Proibir para educar

mona-lisaAntes de mais nada, confesso que não sou fã das proibições. Na maioria dos casos, são dadas como soluções bastante mal pensadas para problemas simples, e em alguns casos geram resultados piores do que em sua ausência – especialmente quando os problemas são mais complexos e é difícil prever os resultados.

Temos como exemplo clássico a proibição sobre uso de substâncias, com consequências trágicas como no caso da Lei Seca americana e mais recentemente, da falida e desastrosa Guerra às Drogas.

Outro exemplo simples de uma proibição que simplesmente não serve pra nada é a de “escutar som alto em transporte público” que recentemente foi transformada em Lei. É uma resposta nula do legislativo a um problema básico de civilidade – que das duas uma: ou são auto-regulados pela sociedade ou endereçados pela educação (seja ela informal ou formal).

Não que eu tenha uma ideia melhor ou alternativas, mas proibir aquilo que não se tem como coibir na origem e/ou punir no ato, é inútil e muitas vezes nocivo.

Agora, há uma proibição que me faria muito gosto se fosse implementada: a de tirar fotos em museus e exposições de arte. Quem costuma visitar museus ou foi recentemente a uma aguardada (e popular) exposição e teve que enfrentar o enxame de câmeras, smarthpones e tablets, sabe o quanto é irritante. As pessoas estão mais preocupadas em tirar fotos das obras do que de fato observá-las e participar da experiência da contemplação da arte. Fotos que muito provavelmente nem vão ver depois, ou só verão uma vez ao mostrar para amigos e parentes que estiveram lá “naquela exposição legal de um cara que não lembro o nome”.

Fala-se muito em incentivar e facilitar o acesso a cultura, para que essa coisa abstrata, mutante e subjetiva, de alguma forma que ninguém realmente entende, contribuisse para formação de uma sociedade mais justa e feliz. Vamos simplesmente distribuir “cultura” (seja lá o que isso for) geralmente na forma de arte, e a sociedade inteira se beneficiará. Aí eu pergunto: como, exatamente?

Serve de alguma coisa levar dezenas de milhares de pessoas à uma exposição para que fiquem tirando selfies e fotos das obras? Algumas chegam ao cúmulo de sequer observar as obras com os próprios olhos e se direcionar a cada uma diretamente com a câmera, numa corrida insana para fotografar tudo que é possível, de todos os ângulos. Podemos realmente considerar isso uma “experiência cultural” construtiva? Digna de leis de incentivo e de meias entradas?

Portanto fica aqui meu voto para a proibição total de fotos em exposições – e com devida punição, pois não adianta apenas proibir e ficar pedindo baixinho, por favor, para respeitarem. Tirou foto uma vez, aviso, na segunda, rua. Não por que apenas incomoda – e muito – a todos aqueles que estão ali para ver com os próprios olhos e tentando focar mais no momento do que os da geração selfie que está ali já pensando em como vão publicar no instagram em algumas horas. Mas também por que isso poderia ajudar as pessoas a entender melhor como funciona a apreciação de uma obra artística – até para ver se elas realmente querem aquilo.

Uma proibição similar já existe e todos respeitam sem problemas: a de encostar nas obras. Na maioria das exposições e museus sequer há um aviso desta proibição, mas a mesma já se encontra bem firme no inconsciente coletivo e não vejo ninguém reclamando. Ninguém encosta e fica tudo ótimo.

Poderiam comparar o problema do enxame de câmeras com o exemplo que citei acima, do alto volume em público. Sim, a faltava de civilidade pode ser identificada como uma das causas, mas há uma diferença básica. No caso das fotos em exposições, é bastante simples fazer valer a regra. Há sempre monitores e seguranças em qualquer exposição que se preze. Não demoraria até que todos entendessem que não pode e nem mais levariam câmeras à museus ou tiraram seus celulares do bolso com o intuito de clicar.

O que falta para proibirem as fotos? Qual a desvantagem ou consequência negativa? Todos sairiam ganhando, penso eu.Mesmo os viciados em clicar que se sentiriam tolidos em um primeiro momento, depois perceberiam que há mais na experiência artística do que apenas ver o objeto, independente do formato ou tamanho. Afinal, se fosse pra ver o objeto, mesmo que à distância por foto, para que se deram ao trabalho de ir à exposição? Mais fácil ver as fotos (muito melhores do que poderiam tirar) na internet ou num livro. E se estão indo à uma exposição apenas para constar, tirar umas selfies e fotografar tudo que é exposto, há algo de profundamente torto nessa “experiência cultural” que tanto querem incentivar. O estímulo é para a apreciação das formas de arte, para reflexão e contemplação ou para aparecer no facebook e entupir smartphones com milhares de fotos idênticas?

