Um diálogo sobre aborto

– … e aí ela teve que fazer um aborto, coitada.
– Sou contra.
– Contra aborto?
– Sim. Pra mim é homicídio.
– Peralá, vamos debater isso, sem dogmas, ok?
– Ok, mas você sabe que eu tive formação religiosa.
– Eu também, estudamos na mesma escola.
– Sim, mas você nunca acreditou, nunca deu bola pra educação religiosa.
– Verdade. Mas vamos lá, por que você acha que é homicídio?
– Não, antes responde você, você é contra ou a favor o aborto?
– Depende, é complicado.
– Como assim, depende? Ou é contra ou é a favor.
– Bom, é exatamente aí que essa discussão complica, e torna o debate muito pobre.
– Como assim?
– Você disse que é homicídio, e quando eu falei que depende, você ficou defensivo, então eu entendo que sua posição é categórica, não permite exceções e variações com base nas circunstâncias.
– Que circunstâncias?
– Por exemplo, se aquela criança for fruto de estupro, ou pior ainda, estupro incestuoso, não seria o caso para um aborto?
– Não. Toda vida é sagrada, não cabe a nós humanos julgar se podemos ou não eliminar uma. Onde vamos parar?
– Bom, aí que complica. Você estaria de acordo com o aborto com uma semana de gestação?
– Não.
– Mas com uma semana não tem nem feto ainda, é só um emaranhado de células, sem consciência, sem coração.
– Mas já tem alma.
– Não, não, não começa. Não inventa. Inventar coisas só piora o debate. Pra debater qualquer coisa, a gente precisa falar a mesma língua. Alma só existe na sua visão de mundo. Não na minha e nem na de várias outras religiões ou falta delas. Sem dogmas, ok?
– Ok.
– Então, tirando a alma, concorda que o que chamamos de ser humano ainda não começou ali?
– Não concordo. Já é um ser humano, só não plenamente desenvolvido. Se a gravidez não for interrompida, nascerá uma criança.
– Potencialmente.
– Como assim?
– Ué, não é toda gravidez que vai a termo. Inclusive é comum mulheres perderem o primeiro filho.
– Mas perder o filho assim é um processo natural. Não era pra ser.
– E um produto de estupro era pra ser? Imagina a vida dessa criança, que vai nascer sem pai, ou pior, ser obrigada a viver com um pai que é um estuprador, um doente. Muitas culturas obrigam a mulher estuprada a se casar com o estuprador.
– Você está desviando do assunto.
– Não estou não. Tudo isso faz parte do assunto “aborto”. Por isso é que é complicado e precisa ser debatido. Eu, por exemplo, não sou a favor do aborto. Eu não desejo que as mulheres façam o aborto sempre que quiserem. Mas sou a favor do direito de escolha, especialmente em casos como estupro ou se a mãe vive em situação de risco e não se acha capaz de criar uma criança. Imagina ter um filho no meio de uma guerra civil.
– Não, aborto é assassinato. Você não justifica um assassinato com as circunstâncias da vida do assassinado, não é?
– Eu não sou a favor da pena de morte, se é isso que você acha. Acho uma solução brutal e simplista.
– Pois é, aborto também. É brutal.
– Como é brutal? Um emaranhado de células não tem a capacidade de sentir dor e muito menos ter consciência. Até 3 meses de gestação ainda não existe sistema nervoso. Um feto é o equivalente mental de uma planta.
– Você tem certeza disso?
– Disso o quê?
– Que não sente dor.
– Bastante certeza. A neurociência é muito avançada nesse ponto.
– E a consciência, você tem certeza?
– Certeza não tenho, mas tenho certeza que um cão tem muito mais consciência que um embrião, e não temos problema nenhum em colocá-los pra dormir quando nos apetece.
– Como você tem certeza?
– Certeza absoluta não temos de nada, não é assim que a ciência funciona. Existe um corpo de conhecimento, e esse corpo todo concorda que todos os mamíferos tem consciência – e que onde não há um sistema nervoso, não tem como haver uma. Não sabemos direito como a consciência funciona, mas sabemos que ela não existe sem um cérebro avançado o suficiente.
– Pois é, então vocês não sabem.
– E daí que não sabemos? Existem outras questões além dessa, que tornam o debate necessário. Por exemplo, existem dados e fatos, irrefutáveis, que abortos acontecem não importa se são legais ou não – e que mulheres pobres sofrem com isso, pois são obrigadas a se submeter a procedimentos em clínicas de fundo de quintal, muitas vezes há complicações e até morte. Mulheres ricas abortam a vontade, sem problemas.
– Olha, eu estou a par dessas questões, mas nada disso pode ser maior que uma nova vida, inocente, que é sagrada. Não quero que mulheres sofram e morram, mas também não posso concordar que matar bebês não nascidos é a solução.
– Mas o conceito de vida de vocês é exagerado, vai desde a concepção. A ciência discorda, e muitos países se baseiam nessa concepção pra fazer suas leis pró-aborto. Ninguém quer sair por aí eliminando fetos, mas o aborto é um problema sério, é uma opção que a mulher tem que ter. As vezes ela tem uma gravidez de risco, ou o feto é inviável. É preciso debater essas coisas e chegar num meio termo melhor pra toda a sociedade.
– Não tem meio termo.
– Então não tem debate, né?
– Não, desculpa.
– Tá, deixa pra lá. Vamos pedir a conta.
– Saideira?
– Saideira.

