Quando sua Opinião não vale Nada

anedotaJá faz algum tempo que tenho evitado participar de reuniões de familia, de amigos dos meus pais, e de pais de meus amigos. Ao mesmo, também tenho evitado cada vez mais participar de discussões inflamadas em comentários de redes sociais, e minhas listas de contatos vão diminuindo cada vez mais.

Quando isso fica evidente, duas acusações vem logo em seguida:
A primeira, diz que estou me isolando.
A segunda, que sou uma pessoa intolerante, que não sabe conviver com opiniões diversificadas.

E em minha defesa, gostaria de dizer… que não tenho uma boa defesa.
Acabar mais isolado é uma triste consequência, e a diversidade de opiniões se reduz absurdamente quando você demanda um padrão. E nesse sentido não há como negar, muita gente, MUITA gente, mesmo os que se consideram superiores por ter diploma superior, não fazem idéia de como se deve correr um debate.

Para um debate de fato ocorrer, existe uma série de regras a serem seguidas e respeitadas, para que falácias não sejam cometidas e os argumentos sejam válidos.

Nessa hora, é que venho falar sobre a imagem da capa.
Tive o desprazer de topar com ela em diversas comunidades das quais faço parte, todas as vezes com centenas de comentários e discussões intermináveis, e não tem jeito gentil de dizer isso: Pra um bando de gente formada e metida a culta, estão todos dando vergonha.

Tudo virou apenas a “Minha anedota” contra a “Sua anedota” jogando no lixo tudo o era pra terem aprendido sobre como conduzir estudos e como defender suas teses. Reduz-se a questão a duas historinhas particulares pra competir entre elas, e quem gritar mais alto torna-se o dono da verdade.
Imaginem alguém que tem um trabalho de faculdade pra entregar, e na hora de fazer sua defesa, a pessoa vem com uma entrevista, um caso, uma amostra. Exatamente aquela que confirma a tese. Parece ridículo, mas é o que estão fazendo, o tempo todo.
É o tipo de competição que exceto se você for um ególatra, não se sente enrriquecido ao final do dia, apenas exausto.

Como deveria se dar um debate no mundo dos adultos?
Bom, existe uma lista de falácias lógicas as quais não se devem cometer, e a lista delas é fácil de encontrar.
O Espantalho, a Evidência Anedótica,  a Ladeira Escorregadia, todos conhecem.
O que não é muito falado, é o que um “bom” debate deve conter, talvez por aparentar ser meio óbvio. Um debate deve conter MUITA informação. E você não precisa reinventar a roda pra isso: Informação pode ser condensada e compactada através de estudos e estatísticas.

A idéia de um bom debate, é justamente evitar opiniões singulares!
Opiniões não dão conta de um mundo complexo como o nosso, não valem muito.
São amostras muito pequenas.

Algo deu muito errado em algum momento, e desenvolvemos essa super-valorização da “Opinião”, como se fosse um direito sagrado que deve ser respeitado por todos. Mas não é por aí.
Todo mundo tem direito à opinião? Sim.
Toda opinião vale alguma coisa? Não.
Algumas opiniões vale mais do que outras? Certamente.

Uma coisa, é você dizer que racismo não existe porque na sua empresa tem um cara negro que recebe igual todo mundo, ou que o filho dele não é vitimista e não quis se beneficiar com o sistema de cotas.
Outra coisa, é dizer que houve um Censo Realizado em 2010 pelo IBGE demonstrando que o rendimento médio recebido pelos brancos correspondem ao dobro dos pagos aos pretos, e que Ipea demonstrou que em Alagoas morrem 17 negros pra cada 1 pessoa de outra cor.

Contra dados, o únicos argumentos são mais dados.

É preciso entender que se uma opinião precisa exigir respeito, é porque provavelmente ela não se sustenta por ela mesma através da base lógica.

Parafraseando George Carlin… “Se você é tem a opinião que precisamos respeitar todas opiniões, então minha opinião é que não preciso respeitar sua opinião”.

Vamos começar a honrar o que temos entre as orelhas, pessoal.
Toda vez que formos escrever algo na internet, vamos fingir que é um TCC.
Defendam os argumentos com a apresentação dados.

Quanto às reuniões familiares… Bom, não tem lógica que possamos apresentar, por mais convincentes que sejam, pra pessoas que valorizam mais a intensidade de uma convicção, do que a lógica.

