Não existe racismo no Brasil

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E também não existe machismo, desigualdade social, desigualdade de gênero, homofobia e corrupção. Opa, peralá. Esse último aí existe sim! Aquele outro partido lá só faz roubar. Olha pras notícias. Cada dia é uma novidade. Mas é tudo “aquele outro partido lá”. O meu não. O meu é corretíssimo.

São impressionantes as tortuosas trilhas cognitivas que as pessoas percorrem para justificar suas visões deturpadas do mundo. Como ter a cara-de-pau de dizer que o Brasil (e vamos combinar, o mundo) não é racista ou homofóbico? Como olhar para os dados, os números, os fatos – e dizer que, não, que o mundo é justo com negros e gays? Que eles tem exatamente as mesmas oportunidades e exatamente o mesmo tratamento que brancos e heteros?

Quando a maioria de nós olha para coisa de 150 anos no passado, ficamos bestas ao imaginar um mundo onde pessoas de todas as classes sociais – e intelectuais – não apenas aceitavam, mas defendiam a escravidão como algo totalmente aceitável e até necessária para uma sociedade civilizada. O choque ético causado pela questão da escravidão foi tão grande, que chegou a gerar uma guerra civil nos Estados Unidos, rachando o país no meio, com o Sul (e quando você pensa no “Sul”, tem que imaginar milhões de pessoas, incluindo intelectuais, políticos, jornalistas, sociólogos, etc) defendendo que a escravidão era necessária para seu meio de vida, sua cultura, e é óbvio, para sua estabilidade econômica. O Norte venceu, naturalmente, e a escravidão foi abolida em todo o território americano. Mas isso quer dizer que a imaturidade moral que permitiu a escravidão foi extinta? De forma alguma. Os EUA são extremamente racistas, assim como nós. E lá também existe esse discurso vagabundo de que racismo “não existe”, está apenas “na cabeça das pessoas”.

Para uma pessoa, hoje em dia, considerar que racismo é uma “coisa do passado” ou “frescura”, ela precisa de um exercício interessante de distorção lógica, onde fatos e números são simplesmente ignorados, para que uma relação causal maluca se confirme em sua cabeça. Não há mais uma quantidade expressiva (aliás, nem mesmo ínfima) de intelectuais que defendam segregação. Mas isso não importa. As pessoas conseguem achar validação de seus preconceitos e nanismo ético por aí. Com as redes sociais, isso ficou ainda mais fácil.

É bom lembrar que não estamos falando de questões polêmicas que ainda dividem opiniões no mundo como legalização das drogas e aborto. Essas coisas ainda não são regra, alguns poucos países avançaram enquanto na maior parte dos outros a realidade ainda é bastante dura. Mas no caso da igualdade racial, pelo menos perante a lei, já ultrapassamos a “polêmica”. Não há sequer uma país desenvolvido no planeta, onde ainda existam leis que dêem privilégios a uma raça (i.e. cor) sobre outra.

Já que citei os EUA, vamos continuar a usá-lo como parâmetro (afinal os números por aqui não são muito diferentes). Peguem um simples fato, um dado, que não é discutível: existem, em média, 4x mais presos negros nos EUA do que brancos. Essa fato, isolado, fora de contexto, é preenchido pela sua mente com o contexto que você quer dar a ele, com o mais confortável e acessível pra você. Sua mente vai lhe dar uma explicação causal sem que você saiba – automaticamente. Pra quem acha que o mundo não é racista, a explicação será algo como “negros são inferiores”, “negros tem mais chance de serem pobres”, “negros tem maiores chances de viver em áreas de risco e se tornarem criminosos”, etc, etc. Talvez a pessoa não diga “negros são inferiores” nos seus argumentos, mas no fundo, é o que causalidade automática que a mente dela lhe ofereceu significa. Afinal, não há outra explicação para ter 4x mais negros presos do que brancos na cadeia. Deve haver algo errado com os negros para eles serem presos com tanta frequência.

E nada me vem a cabeça para “explicar” essa causalidade oferecida pela mente do que pessoas que possuem uma sensação de merecimento (ou melhor, entitlement, sobre o qual escrevi um pouco aqui) bem acima da média. São pessoas que acham que o mundo lhes deve algo, são especiais. Fazem parte de um grupo seleto, escolhido, e os outros são… os outros. Não deve ser surpresa alguma que essas mesmas pessoas defendam a famigerada meritocracia – ou em bom português “é pobre por que quer”.

