Ignorantes, idiotas e babacas

capitalismo-e-fila

Antes de começar esse post, já aviso logo, vou ser um pouco babaca – ou talvez apenas idiota. Vocês decidem após a leitura. O fato é que pretendo aqui categorizar pessoas e isso requer algum grau de arrogância e prepotência, características predominantes na idiotice e na babaquice. Mas visto a carapuça sem maiores reservas, pois sei que pego emprestado essa posição com a licença poética que um blog me permite, e também por que eu acho que sou um cara legal (todo mundo acha né?), e isso vocês também podem decidir lendo outras coisas que escrevo aqui ou se me conhecem pessoalmente. Já aviso também, caso o único texto lido meu seja esse, e a licença poética não for ofertada de bom grado pelo leitor, é possível que a impressão fique: “esse Christian é um babaca”. Enfim, esse é o risco que vou correr. Nem Jesus agradou a todos.

Pois bem, vamos ao que interessa. Me proponho aqui a fazer algo que provavelmente que nunca vi escrito de forma sistemática. Ignorante, idiota e babaca são termos usados por todos em alguns (vários) momentos da vida quando queremos xingar alguém ou simplesmente classificar pessoas devido às suas ações e comportamentos. Nada de errado até aqui. Somos humanos, humanos julgam, o tempo todo – com palavras, adjetivos, fazem parte da linguagem e de nosso cotidiano.

Mas quero tentar entender melhor e tentar classificar direito as coisas. Pra quê? Por que sim. (viu? fui idiota).

Claro que vou me focar aqui na civilidade e respeito entre as pessoas pra tentar classificar esses três tipos de pessoas, ou melhor de atitudes, estados de espírito. E não custa salientar que nada disso é genético e ninguém está preso a uma dessas definições do nascimento à morte. Todos nós estamos sujeitos a ignorância, idiotice e babaquice por nossas vidas. O problema está em ficar preso muito tempo numa delas, ou pior, “passar de fase”, de ignorante pra idiota, e de idiota pra babaca.

Os critérios que vou utilizar na classificação são: preocupação com o outro, atenção e intenção. São esses os três ingredientes, que misturados nas devidas proporções, fazem de uma pessoa um gente boa, um imbecil ou um filho da puta. Possivelmente tudo no mesmo dia. Mas vamos voltar aos nossos três termos escolhidos a dedo pra essa análise, pra não perder o rumo.

Imaginem que todas as ações reprováveis, do ponto de vista da civilidade básica, poderia ser dividida entre: ignorância, idiotice e babaquice. Apliquem inicialmente o critério da intenção. Nesse sentido, teríamos claramente uma progressão iniciando no ignorante e terminando no babaca, pois o que ignora, sequer sabe que está fazendo algo errado, enquanto o babaca não só sabe, como o faz por prazer ou sei lá por quais motivações de sua instabilidade emocional. Ou seja, o babaca é um idiota de propósito!

Agora visualizem um gringo, desavisado, turistando por aí. É perfeitamente possível que, por desconhecer algumas das regras de conduta e costumes locais, ele cometa alguma gafe, ou se porte de maneira indevida. A isso classificamos – inicialmente – como ignorância. Uma segunda incidência do mesmo erro já fica estranho, ou um sequência de diferentes gafes também. Invocamos então o outro critério: a atenção. Se o cara vacila o tempo todo, provavelmente é um idiota. Está mais preocupado em tirar foto de tudo que se mexe do que em tentar entender e respeitar as regras de convívio do local onde se encontra.

Os dois critérios, da atenção e da intenção, são misturados com o terceiro, a preocupação com o outro, para podermos determinar uma ação como sendo mera ignorância, idiotice ou babaquice. Nem sempre nos é possível quantificar esses critérios apenas pelas atitudes de pessoas a nossa volta, mas mesmo assim estamos sempre prontos a xingá-los com o termo que achamos mais apropriado. Em outras situações, resta pouca dúvida. Vamos a alguns exemplos:

– ficar parado à esquerda em escadas rolantes – um bom exemplo que torna difícil saber se houve ignorância ou idiotice. Somos levados sempre a pensar no pior caso, especialmente quando estamos com pressa.

