Por que o machismo é tão difícil de combater

A resposta curta e simples é: atinge homens também. A resposta “completa” virá ao longo do post. Não, não estou querendo com esse texto dar uma desculpa esfarrapada para a falha desse que vos escreve em combater esse mal. Apenas dar uma visão o “lado de cá” da história, pois há opressão também entre os opressores.

O machismo é prevalente por que ele é ao mesmo tempo increvelmente escancarado e violento – como no caso de estupros e abusos contra mulheres e LGBTS – e sutil e sorrateiro, quando se insinua e molda comportamentos e conceitos de homens (e mulheres!) em formação. Quando o menino faz manha, tanto a mãe como o pai dizem “menino não chora”, “deixa de ser fresco”. Quando o menino já está maiorzinho e não demonstra interesse em futebol ou esportes coletivos, ou tem medo de se machucar, os pais ficam frustrados – não está sendo o “homem padrão” que a sociedade espera.

Se dentro de casa é isso que a criança recebe, é isso que ela vai reproduzir quando iniciar sua socialização com amigos na escola e na rua. Como bem sabemos, não somos todos iguais, uns são mais feios, outros mais bonitos, uns maiores, outros menores. Tão logo isso fique claro (o que não é difícil, coisa de segundos em qualquer grupo), rapidamente, o Macho Alfa surge para deixar bem definidos os papéis. Aqui manda o maior, o mais bonito tem “direito” a tudo e todas. Os fracos “seguem” (i.e. obedecem) os fortes, os feios se limitam a ser zoados para sempre e engolir o choro. Se contentam com as sobras.

Se “menino não chora”, e ele apanha na escola e chora, ele então não é menino? É o que? Se ele não gosta de futebol, como pai e tios, será que ele nunca vai ser homem como o pai? Vai ser o que, então? O que é essa coisa de ser homem? Complicado. Se certas coisas são esperadas de um menino para ser homem e muitas delas fogem do seu controle, como compensar? Sendo mais violento, talvez? Tratando mal as meninas? Ou simplesmente não fazer nada, se fechar em si, e sofrer calado a inadequação. Conversar com o pai, nem pensar!

Não é novidade pra ninguém que o machismo não está apenas em casa e nas escolas – e mesmo que se fosse só nesses dois, já seria problema o suficiente, dada a importância formativa dos mesmos. Está em todos os lugares, na mídia, nas empresas, na rua, na arte, etc. Ele é auto-reforçado a cada vez que aparece se não é imediatamente identificado pelo que é e combatido. Como assim?

Digamos que um homem, vamos chamar ele de Rui, acaba de entrar numa empresa nova, e está tentando se enturmar. O colocam num grupo de Whatsapp (vamos deixar o exemplo bem moderno), e logo começa a receber fotos e vídeos de putaria. Ele deveria falar algo? Que ele é contra esse tipo de coisa? Imagina o estigma. Vai ser taxado de viado logo de cara. “Ser taxado de viado”, inclusive, parece ser o cúmulo da desonra e já é em si uma forma insidiosa de como o machismo molda nossas percepções de gênero.

Pra facilitar o entrosamento Rui agradece e manda algumas outras putarias de volta. De repente um dia, ele recebe umas fotos que parecem ser de uma menina de 14 anos no máximo. Opa, aí já é demais! Fala algo? Não fala nada? O chefe dele foi quem mandou. E aí? Rui fica quieto. Em outro dia, recebe aquelas fotos que “vazaram” da estagiária do andar de cima, confirmando o perfil do facebook dela e tudo. Rui fica quieto, mas não repassa as fotos, não acha legal essas coisas.

Creio que a maioria acharia difícil imaginar que Rui figure entre grande maioria ou a minoria dos homens. Mas não é difícil imaginar que ele seja a média. E a média se cala. E quem cala, como mamãe ensinou, consente. E assim o machismo prospera. Ele prospera no silêncio.

Não repassar as fotos da estagiária é o mínimo. Se calar diante de demonstrações risíveis de machimo (como alguém sugerindo, por qualquer ângulo, que a culpa da estuprada é da roupa que ela usou) é aquém do mínimo, e infelizmente, muitos de nós nos encontramos nessa categoria – a categoria que não fala nada. E dessa forma, não há diálogo, o assunto sequer é discutido. É o elefante na sala. Precisamos falar sobre o elefante.