Racismo não existe. Nem machismo. Nem homofobia. Quem mandou nascer negro, mulher ou gay? O mundo é dos homens brancos e heteros. Assim é, assim é que deve ser. Pare de reclamar e vá trabalhar!

E os tais Rolezinhos?

shoppings-defendem-que-pais-respondam-pelos-rolezinhos.jpg.280x200_q85_cropDepois de presenciar todo o destaque que o assunto dos “Rolézinhos” ganharam na imprensa, sem ouvir quase nenhum argumento realmente racional vindo dos cidadãos abastados. Muitos se posicionam prontamente contra eles, sem perguntar o porque tudo isso começou a acontecer, e dessa maneira ficou bem claro pra mim que era reação de medo, de horror.

E por que tanto medo?
Porque a classe média já viu esse filme antes…

Já teve a sensação de seu mundo estar ficando cada vez menor? Basicamente é isso.
Como ex-cidadão da classe média, acredito poder falar com propriedade dessa perspectiva e expôr um pouco da escrotidão e hipocrisia não-assumida pelos antigos frequentadores de shopping.

Até a adolescência, antes de ocorrer o divórcio de meus pais, fiz parte da classe média-alta da comunidade paulistana, em função da riqueza proporcionada pelo meu avô.
Quando eu tinha nascido, já não se era possível pra minha “casta” frequentar o centro da cidade, porque lá tinha muita gente “meio estranha, meio feia”, e assim passei a infância sem pisar lá.
Aos finais de semana, descíamos pro litoral pra curtir a praia como família. Subitamente, as praias começaram a se enxer de gente “meio estranha” de novo, e pude finalmente ver como eram essas pessoas “meio feias”. Era gente pobre, simplesmente.
Surgiu a internet, e pelo menos ali teríamos paz, mas não. A tecnologia tornou-se barata e acessível, e a cultura periférica começou a se infiltrar por aqui também. Quem nunca ouviu reclamações sobre a “maldita inclusão digital” ou sobre a “orkutização” da internet?

À medida que fui crescendo, era bem visível o como se articulavam pra manter fora da mistura, onde pisava o pobre, o rico mudava de lugar. Como quando alguém barulhento senta do seu lado no cinema. E como já citei, chegava a ser caricato o como evitam falar a palavra P-O-B-R-E, era “sempre gente feia, gente estranha, um povão”, quem já fez parte disso sabe do que estou falando. Ao final, tiveram a brilhante de inventar os condomínios fechados. Dessa maneira, criaram um tipo de “túnel” onde o rico podia fazer a tragetória  casa->trabalho, casa->entretenimento, e o caminho de volta, sem se misturar com o resto do mundo. Se bobear, poderia instalar o vidro fumê pelo lado de dentro, pra não ver o “mundo feio” lá fora.

E assim, após um curto período de paz, começa a onda dos “Rolézinhos”. Dessa vez os filhos de pobres entram nos shoppings, transportam pra lá algo que apavora o cidadão de classe média. Não algo pior, e nem melhor, mas algo DIFERENTE.
A cultura desses jovens é completamente outra. A linguagem, o jeito de se vestir, a maneira como tratam uns aos outros. Sim, parece que é um baile funk na periferia, e você não precisa se identificar com eles e nem gostar, mas precisa reconhecer seu direito de serem como são. Se eles não tem direito, outras marchas que acontecem no país inteiro por diversos motivos, e também “perturbam a ordem e o trânsito” também não devem acontecer.

Falar que são todos bandidos vagabundos é uma generalização grosseira visivelmente impulsionada pelo medo.
Flash mobs, harlem shakes, Zombie walks, todo mundo aceitou numa boa. Isso entre coisas piores, como isso:

(Interessante que só a imprensa daqui condenou prontamente, a pequena cobertura da mídia internacional viu tudo como “Flash mobs da pobreza”)

É visível a diferença de aceitação e tolerância quando a proximidade cultural é maior, não?
Quando os dois pesos e duas medidas ficam claros, todas as expressões fazendo correlações com o Apartheid deixam de ser exageros. O preconceito contra a cultura da periferia é evidente. E sim, uma forma de cultura. Vejo constantemente tentativas de desqualificar qualquer manifestação pobre como cultura, em comentários ingênuos como “Rap e Funk não são música” e coisas do tipo. Como já falei, você não precisa gostar, basta reconhecer e respeitar.

