A moralística do atraso

Pois bem, finalmente decidi escrever sobre esse assunto da maneira mais imparcial que consigo, afinal um mimimi sobre o tema eu já tenho. Não sei por que só as 37 anos de idade que eu cheguei a essa “conclusão”, mas o fato é que consegui identificar um abismo de entendimento entre as duas partes (os atrasados e os pontuais), especificamente quando o tema é investigado sobre uma ótica moralista. Nenhuma parte entende a outra e a vitimização é constante, o que não facilita o debate e não nos leva a evolução alguma.

Por mais que tente ser o mais imparcial possível, quando tratamos de aspectos morais é praticamente impossível ser um observador suficientemente distante e inerte; então se parecer que estou puxando a sardinha para o lado dos pontuais, bom, faz parte do desafio de dar uma de filósofo da moral utilizando como ferramenta uma mente altamente moralizada.

Antes de mais nada, acho que é interessante tentarmos olhar para o assunto de uma perspectiva totalmente objetiva, para que dessa forma possamos perceber uma coisa bem simples: horários existem para que as coisas funcionem da melhor maneira possível, e todos tiram proveito disso, atrasados e pontuais.

Imaginem um aeroporto: com sua enorme complexidade de processos, sistemas e fluxos de pessoas, funcionando como um organismo, non-stop. Se não houver, nesses processos e sistemas, uma preocupação com controle do tempo que para alguns mais relaxados poderia ser comparada a uma neurose, seria impossível manter os horários dos voos minimamente organizados. Se você levar em consideração que cada aeroporto está conectado à dezenas de outros ao redor do mundo, a complexidade desses sistemas e a preocupação com o horário necessária se torna ainda mais rígida. Mas mesmo assim, atrasos acontecem. Pode ser por causa de mau tempo, algum passageiro atrasou no embarque, ou simplesmente um pequena falha na enorme complexidade dos processos. E vamos combinar: ninguém gosta desses atrasos. Nem pontuais, nem atrasados. Se você atrasou pra sair de casa e pegar seu voo, e deu a “sorte” do voo atrasar em 1h, deu sorte, ótimo. Pontuais também gostam dessa sorte. Mas quando um voo atrasa 6h devido a uma sequencia de problemas que pode ter começado na noite anterior do outro lado do planeta, não é legal. Independente da causa (que raramente chegamos a conhecer), não é legal pra ninguém: nem pros funcionários, nem pros passageiros. O que me leva a uma simples conclusão que acredito que possa ser compartilhada por atrasados e pontuais: ninguém gosta de atraso. Ponto. Podemos concordar com isso? Ok, seguindo em frente.

Portanto, resumindo: de um ponto de vista puramente objetivo, podemos todos (atrasados e pontuais) concordar que atraso é ruim. Por indução lógica, a pontualidade (controles, eficiência de processos, sistemas a prova de falhas, punições para desvios, etc) é geralmente vista como boa e útil – para todos! O que coloquei em parênteses na pontualidade é importante ressaltar também, pois não se iludam, pontualidade não existe magicamente. Requer esforço, auto-avaliações e melhorias contínuas. Quase uma obsessão, da qual todos se beneficiam. Os trens da Europa não operam com precisão de minutos apenas por que os sistemas deles são otimizados, mas por que tudo funciona bem, e todas as pessoas envolvidas tem como o objetivo ser cada vez mais e mais pontuais e precisas. E nem sempre isso é agradável para os envolvidos. Não é exatamente divertido.

Mas (e aqui começa a parte polêmica) quando moralizamos o tema do atraso e da pontualidade, parece não haver um ponto em comum. Não existe mais o “para todos”. E não apenas na forma como a moralização do atraso é vista por cada um dos lados. O que ocorre na maioria dos casos é que um dos lados (os pontuais) ficam com toda a carga moral da questão, enquanto os atrasados tentam ver a questão sempre de forma objetiva, excluindo qualquer conotação ética. E isso é especialmente verdade quando o atraso sendo avaliado é um atraso social – ou seja, de um simples encontro entre pessoas ou grupos (um jantar, uma viagem, uma festa, uma mesa de bar, etc).

