Como a mídia fabrica o terrorismo

Mais um ataque terrorista (aparentemente, nada confirmado ainda) e já observamos a ridiculamente exagerada cobertura da imprensa. Isso me dá um nojo tão grande que resolvi falar um pouco a respeito. Claro que não é apenas com o terrorismo que vemos esse comportamento carniceiro da grande mídia: a espetacularização é a alma do negócio. Tudo que puder ser transformado em show, e se aquilo se traduzir em audiência, tá valendo. E já tem tempo que os artífices da grande mídia aprenderam: violência e tragédias, vendem como água no deserto. É simplesmente irresistível. Mas é mesmo?

Não, não é. Só é pra redes te televisão que se alimentam disso e que precisam disso para vender seus comerciais e novelas. E é fácil identificá-las, observando a rapidez a magnitude com que tratam um evento como esse. Nada é mais importante do que parar toda a programação e mostrar um atentado que matou 70 pessoas na França. A notícia é de fato importante, é chocante, mas precisa de tanto? Precisa parar tudo e falar só nesse único assunto o dia inteiro? Não precisa. E não deveria.

O terrorismo só é terrorismo por causa disso. Eles (os “terroristas”, termo criado obviamente, pela grande mídia) fazem o que fazem por que tem a certeza que vai ter peixe mordendo a isca. Vai ter rede de televisão mundo a fora que vão se comportar como abutres diante de uma carcaça. Vão transformar aquilo num show. Vão correr pra enviar repórteres ao local, colher depoimentos, repetir as mesmas imagens milhares de vezes, convidar especialistas, discutir o assunto. Tudo numa pressa e numa eficiência impressionantes. Tudo a serviço do espetáculo.

No útlimo grande espetáculo midiático da violência, tivemos o massacre na boate LGBT na Flórida. E dessa vez, já foi possível observar, mesmo que ainda muito inspiente, uma revolta da população em relação a cobertura dos fatos. Surgiu um grito nas redes sociais, que clamava algo como “parem de falar do assassino, parem de mostrar a foto dele, falem das vítimas, mostrem fotos deles, eles são maiores e mais importantes que esse único psicopata; o lugar dele é no esquecimento, não no holofote!” Achei fantástica essa reação, pois atinge em cheio o cerne da questão.

Sem palanque, as ações desses psicopatas fanáticos não ecoariam e não teriam o efeito desejado – que é de espalhar o medo e o terror. Claro que não é só a mídia a única responsável por moldar a cultura, e incitar o ódio entre os povos através de esteriótipos ridículos. O cinema faz isso, a música, a arte em geral. Cada um de nós é responsável por alimentar ou frear essas forças que dividem em vez de somar. Mas a mídia tem um lugar especial no inferno, pois ela está todo dia, com aquele ar sério, de imparcialidade, de profissionalismo, nos vendendo distorções ideológicas e alimentando o monstro do ódio. Tudo fantasiado de “jornalismo de qualidade”.

No dia 4 de julho (apenas 11 dias atrás), um ataque terrorista matou 250 pessoas no Iraque. Quatro vezes mais que o de ontem em Nice. E como foi a cobertura? Você lembra? Parou tudo? Ficou dias inteiros falando no assunto? Tiveram cortes na programação com imagens ao vivo do local? Hmmm, acho que não. Por que será? Ah, já sei: “O Iraque é um país islâmico, ou seja, terrorista, então foda-se quem morre por lá”. Por acaso nessas mil conversas com “especialistas” no assunto, é lembrado o fato de que a violência entre Sunitas e Shiitas mata muito mais gente do que a ISIS e a Al Qaeda matam Europeus? Aaahhh, acho que não também. Afinal, deixa esses dois grupos fanáticos se matarem a vontade. O terrorismo “deles” não vende jornal. Em janeiro de 2015, o grupo radical Boko Haram matou aproximadamente 2000 (duas mil!!) pessoas na Nigéria, numa série de massacres, um deles, em uma escola, matando várias crianças. Você deve ter ouvido falar, mas, “parou tudo”? Não parou. A julgar pelo espetáculo em volta de recentes shows-violência, esse do Boko Haram mereceria um mês de programa especial em todas as emissoras. Mas não. Afinal o Boko-Haram não é tão superstar assim como a ISIS, e vidas africanas não valem tanto como uma vida européia ou americana. Em novembro do mesmo ano, o ataque em Paris, que matou pouco menos de 200, parou o mundo e até reuniu Chefes de Estado em uma marcha simbólica.

Terrorismo não é o que a mídia te diz (insistentemente) que é. Terrorismo não é “pessoas com cara de árabe matando pessoas com descendência européia”. Mas isso é martelado ad infinitum pela mídia cada vez que um maluco (ou grupo de malucos) resolve matar um monte de gente (mas só se for na Europa ou EUA, claro). Está sendo martelado na cabeça de todos nesse exato momento, enquanto o mundo acorda chocado com mais uma ação de violência radical.

Ignorar o poder que a mídia tem de fabricar esteriótipos e modelos de ordem global obsoletos é demonstrar profundo desconhecimento da natureza da mente humana. É se colocar num patamar de racionalidade e objetividade utópico. Somos todos, absolutamente todos, sujeitos a sugestão da mídia, da publicidade e de ideologias. Consumimos, achando que estamos tomando decisões puramente racionais, quando na verdade agimos por impulso – alimentado por campanhas massivas de propaganda. Discutimos conceitos que acreditamos ser “nossos” e fonte de estudo, quando na verdade pegamos emprestado (e repetimos sem crítica) do mainstream cultural, da mídia, do cinema, da arte, da sociedade.