Moda – o ladro negro das tendências

kim-kardashian-champagne-glass-butt-paper-magazineQuando você pensa na palavra “tendência”, o que lhe vem a cabeça, quase de imediato? Deixa eu tentar adivinhar: moda. Acertei? Acho que sim.

Essa palavra, que cada vez mais faz parte do léxico que até pouco tempo era apenas reservada aos estratos mais altos da sociedade, agora está, definitivamente, na “boca do povo” – e isso não é acidental.
Eu estava voltando de viagem, e ainda na rodovia, na entrada da minha cidade, passei por algo que me parecia como atacado de moda (onde provavelmente a maioria das lojas que atendem aos estratos mais baixos repõe seus estoques). Um grande cartaz dizia “Tendências? Aqui tem”.

Fiquei pensando com meus botões (apesar de que no momento, tenho certeza estar de camiseta), como é que pode, que pessoas que vivem com tão pouco, que precisam de tanto, possam se preocupar com o que quer que seja a tendência da moda no momento?

Alguém poderia pensar que estou agindo com enorme preconceito de classe, como se vestir-se bem e se “sentir na moda” fosse exclusividade dos mais ricos. Preconceito de classe nenhum, mas em relação a exclusividade, antes fosse. O dano seria infinitamente menor.

Se você ainda não assistiu ao documentário The True Cost, recomendo que o faça. Eu sempre tive enormes reservas com a indústria da moda, tanto pelo seu impacto negativo no inconsciente coletivo, criando padrões de beleza irreais, como, mais recentemente, por estar cada vez mais mirando mais longe, atingindo a todos, cada vez mais jovens, cada vez mais pobres. E esse documentário só serviu pra cimentar meu profundo desprezo por essa indústria por mais um motivo: o impacto negativo no sustentabilidade do planeta e no mercado global.

Uma coisa que o filme me fez parar pra pensar foi no fato de que uma coisa que mudou bastante recentemente no mundo da moda é que não temos mais os famosos desfiles de coleção, baseado em estações. Eram mega-eventos, nas capitais da moda, Milão, Paris e Nova York. Não existe mais isso por que as tais coleções simplesmente não duram mais uma estação inteira. Temos agora desfiles o ano todo e novas coleções (e “tendências”) a cada duas semanas, ou menos. E isso coloca uma pressão enorme em toda a indústria, do estilista aos funcionários extremamente mal pagos que irão fabricar as roupas – pois num mercado globalizado, o custo é o que mais importa, e se um país asiático emergente consegue fabricar as mesmas roupas e se adaptar mais rapidamente às mudanças de coleção por alguns centavos a menos por peça, por que não mudar toda a produção para lá? Uma competição nesse nível, leva a condições de trabalho inaceitáveis para a grande maioria do “mundo desenvolvido”. Não é nenhuma surpresa que 90% da “moda” do mundo seja fabricada em países pobres como Vietnam, Bangladesh e Taiwan.

