Como a mídia fabrica o terrorismo

Mais um ataque terrorista (aparentemente, nada confirmado ainda) e já observamos a ridiculamente exagerada cobertura da imprensa. Isso me dá um nojo tão grande que resolvi falar um pouco a respeito. Claro que não é apenas com o terrorismo que vemos esse comportamento carniceiro da grande mídia: a espetacularização é a alma do negócio. Tudo que puder ser transformado em show, e se aquilo se traduzir em audiência, tá valendo. E já tem tempo que os artífices da grande mídia aprenderam: violência e tragédias, vendem como água no deserto. É simplesmente irresistível. Mas é mesmo?

Não, não é. Só é pra redes te televisão que se alimentam disso e que precisam disso para vender seus comerciais e novelas. E é fácil identificá-las, observando a rapidez a magnitude com que tratam um evento como esse. Nada é mais importante do que parar toda a programação e mostrar um atentado que matou 70 pessoas na França. A notícia é de fato importante, é chocante, mas precisa de tanto? Precisa parar tudo e falar só nesse único assunto o dia inteiro? Não precisa. E não deveria.

O terrorismo só é terrorismo por causa disso. Eles (os “terroristas”, termo criado obviamente, pela grande mídia) fazem o que fazem por que tem a certeza que vai ter peixe mordendo a isca. Vai ter rede de televisão mundo a fora que vão se comportar como abutres diante de uma carcaça. Vão transformar aquilo num show. Vão correr pra enviar repórteres ao local, colher depoimentos, repetir as mesmas imagens milhares de vezes, convidar especialistas, discutir o assunto. Tudo numa pressa e numa eficiência impressionantes. Tudo a serviço do espetáculo.

No útlimo grande espetáculo midiático da violência, tivemos o massacre na boate LGBT na Flórida. E dessa vez, já foi possível observar, mesmo que ainda muito inspiente, uma revolta da população em relação a cobertura dos fatos. Surgiu um grito nas redes sociais, que clamava algo como “parem de falar do assassino, parem de mostrar a foto dele, falem das vítimas, mostrem fotos deles, eles são maiores e mais importantes que esse único psicopata; o lugar dele é no esquecimento, não no holofote!” Achei fantástica essa reação, pois atinge em cheio o cerne da questão.

Sem palanque, as ações desses psicopatas fanáticos não ecoariam e não teriam o efeito desejado – que é de espalhar o medo e o terror. Claro que não é só a mídia a única responsável por moldar a cultura, e incitar o ódio entre os povos através de esteriótipos ridículos. O cinema faz isso, a música, a arte em geral. Cada um de nós é responsável por alimentar ou frear essas forças que dividem em vez de somar. Mas a mídia tem um lugar especial no inferno, pois ela está todo dia, com aquele ar sério, de imparcialidade, de profissionalismo, nos vendendo distorções ideológicas e alimentando o monstro do ódio. Tudo fantasiado de “jornalismo de qualidade”.

No dia 4 de julho (apenas 11 dias atrás), um ataque terrorista matou 250 pessoas no Iraque. Quatro vezes mais que o de ontem em Nice. E como foi a cobertura? Você lembra? Parou tudo? Ficou dias inteiros falando no assunto? Tiveram cortes na programação com imagens ao vivo do local? Hmmm, acho que não. Por que será? Ah, já sei: “O Iraque é um país islâmico, ou seja, terrorista, então foda-se quem morre por lá”. Por acaso nessas mil conversas com “especialistas” no assunto, é lembrado o fato de que a violência entre Sunitas e Shiitas mata muito mais gente do que a ISIS e a Al Qaeda matam Europeus? Aaahhh, acho que não também. Afinal, deixa esses dois grupos fanáticos se matarem a vontade. O terrorismo “deles” não vende jornal. Em janeiro de 2015, o grupo radical Boko Haram matou aproximadamente 2000 (duas mil!!) pessoas na Nigéria, numa série de massacres, um deles, em uma escola, matando várias crianças. Você deve ter ouvido falar, mas, “parou tudo”? Não parou. A julgar pelo espetáculo em volta de recentes shows-violência, esse do Boko Haram mereceria um mês de programa especial em todas as emissoras. Mas não. Afinal o Boko-Haram não é tão superstar assim como a ISIS, e vidas africanas não valem tanto como uma vida européia ou americana. Em novembro do mesmo ano, o ataque em Paris, que matou pouco menos de 200, parou o mundo e até reuniu Chefes de Estado em uma marcha simbólica.