De uma maneira ou de outra, o surgimento dos Rolézinhos aparentemente não são um caso isolado, e parecem indicar uma tendência.
Demonstra o encolhimento da possibilidade da alienação, da negação.

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Como na história do Buda, o típico cidadão de classe média ainda está preso pra dentro dos muros do castelo, alheio ao sofrimento do resto do mundo.
Porém em uma conclusão diferente, nossos “Budas” não quiseram sair, e mesmo assim a pobreza entrou pra dentro dos jardins imperiais.

Esse é o mundo real, não há como negar. Há pobreza, há sofrimento, há intimidação, ostentação, busca de status, e preenchimento com materialismo vazio, como é visto nas músicas da periferia. Tudo o que os abastados se negam a aceitar sobre eles mesmos. Deve doer bastante ver os “pomposos” admitirem a igualdade ali, que também buscam as mesmas marcas de grife e as mesmas formas de satisfação.

À medida que as barreiras ficam enfraquecidas, fica impossível empurrar a pobreza pra baixo do tapete, escondê-la dos olhos e finalmente, cupar o pobre pela própria pobreza.

A desigualdade social é uma presença terrível que precisa ser RESOLVIDA.
Até hoje, os governos de direita à esconderam e negaram sua existência, e os governos de esquerda a utilizaram pra crescer, mas ninguém quis resolver de fato.

De uma maneira ou de outra, independente de sua preferência partidária, todos agora se vêem forçados a defender políticas sociais que resolvam a desigualdade, para que possamos ter paz. Onde antes haviam vozes reclamando pra baixar os impostos de importados pra aumentar o consumo da classe média, agora precisam clamar por educação, saúde e redução da pobreza para que tenham algum espaço. Abrir mão do PS4 pra conseguir andar no shopping.

Parece não existir uma maneira de conciliar projetos que sejam ao mesmo tempo inclusivos e democráticos, e que simultaneamente empurrem a pobreza pra longe dos olhos. Se não queremos ver mistura, basta admitirmos que não queremos democracia.

Não há como fugir. Pra não se ver pobreza, é preciso contribuir pro fim da mesma, e não simplesmente culpar o pobre pela própria miséria, e esperar que ele cave seu caminho pra fora dela. Não há mais um lugar longe o suficiente onde os olhos não a vejam.

Os setores proprietários dizem que não se deve dar o peixe, mas ensinar as pessoas a pescar; mas quando destroçamos seu barco, roubamos sua vara e tiramos seus anzóis, é preciso começar dando-lhes o peixe.”Pepe Mujica

Algumas palavras sobre o especismo

peixePegando carona no meu último texto, senti a necessidade de elaborar um pouco mais o assunto, pois, dado o meu histórico na questão da ética animal, sempre tem mais espaço. Mas não vou elaborar muito o caso dos beagles e nem especificamente de testes em animais, prefiro abordar o tema de forma mais abstrata.

Talvez a maioria de vocês sequer tenha se deparado com o conceito de especismo e como ele é importante na forma como vivemos em sociedade.

Tenho mania de, nos meus textos, usar definição de dicionário ou da Wikipedia, mas dessa vez não vou fazer isso. Nesse caso não é preciso. Dá pra ter uma ideia boa do que especismo significa e se você tem alguma dúvida mas não quer abrir outra aba e pesquisar no Google, só pra confirmar, quero que pense em racismo. Pensou? Agora pense em animais, diferentes espécies e como tratamos cada uma delas.

O especismo tem sua raiz nas origens da civilização, ou seja, como é ensinado na maioria dos livros de história, na Revolução Neolítica, quando deixamos de ser nômades caçadores divididos em pequenas tribos e passamos cultivar alimentos, e nos organizar em cidades. Não é de surpreender – e para tal, evidências não faltam – de que isso causou um isolamento do homem com seu meio, e a espécie humana deixou de ser parte da natureza para ser “dona” da mesma, moldando-a às suas necessidades, construindo cidades, desviando rios, derrubando montanhas – e mais recentemente, poluindos os mares, o ar e esquentando o planeta.

Nossa relação com os animais não poderia, portanto, ter tomado outra direção que não a do crescente isolamento e sentimento de “posse e domínio”, ou seja, animais não são mais nossos iguais na natureza, agora eles são nossos para “usar” como transporte, comida, vestimenta, diversão e qualquer outro uso que consigamos imaginar. E para que isso funcione bem, precisamos entender que eles são totalmente irracionais, não sofrem e não se importam com o que fizemos com eles. Não estou com isso querendo dizer que os humanos pré-neolóticos já não caçavam e usavam peles, é óbvio que faziam, mas não havia real competição de uma espécie (nossa) com o restante, o que nos leva a crer que havia um respeito maior e uma conexão mais profunda com cada ser dos quais nos alimentávamos e usávamos para outros fins.