E o mercado das tais “tendências” age rápido para fabricar esses novos padrões, o tempo todo. Afinal, o que são “tendências”, na moda? Basicamente, damos o poder a algumas pessoas, “formadoras de opinião”, ou simplesmente, “bonitas e estilosas” – de nos dizer como devemos nos vestir e nos comportar. Vou repetir para ficar mais claro: nós é que lhes damos esse poder. Se você já ouviu o nome Kardashian e sabe de quem se trata, isso se deve a um único motivo: a capacidade que elas tem de criar e vender tendências. E fazem isso de forma tão esperta, que faz parecer que aquilo tudo é natural, que são apenas pessoas ricas e bonitas vivendo suas vidas “com estilo” e sendo filmadas e fotografadas o tempo todo.

E agora, as tais “tendências”, atingem a quase todas as classes sociais, e miram também cada vez mais jovens, crianças, o que coloca ainda mais pressão no sistema. O monstro da obsolescência planejada pegou uma carona em um dos seus mais potentes catalizadores. Pensem na quantidade absurda de roupas que são simplesmente descartadas e jogadas no lixo por conta dessa obsessão em “estar na moda” e mudar o estilo conforme mandam os ícones da tendência, cada vez mais rápido e com motivações mais fúteis?

Mas e o tamanho do problema? É grande, é enorme. Aproximadamente 40 milhões de pessoas estão empregadas hoje em dia no mercado de roupas, que atualmente é um dos principais motores para a desigualdade. Basta estar minimamente atento ao noticiário, quase sempre que se relata mais um escândalo de trabalho análogo ao escravo ou de condições de trabalho absurdas, é de roupas ou calçados – de algum lugar na América Latina ou Ásia (nunca em Londres, Paris ou Chicago).

Como eu falei lá logo no primeiro parágrafo, nada disso é acidental. Roupas “baratas”, moda “acessível”, “tendências, aqui tem”. A causa raiz disso tudo é conhecida de todos nós, o incansável estímulo ao consumo. Precisamos consumir cada vez mais, apenas para manter a roda do capitalismo girando. Não é possível sequer “estacionar” o nível de consumo pois isso levaria todo sistema a um colapso. E tudo isso tem um custo enorme, para o planeta e para a vida de milhões de pessoas, mas nada disso você vê nas lindas lojas, estilo Forever 21, que só vendem estilo com muita luz e perfume.

Por que o machismo é tão difícil de combater

A resposta curta e simples é: atinge homens também. A resposta “completa” virá ao longo do post. Não, não estou querendo com esse texto dar uma desculpa esfarrapada para a falha desse que vos escreve em combater esse mal. Apenas dar uma visão o “lado de cá” da história, pois há opressão também entre os opressores.

O machismo é prevalente por que ele é ao mesmo tempo increvelmente escancarado e violento – como no caso de estupros e abusos contra mulheres e LGBTS – e sutil e sorrateiro, quando se insinua e molda comportamentos e conceitos de homens (e mulheres!) em formação. Quando o menino faz manha, tanto a mãe como o pai dizem “menino não chora”, “deixa de ser fresco”. Quando o menino já está maiorzinho e não demonstra interesse em futebol ou esportes coletivos, ou tem medo de se machucar, os pais ficam frustrados – não está sendo o “homem padrão” que a sociedade espera.

Se dentro de casa é isso que a criança recebe, é isso que ela vai reproduzir quando iniciar sua socialização com amigos na escola e na rua. Como bem sabemos, não somos todos iguais, uns são mais feios, outros mais bonitos, uns maiores, outros menores. Tão logo isso fique claro (o que não é difícil, coisa de segundos em qualquer grupo), rapidamente, o Macho Alfa surge para deixar bem definidos os papéis. Aqui manda o maior, o mais bonito tem “direito” a tudo e todas. Os fracos “seguem” (i.e. obedecem) os fortes, os feios se limitam a ser zoados para sempre e engolir o choro. Se contentam com as sobras.

Se “menino não chora”, e ele apanha na escola e chora, ele então não é menino? É o que? Se ele não gosta de futebol, como pai e tios, será que ele nunca vai ser homem como o pai? Vai ser o que, então? O que é essa coisa de ser homem? Complicado. Se certas coisas são esperadas de um menino para ser homem e muitas delas fogem do seu controle, como compensar? Sendo mais violento, talvez? Tratando mal as meninas? Ou simplesmente não fazer nada, se fechar em si, e sofrer calado a inadequação. Conversar com o pai, nem pensar!