Então sinto muito, mas você começa ou termina alguma conversa com “Essa é minha opinião, respeite”, provavelmente ainda não tem maturidade para debater…

Por que é tão difícil derrubar um político?

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Enquanto a população brasileira assiste impotente aos mandos e desmandos de Cunha no congresso, suas manobras pra atrapalhar tudo que pesa contra ele, alternamos sentimentos da mais pura revolta e de estupefação. Quando parece que “dessa vez vai”, o cara manda uma outra manobra e parece que sai fortalecido após cada ataque. Como pode?

“Como pode?” é uma pergunta que imagino que muitos brasileiros se fazem, cada vez com mais frequência, cada vez que o nome desse cara aparece na mídia, por que no fundo, esperam que a próxima vez que vissem seria “Cunha sofre a primeira derrota”. Mas nunca é. Como pode? O que faz desse cara tão protegido? Como pode se livrar assim de todas as acusações que pesam sobre ele? É difícil responder em termos práticos e concretos, ou seja, exatamente quem (e como) o está protegendo. Mas em termos mais gerais, não é nenhuma surpresa.

O jogo político é esse, sempre foi. Você me ajuda hoje, eu te ajudo amanhã. Sua empresa emprega meu filho, que eu ajudo a vetar aquela lei que aumenta a fiscalização do que quer que sua empresa faça. E tem muita parte dessas coisas, que sob um olhar ético são evidentemente repreensíveis, do ponto de vista legal são perfeitamente normais, como o financiamento privado de campanhas: o conflito de interesses oficializado.

A verdade dura e difícil de engolir é que Cunha é apenas a ponta do iceberg. É bom lembrar que ele foi democraticamente eleito por seus pares, colegas deputados. Ele não virou o babaca que ele é apenas quando assumiu o cargo de presidente, ele sempre foi – o histórico dele comprova isso. Quem votou nele, conhece bem. E das duas uma, ou tem rabo preso em alguma negociata ou jogo de interesses, ou meramente divide com ele posições ideológicas. Vamos ser bonzinhos e considerar que é metade em cada caso.

Outro problema é a quantidade enorme de burocracia e “regras especiais” que protegem todas as esferas do governo nesse país, regras essas que são uma vergonha internacional. Juízes são considerados intocáveis, nunca são julgados ou presos não importa a gravidade do crime. Deputados e senadores gozam de foro privilegiado e imunidade parlamentar, o que lhes garante uma “justiça especial”, ou seja, são julgados pelos seus pares. E seus pares, vamos combinar, não são flor que se cheire. Temos nesse momento um dos piores e mais conservadores congressos da história do país. Não é surpresa que que seja Cunha o seu presidente.

Quando vemos no noticiário que o prefeito fulano ou o vereador cicrano foi deposto e preso, podem ter certeza que isso nada tem a ver com o teor das acusações que pesam sobre ele. Se são provas concretas ou menos-concretas. O que vale é quantos de seus aliados no legislativo e no judiciário ainda estão com ele, e se estão dispostos a segurar o rojão. No caso de Cunha, de algo podemos ter certeza: seus tentáculos de influência vão muito longe, e seus “amigos” estão muito bem posicionados. Não é aquele papo simplista “se eu caio, cai todo mundo”. Ele estar ali, interessa a muitos, não apenas por medo de serem também acusados (afinal, gozarão de todas as benesses das proteções que já citei), mas por que muita sujeira depende que certas pessoas estejam em certos cargos.

Derrubar Cunha é uma obrigação do parlamento e do judiciário desse país, por razões primordialmente éticas. A permanência dele no cargo é uma afronta à democracia e à justiça. Não só pelas acusações (que são gravíssimas e muitas), que fosse apenas pelo seu comportamento ridículo e infantil enquanto presidente de um congresso, agindo como um dono da bola e claramente contra o interesse do país e do congresso. Mas nada disso importa, se essa mesma permanência for necessária para que certos projetos, certos esquemas e certos cargos sejam garantidos. Ética é para os fracos.

E não se enganem, se sai Cunha, entra outro. A população brasileira ficará feliz, mas o congresso não. Seu sucessor pode não ser tão competente e frio como ele, mas isso não quer dizer que será menos perigoso. Poderá ser um testa de ferro ou um mero fantoche. O jogo não muda e nem a democracia estará “salva”.