As armadilhas da ideologia

ideologySe houve um efeito colateral bastante inusitado (para a maioria, pelo menos, talvez não para alguns mais antenados) das manifestações de junho passado, foi o recente fortalecimento do discurso de direita. Não que isso chegue a ser preocupante em escala eleitoral, mas é nítido que mais e mais pessoas agora perderam toda a timidez de se mostrar adeptos dessa linha de pensamento ou ideologia. Isso poderia ser uma coisa muito positiva (se fosse gerar mais debate), mas infelizmente, não é o que se percebe.

Para não acharem (e garanto que alguns acharão, lerão só o primeiro parágrafo e já correrão pra comentar) que esse texto tem alguma coisa a ver com criticar o discurso de direita, não se trata disso, pois o anterior e já vociferado aos montes, de esquerda, é idêntico. Não se vê debate de ideias, não se vê ninguém buscando um meio termo e soluções conjuntas. O que se vê é só um apego incondicional à ideologia – seja ela qual for, sempre demonstra incrivel eficiência em acumular defensores, atrapalhar o debate e distorcer a realidade.

O “problema da ideologia” não é de hoje, muito pelo contário, é tão velho como a inteligência e consciência humanas. Aderir a uma ideologia é tão humano como se apaixonar. E da mesma forma que, após repetidos períodos de intenso sofrimento trazidos por essas paixões, estamos sempre nos deixando apaixonar de novo – só para sofrer tudo de novo. A diferença é que a ideologia é uma amante mais promíscua e não rejeita ninguém.

Ideologias se apresentam de muitas formas, umas mais brandas e flexíveis e outras mais duras e dogmáticas, mas invariavalmente são formas de ver o mundo (e se comportar nele) baseadas em um conjunto de ideias fixas: Deus criou o universo, a terra é plana, a posição dos astros determina quem somos, comer carne é errado, a culpa é do Estado, o Estado é a solução, o homem é naturalmente bom, o homem é naturalmente mal, etc.

O fato inegável é que, durante nossas vidas, vamos nos afiliar a um sem número de ideologias sem sequer notar isso. A maioria de nós, em algum momento, já foi apresentado a alguma nova forma de ver o mundo e, sem muitas evidências daquilo, as vezes meramente por pressão ou afinidade de grupo, passou a se comportar de forma diferente e até defender aquelas ideias com unhas e dentes. Quem nunca?

A armadilha está em não se dar conta de como nossas mentes “gostam” de se agarrar à conjuntos pré-estabelecidos e aparentemente logica e belamente arrumudos de ideias, que dão sentido à coisas que nos incomodam e geram dúvida. Apesar de não gostarmos de assumir isso, nossa mente está sempre disposta a desligar o senso crítico o suficiente para adotar uma ideologia como na canção do Cazuza “eu quero uma pra viver”.

Voltando a eterna briga de esquerda e direita, o que me levou a escrever esse texto, foi exatamente ver alguns amigos, inclusive alguns que considero bastante inteligentes “sairem do armário” como defensores da direita, e demonstrarem o quão totalmente imersos estão com esta corrente política – senso crítico em mínimo, abertura para debate zero. Só postam coisas da Veja, vídeos, reflexões e textos de pessoas claramente de direita (mesmo quando em alguns casos, hipócritas e não se posicionam), sem nunca “dar uma chance” para um discurso mais moderado. Os de esquerda fazem igualzinho, mas o pior, é que agora, como que em resposta a esse crescimento do discurso conservador, passaram também a rebater postando cada vez mais só as coisas da esquerda, e agora as mais radicais, que muito provavelmente já liam há tempos mas ficavam “meio receosos” de parecer extremo.

Eles debatem? Não. Eles discutem, cada um querendo mostrar com sua ideologia é brilhante e o resto é pura idiotice? Sim! Eles postam coisas que as vezes colocam em cheque os pontos centrais da ideologia? Nem fudendo. E o aspecto mais bizarro dessa coisa toda é um fenômeno recente, que se percebeu apenas com a popularização as redes sociais. Basta qualquer coisa na internet ter um teor crítico à determinada ideologia (seja política, religiosa, científica ou qualquer coisa que o valha), os defensores correm em auxílio dos “gurus” e das ideias centrais geniais e irrefutáveis da mesma. Isso já virou até motivo de chacota e “nomezinhos engracados” envolvendo tais gurus viraram lugar comum nas discussões e memes.

A que tudo isso serve? Ao meu ver, nada de útil, nada de construtivo. Eu as vezes faço parte da zoação também, as vezes me pego no flagra atuando como “defensor” de uma linha de pensamento que apenas me agradou mas que não entendo muito a respeito. Somos pegos por essas armadilhas o tempo todo. Dependendo sua personalidade, você vai trocar de ideologia como muda de roupa, outros podem passar uma vida inteira acreditando e defendendo algo sem ter parado um minuto da vida para validar aquilo com critério.