Não é novidade pra ninguém que o machismo não está apenas em casa e nas escolas – e mesmo que se fosse só nesses dois, já seria problema o suficiente, dada a importância formativa dos mesmos. Está em todos os lugares, na mídia, nas empresas, na rua, na arte, etc. Ele é auto-reforçado a cada vez que aparece se não é imediatamente identificado pelo que é e combatido. Como assim?

Digamos que um homem, vamos chamar ele de Rui, acaba de entrar numa empresa nova, e está tentando se enturmar. O colocam num grupo de Whatsapp (vamos deixar o exemplo bem moderno), e logo começa a receber fotos e vídeos de putaria. Ele deveria falar algo? Que ele é contra esse tipo de coisa? Imagina o estigma. Vai ser taxado de viado logo de cara. “Ser taxado de viado”, inclusive, parece ser o cúmulo da desonra e já é em si uma forma insidiosa de como o machismo molda nossas percepções de gênero.

Pra facilitar o entrosamento Rui agradece e manda algumas outras putarias de volta. De repente um dia, ele recebe umas fotos que parecem ser de uma menina de 14 anos no máximo. Opa, aí já é demais! Fala algo? Não fala nada? O chefe dele foi quem mandou. E aí? Rui fica quieto. Em outro dia, recebe aquelas fotos que “vazaram” da estagiária do andar de cima, confirmando o perfil do facebook dela e tudo. Rui fica quieto, mas não repassa as fotos, não acha legal essas coisas.

Creio que a maioria acharia difícil imaginar que Rui figure entre grande maioria ou a minoria dos homens. Mas não é difícil imaginar que ele seja a média. E a média se cala. E quem cala, como mamãe ensinou, consente. E assim o machismo prospera. Ele prospera no silêncio.

Não repassar as fotos da estagiária é o mínimo. Se calar diante de demonstrações risíveis de machimo (como alguém sugerindo, por qualquer ângulo, que a culpa da estuprada é da roupa que ela usou) é aquém do mínimo, e infelizmente, muitos de nós nos encontramos nessa categoria – a categoria que não fala nada. E dessa forma, não há diálogo, o assunto sequer é discutido. É o elefante na sala. Precisamos falar sobre o elefante.

Me lembro de uma vez, eu estava em uma reunião com pessoas de diversas áreas da empresa, de todas as idades, homens e mulheres, umas 15 pessoas. Até que dado momento, um homem, na casa dos 60 anos, de linguajar meio xulo e comportamento um tanto ogro, começa a descrever um cenário do projeto em questão e solta a seguinte pérola “e quando a minha quenga acessar o sistema […]”. Ahn? Quenga? Todos ficaram calados. E uma mulher, que não consegui identificar, perguntou baixinho, pra si mesma (sem querer iniciar um enfrentamento): “quenga?” estupefata (como o resto de nós) por ele ter usado essa palavra. O constrangimento no ar era quase sólido. De repente ele continua “Ué, não pode falar quenga? Estou falando da minha mulher, é carinhoso, sempre a chamei assim.”. Outra pessoa quebra o gelo com outro assunto, a reunião continuou e o cara calou a boca por alguns minutos percebendo a idiotice, mas certamente saiu da reunião certo de estar cercado de moralistas afrescalhados. Imaginem a educação que esse cara dá pro filho. Imaginem essa mulher, que aceita ser chamada de “quenga”, o machismo que ela ajuda a propagar. E o silência que ficou naquela sala, o silêncio mais significativo que existe. É o silêncio que diz tudo.

“Seja Homem”

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“Seja Homem!”

Parece ser uma terrível escolha de palavras para ser usada especialmente no que chamamos de Semana da Mulher.
Porém, é uma expressão identificável imagino eu, para todo Homem. Que moleque nunca ouviu essa expressão alguma vez na vida? “Seja homem.” E muitos indivíduos, pelo resto da vida, nunca refletem à respeito dessas duas palavras colocadas juntas.