Terrorismo não é o que a mídia te diz (insistentemente) que é. Terrorismo não é “pessoas com cara de árabe matando pessoas com descendência européia”. Mas isso é martelado ad infinitum pela mídia cada vez que um maluco (ou grupo de malucos) resolve matar um monte de gente (mas só se for na Europa ou EUA, claro). Está sendo martelado na cabeça de todos nesse exato momento, enquanto o mundo acorda chocado com mais uma ação de violência radical.

Ignorar o poder que a mídia tem de fabricar esteriótipos e modelos de ordem global obsoletos é demonstrar profundo desconhecimento da natureza da mente humana. É se colocar num patamar de racionalidade e objetividade utópico. Somos todos, absolutamente todos, sujeitos a sugestão da mídia, da publicidade e de ideologias. Consumimos, achando que estamos tomando decisões puramente racionais, quando na verdade agimos por impulso – alimentado por campanhas massivas de propaganda. Discutimos conceitos que acreditamos ser “nossos” e fonte de estudo, quando na verdade pegamos emprestado (e repetimos sem crítica) do mainstream cultural, da mídia, do cinema, da arte, da sociedade.

Desligue a TV (ou pelo menos, mude de canal; acredite, ainda há jornalismo sério). A exposição prolongada a esses espetáculos de violência te dessensibiliza para os fatos, e os conceitos furados e simplistas que querem vender (que não tem um objetivo, se não o de te tornar cada vez mais ávido por consumir esses espetáculos) se insinuam na sua mente da mesma forma que o desejo de comprar “aquele carro”.

Imprensa: Imparcialidade e Liberdade

cnn_liesComo a um mantra, pessoas tanto dentro quanto fora da indústria entoam repetidamente a respeito da chamada “imparcialidade da imprensa”.

Por anos, considerou-se que o papel do repórter é fornecer as notícias exatamente como elas são, sem injetar o mínimo de personalidade, sentimentos ou opiniões a respeito dos acontecimentos, os quais gostam de chamar rigorosamente de “Fatos”, sem nunca ser perguntado se essa imparcialidade é possível.

Há de se admitir, em teoria a idéia é muito bonita.

Porém, ainda não vimos surgir uma mídia que se contente em apenas exibir os fatos como se fosse uma fria câmera de vigilância: SEMPRE tentam explicar o como você deve interpretar o que está sendo visto, e qual conclusão eles querem que você tenha. As perguntas a serem feitas foram elaboradas e escolhidas a dedo, assim como as imagens a serem exibidas. Todo jornal possui uma linha editorial, sem excessão, da mesma maneira que todos possuem uma opinião a respeito de tudo.

Antes que soe conspiracionista, é bom ressaltar: Não está sendo dito que toda imprensa tem como objetivo a manipulação.
Existe sim a manipulação, mas muitas (talvez mais do que imaginamos) vezes a parcialidade pode ser acidental. Assim como ao olharmos um evento de longe, podemos chegar à conclusão errada, a mídia está sujeita ao mesmo tipo de erro. Não é possível coletar todas informações à respeito de tudo e proclamar um fato como verdade absoluta. Parcialidade é natural, erramos à todo momento e não há nada de errado nisso.
Em muitos lugares do mundo, parece haver uma crise de confiança na imprensa, a qual está perdendo o seu papél de principal canal de informação. E a maior parte de seus erros não está em clamar fatos mentirosos, mas em clamar a imparcialidade. Se fosse colocado que estão sujeitos a erros de interpretação, e que aquilo são opiniões em cima de informações incompletas, o abalo em sua reputação seria muito menor.