Lendo Krishnamurti há alguns anos, me deparei com um dos alicerces de seu pensamento que se resumia em “não há guru, não há mestre, você é o mestre, você é o guru, você é tudo!”. Ele dizia para não aceitar nada do que ele dizia e duvidar de tudo. Eu tinha dificuldade pra entender aquilo, pois ele passava uma montanha de ensinamentos e sabedoria em suas palestras e depois me fala pra não aceitar nada daquilo? Como assim? Eu estou concordando, estou gostando – não devo aceitar?

Na verdade o que ele ficava ressaltando o tempo todo era que as ideias precisavam ser constantemente criticadas, e não apenas entendidas intelecualmente, mas “vividas” profundamente sem os diversos filtros de nossa cultura e passado – e que ninguém deveria considerar as ideias melhores ou piores por que vinham de uma figura como ele. Isso é muito simples de falar mas quase impossível de realizar na prática. Ao ler algo que “se encaixa” com aquilo que você acredita surge uma empatia natural com o autor daquelas ideias e isso cria um feedback de forma que, no futuro, você aceitará com mais facilidade (ou seja, com o filtro do senso crítico mal configurado) outras coisas que ele disser – e depois de outros que pensam parecido.

Portanto, se você se pega constantemente lendo textos dos mesmos autores, confirmando aquilo que você acredita, criticando aquilo que você (ou melhor, a ideologia que você escolheu) condena – há grandes chances de você estar viciado nessas ideias, e preso num espiral de “confirmações” e “irmãos na causa” incapaz de perceber que por mais sentido que aquilo tudo possa fazer, não pode ser a verdade única e absoluta, provavelmente está repleta de falhas factuais e lógicas, talvez algumas que você até reconhece mas finge não ver.

Ninguém está livre disso. Nossa mente é programada para se agarrar nessas coisas, procurar o caminho mais curto e menos trabalhoso para fazer sentido do mundo e de tanta complexidade. Como diria Krishnamurti, só mesmo a vigilância contínua e a completa recusa a dar valor a certas ideias baseadas no seu autor, pode nos armar contra essas armadilhas e tornar possível o um senso crítico refinado e real confronto de ideias, e não as infinitas discussões de facebook onde cada um só quer mostrar como fez seu dever de casa e leu mais livros “pra confirmar as ideias que acredita serem a resposta pra tudo.

A ética e a meia-entrada

1-687-300x250e Ir ao cinema tem sido um extenuante exercício mental. Devo esclarecer, contudo, que tal situação não se dá por causa dos filmes que assisto.

Tudo começa quando a bilheteria se aproxima. Após notificar a atendente que comprarei a entrada em seu valor integral vem o grande momento: gastar um valor infinitamente maior que o justo por não ter disposição em falsificar uma identificação que me faça pagar meia-entrada.

Esse dilema tem muitos aspectos interessantes, sendo importante dissecá-los cuidadosamente visando conservar a riqueza de detalhes que o envolve.

O Brasil é um país especial, de toda sorte de culturas e belezas. Mas tem coisas, a exemplo da jabuticaba, que são exclusivas das terras tupiniquins.

A meia-entrada é um direito assegurado a algumas categorias de consumidores, sendo prevista em vários atos legislativos, da esfera federal, estadual e municipal. Afora alguns grupos específicos, grosso modo esse benefício está consagrado para estudantes do ensino básico até o ensino superior, de instituições públicas e privadas, bem como aos idosos, considerados assim aqueles com mais de sessenta anos. O objetivo claramente é de facilitar o acesso à cultura desses grupos que em tese possuem menor renda.

Essa análise levará em conta principalmente o direito à meia-entrada dos estudantes, pois é através dela que se operam as distorções atuais do sistema.

Até 2001, a UNE (União Nacional dos Estudantes) possuía o monopólio da confecção de carteirinhas de estudante. Como todo monopólio, esse atendia mais às ambições econômicas da instituição do que ao interesse social. Objetivando desconcentrar esse poder, o governo de então editou uma Medida Provisória que facultou a emissão desse comprovante a qualquer associação, agremiação estudantil ou estabelecimento de ensino brasileiro.

Não sei em que medida essa inovação impactou na questão da meia-entrada. Monopólios realmente não combinam com eficiência, isso está fora de debate. Porém, uma nova realidade nascia: algumas pessoas, interessadas em usufruir da economia que a meia-entrada proporcionava, passaram a se valer de comprovantes falsos de vinculação a instituições de ensino. De outro lado, certas organizações estudantis deliberadamente iniciaram a comercialização de carteiras de estudante a partir do pagamento de uma taxa, confeccionando um documento legítimo para aqueles que não possuem de fato o direito à meia-entrada.