– furar fila: no mínimo idiota, mais provavelmente babaca

– proferir a frase “Você sabe quem está falando?”: ultra-babaca

– correr ou andar de bike na contramão em ciclovia: idiota

– estacionar carro na ciclovia: idiota treinando pra ser babaca

– não ceder o lugar aos mais necessitados em transporte público: ignorância, idiotice ou babaquice pura (o próximo parágrafo ajudará a determinar)

– trafegar pelo acostamento: babaca

Uma boa forma de identificar se uma atitude indevida foi fruto de simples ignorância é observar a reação da pessoa ao ser notificada. Se ela se sentir envergonhada e se desculpar, muito provavelmente foi ignorância, mas pode também ser um lapso de pura idiotice, ou até babaquice, se a pessoa se recusar em aceitar o erro. E aqui entra o lance do critério da atenção, que mencionei no exemplo do turista. Ninguém é obrigado a nascer sabendo as regras de civilidade de um dado local. Você as aprende com seus pais e na marra, vivendo em sociedade e descobrindo o que pode e o que não pode, muitas vezes em situações embaraçosas as quais estaremos sempre sujeitos e que precisamos saber como lidar. Se você é educado para ter atenção (ser consciente) e observar a necessidade das pessoas a sua volta (dois critérios consolidados aqui), seus episódios de quebra da civilidade ficarão sempre no reino da ignorância, e estará sempre aberto a aprender com eles. Se a preocupação com o outro estiver em baixa (devido a alguma ideologia que segregue, ou ao impacto de alguma desigualdade, por exemplo) ou a atenção não tá nas melhores (e aqui as causas são muito mais diversas: de problemas de saúde física e mental, pura distração, euforia, tumulto, medo, etc) – dificilmente as regras não escritas da sociedade terão o impacto necessário para que aquela reação de “me desculpe” sincero ocorram, gerando um comportamento idiota.

Nos exemplos acima, eu classifiquei conforme a minha visão de mundo. O ciclista na contramão por exemplo, eu acho que é visto com bastante complacência (ao menos no RJ), pois nunca vi nenhum ser repreendido. Mas não consigo classificar como pura ignorância, pois isso ia requerer uma falta de atenção tamanha (todo mundo vindo na direção dele, e todas as indicações visuais invertidas), que nem uma criança seria desculpada – pra mim já beira a idiotice. Não que a pessoa seja, de fato, um idiota, só por isso. Claro que não. Mas naquele momento, está sendo um, por pura falta de atenção. Atenção essa que, quando muito em falta, pode o levar a atitudes muito mais reprováveis.

Todos podem ser ignorantes sob vários aspectos da civilidade (menos e menos a medida que amadurecem, é claro), e alguns episódios de idiotice são desculpáveis. Babaquice nunca é, nunca. Só pra deixar isso claro, tive que escrever esse testamento. =)

Uma confortável certeza tribal

Era um domingo de sol, mas eu estava longe da praia. Entre uma cerveja e outra ia conversando com a minha avó, senhora que completará 85 anos no próximo 25 de Janeiro. Trocar ideia com ela costuma ser interessante porque há um humor sagaz em seus relatos, a temperar as microviagens no tempo que dão conta das diferenças entre a vida na primeira década do século XXI e nas outras décadas que a antecederam.

Em uma dessas histórias ela pontuou ser uma menina rebelde para os padrões da época, verdadeira contestadora de convenções sociais. Contara o furor que causou no seio familiar quando repentinamente decidiu raspar os pelos da perna. O namoro com meu avô quase se encerrou ali, ao passo que meu (descompensado) bisavô afirmou ser aquela prática coisa de mulher da vida, de prostituta.

moralA grande curiosidade nessa história é que 70 anos depois do episódio a polêmica da penugem ainda vigora, mas com um detalhe diferente: sim, pelos ainda representam um padrão estético. Sim, é possível fazer um uso político dos pelos de seu corpo. O detalhe? Agora a transgressão é ter pelos, atacando a hegemonia estética da beleza dos depilados, que tratam com desfaçatez os peludos, como se estes fossem seres da Idade da Pedra.