Em resumo: A posição mais sincera dos agentes da imprensa, seria em assumir sua completamente sua parcialidade, e deixar ao espectador o papel de chegar à sua própria conclusão! A essência da imparcialidade é essa! Pode levar algum tempo, afinal o exercício de tornar-se um pesquisador, que investiga várias fontes e tem idéias próprias não é praticado há muito tempo por alguns, às vezes pela própria falta de espaço pra essas práticas.

A mídia alternativa não tem o menor problema em assumir essa parcialidade, porém os grandes gigantes pré-históricos continuam a clamar seu trono, dizendo possuir uma capacidade acima dos mortais, de apresentar os fatos sem um pingo de distorção, intencional ou acidental. Para haver diversidade de opiniões (o que é necessário para a boa funcionalidade de qualquer governo controlado pelos próprios cidadãos), faz-s necessária também a pluralidade de canais de informação, algo que só foi proporcionado pela internet nas últimas décadas. Agora um blogger bem articulado em teoria pode competir com um colunista renomado, trazendo desespero a eles de demonstrando com bastante clareza que existem interesses políticos por trás de cada veiculação, os quais a grande imprensa não pode abrir mão para a funcionalidade e manutenção do poder de minorias elitizadas. Não é à tôa que sempre que possível, a internet é descreditada e a mídia alternativa, marginalizada.

Por isso, se o objetivo for realmente maior verdade nas informações, é necessário antes de tudo acabar com a farsa da imparcialidade, e em segundo, utilizar os instrumentos necessários para democratizar a mídia. É necessário regulação para permitir que todos tenham um “Megafone” do mesmo tamanho, afinal quando alguém tem mais capacidade de “gritar”, é ouvido por um maior número de pessoas.

E assim, a sirene vermelha é acesa. Quando alguém fala em regulação de mídia, já gritam “CENSURA” e “ATENTADO À LIBERDADE DE IMPRENSA”!
O grande problema é que a chamada liberdade de imprensa é utilizada como licença para se cometer diversos abusos, assim como a tal da liberdade religiosa.

Regulamentação está longe de ser censura.
Há quem diga que os grandes veículos de comunicação “merecem” ter o tamanho de voz e alcance que tem porque trabalharam duro pra isso.
Porém veja bem: Um brutamontes também trabalhou duro pra ter seus músculos, treinou bastante pra poder bater em qualquer um, porém ele utilizar essa força pra intimidar os outros a fazer o que ele quiser não é chamado de censura, é abuso de poder por interesses próprios.
Vale a mesma regra pra imprensa. A partir do momento que essa “força” está sendo utilizada pra interesses particulares, já não é mais censura.

Concluindo, pode ser considerada falsa qualquer promessa de imparcialidade vinda de uma única fonte.

Para haver imparcialidade real, é necessária a pluraridade vinda de diversas parcialidades assumidas, onde a conclusão dos fatos emerge do próprio espectador.
E isso só é possível com uma mídia democratizada, onde todos tem o direito de reportar e compartilhar seu ponto de vista em pé de igualdade.

Vídeo relacionado:

http://www.youtube.com/watch?v=q6rYOTeptPs

Maioridade Penal e Descriminalização das Drogas (Qual a conexão ?)

250px-Cap_nascimentoAgora que pautas políticas e de gestão da sociedade voltaram a ser amplamente discutidas pela população após essa inspiradora onda de protestos, um dos assuntos mais polêmicos a ser discutido é a respeito da redução da maioridade penal aqui no Brasil.