A cerca de um ano atrás eu fiz uma pergunta no Quora, indagando sobre o aspecto moral do atraso. Eu já sabia que seria uma pergunta que ia gerar reações diversas e algumas até ultra-defensivas, mas eu nunca imaginava que a polarização seria tanta. O que se pode perceber lá claramente é que os pontuais realmente acreditam que quem atrasa está errado, que não está dando o real valor ao tempo do outro, etc. E os atrasados, praticamente todos, evitaram completamente de avaliar seus comportamentos sob a ótica moral e falaram sobre responsabilidade, produtividade, etc. Não há ponto em comum. Como eu falei, os pontuais moralizam demais a questão, enquanto os atrasados moralizam de menos, quase nada.

O que falta para que seja possível conversar sobre isso objetivamente, sem mimimi, e sem cada um tentar ser a vítima é cada um ser mais honesto sobre a sua personalidade e a consequência de seus atos. Como não há tal coisa, cada lado acha que entende o outro, e por que ele é do jeito que é. Pontuais veem atrasados como pessoas enroladas e insensíveis. Atrasados veem pontuais como pessoas controladoras e chatas.

O fato é que todos sofrem. Pontualidade não é uma “virtude” legal de se ter. As desvantagens são enormes, especialmente se você deu o azar de nascer num lugar que dá pouco valor a isso (ex: Brasil). Está geralmente associada à ansiedade e pessimismo. Atrasados tendem a perceber o comportamento do pontual como facilitado pelos seus hábitos, por exemplo, de dormir e acordar cedo. Quando na verdade é o contrário: o fato de ser pontual é que o condiciona a ter seus comportamentos regrados. Pontuais, especialmente quando chateados com algum atraso, tendem a julgar o ocorrido de um ponto de vista primordialmente moral, “como pode a pessoa dar tão pouco valor ao meu tempo?”, e isso influencia seu julgamento da coisa como um todo, ignorando o fato que sua mente é tão completamente diferente da do atrasado (nesse aspecto específico) como comparar a visão de neoliberais e comunistas sobre a propriedade privada.

Pra piorar, o lado “prejudicado” da história quase sempre são os pontuais, logo eles serão quase sempre também os únicos a falar e reclamar disso. A única vez que li um texto realmente legal e bastante honesto (e engraçado) sobre um atrasado, e do que faz ele ser atrasado foi nesse blog. Se você for um atrasado e concordar com ele, comenta aí e vamos debater.

Mas existe algo além disso. E mais outros “algos” também que me fogem. O comportamento de grupo (herd mentality), a que somos todos sujeitos, de maneiras que nem percebemos, dificulta uma real aproximação maior entre os indivíduos de cada um dos grupos para que essas sutilezas venham à tona. Preferimos nos fazer de vítimas e culpar o outro, buscando validação dos nossos comportamentos no grupo a que pertencemos. Em cada sociedade a proporção entre os grupos é diferente, mas cada grupo é sempre grande o suficiente para ser possível buscar tal validação e conforto sobre seu posicionamento.

Para terminar, precisamos voltar um pouco ao aspecto objetivo da coisa. E já esclarecemos o fato de que atraso é ruim, certo? Então sob a ótica puramente objetiva da consequência das ações de cada um, o pontual, por mais que ele tenha lá suas questões internas e chatices, está “certo” na maioria das vezes quando o horário é a questão. Em sociedades atrasadas como a nossa, chegar atrasado é até esperado. Ninguém chega no exato horário combinado, e como ninguém quer ser o primeiro a chegar, colocam mais 30 minutos na mistura. Com isso, a cultura do atraso se fortalece e com ela a legitimação do atrasado – qualquer possibilidade de moralizar seu próprio comportamento vai pro ralo.