Pormenorizando: a massa manteve-se irredutivelmente convicta a respeito da maneira com que os pelos deveriam estar sobre o corpo, relegando hostilidade e crítica aos que fogem do padrão. Só que antes se ridicularizava os que optavam pela moda depilada, e setenta anos mais tarde a pilhéria se destinou aos que deixam seus pelos naturais num certo volume.

Ou seja: antes eram flamenguistas que não toleravam vascaínos. Depois como quem não quer nada a sociedade tornou-se vascaína, e não satisfeita em virar a casaca, passou a odiar o flamenguista, sua posição pretérita.

 

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Já essa semana lembrei de algumas aulas de história do Ensino Médio,  as quais denunciavam que a Igreja tinha uma interpretação desfavorável aos portadores de deficiência durante a Idade Média: suas deformações eram tidas como uma evidência do demônio, de maneira que a regra era ceifar a vida destes exemplares do mal; um verdadeiro controle de qualidade da espécie travestido da moral religiosa.

Tive a recordação dos tempos de escola a partir de um documentário na TV que em certo trecho abordava o caso dos fetos anencefálicos. Ao que consta há um bebê que nasceu com vida e mantém-se assim há quase um ano, a despeito de suas ínfimas perspectivas de desenvolvimento corporal e das recomendações médicas, em virtude da anencefalia. Esse bebê, inclusive, possuía uma grave deformação em seu crânio.

Talvez não tenha ficado claro o elo entre o filme e as aulas. É que o documentário destacado era contra o aborto em qualquer nível, tendo sido mencionado no debate da TV por pessoas conservadoras, detentoras – e propagadoras – de certa moral religiosa.

Não tive paz com a seguinte noção: esses que utilizaram a imagem de um bebê deficiente para hoje defender o seu direito a vida seriam os primeiros a respaldar o assassinato do mesmo há cerca de 300 anos atrás, caso fossem possuidores do mesmo tipo de moral que os caracteriza atualmente. Não uma moral distinta. A mesma moral.

 

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Os insights vem sem forma; tentar dar a eles uma coerência, relacionando-os do jeito exato como se apresentam pra mim, é um desafio.

Os exemplos da depilação e dos bebês com deformidade/deficiência me fazem refletir e questionar bastante quanto aos temas Moral e Convicção.

Em princípio, o que me impressiona é a intolerância às escolhas morais alheias, ao indivíduo ou grupo que não terá a simpatia de outrem simplesmente por ter valorado alguns aspectos da vida pessoal ou em sociedade de maneira distinta dos demais.

certo ou erradoAcredito que essa intolerância seja possível somente se houver o componente da convicção nas escolhas morais de quem se põe a julgar o resto. Se eu escolho azul e você escolhe vermelho, acho que fica claro que devemos nos respeitar apesar da diferença de preferência. Mas se considero o azul melhor, o vermelho pior e que essa distinção é clara e uniforme a todos, vejo a formação de um cenário fértil para a discórdia e impróprio para conciliação, hábito tão caro e decisivo para vivermos bem no arranjo coletivo.

Quando falo em convicção aqui me refiro justamente à reunião desses três fatores: eu estou certo, os outros estão errados e meu modelo é o melhor para todos. Repare que estes três componentes estão numa ordem de dificuldade de realização; se é árduo chegar à conclusão que estou certo sobre determinada escolha, é ainda mais árduo concluir que os outros estão errados. Contudo, é preciso se esforçar incomensuravelmente para chegar, por via da razão, ao ponto mais crucial dos debates morais: a minha escolha é a melhor para todos.

Sinta como é quase impossível chegar racionalmente a essa conclusão, qualquer que seja o assunto. São inúmeras as escolhas morais que não sobrevivem no tempo, conforme descrito acima. Elas morrem junto com aqueles que tanto a alimentam. Agora, como entender que as gerações se renovam, porém sem deixar de reproduzir uma série de conflitos morais, decretando a primazia de uma forma de ser e viver em detrimento de outra? Porque não aprendemos com o passado?