Por ter uma ampla “aprovação” da sociedade, esse tipo de resolução aterroriza aqueles que anseiam por uma Democracia mais Direta, fazendo estes relutarem na hora de clamar por maior participação da população nos processos de decisão. Para muitos que não concordam com essa proposta, a aprovação massiva ocorre em função da ignorância do povo, o qual por falta de escolaridade ainda não parece pronto para tomar as rédeas do próprio destino.

Porém, existe uma outra explicação para esse impasse: Pura e simples manipulação.

Não se deixem enganar, pois esse posicionamento acontece independente de classe social e formação acadêmica. É triste vermos que idéias brutais assim são aprovadas inclusive por pessoas supostamente consideradas inteligentes, logo devemos aqui descartar a explicação da “ignorância popular.”

Que tipo de manipulação?

Observem o seguinte: Toda a vez que redução da maioridade penal entra em pauta, é previsível a citacão emocional de alguma notícia particular de um crime hediondo. A bola da vez é o trágico caso da Dentista que foi queimada viva. Terror e indignação toma conta das pessoas só de comentar.

Porém, por mais tocante que o caso seja, já perguntaram para aqueles que se utilizam desse exemplo se alguma vez olharam um mísero gráfico em pizza apresentando qual porcentagem esse tipo de caso representa?

Pois bem:

Infracao_menores
(Matérias Completas)

http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?id=1371530&tit=Apenas-3-dos-delitos-cometidos-por-jovens-sao-graves

http://www.ptnosenado.org.br/textos/122-curtas/26544-violencia-cometida-por-jovens-infratores-nao-representa-1-dos-crimes

Se você não gostou da Lei Seca por ela reprender muitos por culpa de poucos, essa proposta torna-se ainda pior, porque destrói permanentemente a vida de jovens.

Nesse hora, como argumentos Sensacionalistas Puramente Emocionais não tem vez contra a Matemática Estatística, o próximo argumento na tentativa de ser levemente mais racional, é outra fábula clássica:

“Punições mais severas desencorajam todas as intenções de crime!”

E não há argumento mais mentiroso.
Existe literatura em abundância demonstrando que leis e punições mais severas não tem efeito sobre a criminalidade. De fato, o último estudo demonstrou que mais de 80% dos infratores sequer pensa sobre a punição antes de cometer um crime.

Não só a ameaça é ineficaz, mas o próprio método. Conforme alguns estudiosos como o Dr. James Gilligan (o qual trabalhou por duas décadas como diretor de saúde mental do Sistema Carcerário de Massachusetts), o nosso sistema de prisão atual na verdade são extremamente eficientes para se criar indivíduos violentos e agressivos. Penas mais severas na verdade tornam as coisas ainda piores, porém a solução é comum entre os políticos por ser mais barata.


A quem interessa o aumento generalizado do número de prisões?

Utilizar casos minoritários para justificar uma ação generalizada é conhecido como falácia da Evidência Anedótica, e é um tanto quanto suspeito. Mas no caso do sistema carcerário, se você é dono ou tem acordos com empresas que vendem segurança, utilizar-se desse tipo de estratégia faz sentido e aumenta a possibilidade da coisa se tornar mais lucrativa.

Notem que geralmente os Partidos Políticos a pautar em excesso sobre Segurança Pública são os de Direita, e não por coincidência mantém relações com empresas de Segurança Privada. A Imprensa também tem uma relação muito estreita com a Direita, e assim não é nenhuma surpresa  os mesmos regurgitarem a todo momento violência sensacionalista para nos deixar aterrorizados e praticamente implorarmos por mais segurança.

E mais segurança iria resolver o problema? Definitivamente NÃO, e nem é essa a intenção. Se o problema da segurança for resolvido, o lucro acaba!

Agora, se mesmo assim você insiste nessas medidas, tentem conversar com seus “representantes” de direita e vejam se interessa pra eles a redução da Maioridade Penal apenas para crimes cruéis/hediondos, e certamente os interesses deles se aqui.