Me lembro de uma vez, eu estava em uma reunião com pessoas de diversas áreas da empresa, de todas as idades, homens e mulheres, umas 15 pessoas. Até que dado momento, um homem, na casa dos 60 anos, de linguajar meio xulo e comportamento um tanto ogro, começa a descrever um cenário do projeto em questão e solta a seguinte pérola “e quando a minha quenga acessar o sistema […]”. Ahn? Quenga? Todos ficaram calados. E uma mulher, que não consegui identificar, perguntou baixinho, pra si mesma (sem querer iniciar um enfrentamento): “quenga?” estupefata (como o resto de nós) por ele ter usado essa palavra. O constrangimento no ar era quase sólido. De repente ele continua “Ué, não pode falar quenga? Estou falando da minha mulher, é carinhoso, sempre a chamei assim.”. Outra pessoa quebra o gelo com outro assunto, a reunião continuou e o cara calou a boca por alguns minutos percebendo a idiotice, mas certamente saiu da reunião certo de estar cercado de moralistas afrescalhados. Imaginem a educação que esse cara dá pro filho. Imaginem essa mulher, que aceita ser chamada de “quenga”, o machismo que ela ajuda a propagar. E o silência que ficou naquela sala, o silêncio mais significativo que existe. É o silêncio que diz tudo.

“Seja Homem”

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“Seja Homem!”

Parece ser uma terrível escolha de palavras para ser usada especialmente no que chamamos de Semana da Mulher.
Porém, é uma expressão identificável imagino eu, para todo Homem. Que moleque nunca ouviu essa expressão alguma vez na vida? “Seja homem.” E muitos indivíduos, pelo resto da vida, nunca refletem à respeito dessas duas palavras colocadas juntas.

Mas antes de refletirmos sobre o que significa ser homem, é preciso admitir. Ao recebermos ao acaso, o “privilégio” de sermos portadores do sexo masculino, existem experiências as quais nunca passaremos e sentiremos na pele sequer por alguns minutos, o que acaba nos tornando incapazes de protagonizar o importante movimento feminista.
Ainda sim, mesmo sem ser mulher é possível observar a significância desse debate do ponto de vista racional e lógico, duas características também infelizmente sequestradas e estupidamente submetidas ao papel de gênero.

Então vamos lá.
Acredito fortemente que todos nós moleques já ouvimos alguma vez, “Seja homem“, frase que geralmente precede ou uma atrocidade, ou alguma estupidez. Antes de jogar uma pedra num gato, ou antes de “chegar junto” numa menina, ou antes de quebrar uma janela. Apesar de hoje sabermos que a maioria esmagadora de papeis atribuídos a gênero são construções culturais, existe algo a se perceber: O culto ao “homem macho” é profundamente ligada à cultura da dessensibilização. À preservação de características que são essencialmente, ANTI-CIVILIZATÓRIAS.

Convenhamos, não há nada de bom em “Ser homem”, ao menos não em seu significado atual.

“Ser homem” significa ser capaz de reprimir sua empatia e tornar-se insensível para conseguir cometer atitudes invasivas, não só contra mulheres, mas contra outros homens e contra outras formas de vida. Implica em desumanizar, em objetificar e diminuir sua identificação com os indivíduos que o cercam. Ou seja, tentar ser homem é profundamente ligado com tentar ser individualista e tentar ser egoísta.

As palavras são traiçoeiras, e como nos “Ministérios” em “1984” de Orwell, chegam a ter significados opostos. Quanto mais “homem”, quanto mais “macho” você é, maior é a sua capacidade para ser de fato, DESUMANO, ou seja “menos homem” – Homem no sentido de ser humano.

Mas não pára por aí.
Alguns dirão “Ah, mas ser homem significa ser corajoso, ter bravura”, ignorando o fato de ser um tipo de cultura da estupidez e da impulsividade. É possível até ver nas caricaturas disponibilizadas pela cultura pop.
O Herói geralmente é o cara forte, e o vilão é o cara que pensa, o “gênio do mal“, como se pensar, planejar e antecipar fosse algo ruim. Dois coelhos com uma tacada só: Temos uma cultura gritando que o legal, o bacana não só é ser insensívelmente apático, mas também estupidamente impulsivo. Parece até que é a formação proposital de peões suicidas. (Opa, descobrimos o plano!)

Nesse momento, torna-se de extrema importância reforçar que não estamos afirmando essas características como ligadas à gênero. Pelo menos não como natural, mas algo artificialmente dividido entre macho e fêmea.
Mas notem com bastante atenção:
Se formos escrever um manual de instruções de “Como ser um Homem Machão“, e um manual de “Como ser Desumano e Insensível“, ambos vão coincidentemente conter as mesmas instruções.

Se nesse século 21, afirmamos estar buscando sermos mais Civilizados, mais Humanos, não faz o menor sentido a preservação do culto ao Macho, porque seu conteúdo envolve a preservação e celebração das piores características que um ser Social poderia querer preservar. É uma contradição antagônica, não tem como ser mais Macho e mais Humano ao mesmo tempo.

Então, parece não ser possível nesse momento o homem poder lutar no lugar da mulher, não seria possível protagonizar.
Porém, o grande presente que poderia ser dado à elas, é simplesmente parar de querer “Ser homem”, pelo menos até que essas palavras se renovem e assumam uma significância totalmente diferente.

No contexto atual, “Ser homem” é ser insensível, apático, e individualista, e não ter essas caraterísticas como um ser social, que quer participar de um mundo mais Civilizado, é motivo de vergonha, e não de orgulho. Então, vamos mudar isso.