 

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Ao procurar respostas sobre essa controvérsia encontrei diversas fontes citando o mesmo estudo, que coincidentemente ou não foi capaz de oferecer uma visão convincente para os inesgotáveis dilemas morais que nos cercam.

O psicólogo Joshua Greene, que comanda o Laboratório de Cognição Moral de Harvard, publicou em 2013 o livro Moral Tribes (“Tribos Morais”, tradução livre haha). Apesar de ainda não ter lido a obra, já me deparei tantas vezes com as ideias centrais do autor ao longo das pesquisas que não vejo mal em apresentá-las sinteticamente, de acordo com a resenha feita por bons sites (destaco aqui e aqui).  Vamos lá.

– O livro pretende abordar a moral através da interseção entre a filosofia, a psicologia e as neurociências. De pronto ele ilustra que o cérebro sofre processos neurais distintos para cada situação do Problema de Trolley, um clássico dilema moral que transcrevo abaixo:

  “Imagine que se encontra numa estação ferroviária e, subitamente, repara que um vagão está descontrolado, com cinco pessoas lá dentro, as quais irão certamente morrer a não ser que você puxe uma determinada alavanca que desvie o vagão em causa para uma outra linha, na qual se encontra outra pessoa a qual, se a alavanca for puxada, irá, por seu turno, morrer. O que faria? Puxaria a alavanca?

 Agora imagine um outro cenário e suponha que pode evitar as cinco mortes não puxando uma alavanca, mas empurrando um homem muito gordo para a linha em causa, na qual o seu corpo volumoso irá travar a velocidade do vagão descontrolado, salvando as cinco pessoas, mas e obviamente, condenando o homem gordo à morte. Empurraria o homem”?

moral tribePois bem. As pesquisas mostram que a maioria das pessoas desviaria o trem na primeira ocasião, mas não empurraria o homem para a morte na segunda ocasião. Ainda, revelam que no primeiro cenário a parte do cérebro ativada relaciona-se à atividade racional, enquanto no segundo exemplo o cérebro fez-se mais intenso na parte atrelada à atividade emocional.

E o que explica isso?

  “Para Greene, a diferença nas respostas aos dois dilemas pode ser explicada pela seleção natural. Durante milhares de anos da nossa evolução, os seres humanos que matavam outros friamente atraíam violência para si próprios: eram logo mortos pelo grupo, gerando menos descendentes. Já aqueles que conseguiam se segurar conquistavam amigos e proteção, transmitindo seus genes para o futuro. Assim, ao longo dos milênios, criamos instintos sociais que nos refreiam na hora de matar alguém. Acontece que, na maior parte do tempo da nossa evolução, vivemos em cavernas e com lanças na mão, e não operando máquinas, botões ou alavancas. Isso faz com que nossos instintos sociais não relacionem o ato de apertar um botão ou puxar uma alavanca com o de jogar alguém para a morte – é por esse motivo que, para Joshua Greene, tanta gente mudaria a alavanca na situação anterior, mas não executaria o homem neste segundo dilema. “Os instintos sociais refletem o ambiente nos quais eles evoluíram, não o ambiente moderno”, afirma o cientista”.

– Greene elenca outros exemplos de como a fatores emocionais são capazes de influenciar nas escolhas morais. O nome do livro (Tribos Morais) assim se explica:

 “Ele defende que os nossos cérebros foram concebidos para a vida tribal, para conviver com um grupo selecionado de pessoas (Nós) e para lutar contra todos os outros (Eles). Todavia, a vida moderna obrigou as diferentes tribos do mundo a partilharem um espaço comum crescentemente exíguo, criando conflitos de interesse e confrontos em torno de sistemas de valores distintos, em conjunto com oportunidades sem precedentes. À medida que o mundo fica menor para tanta gente – afinal somos já mais de sete bilhões de humanos – as linhas morais que nos dividem tornam-se mais evidentes e, em simultâneo, mais confusas. E é por isso que lutamos por tudo e por nada, seja por causa dos impostos ou do aquecimento global, o que nos obriga a questionar se será possível, um dia, partilharmos um consenso ou um denominador comum universal”.