Precisamos equilibrar essa balança da carga moral do assunto “atraso”. É peso demais para alguns poucos pontuais carregarem.

Ignorantes, idiotas e babacas

capitalismo-e-fila

Antes de começar esse post, já aviso logo, vou ser um pouco babaca – ou talvez apenas idiota. Vocês decidem após a leitura. O fato é que pretendo aqui categorizar pessoas e isso requer algum grau de arrogância e prepotência, características predominantes na idiotice e na babaquice. Mas visto a carapuça sem maiores reservas, pois sei que pego emprestado essa posição com a licença poética que um blog me permite, e também por que eu acho que sou um cara legal (todo mundo acha né?), e isso vocês também podem decidir lendo outras coisas que escrevo aqui ou se me conhecem pessoalmente. Já aviso também, caso o único texto lido meu seja esse, e a licença poética não for ofertada de bom grado pelo leitor, é possível que a impressão fique: “esse Christian é um babaca”. Enfim, esse é o risco que vou correr. Nem Jesus agradou a todos.

Pois bem, vamos ao que interessa. Me proponho aqui a fazer algo que provavelmente que nunca vi escrito de forma sistemática. Ignorante, idiota e babaca são termos usados por todos em alguns (vários) momentos da vida quando queremos xingar alguém ou simplesmente classificar pessoas devido às suas ações e comportamentos. Nada de errado até aqui. Somos humanos, humanos julgam, o tempo todo – com palavras, adjetivos, fazem parte da linguagem e de nosso cotidiano.

Mas quero tentar entender melhor e tentar classificar direito as coisas. Pra quê? Por que sim. (viu? fui idiota).

Claro que vou me focar aqui na civilidade e respeito entre as pessoas pra tentar classificar esses três tipos de pessoas, ou melhor de atitudes, estados de espírito. E não custa salientar que nada disso é genético e ninguém está preso a uma dessas definições do nascimento à morte. Todos nós estamos sujeitos a ignorância, idiotice e babaquice por nossas vidas. O problema está em ficar preso muito tempo numa delas, ou pior, “passar de fase”, de ignorante pra idiota, e de idiota pra babaca.

Os critérios que vou utilizar na classificação são: preocupação com o outro, atenção e intenção. São esses os três ingredientes, que misturados nas devidas proporções, fazem de uma pessoa um gente boa, um imbecil ou um filho da puta. Possivelmente tudo no mesmo dia. Mas vamos voltar aos nossos três termos escolhidos a dedo pra essa análise, pra não perder o rumo.

Imaginem que todas as ações reprováveis, do ponto de vista da civilidade básica, poderia ser dividida entre: ignorância, idiotice e babaquice. Apliquem inicialmente o critério da intenção. Nesse sentido, teríamos claramente uma progressão iniciando no ignorante e terminando no babaca, pois o que ignora, sequer sabe que está fazendo algo errado, enquanto o babaca não só sabe, como o faz por prazer ou sei lá por quais motivações de sua instabilidade emocional. Ou seja, o babaca é um idiota de propósito!

Agora visualizem um gringo, desavisado, turistando por aí. É perfeitamente possível que, por desconhecer algumas das regras de conduta e costumes locais, ele cometa alguma gafe, ou se porte de maneira indevida. A isso classificamos – inicialmente – como ignorância. Uma segunda incidência do mesmo erro já fica estranho, ou um sequência de diferentes gafes também. Invocamos então o outro critério: a atenção. Se o cara vacila o tempo todo, provavelmente é um idiota. Está mais preocupado em tirar foto de tudo que se mexe do que em tentar entender e respeitar as regras de convívio do local onde se encontra.

