mínimo, abertura para debate zero. Só postam coisas da Veja, vídeos, reflexões e textos de pessoas claramente de direita (mesmo quando em alguns casos, hipócritas e não se posicionam), sem nunca “dar uma chance” para um discurso mais moderado. Os de esquerda fazem igualzinho, mas o pior, é que agora, como que em resposta a esse crescimento do discurso conservador, passaram também a rebater postando cada vez mais só as coisas da esquerda, e agora as mais radicais, que muito provavelmente já liam há tempos mas ficavam “meio receosos” de parecer extremo.

Eles debatem? Não. Eles discutem, cada um querendo mostrar com sua ideologia é brilhante e o resto é pura idiotice? Sim! Eles postam coisas que as vezes colocam em cheque os pontos centrais da ideologia? Nem fudendo. E o aspecto mais bizarro dessa coisa toda é um fenômeno recente, que se percebeu apenas com a popularização as redes sociais. Basta qualquer coisa na internet ter um teor crítico à determinada ideologia (seja política, religiosa, científica ou qualquer coisa que o valha), os defensores correm em auxílio dos “gurus” e das ideias centrais geniais e irrefutáveis da mesma. Isso já virou até motivo de chacota e “nomezinhos engracados” envolvendo tais gurus viraram lugar comum nas discussões e memes.

A que tudo isso serve? Ao meu ver, nada de útil, nada de construtivo. Eu as vezes faço parte da zoação também, as vezes me pego no flagra atuando como “defensor” de uma linha de pensamento que apenas me agradou mas que não entendo muito a respeito. Somos pegos por essas armadilhas o tempo todo. Dependendo sua personalidade, você vai trocar de ideologia como muda de roupa, outros podem passar uma vida inteira acreditando e defendendo algo sem ter parado um minuto da vida para validar aquilo com critério.

Lendo Krishnamurti há alguns anos, me deparei com um dos alicerces de seu pensamento que se resumia em “não há guru, não há mestre, você é o mestre, você é o guru, você é tudo!”. Ele dizia para não aceitar nada do que ele dizia e duvidar de tudo. Eu tinha dificuldade pra entender aquilo, pois ele passava uma montanha de ensinamentos e sabedoria em suas palestras e depois me fala pra não aceitar nada daquilo? Como assim? Eu estou concordando, estou gostando – não devo aceitar?

Na verdade o que ele ficava ressaltando o tempo todo era que as ideias precisavam ser constantemente criticadas, e não apenas entendidas intelecualmente, mas “vividas” profundamente sem os diversos filtros de nossa cultura e passado – e que ninguém deveria considerar as ideias melhores ou piores por que vinham de uma figura como ele. Isso é muito simples de falar mas quase impossível de realizar na prática. Ao ler algo que “se encaixa” com aquilo que você acredita surge uma empatia natural com o autor daquelas ideias e isso cria um feedback de forma que, no futuro, você aceitará com mais facilidade (ou seja, com o filtro do senso crítico mal configurado) outras coisas que ele disser – e depois de outros que pensam parecido.

Portanto, se você se pega constantemente lendo textos dos mesmos autores, confirmando aquilo que você acredita, criticando aquilo que você (ou melhor, a ideologia que você escolheu) condena – há grandes chances de você estar viciado nessas ideias, e preso num espiral de “confirmações” e “irmãos na causa” incapaz de perceber que por mais sentido que aquilo tudo possa fazer, não pode ser a verdade única e absoluta, provavelmente está repleta de falhas factuais e lógicas, talvez algumas que você até reconhece mas finge não ver.

Ninguém está livre disso. Nossa mente é programada para se agarrar nessas coisas, procurar o caminho mais curto e menos trabalhoso para fazer sentido do mundo e de tanta complexidade. Como diria Krishnamurti, só mesmo a vigilância contínua e a completa recusa a dar valor a certas ideias baseadas no seu autor, pode nos armar contra essas armadilhas e tornar possível o um senso crítico refinado e real confronto de ideias, e não as infinitas discussões de facebook onde cada um só quer mostrar como fez seu dever de casa e leu mais livros “pra confirmar as ideias que acredita serem a resposta pra tudo.