– Retrata o funcionamento cerebral da seguinte maneira:

 “O autor compara o cérebro humano a uma câmara digital “dual mode”, com características automáticas (“retrato”, “paisagem”, etc.), mas que também funciona em “modo manual”. As definições “aponta e dispara” são as nossas emoções, programas automatizados e eficientes, aprimorados pela evolução, pela cultura e pela experiência pessoal. Já o “modo manual” do nosso cérebro consiste na sua capacidade de raciocinar de forma consciente, o que faz com que o nosso pensamento seja flexível.  

 Greene defende assim que as nossas emoções nos transformam em animais sociais, substituindo o “Eu” pelo “Nós”, mas que também nos podem transformar em animais tribais, o que resulta no “Nós” contra “Eles”. Adicionalmente, as nossas emoções tribais obrigam-nos a lutar, por vezes com bombas, outras vezes com palavras e, muitas vezes ainda em confrontos de vida ou de morte”.

 – Em síntese, temos que:

 “o diagnóstico de Greene é, fundamentalmente, darwiniano: os impulsos e inclinações que moldam o discurso moral constituem legados da seleção natural e estão enraizados nos nossos genes. Especificamente, muitos deles continuam a estar presentes em nós devido ao fato de terem ajudado os nossos antepassados a perceber os benefícios da cooperação. E, como resultado, as pessoas “safam-se” muito bem a viverem em conjunto umas com as outras e a apoiar as regras éticas básicas que mantêm as sociedades “na ordem”.

 

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Encontrei certo conforto no diagnóstico de Greene. Francamente estava desistindo de ingressar em debates onde as óticas morais são versadas. Na grande parte das ocasiões em que isso acontecia, a triste sequência vinha à tona: roupagem racional nas propostas antecedendo uma defesa passional, descontrolada e desarrazoada dos pontos de vista.

Encontro isso em larga escala PRINCIPALMENTE nos debates Esquerda vs. Direita. O que mais acontece é um dos lados se promover como se tivesse o monopólio das virtudes, condenando o pensar do adversário desde a essência. Daí mesmo se extrai uma incoerência: porque raios alguém se dispõe a debater com quem tem as ideias as quais reputa condenáveis em essência?

obrigado por fumarNão vejo interesse de troca, vejo tentativas desesperadas de convencimento, mas como uma espécie de aviso da própria supremacia. Como se fosse possível determinar a priori que o capitalismo é bom e o socialismo é ruim, ou vice-versa. Insano.

Greene propõe que um debate moral saudável se pauta por medição das consequências das escolhas existentes. Fugir do maniqueísmo de bom e ruim e partir pra análise de causas e efeitos. O cientista acredita que nesse segundo domínio, a razão seria menos importunada pela emoção, alcançando acordos morais mais razoáveis.

Nada garante a eficiência desse pensamento, apesar de sua convincência. Afinal, quem é emocional não é um método moral ou outro, mas sim o homem.

Mas a fundamental descoberta, a meu ver, toca à origem da convicção. Aquela grande dificuldade relatada acima, de concluir que a sua verdade não só é a melhor pra si como deve ser imposta aos demais, é atingida a todo momento em debates, supostamente pela via racional.

Contudo, Greene vem pra chutar o balde: tais convicções morais, que se pretendem absolutas/hegemônicas, tem sua origem em um primitivo senso de grupo do ser humano, na vontade de pertencer, de se identificar e de excluir o elemento estranho, sendo muito pouco pautada na força das ideias em si consideradas.