Os dois critérios, da atenção e da intenção, são misturados com o terceiro, a preocupação com o outro, para podermos determinar uma ação como sendo mera ignorância, idiotice ou babaquice. Nem sempre nos é possível quantificar esses critérios apenas pelas atitudes de pessoas a nossa volta, mas mesmo assim estamos sempre prontos a xingá-los com o termo que achamos mais apropriado. Em outras situações, resta pouca dúvida. Vamos a alguns exemplos:

– ficar parado à esquerda em escadas rolantes – um bom exemplo que torna difícil saber se houve ignorância ou idiotice. Somos levados sempre a pensar no pior caso, especialmente quando estamos com pressa.

– furar fila: no mínimo idiota, mais provavelmente babaca

– proferir a frase “Você sabe quem está falando?”: ultra-babaca

– correr ou andar de bike na contramão em ciclovia: idiota

– estacionar carro na ciclovia: idiota treinando pra ser babaca

– não ceder o lugar aos mais necessitados em transporte público: ignorância, idiotice ou babaquice pura (o próximo parágrafo ajudará a determinar)

– trafegar pelo acostamento: babaca

Uma boa forma de identificar se uma atitude indevida foi fruto de simples ignorância é observar a reação da pessoa ao ser notificada. Se ela se sentir envergonhada e se desculpar, muito provavelmente foi ignorância, mas pode também ser um lapso de pura idiotice, ou até babaquice, se a pessoa se recusar em aceitar o erro. E aqui entra o lance do critério da atenção, que mencionei no exemplo do turista. Ninguém é obrigado a nascer sabendo as regras de civilidade de um dado local. Você as aprende com seus pais e na marra, vivendo em sociedade e descobrindo o que pode e o que não pode, muitas vezes em situações embaraçosas as quais estaremos sempre sujeitos e que precisamos saber como lidar. Se você é educado para ter atenção (ser consciente) e observar a necessidade das pessoas a sua volta (dois critérios consolidados aqui), seus episódios de quebra da civilidade ficarão sempre no reino da ignorância, e estará sempre aberto a aprender com eles. Se a preocupação com o outro estiver em baixa (devido a alguma ideologia que segregue, ou ao impacto de alguma desigualdade, por exemplo) ou a atenção não tá nas melhores (e aqui as causas são muito mais diversas: de problemas de saúde física e mental, pura distração, euforia, tumulto, medo, etc) – dificilmente as regras não escritas da sociedade terão o impacto necessário para que aquela reação de “me desculpe” sincero ocorram, gerando um comportamento idiota.

Nos exemplos acima, eu classifiquei conforme a minha visão de mundo. O ciclista na contramão por exemplo, eu acho que é visto com bastante complacência (ao menos no RJ), pois nunca vi nenhum ser repreendido. Mas não consigo classificar como pura ignorância, pois isso ia requerer uma falta de atenção tamanha (todo mundo vindo na direção dele, e todas as indicações visuais invertidas), que nem uma criança seria desculpada – pra mim já beira a idiotice. Não que a pessoa seja, de fato, um idiota, só por isso. Claro que não. Mas naquele momento, está sendo um, por pura falta de atenção. Atenção essa que, quando muito em falta, pode o levar a atitudes muito mais reprováveis.

Todos podem ser ignorantes sob vários aspectos da civilidade (menos e menos a medida que amadurecem, é claro), e alguns episódios de idiotice são desculpáveis. Babaquice nunca é, nunca. Só pra deixar isso claro, tive que escrever esse testamento. =)

O casamento inglório do merecimento com o consumo

Em inglês existe uma palavra que não tem uma tradução muito boa em português, e que faria o entendimento do título (e talvez do texto) um pouco mais fácil. A palavra é entitlement, que poderia ser traduzida como a outra que escolhi: merecimento. Mas não é exatamente isso, pois merecimento carrega um sentido de mérito, e o mérito pode ser real ou percebido. Não vou entrar na discussão da famigerada meritocracia, no sentido neoliberal da coisa, pois isso já fiz em outro texto. O fato é que o mérito nem sempre é o que parece ser, logo o real merecimento pode muito bem ser uma fantasia. E o entitlement ilustra bem isso, pois a palavra vem, claramente, de “title” (título), ou seja denota um merecimento mais no sentido de direito adquirido, algo que você merece apenas por que merece, por que seu pai mereceu, seu avô antes dele, etc. Merece por quem você é, por quem seu pai é, pela posição que você ocupa, pelo seu saldo no banco, o carro que dirige, enfim – você já entendeu, mérito passa longe.