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Onde entram as Drogas nessa história?

Imaginem que de um mês para o outro, tornassem completamente proibida a venda e consumo de cigarros, cerveja, novela, futebol ou video-games. Se você consome algum desses, você simplesmente ia parar porque a lei mandou?

Você não iria tentar importar de outros países?
Se alguém aparecesse num beco ou num camelô vendendo, você não compraria?

Em 1920, tentaram implementar a Lei Seca nos Estados Unidos, proibindo a venda, fabricação e transporte de bebidas alcoólicas.
Sabe quem foram os primeiros a aparecer oferecendo bebida ilegalmente? Os mafiosos.

Pois bem, foi exatamente o que aconteceu com o que consideramos Drogas. A criminalização aconteceu praticamente do dia pra noite, e deu para quem ousou comercializar ilegalmente a oportunidade de criar um monopólio ENORME, e esses passaram a ser chamados de traficantes.

Por ser um número muito pequeno de pessoas comercializando um produto escasso, pôde-se cobrar caro e o negócio tornou-se bilionário, permitindo a esses armarem-se contra a fiscalização do Estado em pé de igualdade. Surge assim, a Guerra contra o Tráfico.

Mas por quê criminalizar as Drogas?

Praticamente todo mundo aprendeu essa resposta quase junto com a alfabetização. A resposta é quase automática: “Drogas causam dependência e destróem a vida das pessoas.”

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Infelizmente, isso não é verdade.

A resposta não vem tão facilmente. Existe uma série de estudos como por exemplo os do Dr. Gabor Maté, demonstrando que substâncias não causam dependência por elas.
Durante a Guerra do Vietnã, 20% dos Veteranos estavam viciados em Heroína. Quando voltaram pra casa, quase todos se recuperaram completamente. Isso indica que foram as situações estressantes do conflito é que os tornaram suscetíveis ao vício.

Sim, as drogas são substâncias Químicas. Mas note que existem vícios muito graves em televisão, jogos, sexo, música, internet, trabalho, esportes, comida, compras, dinheiro, poder, onde os viciados comportam-se exatamente como dependentes químicos, mas não existem substâncias “viciantes”. Logo, não pode ser as substâncias.

Não são as drogas que destroem vidas.
Vícios destroem vidas.

E o que torna as pessoas suscetíveis a vícios?

Tudo o que dizem que “faz parte” da vida. Cotidianos estressantes, negligência paternal, isolamento, pressão, frustração, e por último mas bem menos importante do que imaginam, alguma prédisposição genética.
Enquanto isso, a idéia amplamente divulgada na atualidade é o exato oposto: “Não é a qualidade de vida das pessoas que importa, o problema são as próprias pessoas. Fracas de cabeça, elas querem se auto destruir.”

E essa idéia é bem conveniente para nossos representantes uma vez que se o problema são as pessoas, não há nada nada que se possa fazer a respeito, melhorar a vida da população não iria adiantar em nada. Sob essa ótica, o problema seria perpétuo, insolúvel e lucrativo. A isso se dá o nome de política de criminalização, e pode englobar vários outros setores da sociedade. Notem como outras coisas estão sendo cada vez mais perseguidas, e a solução previsível seria a proibição.

A conexão

Como o aumento dos investimentos na Segurança Pública é lento e freqüentemente insuficiente, é necessário gerenciar com extremo cuidado os recursos nesse setor. Reduzir os gastos com políticas desnecessárias é uma obrigação, e a criminalização das drogas entraria exatamente nessa categoria.

O tráfico de entorpecentes corresponde a mais de 25% não só dos crimes cometidos por menores, mas por todos os infratores. Isso sem contar os outros crimes ocorridos em função de drogas, como o armamento ilegal, furtos, roubos e violência que ocorrem pra sustentar um mercado desnecessariamente ilícito.