Mas antes de refletirmos sobre o que significa ser homem, é preciso admitir. Ao recebermos ao acaso, o “privilégio” de sermos portadores do sexo masculino, existem experiências as quais nunca passaremos e sentiremos na pele sequer por alguns minutos, o que acaba nos tornando incapazes de protagonizar o importante movimento feminista.
Ainda sim, mesmo sem ser mulher é possível observar a significância desse debate do ponto de vista racional e lógico, duas características também infelizmente sequestradas e estupidamente submetidas ao papel de gênero.

Então vamos lá.
Acredito fortemente que todos nós moleques já ouvimos alguma vez, “Seja homem“, frase que geralmente precede ou uma atrocidade, ou alguma estupidez. Antes de jogar uma pedra num gato, ou antes de “chegar junto” numa menina, ou antes de quebrar uma janela. Apesar de hoje sabermos que a maioria esmagadora de papeis atribuídos a gênero são construções culturais, existe algo a se perceber: O culto ao “homem macho” é profundamente ligada à cultura da dessensibilização. À preservação de características que são essencialmente, ANTI-CIVILIZATÓRIAS.

Convenhamos, não há nada de bom em “Ser homem”, ao menos não em seu significado atual.

“Ser homem” significa ser capaz de reprimir sua empatia e tornar-se insensível para conseguir cometer atitudes invasivas, não só contra mulheres, mas contra outros homens e contra outras formas de vida. Implica em desumanizar, em objetificar e diminuir sua identificação com os indivíduos que o cercam. Ou seja, tentar ser homem é profundamente ligado com tentar ser individualista e tentar ser egoísta.

As palavras são traiçoeiras, e como nos “Ministérios” em “1984” de Orwell, chegam a ter significados opostos. Quanto mais “homem”, quanto mais “macho” você é, maior é a sua capacidade para ser de fato, DESUMANO, ou seja “menos homem” – Homem no sentido de ser humano.

Mas não pára por aí.
Alguns dirão “Ah, mas ser homem significa ser corajoso, ter bravura”, ignorando o fato de ser um tipo de cultura da estupidez e da impulsividade. É possível até ver nas caricaturas disponibilizadas pela cultura pop.
O Herói geralmente é o cara forte, e o vilão é o cara que pensa, o “gênio do mal“, como se pensar, planejar e antecipar fosse algo ruim. Dois coelhos com uma tacada só: Temos uma cultura gritando que o legal, o bacana não só é ser insensívelmente apático, mas também estupidamente impulsivo. Parece até que é a formação proposital de peões suicidas. (Opa, descobrimos o plano!)

Nesse momento, torna-se de extrema importância reforçar que não estamos afirmando essas características como ligadas à gênero. Pelo menos não como natural, mas algo artificialmente dividido entre macho e fêmea.
Mas notem com bastante atenção:
Se formos escrever um manual de instruções de “Como ser um Homem Machão“, e um manual de “Como ser Desumano e Insensível“, ambos vão coincidentemente conter as mesmas instruções.

Se nesse século 21, afirmamos estar buscando sermos mais Civilizados, mais Humanos, não faz o menor sentido a preservação do culto ao Macho, porque seu conteúdo envolve a preservação e celebração das piores características que um ser Social poderia querer preservar. É uma contradição antagônica, não tem como ser mais Macho e mais Humano ao mesmo tempo.

Então, parece não ser possível nesse momento o homem poder lutar no lugar da mulher, não seria possível protagonizar.
Porém, o grande presente que poderia ser dado à elas, é simplesmente parar de querer “Ser homem”, pelo menos até que essas palavras se renovem e assumam uma significância totalmente diferente.

No contexto atual, “Ser homem” é ser insensível, apático, e individualista, e não ter essas caraterísticas como um ser social, que quer participar de um mundo mais Civilizado, é motivo de vergonha, e não de orgulho. Então, vamos mudar isso.

Não existe racismo no Brasil

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E também não existe machismo, desigualdade social, desigualdade de gênero, homofobia e corrupção. Opa, peralá. Esse último aí existe sim! Aquele outro partido lá só faz roubar. Olha pras notícias. Cada dia é uma novidade. Mas é tudo “aquele outro partido lá”. O meu não. O meu é corretíssimo.