Tem uma palavra em português pra isso? Se tiver, manda aí nos comentários que eu mudo esse primeiro parágrafo e reescrevo o texto. Pra resumir bem o que eu desejo ilustrar como merecimento, a melhor frase que me vem à cabeça é “você sabe com quem está falando?”. E eu gostaria de explorar nesse texto o quanto esse conceito, que não é nada novo, está diretamente ligado a um dos maiores cânceres que assolam nosso planeta hoje, que em comparação, é bastante novo: o consumismo.

A coisa de uns 15 anos atrás, logo depois que saí da faculdade e consegui um emprego razoavelmente bem pago (muito bem pago para padrões brasileiros), eu escrevi um texto com um título bem idiota “O dinheiro, o poder e o foda-se”. Pois bem, naquela época eu já farejava algo de errado com essa coisa de ter mais dinheiro do que realmente é necessário para viver e as consequências desastrosas que isso poderia ter em nossas escolhas. Mas não soube muito bem elaborar meus pensamentos – sendo totalmente sincero, naquela época eu escrevia muito mal, espero ter melhorado.

O consumo não é algo novo. Existe desde que inventaram o dinheiro ou até antes disso. Mas nunca foi um real problema. O consumismo, ao contrário, é um fenômeno relativamente recente (pós-Revolução Industrial) pois é totalmente fabricado e meticulosamente planejado. De repente me caiu a ficha de onde a porcaria do merecimento cai como uma luva para se tornar um feedback positivo no processo e ajudar a colocar um ismo nefasto no consumo.

O consumismo pode ser resumido em uma única brilhante frase, do Tyler Durden, em Clube da Luta: “compramos coisas que não precisamos, com dinheiro que não temos, para impressionar pessoas das quais não gostamos”.

Acho que não preciso perder meu tempo aqui falando em como o consumismo é uma maluquice que não se sustenta, mas que mesmo assim, tem um apelo tão grande em todos nós, mesmo os que se consideram “livres” dele ou esclarecidos o suficiente para termos auto-controle. Tolinhos. Somos todos vítimas. Quem nunca se viu numa situação de compra por impulso, de compra por causa de marca, de status, de comprar mais do que precisa, de gastar muito mais do que o necessário, etc.

E é aí que os dois pontos (o consumismo e o entitlement) se encaixam, por que é exatamente isso o que eles, os artífices do mercado global, desejam. Associar trabalho, dinheiro, merecimento e consumo. Incutir nas mentes de todas as pessoas que essas coisas são tão naturalmente conectadas como prótons e elétrons. Que não tem nada de artificial e orquestrado na dinâmica do consumismo ao associar a compra de produtos com o quanto você trabalha, quanto dinheiro você tem, e o quanto você “merece” aquelas coisas.

Mas vamos descer um pouco da nave espacial e pousar um pouco em terra firme aqui: você não merece porra nenhuma! Só por que você trabalhou algumas horas a mais durante um mês e ganhou uma graninha extra você “merece” comprar aquela roupa ridiculamente cara que você sabe que não vale um décimo, ou comprar um telefone novo quando o atual tá perfeito e você sequer sabe o que vai fazer com o antigo? Não, você não merece. Suas escolhas tem impacto no planeta e em vidas que são exploradas, e o seu entitlment é usado como cortina de fumaça pra esconder esses “detalhes”. Você não merece porra nenhuma, repito, muito menos ainda você “tem o direito” (pra mudar um pouquinho) de parar o seu carro na rua só por que você tem dinheiro suficiente pra pagar a multa quinhentas vezes.