Desligue a TV (ou pelo menos, mude de canal; acredite, ainda há jornalismo sério). A exposição prolongada a esses espetáculos de violência te dessensibiliza para os fatos, e os conceitos furados e simplistas que querem vender (que não tem um objetivo, se não o de te tornar cada vez mais ávido por consumir esses espetáculos) se insinuam na sua mente da mesma forma que o desejo de comprar “aquele carro”.

Apatia Seletiva

assalto-1203658 Já fazem duas semanas que o sanguinolento vídeo de um bandido levando tiros de um policial em meio a um assalto polui as timelines do Facebook, e independente das justificativas, presenciamos inúmeras celebrações do que é apenas uma demonstração gratuita de violência. Sendo bem sincero, não tive coragem de ver. Poderia ser um assassino de crianças, ver um ser humano sofrendo na minha frente é de embrulhar o estômago, e sim, não me esqueço em nenhum momento que temos ali um ser humano.

Poderíamos passar horas discutindo motivos e justificativas para tal ato, porém quem vê-se como de Direita conhece os argumentos da Esquerda, e vice-versa.

Argumentos ideológicos acabam reduzindo a questão apenas a bondade, maldade ou neutralidade presentes na natureza humana, e esquecemos de olhar que a ciência também tem muito a dizer sobre essa questão.

Repetidas vezes foi demonstrado que vivemos em um universo de causa e consequência, onde cada indivíduo é formado por um gigantesco leque de experiências que formam o caráter e a personalidade de cada um. Ignorar esse tipo mecânica sem preocupar-se com as consequências gerais é adotar um raciocínio imediatista, e nem o mais ingênuo dos eugenistas acredita que se matarmos todas as pessoas más, não haverá mais reprodução e teremos a extinção do mal.

É muito conveniente nessa hora, esquecermos que se você tivesse nascido no lugar daquela pessoa, e vivido cada mesma experiência, você seria aquela pessoa, e teria cometido aquela mesma transgressão. Você não escolheu nascer nessa família, classe social, e condições favoráveis, e o único motivo que separa você de ter sido aquele cara, foi um punhado de SORTE. Não é você ali tomando tiro por simples SORTE, não por escolha ou por mérito.

“Se dou um prato de comida para um pobre, sou generoso.
Se pergunto porque aquela pessoa passa fome, sou um maldito comunista.”

Quando é tentado ser compreensivo em relação à origem da criminalidade, a resposta imediata é o famoso “Querendo passar a mão na cabeça de bandido? Gostou, leva pra casa.”
E não é essa a mensagem em geral, de esquerda. É a preocupação à longo prazo, com o que vem depois.
A pergunta a se fazer não é “Como se livrar desse bandido ?” mas sim “Como fazemos para que pessoas não se tornem mais bandidos ?”

Não está sendo dito que deveria haver alguma forma de contenção, ou que a esses indivíduos não estão errados. Mas muito mais do que construírmos muros mais altos, termos a segurança mais apertada, e armas melhores do que a dos bandidos, não queremos ficar nessa corrida armamentista infinita, a idéia é resolver o problema. Fechar os furos ao invés de colocar baldes.

A raíz do Mal

Reduzir a questão à “matar a maldade” é nada menos do que enganação Hollywoodiana, como se a origem do mal se concentrasse em torno de invidíduos, não de um ambiente.
É mais complicado e trabalhoso do que pensamos. Existem ambientes mais propícios à maldade, e situações de conflito e violência são previsíveis quando se há desigualdade e escassez. Existe literatura extensa demonstrando como pessoas tornam-se ruins, e que tipo de experiências, abusos e condições sociais geram pessoas violentas.

O brasileiro não gosta muito de ser comparado com o Norte-Americano, mas veja bem: Pra gente é super óbvio que os EUA é o alvo predileto de terroristas pelos anos de abusos que cometeram com a população do oriente médio, onde acabaram com milhares de familias por causa de petróleo. 90% das mortes do oriente médio foram de Civis, e quando eles querem retalhar de volta, ficamos tão felizes quanto quando vemos um Touro atacar o Toureiro. Porém quando a coisa acontece por aqui, “aí é diferente.” Convenientemente esquecemos das várias décadas de abusos contra a população pobre e geralmente negra, e quando eles resolvem retalhar, aí de repente vira uma questão de “maldade humana.” Não sei quanto à vocês, mas parece um posicionamento hipócrita.

Uma vez, discutindo com um colega de trabalho, entramos nessas questões sobre desigualdade social originando violência. Apesar de extremamente apática, a posição dele foi simples e direta, quando comecei a falar sobre buscar as causas de comportamentos aberrantes:
“Eu não quero saber! Não me importo! É gente demais no mundo pra se preocupar, quero resolver o MEU problema.”

Apesar de contundente, foi uma posição honesta e corajosa. Nunca mais perdi o tempo dele e nem o meu, e a questão nunca mais foi tocada.

E tamanha sinceridade não foi esquecida. Diante de tantos debates cansativos, acredito que deveria ser essa a posição das milhares de pessoas que estão aplaudindo violência. Parar de buscar justificativas para matança, parar de tentar desumanizar os criminosos e torná-los simples gado de sacrifício, parar de distorcer a lógica e tornar o problema sem solução.

Basta ter a coragem de vestir a camisa da Apatia Seletiva contra pessoas de fora do seu círculo, e colocar seu posicionamento de maneira clara e sincera:

“Eu não ligo se são pessoas ou não. Não ligo para causas, e não quero soluções a longo prazo. Quero resolver o problema da violência ao meu redor ainda em meu tempo de vida. Não quero saber das consequências à longo prazo, e não me importo com os sacrifícios de vidas alheias feitas, desde que minha vida seja segura e de qualidade.”

Se expressar-se com essa honestidade, as chances de não ser atormentado por nenhum “Esquerdopata” são bastante altas. E pelo menos de mim prometo, nunca mais irá ouvir.