 

 

Ser contra (a corrupção) não basta

Outro dia, eu estava assistindo à uma entrevista no Jô, com um desses padres pop (sem ser o Marcelo Rossi), não por que me interessei pela entrevista, mas pelo título do vídeo que cativou minha atenção – era algo como “Jô humilha padre Fulano”. Não houve tal humilhação, naturalmente uma palavra exagerada, mas aconteceu sim uma situação um tanto constrangedora para o padre e para sua banda que o acompanhava. Quando a câmera focou na banda, percebia-se que estavam todos usando a mesma camiseta, que tinham os dizeres “Todos contra a pedofilia”. De repente, corta de volta para o Jô, que, com sarcasmo ácido e sem a menor cerimônia, dispara “Como assim, contra a pedofilia? Por acaso alguém é a favor? Essa campanha não faz o menor sentido […]” e depois continua a esculhambar a campanha, que realmente é bastante idiota e aproveita para alfinetar o padre sobre acusações de pedofilia na igreja.

Bom, naturalmente esse post não é sobre a igreja, nem sobre  a pedofilia, mas sobre ser contra alguma coisa, qualquer coisa. Como o Jô bem apontou no caso supracitado, ser meramente contra a pedofilia e nada é basicamente a mesma coisa, pois a alternativa, nesse caso, é inimaginável – ou seja, alguém que apóia e promove a prática. Precisamos entender nesse caso, que a pedofilia é uma prática que fere profundamente a ética vigente da grande maioria das civilizações que compõe nosso mundo, e que a ciência já a reconhece como fruto de um distúrbio mental por parte dos pedófilos. Isso já é bem suficiente pra estabelecer que é uma coisa indesejada. Seria igualmente idiota alguém lançar uma campanha contra o homicídio.

Pretendo agora propor uma reflexão a respeito do novo movimento popular contra a corrupção. É visível que cada vez mais as pessoas passam a ter a corrupção no Brasil como algo inaceitável que deve ser combatida a todo custo. É cada vez mais claro que o fato de existirem políticos corruptos, que desviam dinheiro público, é uma das principais causas para a desigualdade social no país, bem como nosso atraso de desenvolvimento. Por isso, tantos saem as ruas empunhando faixas contra a impunidade e à corrupção generalizada.

Mas de que adianta ser contra se as pessoas sequer sabem de que estão reclamando? Será que aquelas multidões (sic) reunidas em praças, com gritos de guerra, sabem o que é a corrupção? De verdade? Como alguém pode sair por aí gritando ser contra algo quando sequer compreende aquilo que está combatendo? É energia desperdiçada, na minha humilde opinião.

O que é, então, a corrupção? Antes de mais nada, é um fenômeno. Assim como a chuva ou o vento, com a diferença que esses dois últimos são fenômenos naturais,  inevitáveis, produzidos por uma miríade de micro-eventos climáticos dos quais possuímos pouquíssimo entendimento e nenhum controle.

O que significa dizer que a corrupção é um fenômeno? Em poucas palavras, significa que ela é consequência e não causa. É um sintoma do sistema no qual ela ocorre. Se em determinada instituição ou estrutura de poder se encontram os elementos necessários para o aparecimento da corrupção, ela vai surgir, assim como um bolo cresce sempre que você coloca fermento. Que elementos seriam esses? Vamos listar alguns:

  1. Classe ou força produtiva (maioria/não dominante) com baixo nível de instrução
  2. Hierarquia pouco (ou nada) representativa
  3. Isolamento físico entre os elementos da hierarquia
  4. Burocracia
  5. Impunidade / justiça complexa e lenta
  6. Desigualdade de acesso a recursos

Há outros, naturalmente, mas com esses ingredientes aí já se faz um belo banquete de infâmia. Faltou mencionar um ali, mas acho que esse, de certa forma, também é mais efeito que causa – a imoralidade. Não existe corrupção sem esse elemento catalizador, a cereja do bolo. A imoralidade é como uma molécula livre que ao encontrar com os elementos acima, se combina para formar o que chamamos de corrupção – ou seja, pessoas se aproveitando das “falhas do sistema” para levar vantagem, em detrimento dos menos favorecidos.