Essa malandragem, que é crime para todos os efeitos, não foi coibida pelas casas de espetáculo e produtoras culturais, em tese as principais interessadas em denunciar as falcatruas – afinal, a brincadeira resulta em inevitável prejuízo financeiro. Acredito que parte disso seja por termos uma cultura forte de tolerância a esse tipo de comportamento, por mais danoso que ele seja socialmente. A opção mais acessível é aceitar o prejuízo coletivo no lugar de repudiar as práticas nocivas, e isso vai desde o vizinho barulhento, passa pelo cara que fura a fila e inclui o que escuta som alto no ônibus.

As empresas do segmento, reproduzindo essa lógica do homem cordial (conceito notório na obra de Sérgio Buarque de Hollanda), não foram combativas. No entanto, pensemos que se não existe almoço grátis na lógica da economia de mercado, com muito menos razão haveria anuência para um “almoço meia-entrada”.

Detectado o fenômeno, os valores dos produtos e serviços culturais foram subindo gradativamente, com vistas a permitir o retorno financeiro projetado pelo empresariado.

Ambição? Ganância? Ora, dispensemos a inocência. Quem assume o risco de empreender não vai abrir mão do resultado do seu esforço. De fato, exigir que as empresas se contrapusessem aos clientes, levantando suspeitas quanto à sua idoneidade, seria algo bem delicado. Pra exemplificar o tamanho do problema, reproduzo uma crítica do jornalista esportivo Rica Perrone, atentando para o descarado excesso de meias-entradas em uma partida de futebol em um Estádio em Brasília: “Impressionado como estudam em Brasilia. Das arquibancadas, 2 mil vendidas inteiras. 25 mil para meia-entrada”.

Decerto, ninguém é obrigado a se indispor com 90% de seus clientes em nome de um ideal de justiça. Até porque se a violação ao direito ocorre de forma tão generalizada não há maneira de o Estado desconhecer a mazela. Nessa linha, se esse mesmo Estado compactua com a ilegalidade através de sua omissão, deveria o empresário assumir esse papel?

E foi assim que em um ingresso hipotético de cinema, que poderia custar catorze reais a inteira e sete reais a meia-entrada, deu espaço para um valor de inteira de vinte reais, para que a meia-entrada no patamar de dez não representasse uma fonte de prejuízos. Mas não parou por aí.

Esse método ganhou força tal que na maior parte dos produtos e serviços culturais ofertados o ingresso no valor integral representa um preço completamente fora de mercado, sendo dado em contrapartida um “libera-geral” às meias-entradas. Na cidade do Rio de Janeiro é comum você poder comprar um ingresso meia-entrada sem fazer qualquer prova de que é estudante. Ninguém vai lhe pedir isso. Já que não podem / não querem coibir esse hábito, colocaram a meia-entrada no patamar da entrada inteira, e esta, por seu turno, em um patamar exorbitante, completamente fora de cogitação. Ou seja, deixou de existir, na prática, a meia-entrada.

Esse quadro alarmante não é exatamente uma novidade. Mas a exposição se fez necessária, pois a partir de agora entra a parte espinhosa relativa ao impasse.

O Direito nem sempre está de acordo com a justiça. Em um breve retrospecto da cultura jurídica é possível perceber que por inúmeras vezes os sistemas legais serviram pra legitimar atrocidades e impor restrições imbecis em uma determinada escala de gravidade.

Assim, a vida em sociedade recomenda a obediência às normas em vigência, morais e jurídicas, mas pelo acúmulo histórico havido até o momento não se pode cogitar um atendimento irrestrito aos preceitos estabelecidos. É mais seguro seguir um imperativo depois de refletir sobre o mesmo, e ver se ele está alinhado com a sua bússola ética interna.

meia entradaUma das máximas mais valiosas do convívio em comunidade é que “o seu direito acaba onde começa o do outro”. Esse pensamento é por óbvio relevante, e pra analisar a problemática da meia-entrada vou dividi-lo em duas abordagens, quais sejam, a formal e a material.

Formalmente, ao fazer uma carteirinha de estudante falsa você causa danos ao empresário, que suportará um prejuízo econômico ante a sua esperteza; traz danos também à coletividade, pois estimula a insegurança ao propagar o uso de documentos falsos. Por tais razões não se deveria reproduzir esse equívoco.

De pronto é possível notar a insuficiência da leitura formal do quadro existente. Em virtude disso é preciso se debruçar no viés material (ou prático) do tema. Primeiramente, quanto aos empreendedores, a verdade é que não mais suportam prejuízos através da disseminação das meias-entradas. Sagazmente recalcularam os custos de seus produtos e, sem qualquer embargo do governo ou de alguma instituição independente, projetaram a meia-entrada a um patamar que deveria ser o do ingresso integral, assegurando sua margem de lucro com êxito.