Mas tudo a nossa volta, todo o marketing, boa parte do pensamento ocidental (especialmente da direita, muito influenciado também por algumas religiões), centenas de livros e teorias econômicas vão te fazer acreditar que sim, que você merece – que você é especial no grande jogo do capitalismo. Você venceu! E aí você vai lá se acha “merecedor” dos espólios, das explorações, das inovações, seja lá quanto custem (para o planeta). E quanto mais você tem, mais gasta, mais precisa ganhar dinheiro, pra merecer ainda mais, e de repente o privilégio passa a ser não mais uma coisa distante, que você leu e viu em filmes – até o dia que você se transforma naquele babaca que diz “sabe com quem você tá falando”?

E todo mundo odeia aquele babaca. Acho que até ele se odeia um pouquinho, é muito insegurança numa pessoa pra ele chegar nesse nível de ter que apelar pro papai quando a coisa esquenta. Repetindo, essa coisa do entitlement e do privilégio são tão antigas quanto o acúmulo de sacos de grãos. Uns tem, outros não. Não é que “sempre foi assim” (não foi, estude um pouquinho) – mas a coisa é velha, mais velha que a própria história. Agora o consumismo não é tão antigo e estabelecido assim, e já se apropriou do conceito de merecimento pra se justificar, se reinventar e crescer – e pelo visto funciona bem, né?

Quem nunca justificou um surto consumista com “eu mereço”?

A problemática da liberdade de expressão

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Faz um tempão que não escrevo nada por aqui e esse me pareceu um assunto bom pra voltar. Afinal os recentes acontecimentos na França meio que tornaram obrigatório esse tema ser discutido. Mas apesar de eu achar positivo que se discuta, no fim das contas eu vejo que as pessoas não estão realmente afim de discutir, apenas de externar suas opiniões velhas sobre tudo, que sempre foram as mesmas, e nunca vão mudar. Quem era contra continua contra, quem é a favor continua a favor, e alguns indecisos, continuam indecisos. Então deixa eu tentar esclarecer pelo menos, o que penso a respeito, que no fundo, não é nada concreto, mas que aceita críticas e possíveis mudanças.

O problema desse assunto em específico – o da liberdade de expressão – é a variedade de opiniões possíveis que alguém pode ter, o que torna bastante difícil se chegar a um meio-termo aceitável por todos, ou ao menos pela maioria. É como se fosse um continuum com a censura total em um extremo e a liberdade irrestrita no outro. Todas as pessoas possuem posições que estão dentro desse continuum. Mas para diferentes situações, elas se moverão para cá e para lá no continuum, ou seja, tendo posições múltiplas sobre um único tema. Também é bastante raro você encontrar defensores dos extremos, afinal, qualquer extremo são difíceis de defender. Não é pra qualquer um.

No caso do Charlie Hebdo, duas coisas ficaram bastante claras: 1) existe uma quantidade considerável de liberdade de expressão na imprensa francesa; e 2) essa liberdade tem um preço, que mais cedo ou mais tarde, será cobrado. E aí que começa a complicar.

Durante milhares de anos as religiões dominantes do planeta impuseram regimes de censura fortíssimos. Não se podia sequer cogitar a ideia de adorar outro deus que você seria punido, as vezes com a vida. Não se podia questionar as autoridades, pois estes eram representantes de deus na Terra, e qualquer crítica era automaticamente uma blasfêmia – contra a qual você não tem a menor chance de apresentar uma defesa. De censura as religiões e autoridades entendem bem – até demais. De liberdade entendem muito pouco, infelizmente. Lá pra uns 500 anos antes de Cristo, Sócrates foi condenado por que suas ideias eram muito “progressitas”, ficava falando pros outros só acreditarem em coisas que pudessem ser comprovadas? Que papo de doido é esse? Galileu foi condenado pela Igreja Católica por sugerir que a Terra não era o centro do Universo. Não pode sair por aí falando essa coisas não, vai que o povo acredita?

