Moda – o ladro negro das tendências

kim-kardashian-champagne-glass-butt-paper-magazineQuando você pensa na palavra “tendência”, o que lhe vem a cabeça, quase de imediato? Deixa eu tentar adivinhar: moda. Acertei? Acho que sim.

Essa palavra, que cada vez mais faz parte do léxico que até pouco tempo era apenas reservada aos estratos mais altos da sociedade, agora está, definitivamente, na “boca do povo” – e isso não é acidental.
Eu estava voltando de viagem, e ainda na rodovia, na entrada da minha cidade, passei por algo que me parecia como atacado de moda (onde provavelmente a maioria das lojas que atendem aos estratos mais baixos repõe seus estoques). Um grande cartaz dizia “Tendências? Aqui tem”.

Fiquei pensando com meus botões (apesar de que no momento, tenho certeza estar de camiseta), como é que pode, que pessoas que vivem com tão pouco, que precisam de tanto, possam se preocupar com o que quer que seja a tendência da moda no momento?

Alguém poderia pensar que estou agindo com enorme preconceito de classe, como se vestir-se bem e se “sentir na moda” fosse exclusividade dos mais ricos. Preconceito de classe nenhum, mas em relação a exclusividade, antes fosse. O dano seria infinitamente menor.

Se você ainda não assistiu ao documentário The True Cost, recomendo que o faça. Eu sempre tive enormes reservas com a indústria da moda, tanto pelo seu impacto negativo no inconsciente coletivo, criando padrões de beleza irreais, como, mais recentemente, por estar cada vez mais mirando mais longe, atingindo a todos, cada vez mais jovens, cada vez mais pobres. E esse documentário só serviu pra cimentar meu profundo desprezo por essa indústria por mais um motivo: o impacto negativo no sustentabilidade do planeta e no mercado global.

Uma coisa que o filme me fez parar pra pensar foi no fato de que uma coisa que mudou bastante recentemente no mundo da moda é que não temos mais os famosos desfiles de coleção, baseado em estações. Eram mega-eventos, nas capitais da moda, Milão, Paris e Nova York. Não existe mais isso por que as tais coleções simplesmente não duram mais uma estação inteira. Temos agora desfiles o ano todo e novas coleções (e “tendências”) a cada duas semanas, ou menos. E isso coloca uma pressão enorme em toda a indústria, do estilista aos funcionários extremamente mal pagos que irão fabricar as roupas – pois num mercado globalizado, o custo é o que mais importa, e se um país asiático emergente consegue fabricar as mesmas roupas e se adaptar mais rapidamente às mudanças de coleção por alguns centavos a menos por peça, por que não mudar toda a produção para lá? Uma competição nesse nível, leva a condições de trabalho inaceitáveis para a grande maioria do “mundo desenvolvido”. Não é nenhuma surpresa que 90% da “moda” do mundo seja fabricada em países pobres como Vietnam, Bangladesh e Taiwan.

E o mercado das tais “tendências” age rápido para fabricar esses novos padrões, o tempo todo. Afinal, o que são “tendências”, na moda? Basicamente, damos o poder a algumas pessoas, “formadoras de opinião”, ou simplesmente, “bonitas e estilosas” – de nos dizer como devemos nos vestir e nos comportar. Vou repetir para ficar mais claro: nós é que lhes damos esse poder. Se você já ouviu o nome Kardashian e sabe de quem se trata, isso se deve a um único motivo: a capacidade que elas tem de criar e vender tendências. E fazem isso de forma tão esperta, que faz parecer que aquilo tudo é natural, que são apenas pessoas ricas e bonitas vivendo suas vidas “com estilo” e sendo filmadas e fotografadas o tempo todo.

E agora, as tais “tendências”, atingem a quase todas as classes sociais, e miram também cada vez mais jovens, crianças, o que coloca ainda mais pressão no sistema. O monstro da obsolescência planejada pegou uma carona em um dos seus mais potentes catalizadores. Pensem na quantidade absurda de roupas que são simplesmente descartadas e jogadas no lixo por conta dessa obsessão em “estar na moda” e mudar o estilo conforme mandam os ícones da tendência, cada vez mais rápido e com motivações mais fúteis?