Em uma segunda análise, a insegurança trazida pelo uso de documentos falsos, nesse assunto específico, é algo amplamente difundido e aceito. O ato, apesar de definido legalmente como crime, conta com uma reprovabilidade mínima no seio da sociedade, despertando um senso de repreensão ridículo, como dito anteriormente, que foi incapaz de mover o Estado, as empresas e os cidadãos brasileiros no combate a esse ilícito.

Assim a situação aparenta ser um conjunto caótico em relativo equilíbrio, mas tem alguns percalços complicados.

Minha preocupação maior é com o cidadão que dedica atenção ao campo da ética. Este é o grande prejudicado, sem sombra de dúvidas, pois ao rejeitar um arranjo que conta com falsificadores (cidadãos), omissões (governamentais, quanto à fiscalização) e preservação de interesses econômicos (lucro será mantido, tanto faz o que aconteça), ele vai pagar um valor injusto pelo ingresso – o grande prêmio recebido por ser correto.

Minha dúvida se forma quanto à manutenção desse status. É muito errado dedicar a quem é correto as opções de a) pagar caríssimo ou b)deixar de fazer programas culturais. Isso é insustentável.

Certamente que ao fazer uma carteira falsa, o ser ético assume o risco de ostentar uma condenação criminal, o que é improvável, mas não impossível. No entanto, talvez não deveríamos dar tanto foco à violação das normas jurídicas nesse caso específico.

Nunca haverá uma lei impondo que devemos beber água uma vez ao ano, porque é nítida a impossibilidade de desatender a esse comando. A lei existe para regular matéria em que há controvérsia, e ela só virá a ser aplicada caso haja violação do conteúdo prescrito. A razão de ser da lei é a violação a ela cometida; o pleno e total respeito ao conteúdo nela recomendado a tornaria dispensável.

Dentro dessa ordem, vale destacar que no mecanismo da confecção de leis, a quase totalidade do fim de certas proibições e do surgimento de certas possibilidades nasce da realidade concreta, para só depois ser absorvida pelo direito. União estável homoafetiva, a questão das drogas, etc. O direito lê as mudanças sociais e positiva novas normas para corresponder aos novos anseios, e não o contrário.

A compreensão do surgimento das novas leis é importante, pois no momento anterior à absorção pelo sistema, tais comportamentos (uso de drogas, união estável homoafetiva, por exemplo) eram marginalizados, ou até mesmo ilegais. Não haveria mudança na legislação se não existissem pessoas dispostas a arcar com o rótulo de “fora-da-lei”, criando assim a demanda responsável pela transformação.

O modelo da meia-entrada está fadado ao insucesso e deve ser revisto. A moralização de agora em diante resultaria num número maior de pessoas pagando o valor integral do ingresso. Não se cogita que as empresas, com a procura estabilizada aos seus produtos, irão diminuir o valor do ingresso para lucrar menos. Em tese poderíamos falar que a concorrência levaria a uma redução, mas em tempos de grandes conglomerados que dominam a maioria dos setores da economia, um cartel pela manutenção do patamar dos preços é a saída mais provável.

Certamente há ética em manter-se resistente a tal panorama e não falsificar nenhum documento pra conseguir a meia-entrada; porém, o ponto não é esse.

Meu interesse é por aqueles que, em vista de tantos equívocos generalizados, da ausência de prejuízo direto a qualquer das partes (sociedade, empresa, Estado) e da presença do prejuízo direto ao próprio bolso, resolve ceder e fazer uma carteira falsa. É possível dizer que falta ética nesse comportamento? Afinal, é errado burlar um sistema fracassado?

 

Não odeie o jogador, odeie o jogo

Estive na última segunda-feira na manifestação, que foi da Candelária à Cinelândia e só peguei a parte boa, foi emocionante. Fomos embora (eu, minha esposa e mais um amigo) exatos quinze minutos antes da porradaria em frente à Alerj. Vi o confronto dos manifestantes com a polícia pela TV dos bares em que passava a caminho de casa e depois, naturalmente, colhi vários relatos de amigos e pelo facebook. Pouco depois recebi o vídeo onde mostrava a cena dos manifestantes partindo pra cima dos policiais, encurralando-os próximo ao Paço Imperial, o que resultou em um dos PMs ser espancado até ficar inconsciente. Confesso que fiquei bastante chocado com o que vi e resolvi escrever algumas linhas em meu facebook sobre o vídeo, onde clamava por um pouco mais de reflexão sobre esse confronto com policiais, e que a violência observada era resultado do despreparo dos policiais aliado ao medo.