Enfim, são casos anedóticos clássicos onde a repressão à liberdade de expressão só servia a um propósito: a manutenção do status quo. E essa tem sido a questão central desde que o assunto da liberdade de expressão começou, sei lá a quanto tempo atrás, provavelmente bastante. :)

A medida que nos tornamos mais livres para expor nossos pensamentos, que os governos se tornam mais seculares (ou seja, sem obrigação de atender a dogmas milenares), o próprio assunto da liberdade pode ser discutido mais, hmmm, livremente. Mas infelizmente isso não vale pra todos os lugares. O mundo ainda está repleto de de lugares regidos por religiões dominadoras que reprimem a liberdade de expressão dos indivíduos. É a forma de controle mais antiga do mundo. Volta e meia, essas correntes de pensamento – as posições mais próximas dos extremos no continuum – colidem , e dá no que deu.

Hoje, já entendemos que a imprensa, para cumprir um dos seus principais papéis, que é informar a população sobre os acontecimentos, baseados em fatos, e de também poder criticar as autoridades, mostrando aonde estão errando – só pode fazer isso, se tiver liberdade de expressão. E essa liberdade não pode ter limites. O limite mata a liberdade pela raiz.

Mas, e esse é um importante mas, precisamos entender que uma coisa é criticar ideias e outra é criticar pessoas. São liberdades diferentes, com “limites” diferentes. Uma parte de mim entende que, na teoria, liberdade com limites, não é liberdade, mas outra parte entende que, na prática, o que é sem limite, foge do controle – afinal, somos falhos, somos mal educados, somos imaturos. Dê uma arma na mão de uma criança, e ela vai matar a mãe, sem querer.

Por isso, minha posição no continuum é de que a liberdade para criticar ideias deve ser irrestrita. E deve incluir o ridículo. Não pode ser limitada a seriedade da crítica formal e “politicamente correta”. Deve incluir a ofensa, através do humor, da arte, de qualquer forma que quiserem. Mas não se pode ofender abertamente indivíduos ou grupo de indivíduos. Não se pode acusar sem provas. Ou melhor, poder pode, mas haverá consequências. Não se pode humilhar uma pessoa devido a uma característica, seja ela física, étnica ou cultural. Devemos zelar pelo bom senso e respeito entre as pessoas. Uai, mas isso não é limitar? É, com certeza. Por isso que eu falei que é complicado o assunto, as vezes é possível ter duas ou mais posições contraditórias – a não ser que você se posicione irrevogavelmente no extremo, o que penso não ser muito saudável.

Pra fechar, pegando mais uma vez o caso em questão, do Charlie Hebdo, o que estavam zombando era a ideia. Era a figura de Maomé, que representa tudo para os islâmicos e nada para os seculares. Para os islâmicos é uma ofensa gravíssima, mas eles não foram diretamente atacados. Só que na cabeça deles, foram, pois eles se identificam com sua fé de uma forma muito forte. Um ataque à seu credo é como uma ofensa direta a cada um deles. E não há papo que os convença do contrário.

E aí fica a pergunta, só por que há pessoas no mundo que nunca vão entender ou ser capazes de debater a liberdade de expressão (e que, de fato, são contra ela), isso quer dizer que devemos nivelar por baixo e nos censurar pra agradar aos mais “esquentadinhos”? Não na minha visão de mundo.

Toalhas de hotel e o aquecimento global

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De quanto em quanto tempo você lava as toalhas na sua casa? Uma vez por semana? Duas vezes por semana se você for bem neurótico com limpeza ou tiver muita gente em casa e a máquina de lavar tá sempre trabalhando? Já ouviu aquela pergunta pegadinha “se você está limpo quando sai do banho, para que precisa lavar a toalha”? Claro que é apenas uma pegadinha (do mesmo naipe de “se o Pato Donalds não usa calça, por que enrola uma toalha quando sai do banho?”), mas que faz até um certo sentido – obviamente é preciso lavar a toalha de tempos em tempos por que o ciclo de ficar molhando e secando toda hora vai acumulando a sujeira que está no ar e também pode gerar um cheiro ruim.