São impressionantes as tortuosas trilhas cognitivas que as pessoas percorrem para justificar suas visões deturpadas do mundo. Como ter a cara-de-pau de dizer que o Brasil (e vamos combinar, o mundo) não é racista ou homofóbico? Como olhar para os dados, os números, os fatos – e dizer que, não, que o mundo é justo com negros e gays? Que eles tem exatamente as mesmas oportunidades e exatamente o mesmo tratamento que brancos e heteros?

Quando a maioria de nós olha para coisa de 150 anos no passado, ficamos bestas ao imaginar um mundo onde pessoas de todas as classes sociais – e intelectuais – não apenas aceitavam, mas defendiam a escravidão como algo totalmente aceitável e até necessária para uma sociedade civilizada. O choque ético causado pela questão da escravidão foi tão grande, que chegou a gerar uma guerra civil nos Estados Unidos, rachando o país no meio, com o Sul (e quando você pensa no “Sul”, tem que imaginar milhões de pessoas, incluindo intelectuais, políticos, jornalistas, sociólogos, etc) defendendo que a escravidão era necessária para seu meio de vida, sua cultura, e é óbvio, para sua estabilidade econômica. O Norte venceu, naturalmente, e a escravidão foi abolida em todo o território americano. Mas isso quer dizer que a imaturidade moral que permitiu a escravidão foi extinta? De forma alguma. Os EUA são extremamente racistas, assim como nós. E lá também existe esse discurso vagabundo de que racismo “não existe”, está apenas “na cabeça das pessoas”.

Para uma pessoa, hoje em dia, considerar que racismo é uma “coisa do passado” ou “frescura”, ela precisa de um exercício interessante de distorção lógica, onde fatos e números são simplesmente ignorados, para que uma relação causal maluca se confirme em sua cabeça. Não há mais uma quantidade expressiva (aliás, nem mesmo ínfima) de intelectuais que defendam segregação. Mas isso não importa. As pessoas conseguem achar validação de seus preconceitos e nanismo ético por aí. Com as redes sociais, isso ficou ainda mais fácil.

É bom lembrar que não estamos falando de questões polêmicas que ainda dividem opiniões no mundo como legalização das drogas e aborto. Essas coisas ainda não são regra, alguns poucos países avançaram enquanto na maior parte dos outros a realidade ainda é bastante dura. Mas no caso da igualdade racial, pelo menos perante a lei, já ultrapassamos a “polêmica”. Não há sequer uma país desenvolvido no planeta, onde ainda existam leis que dêem privilégios a uma raça (i.e. cor) sobre outra.

Já que citei os EUA, vamos continuar a usá-lo como parâmetro (afinal os números por aqui não são muito diferentes). Peguem um simples fato, um dado, que não é discutível: existem, em média, 4x mais presos negros nos EUA do que brancos. Essa fato, isolado, fora de contexto, é preenchido pela sua mente com o contexto que você quer dar a ele, com o mais confortável e acessível pra você. Sua mente vai lhe dar uma explicação causal sem que você saiba – automaticamente. Pra quem acha que o mundo não é racista, a explicação será algo como “negros são inferiores”, “negros tem mais chance de serem pobres”, “negros tem maiores chances de viver em áreas de risco e se tornarem criminosos”, etc, etc. Talvez a pessoa não diga “negros são inferiores” nos seus argumentos, mas no fundo, é o que causalidade automática que a mente dela lhe ofereceu significa. Afinal, não há outra explicação para ter 4x mais negros presos do que brancos na cadeia. Deve haver algo errado com os negros para eles serem presos com tanta frequência.

E nada me vem a cabeça para “explicar” essa causalidade oferecida pela mente do que pessoas que possuem uma sensação de merecimento (ou melhor, entitlement, sobre o qual escrevi um pouco aqui) bem acima da média. São pessoas que acham que o mundo lhes deve algo, são especiais. Fazem parte de um grupo seleto, escolhido, e os outros são… os outros. Não deve ser surpresa alguma que essas mesmas pessoas defendam a famigerada meritocracia – ou em bom português “é pobre por que quer”.

Racismo não existe. Nem machismo. Nem homofobia. Quem mandou nascer negro, mulher ou gay? O mundo é dos homens brancos e heteros. Assim é, assim é que deve ser. Pare de reclamar e vá trabalhar!