Se podemos ser otimistas e pensar que de um pulha como ele pode sair algo de bom, é que ele perdeu tanto a linha em seus mandos e desmandos que talvez daí a oposição se fortaleça e consiga apoio pra mudar algumas dessas regras que protegem políticos e torna tão difícil tirar políticos como ele de seus cargos mais rapidamente.

E o que aquela foto do ACM está fazendo nesse post? Estou cansado da cara feia do Cunha. Coloquei outro político nojento que ocupou o cargo muito mais tempo do que devia no lugar. Só pra dar uma variada e lembrar que esse problema não é nem um pouco novo.

Israel, Palestina e as narrativas infinitas

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De novo esse conflito não tem nada. Aliás, levando em consideração esta geração e todas as guerras que estudamos na escola e as que vimos passar ao vivo na TV, esse pode ser considerado o mais antigo ainda em plena atividade.

Mas uma coisa é totalmente nova, que é a cobertura do evento na era das redes sociais onde as notícias (e as opiniões, é claro) são bombardeadas com a mesma intensidade dos mísseis e incursões de tanques por terra. Apesar de não ser de hoje a intensa cobertura midiática da coisa, nunca foi tão rápido e dinâmico o noticiamento dos bombardeios, mortes e outros atentados – e a emissão de tantas opiniões e análises dos muitos blogs, vlogs e jornais online. É tanta coisa, num ritmo tão acelerado que ficamos até tontos.

Pois bem. Dessa vez (digo, no atual estágio do conflito) me interessei como nunca havia antes e resolvi estudar o assunto um pouco mais. Já não é de hoje que a mídia de massa tradicional é completamente irrelevante pra mim como fonte de informação e opinião, então geralmente o que chega à minha atenção é de certa forma “filtrado”. Não necessariamente certo ou “melhor” – naturalmente de acordo com minhas ideologias – mas pelo menos com um menor grau de manipulação e opiniões muito parciais.

Levando em consideração minhas fontes atuais de informação – facebook, Quora, blogs, vlogs, jornais e pensadores que acompanho – notei uma situação não muito comum. O que eu já tinha ouvido falar bastante em relação a esse conflito se confirmou. O tal do “é complicado”. Mas não usado pelos formadores de opinião (professores, jornalistas, blogueiros, filósofos) com objetivo de se eximir da obrigação de opinar, mas sim numa tentativa (muitas vezes frustrada) de assumir, a priori, alguma parcela de culpa por não conseguir emitir uma opinião plenamente informada. Os que sequer mencionavam o “é complicado” (não necessariamente com essas pobres palavras, é claro) fatalmente caiam em erros factuais e parcialidades.

Por que esse conflito é muito, mas muito complicado mesmo. A medida que ia lendo (muito), refletindo, estudando e vendo vídeos de aulas, ao invés de me sentir mais capacitado a opinar (e quem sabe, escolher um lado – coisa que hoje me parece uma covardia intelectual gritante), o contrário se observava – eu ia ficando mais confuso, não sabia mais no que (e em quem) acreditar.

Comecei a perceber que estava cercado por uma infinidade de narrativas subjetivas, cada autor juntando os fatos como acreditava que eles se conectavam para formar o todo – na tentativa de explicar a aparente falta de esperança de solução que ronda esse conflito. Um dos complicadores é que essa briga tem suas raízes em questões religiosas que se misturam com políticas, através de guerras e perseguições, que podem tanto “começar” no fim do século XIX como no século I quando os judeus foram expulsos pelos romanos daquela região. (Antes disso?)

Se você vê uma aula que começa a explicar o “problema Israel x Palestina” começando no fim da primeira guerra mundial, e pulando logo pra 1948, uma outra que inicia a explicação no final do século XIX, e outra ainda voltando até idade média, citando a vida dos judeus na Europa, a convivência “pacífica” que os judeus tinham com os árabes na Palestina, etc – como escolher qual está mais acertada? Quantas décadas ou séculos precisamos voltar para tentar entender? Algumas explicações colocam o Sinonismo como principal motor para a migração em massa de judeus para a Palestina (talvez onde tenha começado a ficar “esquisita” a convivência com os árabes), meio que já com a futura Israel em mente; outras nem tanto, não levam isso em consideração como ponto importante da problemática. Hoje em dia o foco está no Hamas e suas táticas terroristas (escudos humanos, lançar mísseis a partir de escolas, etc), mas eles nem sempre estiveram no poder e no início eram uma organização de assistência social – mas que se desvirtuou e passou a adotar uma abordagem fundamentalista, que antes era obra do Fatah (do Yasser Arafat, lembram dele?). Ou seja, focou, perde-se o contexto maior. Abriu o leque histórico e entram trocentos mil fatos muito relevantes para uns e irrelevantes para outros.