Mas e o tamanho do problema? É grande, é enorme. Aproximadamente 40 milhões de pessoas estão empregadas hoje em dia no mercado de roupas, que atualmente é um dos principais motores para a desigualdade. Basta estar minimamente atento ao noticiário, quase sempre que se relata mais um escândalo de trabalho análogo ao escravo ou de condições de trabalho absurdas, é de roupas ou calçados – de algum lugar na América Latina ou Ásia (nunca em Londres, Paris ou Chicago).

Como eu falei lá logo no primeiro parágrafo, nada disso é acidental. Roupas “baratas”, moda “acessível”, “tendências, aqui tem”. A causa raiz disso tudo é conhecida de todos nós, o incansável estímulo ao consumo. Precisamos consumir cada vez mais, apenas para manter a roda do capitalismo girando. Não é possível sequer “estacionar” o nível de consumo pois isso levaria todo sistema a um colapso. E tudo isso tem um custo enorme, para o planeta e para a vida de milhões de pessoas, mas nada disso você vê nas lindas lojas, estilo Forever 21, que só vendem estilo com muita luz e perfume.

Minha ideia pra combater o consumismo

Há uns nove meses atrás, eu escrevi aqui no blog sobre uma nova ferramenta que eu havia desenvolvido, após uma tentativa frustrada de desenvolver um site. Como geralmente acontece com essas coisas, a “finalização” da ferramenta deixou um vazio, por que agora eu estava empolgado com programação e a vontade de fazer um site não tinha morrido.

Vou ser sincero. Não faço a mínima de como me veio a ideia de fazer o site sobre o qual vou falar aqui nesse post. Começamos eu e meu irmão, Pierre, a desenvolvê-lo a aproximadamente cinco meses atrás. Eu sei que queria fazer alguma coisa relacionada a interface de mapa (naturalmente puxando o gancho do Xumb) só não sabia exatamente o quê.

Então um dia pensei: que tal se existe um site que permitisse as pessoas doar coisas umas pras outras, tendo o mapa como apoio para que elas possam ver o que tem disponível e o melhor, exatamente aonde está, entre outros detalhes como categoria, estado, etc. No início a ideia foi apenas fazer um site com mapa, qualquer coisa – mas ao mesmo tempo, tinha que ter significado, algo que fosse importante pra mim. Em algum momento veio a ideia das doações e ai a coisa foi tomando corpo e me empolgando cada vez mais pra fazer. Meu irmão aceitou o desafio e começamos a colocar a mão na massa.

Conheçam o Interessa.org, um site que ajuda pessoas que querem doar algo mas não sabem para quem. Você já deve ter passado por essa situação antes – se bobear tem nesse momento uma sacola cheia de roupas, ou brinquedos velhos do seu filho em algum canto esperando o momento e a pessoa certa. Agora tem um site pra ajudar você a encontrar essa pessoa, que fará bom uso daquilo que pra você não serve mais.

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E como que entra o consumismo nessa ideia? É simples. Doar deveria ser uma ação muito mais frequente do que é hoje. Mas não no sentido de caridade – um foco maior no desapego e economia alternativa. Deveríamos estar constantemente “nos livrando” daquilo que não usamos mais, para exercitar esse desapego e para abrir nossos olhos para nosso próprio consumismo. Quanto mais você doa, mais você percebe a quantidade de coisas inúteis que tem em casa. Coisas que comprou por puro impulso, as vezes nunca usou. Mas a coisa não é inútil em si. Pode haver (aliás, com certeza há, aposto nisso) por aí muita gente interessadíssima naquilo que você deixa no fundo de uma gaveta acumulando pó.

O site aparece como um facilitador de contato entre quem quer doar e quem está interessado, numa interface de mapa onde podem ser aplicados filtros e visualizado de forma simples o que tem mais perto de você. Instituições podem se cadastrar também, e é possível monitorar aquilo que está sendo cadastrado, por categorias e distância. Assim, por exemplo, você pode dizer que tudo que é brinquedo usado até no máximo 5km de distância te interessa e você será avisado sempre que um aparecer. Molezinha.

Claro que o tema do abuso já passou pela minha cabeça. Sempre haverão os mal intencionados que se aproveitarão da interface fácil pra sair pedindo tudo, ou pior, se aproveitar da bondade alheia em maneiras inimagináveis. Mas é assim com tudo na vida, com telefone, televisão, internet, etc – e isso não pode impedir que novas ferramentas e novas formas de comunicação surjam pra melhorar a vida de todos e colaborar pra espantar alguns dos grandes fantasmas da nossa sociedade capitalista: o consumismo, a obsolescência planejada e o desperdício.