Mas e as toalhas de hotel? Você alguma vez na vida já parou pra pensar nisso? Talvez nunca tenha parado pra pensar antes de todo o hype do aquecimento global ou problemas com abastecimento de água, mas se você viajou recentemente deve ter visto pelo menos em algum hotel aqueles avisos que eles colocam, dizendo que estão “preocupados com o meio-ambiente”, querem “economizar água” e por isso só lavam as toalhas diariamente se o hóspede assim desejar, deixando as jogadas no chão ou na banheira, ou coisa assim. Se penduradas, deixam-as lá para serem usadas de novo, dessa forma economizando água. Que nobre gesto, não?

Pra mim nunca fez o menor sentido ter a necessidade de uma nova toalha a cada dia num quarto de hotel – não vou ser hipócrita, quando estou viajando, também gosto de um certo luxo, mas isso não é luxo, é idiotice purinha, do tipo que os antigos nobres da antiguidade deveriam exigir. Que puta frescura. Então, pra mim, esse tal aviso não teve qualquer efeito sobre meu comportamento. Eu saio do banho e penduro as toalhas, é automático, tanto em casa como no hotel. Eu tenho até uma certa dificuldade em imaginar que tipo de pessoa sai do banho e joga a toalha no chão pra que coloquem no dia seguinte uma novinha e passada.

Mas por que eu tô aqui falando de toalhas de hotel e o que isso tem a ver com o aquecimento global? Bom, primeiro por que essa tentativa dos hotéis claramente tem seu embasamento em uma tentativa de, ao mesmo tempo, economizar (mesmo que bem pouquinho) as quantidades absurdas de água que gastam todos os dias com lavanderia e ainda ganhar alguns pontos de “consciência verde” com os hóspedes. Mas mais importante que isso, por que revela em que ponto estamos, enquanto sociedade consumidora, nos posicionando frente aos problemas do planeta e no uso consciente da água. E esse posicionamento basicamente é: nenhum. Somos como crianças vendo um problema sério acontecer esperando pra ver o que nossos pais farão para resolvê-lo e quando virão nos buscar para nos levar embora e tomar um sorvete.

Dos hotéis que reparei que tem essa iniciativa, arrisco dizer que apenas metade realmente cumpre o que está no aviso. A maioria sequer treina as camareiras direito, e as toalhas são trocadas todos os dias. E mesmo nos que tem, qual a proporção das pessoas vocês acham que leem o aviso e mudam de comportamento? Especialmente estando em um hotel, que é sinônimo de terceirizar todos os problemas “de casa” já que estamos pagando. Quanto menos tiver que pensar e fazer, melhor.

Portanto, peço que passem a observar esse pequeno fenômeno nos próximos hotéis que visitarem. Enquanto a abordagem for essa de “se o hóspede puder deixar de ser ridiculamente fresco, quase um Luis XIV, o hotel se compromete a tentar economizar um pouquinho de água” – podem apostar que o problema do aquecimento global ainda é visto como algo que “um dia vai acontecer” e “eles [sei lá quem] vão resolver”. Quando a chapa estiver realmente quente, rapidinho os avisos vão mudar para “neste hotel lavamos as toalhas de três em três dias, se quiser uma nova diariamente a taxa será de X dinheiros” o que, ainda vai revelar o aspecto de consumo da coisa, pois certamente vai ter gente que vai pagar o extra – mas pelo menos, agora o problema não será mais um coisa que “está em dúvida”, mas uma realidade da qual ninguém pode mais escapar (mesmo que ainda alguns possam evitar, ou melhor, “adiar” pagando um pequeno extra).