Participei também da manifestação de quinta-feira passada no Rio e vivi cenas de terror, vi muita gente assustada, muita correria e respirei o fedido e ardido gás lacrimogênio. Até a porta da minha casa virou zona de conflito. Incrível como nos poucos segundos em que vi os PMs em formação de guerra aterrorizando as ruas, tudo o que eu havia dito três dias antes sumiu e me juntei ao coro “filhos da puta, covardes, vão tomar no cu!”. O que os PMs fizeram naquele dia foi realmente ridículo, quem estava lá viu que a ação foi direcionada para apenas uma coisa: instaurar o terror. Não houve qualquer tentativa de conter vandalismo nem prender saqueadores, a intenção era uma só: esvaziar as ruas e aterrorizar a todos sem distinção.

Tendo passado por esses dois extremos de avaliação da ação da polícia, e vivido de perto o aspecto mais direto e brutal deles, volto aqui mais uma vez no sentido de propor uma reflexão. Por que é isso que pessoas inteligentes fazem, em momentos mais calmos e seguros; refletem e não apenas gritam e repetem o grito dos outros, especialmente quando esse grito é de ódio – nada melhor que gritar “filho da puta” em coro com milhares, não é? Você quer ser inteligente, e tentar transformar as coisas onde elas precisam ser transformadas, ou quer apenas gritar e se juntar a qualquer coro só pela manifestação? A escolha é sua.

Não estou aqui, repito (como já falei no texto sobre o video supra-citado) defendendo a ação dos policiais, mesmo que muitos insistam em interpretar dessa forma. Sou “amiguinho dos policias”. Não é nada disso. Sou tão contra a truculência e brutalidade deles como qualquer um – sou contra qualquer tipo de violência. Sofri de perto, não vi pela TV. Talvez se eu tivesse tomado um tiro de borracha ou spray de pimenta na cara eu estivesse menos apto à reflexão? Talvez, mas creio que não. Uma pessoas reflexiva e consciente não deixa de o ser ao presenciar e vivenciar violência; vejam Mandela e Ghandi, imagina se eles tivessem ficado putinhos com a opressão e a polícia e passado a simplesmente xingar e se juntar ao coro. Estou pedindo a cada um que seja um Ghandi? Evidente que não, mas ele nos ensinou algo e cabe a nós aprender ou ignorar e repetir a história.

A brutalidade policial é uma consequência e não causa. A corrupção e a desordem idem. Quem acha que tirando o político A e trocando pelo B vai resolver alguma coisa não faz a menor idéia do que é corrupção. Quem acha que a violência policial tem alguma a coisa a ver com “são simplesmente uns filhos da puta” precisa estudar um pouco mais, se livrar do que aprenderam na escola e entender a que tipo de doutrinação e lavagem cerebral eles são submetidos. E quem acha que resposta violenta da policia é uma exclusividade do Brasil, sugiro que dê uma pesquisada antes de sair por aí falando que a “nossa polícia isso, nossa polícia aquilo”. Vejam os vídeos da revolta no Egito e na Siria, vocês vão ver o que é brutalidade de verdade. O que rolou aqui foi pinto. Procurem saber sobre (tá cheio de video no Youtube) a ação da polícia na tão civilizada Londres nos protestos de 2011. Querem trocar a nossa polícia pela deles? Vai resolver alguma coisa?

Já ouvi por aí, no meio dos relatos e análises dos confrotos, que temos a polícia mais violenta do mundo. Eu não vou nem reafirmar isso nem contestar, pois é irrelevante. Independente se temos ou não a mais violenta, isso não quer dizer que são violentos por que são inerentemente filhos da puta, já nascem prontos para dar porrada nos outros e intimidar inocentes. Policiais cumprem ordens e agem conforme foram treinados, e se descambar pra violência isso é parte do condicionamento a que foram submetidos, tanto em seu treinamento como da sociedade em que vivem. Eles não foram importados de outro planeta para reprimir seres humanos protestando, eles são humanos também, e os protestos por melhorias incluem melhorias para eles – para todos! Assim como políticos ladrões não são ETs, são pessoas como nós; nossos amigos, esposas, tios, primos, irmãs. Interessante que se rolar uma conversa de bar, especialmente numa situação como essa que estamos vivendo e citarem roubalheira na política ou violência policial e tiver alguma esposa ou irmão de político ou PM, não duvido que o discurso seja “realmente a maioria é escrota, mas meu marido/irmão não, ele é corretíssmo e sofre muito com isso tudo”. Ou então o contrário e ainda pior “foda-se, tem mais é que enfiar a porrada nesse monte de maconheiro mesmo”, “todo mundo rouba, vou roubar também, não sou otário”.