E ai? O que veio primeiro, o ovo ou a galinha? Quem deu o primeiro tiro? Isso é realmente importante no cenário atual? O que ocorre é que, sempre que você ler algo a esse respeito, especialmente se estiver tentando entender todo o contexto histórico, você vai ser apresentado a uma narrativa daquela pessoa, seja ele jornalista, PhD em história árabe, judeu sionista, muçulmano ou ateu. Como a história é de fato muito embolada (procure algumas aulas por aí, no Youtube tem várias) e repleta de erros e burradas por parte das nações dominantes em cada período da história, fica muito fácil deixa-se levar por uma narrativa bem amarradinha que conte a história juntando uma cacetada de fatos históricos numa sequência que parece perfeitamente lógica. E aí você começa a “pender” para um lado culpar o outro. Isso não ajuda ninguém. Enquanto isso for deixado para ser resolvido no um-contra-outro, só pode acabar em merda, ou com Israel aniquilando totalmente toda insurgência de Gaza ou o Hamas colocando as mãos numa bomba atômica e pulverizar 8 milhões de judeus de uma vez só numa espécie de Holocausto Instantâneo.

A mensagem final que precisa ficar é: de forma alguma procure um lado, por que os dois estão muito errados. Hamas se utilizando da covardemente da mídia para parecer coitadinho e Israel não respeitando leis internacionais ao ocupar territórios palestinos, entre outras barbaridades praticadas pela IDF. Os dois fazem merda atrás de merda, e eles não querem (ou não parecem querer) paz. Israel nunca vai ter paz enquanto houver Palestinos que os odeiam por tê-los expulsado de sua terra. A Palestina nunca vai aceitar Israel do jeito que está ali. Cabe à comunidade internacional procurar soluções para mediar o conflito e manter a paz, tentar desfazer a merda que fizeram há quase 70 anos. Eu sinceramente não vejo como. Mas nem por isso vou me render à confortável e covarde alternativa de comprar uma historinha que faz todo sentido, apontando as “reais vítimas” apenas de um lado, para odiar uma das partes e apoiar a outra incondicionalmente.

A coerência exigida não é a mesma oferecida

Sofremos de uma falha grave como seres sociais. Essa falha tem sua origem, entre outras coisas, na mente descontínua, sobre a qual falei um pouco nesse post. Resumindo bastante, a mente descontínua é uma estratégia evolutiva do nosso cérebro em realizar julgamentos rápidos criando padrões arbitrários, ignorando nuances e alternativas. Tal estratégia é de suma importância, pois tais julgamentos são necessários para que consigamos viver em sociedade com eficiência. Na grande maioria das vezes, não teremos posse de todas as informações possíveis para “decidir” se confiamos ou não em uma pessoa ou fazer a avaliação de risco em uma situação – é tudo bastante automático, e obra da mente descontínua.

Mas se é necessário – e é bastante fácil verificar como esse mecanismo é indispensável – como pode ser ao mesmo tempo uma falha? Por que (e aí eu recomendo que você leia o texto se quiser um pouco mais de aprofundamento) abusamos dessa estratégia e deixamos que esse “modo automático” tome conta de nossas vidas e nossa forma de pensar, mesmo depois que já estarmos devidamente informados para tomar decisões e realizar julgamentos sem a necessidade de arbitrariedades e aproximações.

Um exemplo bastante simples de verificar isso é a polarização política esquerda x direita. Quando você identifica uma pessoa como sendo de qualquer uma dessas ideologias, julga automaticamente saber tudo sobre ela. E a partir daí começa a esperar certas atitudes, comportamentos e ideias. Caso alguma dessas falhe em atender as suas expectativas, isso será imediatamente associado a uma falta de coerência daquela pessoa. Se é de esquerda, como ter um iPod? Se é de direita, como pode ser beneficiário de bolsa de estudos financiada pelo governo? Que hipócrita!