O que temos hoje é um especismo bastante complexo, que foi sendo moldado através dos séculos, mas sempre tendo em mente que os animais estão aqui, em última análise, para servir a espécie humana. Se uma espécie não serve pra nada, e não incomoda, deixamos ela pra lá. Se não serve, mas incomoda, exterminamos. E se serve, usamos – e abusamos. E como usamos diz muito sobre quem somos.

Vamos voltar aqui ao episódio recente dos beagles. Eu não sou contra testes em animais. Eu também não sou contra matar um animal para comer nem para obter couro. Eu sou especista também, todo mundo é, não trato um gambá da mesma forma como trato um papagaio ou um porquinho-da-índia. Mas independente disso, eu procuro ser consciente do meu especismo e mais ainda, consciente de como esse especismo gera sofrimento desnecessário nos animais.

A maioria das pessoas não é, de forma alguma, consciente de seu especismo. Simplesmente consideram que vacas, porcos e galinhas são naturalmente “feitas” para se tornarem comida, e gatos e cachorros foram “feitos” para serem nossos companheiros e viver em nossas casas. Então quando aparece um caso de pesquisa científica sendo feita com beagles, isso de certa forma parece “errado” no especismo coletivo. Errado por que? Se fosse um cachorro-do-mato poderia?

O maior problema atualmente, na minha opinião, está quando a coisa se mistura com a lógica do mercado. E isso pode ser observado inclusive em um dos episódios mais imorais da nossa história recente: o tráfico de escravos. Foram misturar o racismo com a necessidade de mão-de-obra barata e “sem história” (ou seja, não uma pessoa, mas uma máquina de trabalhar sem alma) e tivemos um próspero mercado baseado em todo tipo de racionalização para que aquele monte de negros transportados pra lá e pra cá não fossem considerados pessoas e usados como bem entender.

Com animais, e o especismo, não é diferente. Quando digo que não tenho nada contra comer carne em si, as pessoas demoram a entender como é que eu poderia ter me tornado vegetariano. Eu sempre explico mas raramente cai a ficha. O problema na verdade, é como a coisa toda é feita, devido às pressões do mercado e do consumo que só cresce. Para atender às necessidades de cadeias de fastfood, restaurantes, congelados e toda uma infinidade de produtos, não há como uma pessoa minimamente inteligente achar que isso tudo é possível com vacas pastando calmamente nos campos e que um dia são abatidas de forma rápida e indolor. Nada poderia estar mais longe da realidade.

A medida que a demanda cresce, a corda aperta para o lado do conforto do (e do respeito ao) animal. Claro que isso ocorre de diferentes formas dependendo país, das leis, agências reguladoras, etc. Eu não vou perder meu tempo pela enésima vez para citar condições de vida dos animais nas fábricas-fazenda ao redor do mundo. Abundam vídeos e documentários excelentes (e muito perturbadores!) sobre isso. E da mesma forma que essa questão existe no caso de animais para alimentação, também ocorre com animais para diversão (circos), para roupas (couro, peles) e animais para testes científicos. Eu não sou contra os testes, repito, mas sou contra qualquer sofrimento desnecessário e qualquer mau-trato que esses animais possam receber em suas vidas, que muito provavelmente se darão através de pressões de mercado; para o rápido lançamento de um remédio (mais lucro!), ou corrupção na obtenção de licenças para testes sem passar pelos devidos controles de Comissões de Bioética, etc.

Portanto, o especismo nosso de cada dia, diz muito mais sobre nós do que gostamos de admitir. Ninguém é obrigado a ser vegan ou budista, mas não faz mal ser consciente das coisas como elas são e procurar se tornar mais consciente das próprias racionalizações quando compara o tratamento de um bicho e outro. Hoje em dia quase todo mundo é contra peles e circos com animais, inclusive eu e vocês que leem isso agora, sem se dar conta de “como” transformamos esse aspecto do nosso especismo – mas pense que até não muito tempo atrás, teríamos aceitado e repetido as milhares de racionalizações (ou melhor, “desculpas esfarrapadas”)  até que os fatos viessem à tona e a verdade ficasse cada vez mais difícil de ignorar.