O poder estabelecido (governos, famílias, mega-corporações) mantém o controle através de basicamente duas estratégias: manipulação e medo. A manipulação usa como principal ferramenta a mídia de massa que fica mostrando vândalos quebrando coisas enquanto “esquece” (ops, desculpa aê) de mostrar a tropa de choque invadindo locais que nada tiveram a ver com o protesto; e o medo, bom o medo todo mundo que tava lá sabe exatamente como funciona. E para quem não estava, abundam vídeos e relatos. Hoje em dia só é ignorante quem quer.

A mesma doutrinação que nossa PM (e qualquer outra polícia no mundo) recebe é a usada pra convencer soldados a “defenderem seu país” do outro lado do mundo. As mesmas estratégias de manipulação e medo são usadas para justificar uma guerra, apenas de formas mais sutis. Sabe o tal do terrorismo? Pois é: manipulação e medo purinhos! Quem aqui nunca viu filmes de guerra, especialmente os que mostram os centros de treinamento, sugiro que o faça, e tente traçar os paralelos. Querem dica de apenas um? Ok, vejam “Nascido Para Matar” (Full Metal Jacket, no título original em inglês).

A polícia de um lugar vai ser tão violenta como é violento o local onde ela opera. Não adianta ficar comparando PM com a polícia de Fiji ou de Samoa, onde praticamente não existem homícidos e violência. O Rio por acaso é um lugar de paz, tranquilo? Acaso não temos aqui uma guerra em andamento com traficantes, milícias e vagabundos de todo tipo? Esperam uma polícia calma, que só reaje quando atacada e que não reprime ativamente, e muitas vezes com violência? Ou esperam que ela seja muito violenta com bandidos mas mudem completamente o tom quando lidam com multidões? Continuem sonhando. Vocês querem robôs policiais e não pessoas. Esperem sentados.

Tudo que estamos vivenciando é comum a todos os outros lugares no planeta em que tem ocorrido protestos contra governos opressores. Em nenhum lugar a polícia ficou quieta, parada apenas “contornando a situação”. Quando o bicho pega, partem pra porrada, sempre! A polícia é a ferramenta do Estado, e se o Estado está com medo, esse medo é traduzido em ordens violentas e severas para conter a população. Eles precisam manter o medo sempre do lado de cá, onde ele funciona para nos manter dóceis e manipulados pagadores de impostos. E não se iludam, quanto maior o medo (deles) maior vai ser a violência.

Portanto, pra finalizar, por que já ficou muito grande, reitero que de forma alguma apoio ação violenta nenhuma e nem estou justificando a escrotice de policiais covardes. Mas da mesma forma que para combater a corrupção e a violência, precisamos estudar suas causas e não seguir burramente declarando guerra às consequências, isso vale também para entender e refletir sobre a ação dos governantes e policias no meio disso tudo. Fique a vontade para se revoltar e xingar de filho da puta no meio da manifestação caso a reação seja descabida e truculenta – por que, muito provavelmente, vai ser. Estarei lá ao seu lado gritando junto. Mas quando você estiver calmo em sua casa e puder refletir, pense no que você pode fazer para melhorar a educação, dar saúde e segurança para todos – e tente imaginar se em um mundo com todas essas coisas garantidas, teríamos policias idiotas como esses que vemos nas ruas.

O (meu) medo da morte

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O medo é a característica mental primitiva (se é que podemos pegar emprestado o conceito de mente para espécies diferentes da nossa) que mais inexoravelmente nos une a todas as outras formas de vida pensantes. Mas não vale ser puro instinto, pois aí não é medo, é outra coisa ainda mais primitiva. Medo é aquilo que te protege do perigo te impedindo de fazer uma coisa perigosa e potencialmente fatal, uma segunda (e talvez última) vez. O medo tem essa função, de proteger do perigo conhecido.

É fácil ver o medo em animais próximos a nós na escala evolutiva. Você levanta a mão para um cachorro, ele baixa as orelhas e fecha os olhos aguardando a porrada. Isso é a mais pura expressão do medo. Ele sabe o que lhe aguarda e não vai ser bom. Medo requer um sistema nervoso avançado o suficiente para registrar o perigo diretamente experimentado ou não: memorizar uma experiência ruim (sua ou apenas observada), associá-la a risco juntamente com os sinais indicadores, para que possam ser reconhecidos no futuro. Um barulho em um arbusto na savana africana produziu medo em um ser humano primitivo há 200 mil anos atrás e continua produzindo o mesmo medo, igualzinho(?), até hoje. A resposta racional pode diferir dependendo de se você está sozinho, está armado, é noite ou dia, etc. Mas a sensação de medo que se manifesta nas estruturas mais básicas do seu cérebro, em uma fração de segundo, por causa do barulho, podemos arriscar a dizer que é praticamente idêntica.