Vemos esse tipo de julgamento todos os dias e eles dificultam muito qualquer tipo de discussão saudável sobre qualquer assunto. Operando baseados apenas na mente descontínua, no modo automático, assumimos que as pessoas são um pacote fechado, um conjunto fixo de idéias e atitudes. Falhamos gravemente em não entender que cada ser humano é um universo de indivualidade. Se qualquer pessoa te disser exatamente como ela passou a acreditar em alguma coisa ou ser adepta de uma ideologia, ela estará mentindo. O conjunto de experiências e informações absorvidas que a levaram até aquilo é tão grande que ninguém, nem mesmo a própria pessoa, é capaz de reconhecer de forma linear e organizada.

Como podem, então, pedir coerência? Somos todos confusos. Somos múltiplos. Somos basicamente incoerentes, com nós mesmos, com os outros, com a vida. Somos falhos e fragmentados. Ninguém é uma unidade perfeita de pensamentos e atitiudes o tempo todo, a vida toda. Não estou aqui, no entanto, dando carta branca para a hipocrisia. São outros quinhentos. Falar uma coisa e fazer outra é uma falha moral e nada tem a ver com a mente descontínua, e não se trata apenas de falta de coerência. É muito pior. Das duas uma: ou você é maluco, ou é um cretino.

Com a Copa chegando, mais uma vez começam a pipocar os efeitos negativos dessa cobrança de coerência onde uma coerência não pode existir. Se você é contra a Copa, não pode ver os jogos e torcer pelo Brasil. O que uma coisa tem que ver com a outra? Quanto raciocínio foi gasto para falar uma besteira desse tamanho? Muito pouco, creio eu.
Até as análises que li sobre esse fenômenos foram bastante bobas, tratando apenas do aspecto político da coisa. Uma tristeza que as pessoas mergulhem tão raso na complexidade do ser humano.

O fato de que as coisas estão interligadas, interconectadas e tenham fortes correlações não obrigam ninguém a gostar de futebol e samba só por que nasceu no Brasil. Ser contra a Copa não é ser anti-Brasil, anti-futebol, e ser a favor da Copa não é um atestado de ignorância política.

Eu sou contra a Copa. Sou anti-FIFA e deploro a pequena elite política responsável por tanto desmando e roubalheira. Mas vai ter Copa, e eu vou ver o jogo amanhã. Vou tomar cerveja com os meus amigos e espero poder gritar GOL!, do Brasil, mais de uma vez, e torço por uma vitória. Isso não faz de mim um hipócrita. Incoerente? Talvez um pouquinho, mas quem não é?

Meritocracia, uma fantasia

meritocraciaEu fico pasmo cada vez que estou participando de uma discussão política e essa coisa da meritocracia – “é pobre por que quer” – aparece como argumento pra alguma coisa na sociedade. Fico pensando se não vivemos em dimensões diferentes e a teoria dos multiversos já não está assim tão reservada ao domínio da física teórica. Realmente aquela pessoa falando comigo vive num mundo totalmente diferente, um mundo onde a meritocracia faz sentido e realmente é medida de alguma coisa real.

O que é mérito pra você? Talvez essa definição seja o cerne do problema, e os seres que vivem naquela outra dimensão tenham uma definição completamente diferente. Curiosamente (ou nem tanto), uma definição parecida com a que reis e nobres usavam na antiguidade para justificar suas posições de poder. Muito fácil falar em meritocracia quando você não precisa de mérito.

Mérito = merecimento, mas tirando a parte que você merece algo por que é filho de Fulano ou recebeu uma benção do deus Beltrano. Mérito tem a ver com esforço para se atingir um objetivo. Tem a ver com sofrimento, renúncia, estudo, trabalho, etc. Pense num violonista de nível internacional que toca com orquestras. Quando você escuta uma bela obra sendo executada e vê a enorme dificuldade técnica daquilo, o que é possível imaginar? Milhares de horas de estudo, de prática. Anos de renúncia a outras atividades (como sair pra beber, viajar, etc) e dedicação quase exclusiva à música. Isso é mérito. Quando o público aplaude ao fim da execução, cada músico ali tem todo mérito de estar sendo aplaudido – uns mais outros menos (falarei sobre isso depois).