Agora, imagine o contrário: Pegar todo o contingente de policiais, investigadores, juízes, advogados, que estão trabalhando contra o tráfico, e realoca-los para os setores que realmente tememos como crimes violentos e coisas do gênero. O aumento do número de agentes trabalhando contra isso seria muito maior do que qualquer aumento de investimento pode proporcionar.

A eficiência no setor aumentaria muito mais, enquanto que simplesmente reduzir a Maioridade Penal causa apenas uma coisa: Uma sobrecarga ainda maior na segurança, e a exigência perpétua de investimentos cada vez maiores em um problema que basicamente não tem reduzido!

Se a política proibicionista atual não tem dado certo, uma intensificação da mesma política também não vai dar!
Precisamos ir em uma outra direção completamente diferente, e a descriminalização das drogas é uma delas.
A não ser, claro, que você esteja buscando vingança e retribuição ao invés de melhora social.

Direitos humanos e a tal inversão de valores

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Depois da recente espetacularização midiática do caso do traficante Matemático, as redes sociais novamente viraram palco para um “debate sadio” sobre um tema eternamente polêmico: os direitos humanos e sua defesa por políticos e instituições.

Ainda me choca (sinceramente, não sei por que) ver pessoas cultas (?) e educadas repetindo a máxima absurda do “bandido bom é bandido morto”. Mas o que mais vem sido questionado, como sempre, é a inversão de valores que supostamente existe na defesa dos direitos, e mais uma frase de efeito surge com bastante frequência – “direitos humanos para humanos direitos”.

Sugiro assistirem a um breve vídeo de 10min que explica a história dos Direitos Humanos e como eles representam um dos maiores avanços que tivemos como civilização.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=uCnIKEOtbfc[/youtube]

Vale a pena também saber quais são esses direitos,  na Declaração Universal assinada por 49 países. Clique aqui para ler, não é grande.

Ao expressarem suas opiniões sugerindo algum tipo de desigualdade de tratamento, esquecem-se de que os “Direitos Humanos” foram criados especificamente para equalizar a garantir direitos fundamentais a todo ser humano, independente de raça, cor, credo, status social ou localização geográfica. “Aonde estão os direitos humanos para a mulher estuprada no ônibus?” dizem alguns para salientar a inversão de valores. Mesmo estando chocado como qualquer um com a brutalidade do crime, não podemos pegar um exemplo e tentar em cima dele traçar uma linha argumentativa, como estão fazendo comparando a morte do traficante com a prisão do “terrorista” em Boston. Uma coisa não tem nada a ver com outra e compartilhar imagens comparativas só mostra a quantidade de tempo e massa encefálica gasta pelas pessoas refletindo e analisando a questão.

Na grande maioria das vezes, quando clamamos por direitos humanos a quem sofreu o crime, em oposição (apelando para a “inversão de valores”) ao criminoso, imaginamos que o primeiro, por ser o lado vitimado é mais merecedor da defesa de seus direitos fundamentais. Isso só pode ter algum sentido se considerarmos totalmente furada toda e qualquer associação entre oportunidades, estratificação social e criminalidade. Abundam estudos que demonstram que quanto maior a estratificação social, maior a criminalidade – e não só de crimes “financeiros” ou contra o patrimônio, mas também crimes violentos. Isso não quer dizer que estão isentos de culpa sobre seus crimes aqueles que se encontram na base da pirâmide em situação de risco, às margens da sociedade. Pobreza não é desculpa para imoralidade.