Além disso, nós, humanos, homo sapiens sapiens, ao sermos agraciados com espetaculares cérebros, e a mais espetaculares ainda realizações desses cérebros – a auto-consciência e o raciocínio – ganhamos de brinde o medo da morte, a certeza da nossa finitude e fim das nossas experiências. E esse medo, diferentemente do medo do barulho no arbusto, muda muito de pessoa pra pessoa, de tempo pra tempo, de lugar pra lugar, pois não é algo que está presente nas estruturas primitivas do nosso cérebro, comuns a répteis, peixes e aves – mas sim  na estrutura que nos separa de todos os demais seres dotados de sistema nervoso, o córtex cerebral, o lugar onde toda a bagunça começa. Onde processamos informações, emoções, associações, alegria, sofrimento, e naturalmente, o medo de coisas abstratas e inexplicáveis.

Que medo pode ser simultaneamente tão abstrato e tão concreto como o da morte? Abstrato pois é algo que ninguém sabe como é, ninguém morreu e voltou para nos contar como é. Concreto pois está a nosso redor diariamente, em pessoas desconhecidas e em pessoas próximas. A morte se apresenta de diversas formas e em poucas tão gráficas como no decaimento do corpo humano e em catástrofes. Mas é tão abstrato que passamos boa parte da nossa vida ignorando a morte com um risco real, coisa que outros animais fazem instintivamente desde que nascem. Crianças humanas não temem a morte. Elas não tem como entender algo que não tem como ser explicado, é simples assim. Dessa forma, não temem. Mas a medida que percebem que a morte é responsável por levar embora, de uma vez por todas, pessoas que ela ama, um dia entram em contato com o pior (ou melhor?) aspecto da morte: a inexorabilidade. E a partir desse momento a morte passa a ser algo indesejado e temido. É necessário adicionar um pouco de razão e sensatez ao caldo da auto-consciência para que a própria finitude faça sentido e provoque sensações de medo.

Nem todos vão sentir medo da morte da mesma forma. Fanáticos e lunáticos podem desdenhá-la e até desejá-la; certas crenças podem ser tão transformadoras a ponto de converter o conceito morte em algo liberador e prazeroso. Mas de uma forma geral, o medo da morte é ubíquo. Exceções e bizarrices a parte, ninguém quer morrer, e ninguém é indiferente à própria morte. A religião e demais formas de pensar podem oferecer atenuantes ao propor a existência de algo após a morte – o fim não seria bem um fim. Não pretendo entrar em polêmica aqui sobre isso, mas não é engraçado o fato de mesmo as pessoas acreditando nisso, tentarem evitar a morte a qualquer preço e sofrerem tanto com a morte de pessoas queridas? O fato é que o medo está lá, mas está fantasiado de conforto.

Não estaríamos onde estamos hoje se não fosse por esse medo. Quase tudo que alcançamos em termos de tecnologia e medicina é no sentido de melhorar nossas vidas e ao mesmo tempo adiar ao máximo possível a morte, para que essas melhorias possam ser aproveitadas por cada vez mais tempo e mais pessoas. De que vale uma vida melhor, se esta não pode ser vivida?

Eu não temo a morte. Não o evento em si – seu aspecto concreto? – não o momento em que passarei de vivo pra morto. Mesmo considerando o fato de que a forma como vou morrer é um completo mistério para mim, isso não me causa ansiedade. Morrer, seja da forma que for, deve ser, para mim, exatamente como cair no sono, algo que você não registra, pois seu centro de processamento de consciência entra em modo shutdown. A diferença é que você nunca vai acordar deste derradeiro sono sem sonhos e sequer saber que morreu. O real sofrimento de perda e finitude, vai ser dos outros, que ficaram vivos. Imaginem que amanhã uma supernova lança sobre a nossa galáxia uma gigantesca explosão de raios gama que aniquilasse a Terra em questão de segundos? Haveria espaço para algum tipo de sofrimento a respeito da morte simultânea de quase 7 bilhões de pessoas? Sequer saberíamos que um dia vivemos.

Mas ao mesmo tempo eu temo a morte, pelo que ela traz. O aspecto abstrato? Eu temo sua chegada pois ela significa o fim da minha experiência nesse Universo. Não acordarei mais uma manhã ao lado da minha esposa. Penso nas pessoas que deixarei de conhecer, nas novas músicas que deixarei de ouvir, novas comidas, filmes, lugares que deixarei de ir, coisas que deixarei de aprender. Isso me dá medo – o fim da experiência. Poderiam dizer que sou viciado em experiências. A vida é apenas o espaço-tempo onde elas ocorrem. Apesar de racionalmente o conceito que nada dura para sempre ser perfeitamente lógico, quando esse algo é a sua própria perspectiva, e a lógica se inverte, a razão deixa de ser razoável. Voltarei a não-existência prévia a meu nascimento. Não era ruim, mas também não era bom. Não era nada. Nada dá medo. Por mais estranho que isso possa parecer.

E você? Como é seu medo da morte?