Como se combate um fenômeno? Simples, não se combate. Você pode praguejar o quanto quiser contra a chuva, que ela vai sempre ocorrer quando tiver que ocorrer – ou seja, quando o sistema atingir o estado na qual ela seja necessária e/ou inevitável. Da mesma forma, não adianta reclamar e “ser contra” a corrupção, pois ela acontece de forma “natural” em sistemas que possuam seus elementos constituintes. Não se combate um fenômeno, e sim suas causas e correlações, que são coisas que compreendemos melhor e sobre as quais mais provavelmente teremos poder de ação.

Nesse momento, imagino que você tenha retrocedido um pouco na leitura para ler mais uma vez a listinha. E imagino também que você ficou um pouco frustrado com o que leu. Em alguns dos itens ali, podemos nos esforçar para mudar com as ferramentas que temos, ou seja “por dentro do sistema”: investigações, CPIs, leis, revisão de processos, mais controle, etc. Mas tudo isso sem levar em consideração o primeiro item? De que adianta? Se o povo continuar ignorante, vão continuar elegendo políticos mal-intencionados, que sempre vão inventar novas e criativas maneiras de roubar nosso dinheiro. A hierarquia e a burocracia garantem que uma vez eleitos, tais políticos se isolem e fiquem totalmente alheios e distantes do povo que os elegeu e passe a enxergá-los como meros votos.

O que fazer então? Certamente a corrupção é uma coisa nociva e que deve ser combatida. É evidente que devemos ser todos contra a corrupção. Sim, claro. Mas da mesma forma que dizer que ser contra a pedofilia é a mesma coisa que nada, algo análogo ocorre com a corrupção. Precisamos entender bem o que é a corrupção, como ela surge e se estabelece, não para combatê-la, mas para que lutemos por mudanças que a tornem impossível, ou melhor, irrelevante.

A imoralidade, que muitos acreditam ser uma característica inata do ser humano, pode ser reduzida e até extinta em uma sociedade igualitária, onde uma pessoa ter vantagem financeira sobre outra não tenha sentido algum. Em um sistema onde a burocracia praticamente não existe, onde os processos são todos automatizados, sem intervenção humana, o nível de controle e a margem de erros atinge níveis onde a corrupção se torna algo praticamente impossível e pouco atrativa.

É como uma doença. Você pode tratar os sintomas, pode tomar analgésicos e anti-inflamatórios. Mas enquanto não descobrir o que de fato está causando aquilo, nunca vai ficar curado. Ainda nessa analogia, a corrupção seria como um câncer. Sabemos identificá-la, mas ainda não conhecemos em profundidade as causas para a mesma, e somos incapazes de prever (e evitar) seu surgimento. Mas existe uma diferença fundamental nessa analogia. No caso do câncer, nosso corpo é o sistema, não podemos transformá-lo. Mas o sistema (sócio-político-econômico) que tornou a corrupção possível é uma criação humana. Nada nos impede de modificá-lo ou até de criar um completamente novo.

Portanto, ao invés de sairmos por aí gritando que somos contra isso, ou contra aquilo, devemos estudar o alvo de nossos protestos, conhecer as soluções existentes (quando não as houver, criá-las) e fazer o que puder para apoiá-las e torná-las realidade.

É importante ressaltar também, que apesar de eu ter focado na corrupção de políticos para embasar meus argumentos, não é só no governo que existe corrupção e isso é bem óbvio – mas nunca é demais reforçar. Podemos encontrar corrupção em qualquer lugar: em pequenas e grandes empresas, em restaurantes, hospitais, times de futebol, bandas de rock – até em famílias e grupos de amigos. A diferença que faz a corrupção no governo ser considerada “a grande vilã” é o fato de que estão lidando com o dinheiro de toda a população, alteram o futuro de uma nação inteira, e os valores são astronômicos. Além do fato de que a impunidade é praticamente uma regra e sempre que vemos explodir um caso de má conduta na administração de recursos, um pensamento automático surge repetindo “não vai dar em nada!”. Realmente, se não tivermos conhecimento sobre as reais causas do problema e não fizermos esforço algum para mudar todo o sistema que suporta tais práticas e a incapacidade de punir os malfeitores, nada vai mudar mesmo. Independente de quantas pessoas tivermos gritando e empunhando faixas.