Mas é nesse ponto que falha a lógica das pessoas ao tentar apelar e distorcer essa simples relação de causalidade, daí o uso descontrolado de contra-exemplos em qualquer debate “minha empregada nasceu na favela mas não é bandida”, “um amigo meu da faculdade nasceu na favela”, “na favela tem mais trabalhador que bandido”, etc. Os estudos mais recentes (procurem no Google por Estudo White Hall) apontam que não é a pobreza (baixo poder aquisitivo) em si a principal causadora da violência e aumento de atividades criminosas, mas sim a estratificação da sociedade, e às diferenças de “tratamento” para cada camada. Não é novidade pra ninguém que existe uma justiça para ricos e uma para pobres, uma saúde para ricos e outra para pobres e obviamente, uma segurança para ricos e outra para pobres. É essa divisão e mais ainda, a sensação dessa divisão, que gera a violência e os crimes. Dessa forma, uma pessoa que nasce nos estratos mais baixos da sociedade já inicia sua vida em situação de risco, não apenas por estar mais “perto” de criminosos ou por que vive em uma área onde o Estado não chega.

Os direitos humanos priorizam essas pessoas – as camadas mais baixas e as minorias – e não estão errados ao fazer isso, não há inversão de valores. Eles devem priorizam quem, então? A classe média? Os ricos? As maiorias? Que já tem saúde, segurança, educação e até justiça privadas?

Quando vemos na mídia um caso de crime bárbaro (espertamente explorado pela mídia) e a ação de instituições de direitos humanos para garantir justiça ao criminoso, ficamos revoltados pois de alguma forma isso fere nosso senso interno de justiça (ou seria vingança?). Queremos mesmo é que ele seja linchado em praça pública, ou no caso de um estupro, que tenha seu pau cortado fora e que seja currado na prisão até sangrar pelos olhos. Ao fazer isso estamos simplesmente pegando um exemplo e querendo cagar regra em cima dele. Pois a mesma instituição que defende direitos humanos para traficantes e assassinos, defende também para ladrões de galinha que muitas vezes são presos sem devido julgamento e apodrecem na cadeia enquanto filhinhos de papai que bêbados matam pessoas ao volante ficam livres contando com “furos” nas leis garantidos por seus caríssimos advogados. É contra esse tipo de absurdo que se batalha a defesa os direitos humanos, que só fazem sentido uma vez que são universais. E sim, universal inclui traficantes e estupradores. E também os “terroristas” que estão presos em Guantánamo.

Entendendo que são universais, que só fazem sentido se forem universais, a sua defesa deve sim ser priorizada àqueles a quem a sociedade classicamente não oferece direito algum: pobres e minorias. Infelizmente é essa priorização que nos dá a impressão de inversão de valores, quando uma pessoa é vítima de um crime violento e as organizações de direitos humanos correm em auxílio do criminoso. E a vítima, como fica? Quem deve garantir a segurança das pessoas é o Estado. Quem deve julgar o crime é a justiça. E quem deve garantir que esse julgamento seja, de fato, justo, sem distorções provenientes de cor, raça, credo, classe social e nível educacional, são os Direitos Humanos Universais. É simples assim.

Ou é assim, ou voltamos à época em que “culpados” por crimes eram julgados pelo humor de um rei ou senhor feudal, e a violência de sua punição variava de acordo com o clamor popular e seu desejo de, naquele dia específico, ver mais ou menos sangue.

Rede de Intrigas (Network-1976)

Bom, já faz um tempo razoável que não escrevo nada.
A vida cotidiana tem roubado cada vez mais de meu tempo e disposição, como se tudo estivesse arquitetado para eu não gastar tempo “pensando nessas besteiras”.
Ao mesmo tempo, quando não escrevo parece que fica uma pedra enegrecida guardada lá dentro, me forçando a dar um jeito de fazer isso com mais frequência.

Pra recomeçar de leve, vou fazer um pseudo-review. Por que pseudo? Talvez porque eu vá gastar mais tempo falando dos efeitos dele em mim, do que propriamente o conteúdo.

O filme em questão é o conhecido “Network” (1976) traduzido como “Rede de Intrigas” (Não confundir com Lies&Illusions-2009), ganhador de 4 Oscars. Bastante famoso na cultura underground, todo mundo que tem o hábito de ver documentários de internet já viu alguma vez trechos desse filme.