E o que não é mérito? Alguém virar gerente de uma empresa por que conhece o dono. Não é mérito alguém ser rico por que o pai é rico. Não é mérito você saber “cuidar da herança do pai” e manter a fortuna da família ou mesmo fazê-la crescer. Mérito é de quem criou a fortuna (isso considerando que não houve atropelos no caminho, o que é bastante raro) onde não havia nenhuma antes. E também não é mérito você ser alto e bonito. Não é mérito seu ter visão perfeita enquanto todos os seus amigos usam óculos. E mesmo assim, essas coisas (altura, beleza) lhe dão vantagens, independente se houve mérito ou não.

Se você já trabalhou em uma empresa ou conheçe alguém que trabalha, certamente já ficou sabendo de como “certas pessoas” viram gerentes e diretores sem a menor competência para aquilo enquanto excelentes profissionais não são valorizados. E mesmo assim a empresa vende a meritocracia como valor fundamental. Empregam programas de avaliação na tentativa de metrificar o mérito (tarefa quase impossível dada a complexidade de relações interpessoais existentes e que afetam tais avaliações) e baseado nessa avaliação, premiar ou não as pessoas, com aumentos e promoções. Metrificar o mérito é algo incrivelmente complexo pois o máximo que você pode medir é o resultado do trabalho (a produção) e não o esforço que a pessoa teve naquela tarefa – pessoas mais inteligentes e com mais experiência certamente fazem o trabalho melhor e com menos esforço do que pessoas menos inteligentes e sem experiência. Quanto da inteligência da pessoa é mérito dela? E experiência, é mérito?

O pessoal da outra dimensão pensa que tudo é mérito, mesmo o que obviamente não é. Não só acreditam que a meritocracia é o principal balizador de “sucesso profissional” em uma empresa, como na vida como um todo. Daí surgem pérolas como “é pobre por que quer”.

Como pode alguém entender (honestamente) o que é mérito e acreditar que uma pessoa que nasce preta, pobre, baixinha e com três dedos a menos, tem as mesmas chances na vida que alguém de classe média, branco, alto, de olhos azuis, sem nenhum membro faltando? Usei a ausência de dedos e cor da pele pra salientar a diferença naquilo que foge do nosso controle (ou seja, que está totalmente isolado de qualquer mérito). O preto vai precisar vencer o racismo, vai precisar superar a falta dos membros ao mesmo tempo em que se esforça para ter seu lugar ao sol – uma desvantagem evidente. O branco não vai se preocupar com nada disso e poder dedicar todo seu tempo, e sua já pré-existente rede de contatos, para atingir seus objetivos. O branco tem opções: faculdade particular, a empresa do amigo, morar no exterior, conseguir um belo empréstimo para abrir uma empresa (usando o apartamento do pai como garantia), ou pode ainda virar vagabundo profissional e coçar o saco. O pobre não tem. O caminho dele é único: escola pública, faculdade pública (competindo com quem fez cursinho, que ele obviamente não pode pagar), crédito inexistente (com que garantia?) para iniciar um negócio. Não vou nem entrar no mérito de “virar bandido” ser uma opção, pois vão dizer que estou justificando o crime com pobreza. Tentem imaginar o que penso a respeito, mas não coloquem palavras no meu texto.

Voltando ao violonista, por que eu disse que há mais mérito para uns do que para outros? É só você imaginar uma orquestra e diferenciar as pessoas ali e seus caminhos até chegarem onde estão. Quem você acha que tem mais mérito? Um branco, de classe média, filho de músicos, e com talento natural (ou você acha que isso não existe? Seja honesto, por favor!); ou um preto, que nasceu na favela, sem inclinação pra música, o pai preso e a mãe alcóolatra? Quando está todo mundo ali sendo aplaudido ao fim da peça musical, quem teve mais mérito em estar ali? Não estou falando se ele é o melhor músico, ele pode até ser o pior, mas meritocracia sendo o balizador, ele merece mais aplausos que o maestro.

Eu usei aqui exemplos anedóticos e certamente quem discorda comigo fará o mesmo. Citará casos de pessoas que “vieram do nada” e ficaram ricos e poderosos. As bancas de jornais estão cheios de revistas com essas pessoas na capa, com receitas para o primeiro milhão e outras coisas que me dão vontade de vomitar. Use um pouco de bom senso: com qual frequência surgem essas pessoas que ficam ricas vindas da pobreza e o quão comum são pretos, pobres que moram na favela? É um em cada quantos milhões que “chega lá”? Será que é só mérito mesmo? Não tem sorte? Não tem outros fatores? E o resto todo (maioria quase absoluta) está com preguiça? Faça-me o favor!