A princípio, o “Plot” é simples: O âncora de Televisão Howard Beale (Peter Finch), prestes a ser demitido, por não ter mais nada na vida anuncia no meio do noticiário que cometerá suicídio em rede nacional. A partir daí, começa a revelar os podres que a mídia menos gosta de falar, os dela mesma. Obviamente tentam contê-lo, porém Diana Christensen (Faye Dunaway), uma das cabeças mídia, impressionada pelos altos índices de audiência decide mantê-lo no ar.

Durante a tragetória, o Sr. Beale se transforma no profeta indignado das massas, e vê-se forçado a confrontar forças muito maiores do que imaginava…

O clima de crise apresentado é completamente depressivo, e é demonstrado com clareza a habilidade da mídia em conseguir entalar e vender qualquer idéia, inclusive as indignadas e revolucionárias. O que torna o quadro mais desesperador é ver que após 36 anos, a situação não melhorou, ou pior: O sistema se aperfeiçoou e evoluiu suas ferramentas diante das circunstâncias.

Enfim, se você está “Puto da vida e não aguenta mais” recomendo fortemente ver esse filme de cabo a rabo.

O impacto:

Algo que me ajuda a ser mais tolerante com filmes é sempre que possível me encaixar no contexto histórico e cultural que o filme foi produzido.
E através de “Network” ficou claro pra mim como o final da década de 70 e o metade da década de 80 foi o último suspiro para a contra-cultura dentro da indústria Hollywoodiana.
Era possível ainda ver uma certa diversidade de idéias naquela época.

Após a queda do Muro de Berlim, o cinema Norte-Americano tornou-se uma enorme indústria de propaganda, e no confronto entre Democracia e Socialismo, nós infelizmente ficamos presos pro lado dos perdedores.
Como assim perdedores ?!? A democracia venceu!

Sim, e nós perdemos.
Certa vez, ouvi dizer que na China socialista é proibido passar qualquer filme de viagem no tempo ou realidade alternativa. Justamente para extinguir qualquer idéia de que é possível viver de um jeito diferente. Agora, me diga você de que maneira o “lado de cá” é diferente?

Desde 1989, toda a televisão virou uma demonstração de como a Democracia é linda, maravilhosa e indestrutível. De como o livre-mercado e o neoliberalismo nos trouxe tudo o que é de bom, e que todos os problemas e anomalias que vemos no dia-a-dia, estão nas pessoas de natureza podre, e não na própria raíz do sistema.

Se estivéssemos do lado “vencedor”, poderíamos presenciar uma diversidade ideológica, e não a troca de uma ideologia por outra.

E aí é que bate o desespero.
Aprendemos a associar nossos gostos com o emocional, e nossas escolhas com o racional. Assim, questionamos constantemente a origem de nossas escolhas, mas nunca a de nossos gostos. Aceitamos como parte integral, imutável e incontrolável de nossos seres. Só tem um problema… Nossas escolhas estão profundamente ligadas com o emocional. Nossas escolhas são mais conduzidas por gostos do que por racionalização.

Então, se você nunca se perguntou o porque você “gosta” de certas idéias e repudia outras antes mesmo de pensar a respeito, o momento seria esse. Possívelmente, descobrirá que vai de revisar sua vida toda, e descobrirá sob a optica de quem exatamente, você estava enxergando.
Quando você estiver tentando encaixar os seus “inocentes” desenhos que assistia quando criança, num contexto histórico-cultural, e começar a se perguntar “Meu Deus, que merda fizeram comigo?”, descobrirá que V de Vingança foi um filme light diante da sua própria história.

Acho que é isso. Primeiro assista, depois pergunte pra ONDE foi esse tipo de conteúdo hoje em dia, o COMO ele é olhado pela sociedade, e se pergunte se você quer MAIS desse tipo de idéias circulando.